sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Que seja, e sou

Eu sou de livros interminados, de contos impublicáveis, de histórias com melodia chorosa, melodia intensa e triste. Sou de palavras que não são doces, de gestos que me denunciam, de olhares de esguelha, às vezes, até, falsos abraços, mais ainda, falsos sorrisos. Sou de temer e fingir, quando dá, quando devo. Sou de um eterno desamor frente ao espelho, frente a retina cerrada, ou seja, olhando para dentro de mim mesma. Desamo. Sou de tiques nervosos e maltratos à pele e denúncias desse desamor sob a forma de tocs, tenho tocs, e mais tocs de não me toques. Não me toques, que doo, e fere, e apaga-se em dor. Sou de palavras não ditas, de comportamentos velados, de penumbra, de pouca cor. Porque sou de fraquezas desmensuradas, intempestivas, e, há quem diga, inventadas.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Quando o porteiro comemorou comigo

Os fatos ruins e atrapalhosos nunca acontecem isolados. Eles obedecem a uma sequência rigorosa: manhã, tarde e noite de um mesmo dia. Os fatos atrapalhosos não te encontram em companhia adequada, nem em bons lençóis. Eles só te pegam desprevenida e na solidão do lar, ou, no meu caso hoje, imediatamente fora dele.

Essa semana fui deixar minha mãe para ir viajar (essa frase não tem tanto sentido), e ela foi até seu carro pegar algum objeto que provavelmente não encontrou - ela nunca encontra o que procura no carro dela, às vésperas de um compromisso ou viagem. Entrou no meu carro, desfez-se da chave do carro, e foi-se depois que deixei-a. Hoje, ela ainda viajando, eu sem gasolina, o carro dela com gasolina, o meu tênis no carro dela, cenário perfeito: peguei as chaves dela e desci rumo à minha caminhada... que nunca aconteceu.

Foi só entrar no elevador que, puta que pariu, o chaveiro sem a chave de casa. Porque minha mãe foi feliz em lembrar de tirar a chave de casa para quando voltar pra Natal, ser independente ao chegar em casa. E eu, infeliz, tapada e atrapalhada, no fim de um dia em que tudo, óbvio, deu errado, presa do lado de fora. Porque, sim, amigos, aqui em casa, a fechadura moderna é dessas que, do lado de fora, só se abre com chave.

O cara que inventou essa fechadura infeliz é do tipo de gente que teima em viver dizendo: "tudo tem seu lado bom e seu lado ruim". É o cara que inventou a metáfora da faca de dois legumes, que materializou a metáfora dos dois lados da moeda. Foi o filho da puta que me tirou do sério hoje.

Na portaria, peço socorro a Santo Antônio, digo, a Seu Antônio, nosso porteiro mais antigo, e o segundo Seu Antônio porteiro que conheço em vida. Esse é gente boa, o outro parecia uma assombração. Eu resmungo e choramingo no pé da escada junto dele, pergunto "o que a gente faz?!", e peço uma escada para pular a porta, afinal, quebrou-se o vidro fosco que havia no vão superior da porta da sala, e eu ainda me caibo por ali. Acho. Mas Seu Antônio ficou preocupado: e como é que você vai pular do outro lado? E será que você não vai cair? E você vai se segurar? Ou, Bia, e eu tô sozinho aqui... Não tinha nem um sujeito pra ir comigo me dar o apoio moral, e ouvir eu me estabacar no chão. Seu Antônio me negava a escada, por mais que eu dissesse que poderia pular. Enquanto isso, eu tinha raiva da fechadura, do imbecil da fechadura, da proprietária do apartamento que botara a fechadura, e da minha cachorra inútil que fornicava com a toalha e as cortinas, aproveitando todo o seu cio também inútil, enquanto eu me exasperava sem teto, sem ter quem me abrisse a porta da minha esperança.

