quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Sobre ontem e sobre sempre.

Eu também reconheço que foi caótico, que foi desorganizado. Que a revolta transbordou, e da primeira, passou para a segunda, terceira, e para todas as vias de trânsito. Que as muretas viraram canteiros, e que toda a avenida principal da cidade passou a parecer o quarto pessoal de cada um daqueles revoltosos, revoltados, vândalos e delinquentes para alguns (para muitos!), tamanha a facilidade de ir e vir que ficou ali para eles. No caos.

Mas a sua revolta pela desorganização de quem se manifesta, isso eu não reconheço como legítima. Nós vivemos em um país, estado e cidade, que nunca nos ensinou a sermos organizados, civilizados, a incomodar os demais com educação. A gente dirige em um trânsito caótico, com motoristas caóticos, nervosos, que se desrespeitam. A gente aprende a conviver em sociedade sem metodismo algum, e isso é propagado diariamente, por todos, por nós, e por eles, os que cuidam de nós.

Não existe respeito, não existe faixa amarela, vaga para cadeirante que seja usada realmente por cadeirante, não tem vizinho do prédio que espera você sair do elevador para ele poder entrar, os jovens velhos que confundem direito com privilégio e usam sua "prioridade" no banco. No mesmo banco onde as pessoas estão desorganizadas na fila, onde são desorganizadas em seu tempo, em sua dignidade, muitas vezes. A gente anda pelas ruas e tem de desviar de mendigos. Tem de verificar crianças caoticamente amontoadas nos sinais. As mães querem só uma vaga para o filho estudar na escola pública, e tem de dormir na calçada da escola, e, caoticamente, brigar pela vaga no dia seguinte. A gente tem de lidar o tempo inteiro com a informalidade comercial e ocupacional, sustentadas despretensiosamente pelos nossos cegos que não querem ver: os governantes. Isso também não é caos?

A nossa cidade é caótica, e sempre foi. Aprendemos a ser assim, e não é à toa que um sujeito organizado vira o bicho com transtorno obsessivo compulsivo, ao primeiro sinal de "uma coisa de cada vez".

Então a gente pode exigir que o protesto ocupe somente uma das vias, pacificamente, que os praticantes do vandalismo, como se diz agora, que não são manifestantes, nunca serão!, estejam enfileirados, batendo palmas, cantando baixo, porque achamos injusto, sabe, o simples absurdo. O simples absurdo. Pode-se exigir?

Então pela desorganização e caos que a gente aprende, e não que a gente causa!, temos de sucumbir ao batalhão da pê eme desfilando feito sete de setembro, em marcha, para nos inibir. E aí pode protestar, mas com organização. E por que não: pode governar, mas com organização? Pode administrar, mas com planejamento!? Não entendi. Não entendi sua reclamação.

Acho que cabem até "desculpas", pelo seu atraso no trânsito. Você que estava cansado do trabalho (justificativa legítima, de verdade) e demorou muito mais tempo para chegar em casa. Desculpa, de verdade. Mas o trânsito e a cidade precisam ser interrompidos e virar caos, muito mais do que já são, algumas vezes, porque não é a Câmara e o prédio da Prefeitura que devemos incomodar. (Afinal, quem garante que nossos alvos estejam lá?...) Mas a população também, e, sabe o que mais?, os empresários e seus simpatizantes, que, exatamente como você, também dirigiam para casa depois de um dia cansativo de trabalho. Só que dentro de carros importados mais caros que os próprios ônibus, e com desprezo e antipatia pelos seus usuários assalariados.

Não cobre civilização de quem não é tratado como tal. Cobre civilização daqueles que não nos tratam como tais. Está na hora de pôr em prática a ideia de João Ubaldo, e parar de chamar o governo de governo, porque o governo é Estado; o governo não governa nada, quem governa é o povo.

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