segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Quando a psicoterapia não parece mas é.

Essa é uma carta pra você. Quer dizer, essa é uma carta para mim. Esse é um desabafo à guisa de supervisão semanal. Ou uma reflexão nada teórica sobre nós dois.

Teve dias que achei que fosse ser mais fácil do que parecia. Outros que achei que estava sendo mais difícil do que eu jamais imaginei. Teve dias nos quais achei que não iria mais suportar. Outros nos quais contei os minutos para chegar e ver qual a surpresa daquela segunda.

Segunda, às oito, sempre segunda às oito. Está marcado e a gente se encontra, se vê, porque você me vê! Eu não vou esquecer do prognóstico desanimador que eu vi nos livros: eles não focam o olhar, não te olham nos olhos, não te vêem, é como se não estivessem ali, ou como se você não estivesse ali com eles. Desde o primeiro dia, éramos só nós dois, e teus olhos nos meus.

Hoje foi demais. Eu imagino que por vezes você queira sair dessa casca, desse invólucro que chamam de corpo, o qual enfeitaram tão bem com olhos grandes e claros, com os quais você nem se importa. Você só quer sair! Você quer se libertar e corre, mas ninguém deixa. Todos acham que você não sabe o que quer, não sabe o que faz. Todos acham que seus movimentos são sem intenção. "Estereotipados". Puf. Estereotipados são eles, os seres humanos dos invólucros comuns e artificiais, bem cabidos dentro de si, todos eles; ao contrário de você, doido pra fugir desse dentro de si. Você que não parece caber em si mesmo.

É assim que te vêem, né? Como que vivendo sozinho dentro do seu corpo. A gente precisa mostrar para eles: você só está vivendo de um jeito diferente. Porque esse jeito diferente significa não viver? Não existir? Só porque não é como eles mandam.

De novo: hoje foi demais. Soube logo, pelos gritos, que não seria fácil. Que não ficaríamos juntos tanto tempo, olhos nos olhos menos ainda.  Tudo bem se foram só dez minutos. Eu vi o tamanho do seu esforço em segurar, segurar, segurar os chocalhos e não jogá-los para cima - ao longo de três minutos - para só então jogar com tanta força. E extravasar. As regras te tolhem, né, eu sei.

Então assim eu aceito seu convite para "passear". Aliás, eu comemoro o seu convite verbalizado e simbolizado de "passear". Você tá se virando bem na língua deles! Já que eles não te entendem, curvou-se. Eu sei como é. Não, não sei, mas eu entendo como é. E reconheço seu esforço.

E enquanto você corria, e mantinha os olhos fixos no caminho de arbustos, sempre à mesma altura, e observava algum movimento, aposto que vias um movimento irado naquilo ali, eu fiquei pensando sobre o que fazer. Não houve bolha de sabão dessa vez. E então você ia e vinha, ia e vinha, ia... Corria e voltava. Então é isso. Se você só quer ir e vir, ir e vir, correr e voltar, se você não quer bola nem bolha, carro nem chocalho, ar-condicionado. Se você quer correr desesperadamente, andar rápido, e cantar só as músicas que você tiver vontade. Se você quiser fazer do seu jeito ao ar livre, na frente de todos, sem sigilo, sem setting, sem regras, só com as suas regras, então vamos. Eu estou aqui. Eu faço com você. Eu ando, corro, vou e volto, bem ao seu lado. Eu acompanho seu ritmo - da corrida, da música, do não-olhar, do tempo efêmero. Eu estou bem aqui. Do jeito que você precisar. Pois, não sei como será segunda-feira que vem, qual a surpresa da vez, ou se não haverá novidades. O que eu sei, é que eu estarei lá. Pra te aceitar.

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