Fiz Seu Antônio procurar um chaveiro, um vândalo, um maluco qualquer que pudesse me livrar dessa. Perguntei se ele não teria um colchonete: eu jogo o colchonete, pulo, e abro a porta, Seu Antônio. Coisa mais simples! O colchonete que tem aqui é de dar nojo, Bia. E não me deu. Ele não queria que eu me machucasse nem ficasse fedendo. E eu só queria entrar em casa.

Seu Antônio não tinha telefone de chaveiro nenhum, mas procurava, ou fingia que. Fui no carro pegar meu celular que eu tinha jogado lá quando desci. E então lembrei: a pessoa que trabalha aqui em casa tem a chave da área da serviço! Ficou só a dúvida cruel: a porta de serviço está com a corrente passada? Tensão.

Falei para Seu Antônio: vou lá na casa dela, volto, se tiver com corrente, pego a escada, um cabo de vassoura, e a gente abre a porta! Fechado? Fechado, boa sorte! E eu saí com suas bençãos.

Voltei com a chave, entrando na garagem, ele me dá um joinha, pergunta se deu certo a primeira parte do plano. "Interfono lá de cima se tiver dado!". Subo ansiosa, é o elevador de serviço que já me espera, então, bons presságios, vai dar certo, (quando a gente quer forçar algo a dar certo, a gente vê qualquer coisa que aconteça e interpreta como sinal), faço figa, ABRIU. Entrei. Dei logo de cara com os cocôs da cachorra e as roupas sujas da lavanderia. E nunca, a não ser quando passei uma semana de carnaval em Caicó, senti tanta satisfação ao entrar em casa, ao voltar para casa.

Na felicidade, interfonei, Seu Antônio deveria ser o primeiro a saber: Seu Antônio, deu certo, consegui! 'Valeeeeeeeeeu, Biaaaaaaa!!!!!', ele me responde como quem sorri e fica aliviado, me responde quase como quem grita "Gol", como quem me vê passar no vestibular depois de anos.  Exagerei.

A gente se congratulou e comemorou junto no interfone, cada um deu uma gargalhada, eu agradeci, ele agradeceu também (?), acho que porque não pulei a porta e quebrei um pescoço. A gente ficou feliz, eu achei graça, e não saí de casa mais.

Vou esperar Ana chegar amanhã para eu poder sair, não quero correr mais riscos.

E era só isso.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Quando eu senti ciúme

E eu me assustei, não acreditei, senti raiva, quis apagar o texto que não era meu. Me inquietei, bati os dedos na mesa, sapateei meus pés calçados em sapatos barulhentos, barulho, fiz barulho. Embrulhei o estômago, fiz para sempre um nó na garganta, ardi os olhos. Não chorei, não menti. Disfarcei. Evitei olhar, evitei o olhar. Sorri amareladamente. E, então, senti raiva por sentir raiva, chorei por não ter chorado, não disfarcei e emudeci. Desliguei os contatos, apaguei as letras do meu texto, as únicas que podia apagar, ou transformei-o em rascunho de baixo calão - esses que não saem da gaveta (da cabeça). Não apaguei fogo nenhum, deixei incendiar, só não incendiar-me. E, como quem tem experiência, sumi. Deixei por lá só o meu ciúme, que arde. Que vergonha, que arde.

Hoje

Não, não é ele. Não pode ser bem ele. Ele não tem esse andar rápido assim, seguro em tanto. Ele não vai como quem tem certeza de que vai. Esse aí sim. Ele nunca me olhou sem discrição, ele não vira o pescoço ao que o chama a atenção. Ele tem um passar mão em cabelo, assentá-lo, como quem disfarça - sempre de tudo. E mais aqueles olhos raros que disfarçam quando para onde ele quer ver. E dissimulam. Que dissimula. Não é ele que me vem, que me vê...

Quando me aproximei, sim, era você, só que outro.

sábado, 22 de setembro de 2012

Compras em Natal

Eu sou aquele tipo de gente que gosta de compras, roupas e sapatos, e coisas novas, não tudo, não sempre, mas às vezes, e que até folheia blogs de moda, mas que detesta ir às vias de fato: as compras. Compras têm algumas regras desanimadoras universais, as responsáveis por te fazer odiar esse programa de sábados vespertinos. Uma delas é que, quando você realmente precisar de algo, você nunca vai encontrar. Em segundo, sua consequência: quando você não precisava disso, você sempre encontrava disso. E também: na loja, veste bem, em casa, te faz bruaca e gorda. Aliás, há um paradoxo importante a se considerar: se estás magra, e vai às compras, sentindo-se em sex and the city ou similares, semanas depois, quilos depois, você vai se arrepender e amargar a roupa. Se estás gorda, e vai às compras, para evitar essa chateação futura, é verdade que você não vai conseguir nem querer comprar nada, pois, óbvio, você está gorda.

Daí que de tanto odiar compras e shopings e, por vezes, vendedoras de lojas, eu evitei essas malditas.

Dias atrás, precisei ir procurar por vestidos de festa (casamento, formatura, etcétera). Não existem. Não sei onde se escondem, ou onde escondem-nos. Mas eles só existem nos corpos das pessoas nas festas, e nos ateliês fantasmagóricos de costureiras de família. Nas lojas, não têm. Mas, já que eu já estava lá, né, e, loja vai loja vem, vou olhar umas coisinhas e quem sabe... Não. Três centímetros de algodão, moça, quanto está? Cento e oitenta e nove reais. E esses dois centímetros e meio? Cento e setenta e nove. E noventa.

Certo. Mas, por quê? Tentei imaginar se era o nível (primeiro, segundo, ou terceiro piso do shopping) da loja, se era uma consequência básica da economia, inflação, queimadas em plantações de algodão por todo o país... sei lá. Eu que não entendo nada de economia, pensando em economia. Rá. É que só me perguntava por quê, por quê?, qualquer tiquinho de roupa estava arrancando todo o dinheiro da minha carteira, só de olhá-lo.

Outro inconveniente das compras são os vendedores. Que me desculpem os vendedores gentes boa, ou os de bom senso, mas, te digo, primeiro, é difícil de aturar quando eles não te atendem. Por que, ué, essa daí tem cara de estudante, não sei o que ela faz aqui. Ou então aquele vendedor que você logo saca o ar pé no saco e avisa: estou só olhando. Ponto final peremptório. Mas ele te segue por toda a loja, se você jogar o cabelo para trás, virar repentinamente, dar meio passo para trás, para checar a blusa da arara anterior, derruba o danado no chão. E ele não pára: "essa é da nova coleção". "Essas chegou ontem!". "Essa arara tá com quarenta por cento de desconto!". Você fica tão sufocado, que sente-se mal, hiperventila, sua frio. E sai da loja antes que ela tire sua roupa e coloque a da loja em você, ou arranque seus cartões de crédito de uma vez.

Eis que me surge hoje novo capítulo da mesma história: agora, fazendo compras masculinas em Natal. É que não tem. Que os meus três leitores não me entendam mal, aliás, acho mesmo que não irão, pois cinco a cada três deles, partilham opiniões semelhantes quanto a isso. Em todas as lojas, em todos os níveis (pisos) dessa cidade (shopping Midway), todas as camisas tinham ou gola Vê ou alguém tinha rasgado a gola delas. Gola V, gola rasgada, gola V, gola rasgada... Acho que cada um tem direito a vestir o que quiser, mas a maior parte dos meus amigos não-gays (são poucos), e o meu namorado não vestiriam golas rasgadas, deixando as omoplatas desnutridas aparentes, menos ainda a gola V, salientando os pêlos de cafajeste que cultivam com seus orgulhos heterossexuais. (Se bem que prefiro o orgulho homossexual de retirá-los.)

E eis que voltei para casa sem roupa (só com a do corpo), e esclarecida por que na minha cidade todas as pessoas estão iguais o tempo inteiro (não sei quem começou o ciclo vicioso: se elas que causaram isso nas lojas, ou se as lojas que vestiram todas elas, e ficou por isso mesmo). E ficou por isso mesmo.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Hoje achei meus pés pequenos demais. Achei minhas unhas infantis, meus olhos menores do que são, a boca sumida. Hoje as roupas não me couberam, o sapato ao invés de me doer, caiu. Não sustentei bem o lápis nem minha altura, que já vem pouca. Hoje não encontrei meu sorriso. Hoje fui lembrada que deixei uma parte bem grande de mim para trás. Guardei o mínimo possível, e virou fardo.

Antes e agora. Depois, antes.

Eu mudei tanto que não me reconheço mais. Eu investi tanto na razão e no rigor, insisti para que não sentisse tão demasiadamente. Pois eu sofria demasiadamente. Fui fazendo o caminho inverso, o qual parecia desnecessário, digo, necessário. As palavras me traem. Viu? As palavras hoje às vezes me traem. Porque quero por vezes usá-las infielmente: sem meu coração. Que por mais demenciado que tenha se tornado, ainda rende um bocado. Ainda me serve, me guia, quiçá me protege. Mas eu não permito.

Eu quero meu eu de volta. Quero minhas expectativas grandes e pequenas, meu coração maltratado e poderoso. Quero a entrega novamente como minha condição para ser. Quero me ter novamente, com dores velhas e amores gigantes. Quero eu.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Um adeus desajeitado

Deixei uma carta pra você com o André. Logo ele vai te entregar. Combinei que seria assim que eu decolasse, mas, realmente, preferiria que fosse um pouco antes. E que eu corresse o risco de você chegar a tempo. Para me dar um abraço sem palavras.

Eu escrevi várias cartas, eu reescrevi e editei esse texto, que, em alguns momentos, não parecia que era meu. Porque eu não estava sendo eu, eu não pude ser eu. Escrevi um, de fato, na bravura da autenticidade, com as palavras raivosas que são o que eu sinto agora. Ele ficou confuso. Como eu sou agora. Ou não irias entender nada, ou iria ficar claro demais. E seria constrangedor. Eu não quero que seja mais constrangedor do que já é, só que só para mim, e mais confuso para você do que já está - só que também está bastante confuso para mim.

Eu falo e peço o óbvio: que me deixe em paz, que me dê alguma paz. Que não me importune com palavras que dizem mais do que elas mesmas, para então, e só então, depois de uma expectativa e ilusão tão bem alimentadas, eu ver que não era nada daquilo. E me sentir patética. Foi tão ruim, e ainda é. Espero que na carta fique claro, eu tentei deixar claro, e que as entrelinhas te gritem meu desespero. Espero que me deixe em paz. Ou queria mesmo que não.

Clara.


— O que me arrebenta é que ela não disse "Eu não te amo mais". Saiu me amando. Saber que o outro se separou e ainda te ama é uma esperança insuportável. Uma tortura. Acho que ela se dará conta de sua mancada a qualquer hora. Mas "acho" dentro do total ceticismo, não a vejo vindo ao encontro, não teve sequer coragem de conversar. (Carpinejar)

domingo, 16 de setembro de 2012

Rótulos para todos

Eu tenho dificuldades com rótulos. Até aprendê-los, evidentemente. Quando aprendo, eu gosto de ficar rotulando todo mundo - depois de conhecê-las bem. Assim, just for fun.

Tipo, pessoas que dizem sempre frases em inglês, just for fun, tipo eu, dizendo aí em cima, just for fun, vixe, nem tenho rótulo para elas, mas são do tipo que podem escorregar para um tipo desprezível. Tem gente que me chama de pseudocult, por exemplo, mas eu preciso me deter isso mais à frente, em outro texto. Tem gente que era patricinha e vira roqueira, e "enlouquece" no show do foo figters! E por aí vai.

Mas os rótulos estão avançando e se modernizando e se complexizando (?) em uma velocidade que eu não acompanho. Tipo as tecnologias, né, porque até hoje eu nunca tive um ipode ou ifone nem nada do steve jobs. Só uma biografia dele, que dei de presente. E eu não sei mexer em nada disso, também. Sempre que colocam um aparelho tecnológico na minha mão, em cinco segundos eu grito "chega!, ajeita aqui!, quebrei.".

Pois parece que meus estudos etonográficos feitos à paisana estão sendo muito poucos. Ou estou discutindo muito pouco sobre eles. As rotulações modernas carecem de explicação, no meu caso, e eu começo a receber a alcunha de velha, perguntando o que são essas "gírias" novas, da galera!

Eu estava no pub, aí me aproximei dos meus amigos, eles já conversando sobre um assunto específico, e uma delas, explicando para o outro: pronto, esse óculos de Bia é hipster. Eu: muitas interrogações. O que é hipster, como assim hipster? Que porra é essa, de meu óculos ser hipster, ninguém na loja me falou nada disso! E disseram que era tipo ser nerd e estiloso. E eu: mas então não é nerd. Porque meu rótulo, digo, conceito, digo rótulo mesmo, de nerd, não engloba ser estiloso. Ou sim?

Meu pai não aceita que "estiloso" seja uma palavra parte do meu vocabulário. Foi uma palavra que empreguei quando comprei esse mesmo óculos 'hipster'. Será que ele estava me chamando de antiquada? Favorecendo o uso do 'hipster' no lugar? Nem perguntei.

Eu fui, então, comprar uma camiseta de presente, e pedi opinião. "Não, Bia, essa é muito indie". Hã? Por algum motivo, eu associo indie com hippies, e não hipster!, mas meu amigo disse ser: um fenômeno meio homossexual que existe entre os jovens de hoje em dia.

Meio homossexual? Quem é bicha, é bicha. Por que você não diz que a roupa era meio bicha (e não era)? De novo, só posso estar muito antiquada.

Eu agora travo uma conversa com Laurinha, que tenta me explicar os conceitos complexos para tantos fenômenos em nossa sociedade pós-pós-moderna. Eu só fiz um comentário sobre o filme que vi hoje, e ela, além de concordar comigo que o filme é mesmo maravilhoso, fez a seguinte colocação sobre o longametragem: super hipster cult hoje em dia. (Era uma colocação descontraída, lúdica, de tiração de onda, porque ela não fala assim, realmentemente).

Hm. Espera aí! Me explica tudo isso! O que está acontecendo? O que são todas essas palavras? E ela, que, via estudos empíricos, observações antropológicas, e reflexões próprias, me deu algumas pistas. É, só pistas, porque ainda não ficou claro para mim. Pareceu tudo tipo um fenômeno meio homossexual meio qualquer outra coisa que tentam achar rótulos cheios de especificidades.

- Peraí, me diz, o que é hipster? O que é hipster, o que é indie? 
- Os hipsters são mais mainstream do que os indies.
- (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!) O que é mainstream?
- São basicamente iguais aos indies, só muda o nome. E mainstream é o que não é underground. 

Pra mim, ser hipster ou indie ou representar um fenômeno meio homossexual, estava tudo nas obscurices do underground. Preconceito meu, desculpem. E repetiu o que já haviam me dito:

- Seu óculos é bem hipster. É a modinha dos hipster cult. 

Evidente que, enquanto me dava todas essas informações inúteis (sem as quais eu não conseguiria mais dormir, de verdade!), ela ria. Mas, ela não havia me dito ainda o que era ser hipster. Reforcei minha indagação.

- (...) É a modinha dos hipster cult, que nem a máquina fotográfica pendurada no pescoço, tirando fotos numa Lomo, que a gente tava tirando onda ontem. 

(Gente, eu não sei o que é uma Lomo.)

- É esse povo mais alternativo, que gosta de música mais independente, mas que são, tipo, riquinhos subversivos; que andam com seus ipods, máquinas de última geração... 

Nunca, na história da minha história, estive diante de uma categoria ou subcategoria tão complexa e específica. Sou do tempo das patricinhas e mauricinhos, depois consegui acompanhar os "raqueiros", e hoje, o mais moderna que consigo ser me permite dizer que algo é "estiloso". Realmente, devo ser uma vergonha da minha geração.

Falei para ela que há gentes que me chamam de pseudocult. E ela:

- Melhor do que ser pseudointelectual. 
- Ué, não é a mesma coisa? [Novo nó na cabeça.] [Na verdade, eu esbravejei: OCHE, É DIFERENTE???, afinal, já estava bem confusa, e ainda sem muitas respostas, apesar da grande quantidade de exemplos.]
- Mais ou menos. Cult é mais amplo, né. (...) É, ser chamado de pseudocult é pior mesmo!
- Defina pseudocult! [Lágrimas]
- Quem finge ser cult. Rs. 

Laurinha é do tipo que ri "rs".

- Os pseudocult assistem filmes cult, escutam músicas independentes, dizem apoiar uma causa, mesmo que não a sigam... Os pseudointelectuais não, só precisam fingir que lêem muito e ter um ar de superioridade - apesar de nunca entrarem em uma discussão porque não têm argumentos. 

Confirmei, como dito, se eram resultados via empirismo, observação antropológica, reflexões dela com ela mesma.

- Essa é a minha retórica, apoiada na minha axiologia.

Foi tipo aquela aula de disciplinas introdutórias acadêmicas, que você formula concepções e conclusões enquanto o professor explica, esclarece dúvidas, apresenta suas idéias, e sai dali com a certeza: não entendi foi nada.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Tem gentes que.

Tem gentes que você quer por perto. Tem gentes que você quer mais perto.

E não é o que você esperava que, que você ansiava que, que tinha expectativa de que. Tem gente que te faz ou te fez viver com uma intensidade além da planejada. Que te fez sentir felicidade, alegrias, ter vontade de compartilhar notícias e sentimentos. Que te fez ansiar um pouquinho pelo encontro e pelo abraço, pelas palavras, pelas doces e suaves palavras. É tanto sorriso e tanto em comum, tanta música posta em cheque, tanta saudade não palavreada, e um pouco de saudade palavreada.

As doces e necessárias palavras, tão bem quistas e bem vividas, de repente ficam para trás e... Passam. Não, não passam. Mas passam. Porque não estão mais aqui.

E as gentes sumiram, e as gentes se foram. Foram embora, mudaram de cidade, de país, ou, pior, ficaram no mesmo lugar (físico) de antes. Mas não estão mais aqui. Achei que tivesse guardado e cuidado bem, mas.

E aí os outros, demais, ademais, falam, novamente, das expectativas criadas para nada. Mas você não criou expectativas. Você só, como dito, viveu intensamente, sentiu o presente ser presente, como nunca antes, porque, na sinceridade, você nem imaginava o que seria do futuro seu com e sem, com ou sem, essas gentes. Você só vivia um tempo bom, e, de novo também: de palavras e afetos e presentes compartilhados. Presente compartilhado. Então tu quer mais motivo bom do que esse?

Se a receita é "não criar expectativa", por favor, esqueça. Esqueça de mim, ou de me dizer isso. Não criar expectativa já é criar expectativa. É criar expectativa nenhuma. Se preparar para o nada, para o nenhum, para zero possibilidades. Se eu sou mais viver todas as possibilidades do agora agora (2x)!?

Eu sei que sinto falta. Tem gentes que fazem falta. Tem gentes que fazem muita falta.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Droga, drogadito, droga disto.

Vai passar, já passou, tire o seu sorriso do caminho, já passou. Tire o seu sorriso do caminho para que eu passe com a minha tristeza. Que vai passar. Já passou. Vai passar, já passou, tire o seu sorriso do meu caminho, sou só dor. Vai passar, já passou, não passou, foi o meu problema todinho que me ficou. 

Mas então o que faço com tudo isso? O que faço com o que me restou das doses não homeopáticas, não planejadas, não percebidas, que tomei de você, que embebi de você?

Não é possível que não me valha um "peso extra", indenizatório, por tudo que senti. Que deja vu! Indenizatório, por tudo que senti. Já vi, já escrevi isso. Deve ter sido sonhando várias vezes tantos sonhos vazios, que eu sei bem porque eram vazios, sei mais que não eram vazios. Vazia era eu quando acordei.

Mas não é possível que não haja um preço a se pagar pelo preço que eu paguei, pela corcunda que sustentei, pelo peso no peito que me afundou dias e dias. Meses. Anos.

Eu quero chorar e já nem tenho mais lágrimas. Não é possível que ninguém pague por isso. Não é possível que esse ninguém seja alguém que seja de novo eu.

Resultado

E aí fiquei dias e dias sem escrever. Me pareceu mais, foi mais, foram meses, foram anos. Foi um tempo que já nem lembro mais, de tanto tempo que faz. Esqueci. Esqueci porque parei de escrever, se não parei de sentir. Uma vez que só escrevo porque eu sinto, escrevo para entender o que senti, todo aquele tempo, todo esse tempo de agora. E parei.

Minha cabeça, entretanto, não parou de escrever. Coitada. Ela vinha e criava textos e imaginava frases e era capaz de construir até diálogos. Era capaz de escrever textos inteiros de uma tacada só. De uma vez, sem interrupção, sem pausa para café, menos ainda para pensamento de abobrinha, solto, desnecessário.

E aí minha cabeça começou a ferver, a fervilhar; as palavras não me couberam mais, não couberam mais dentro de mim mesma. E se parei de escrever e não parei de sentir, e minha cabeça não parou de escrever nem de sentir, porque minha cabeça sente, não sei como é isso, não sei explicar nem sei por que falo que tenho certeza que é assim, mas é assim, minha cabeça sente de tudo, então explodi. Mas fui explodindo aos poucos, extravasando, alcançando caminhos de vasantes que eu nem conhecia. Foi uma explosão assintomática, imperceptível, que só me dei conta quando restaram só os estilhaços. Que eram eu.

E, toda estilhaçada, com preguiça e com coragem, ao mesmo tempo, vou me sentar para pôr tudo em ordem, para escrever novamente. Para escrever o que sinto, para comunicar a mim mesma, fim único, visto que os outros fins por mais que eu queira, não posso, não é correto nem possível de alcançar, essas pequenas explosões que são, unicamente, sentimentos fortes e pesados demais que eu não conto para ninguém. Só para as palavras. Que se guardam segredo, eu não sei.

No final das contas, não faz diferença.

Estou com a sensação de ter feito tantas escolhas erradas. Estou com a sensação de estar fazendo escolhas erradas. No gerúndio e no presente.
Se é certo ou errado, só o tempo vai dizer.
O problema é que o tempo diz. A gente que não ouve.


Com Pablo

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Glamour feminino não é lá minha vocação

Acontece que hoje eu tenho um casamento para ir. Há quinze dias tive outro; no mês que vem, mais um. E, se para alguns casamento significa comida boa e cara, música ruim e alta, pró seco, jantar em pratos de sobremesa, e doces tão finos e bem elaborados que te faz ficar na dúvida se o que se come é o que tá dentro da embalagem ou se o que parece a embalagem é o que se come, casamento para mim é sinônimo de estresse. Não porque me faça pensar sobre os ideais sociais da vida a dois, construída em algum momento da sua juventude, compartilhado com pessoas que não se importam com a sua felicidade, regado a milhares de reais sem propósito. O simples ato de ter de me arrumar e de me esforçar, me desdobrar, para tentar estar à altura de uma festa assim, isso me desgasta.

Isso parece mais fútil do que a própria futilidade em ter o vestido e o cabelo e os sapatos como foco de vida de uma mulher que se aproxima de um casamento (alheio). Mas se tornou um problema para mim. Eu não gosto de saltos altos - em mim. Acho lindo nos outros e tento, a cada dezoito meses, subir em algum. Mas encravo as unhas e enrugo a planta dos meus pés, e aí só depois de dezoito meses para tentar novamente. Além desse problema, sapatos em geral (em gerais? em geral, né?) não ficam bem nos meus pés. Todos, quando digo todos é todos, machucam meus pés. E os saltos altos, obviamente, assassinam. E aí lá vou eu, semanas sequentes, procurando um sapato que me caiba e que não me dobre de tamanho, porque eu não me equilibro em sapatos que dobram o meu tamanho, para então usá-lo (se tiver ncontrado) noite adentro (tomara que a lembrancinha de casamento sejam havaianas, sandálias japonesas, qualquer coisa), me maltratando. E tem que ter a palmilha.

Vestido eu nunca tenho, eu nunca encontro. Eu peço emprestado a todas as minhas amigas (três), porque eu acho todos feios nas lojas. E não tenho paciência nem disposição financeira de investir em um prêt-a-porter. Mandar fazer, eu digo. No dia, estou usando o mesmo vestido das últimas oito festas de formatura e casamento e quinze anos que fui. Com o mesmo sapato e palmilhas.

No dia, tem de ir ao salão. Tem de esperar centenas de mulheres no salão fazendo suas unhas. Aguentar duas cabeleireiras esticando seu cabelo ruim por horas (me parece horas).

Para então chegar a parte mais difícil. Mais temerosa. A maquiagem!

Eu nunca aprendi a me maquiar. Eu nunca consegui, eu nunca fiz nada que preste pra parecer saudável e feminina usando pós de arroz e sombras coloridas. Eu não tenho a menor capacidade. Sinto que minha mão é grande, pesada, masculina demais pra tudo isso. E nunca teve tutorial de maquiagem ou amiga prendada que me desse jeito. Alguém teria de me maquiar para cada festa. Mas, pior, para isso eu também não tenho paciência. Porque você tem de ficar horas (me parece horas) imóvel e de olhos fechados. E abrindo a boca em um ângulo específico, sem tremer. E abrir os olhos quando a pessoa mandar, e não lacrimejar. E não espirrar, porque, não sei os outros, mas mexer nos meus olhos demais me dá vontade de espirrar. E, pior, eu tenho de passar a noite inteira sem poder coçar os olhos, arrancar as espinhas que me saltam, meter o dedo na boca, no nariz, esfregar as costas da mão no meu rosto. Não posso!, porque senão vou ficar pior do que sou sem maquiagem. (Então seria melhor eu já ir sem maquiagem, não?)

E aí, se não sei me maquiar, se não tenho paciência de que me maquiem (maqueiem?, maquiem, não?), e sou fraca o suficiente para sucumbir aos desejos e ordens sociais de parecer feminina e bem vestida em festas sofisticadas, eu respiro fundo ao longo do dia, conto até o infinito, sento em frente a um espelho com grau, acendo luzes fortes, coloco todas as minhas maquiagens (que devem ser três coisas) e as da minha mãe (que são quinhentas coisas) na mesa, e vai. Passam-se duas horas, e ou fico parecendo uma macaca, ou parecendo que não fiz nada, para sair de casa igual como sou.

Mentira, nada a ver com o que sou. Porque vou estar cheia de pós (não dos que se cheira), pernas de pau, vestidos apertados tomaras que caias, que passo a noite agarrando para não cair, realmente, e esse cabelo falso que o secador me deu. Com estresse, com palmilhas, e vaidosa como nunca fui, lá vou eu.

O meu casamento vai ser uma festa na laje.


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Poeira

Foi que a gente quis se transformar em poeira cósmica. A gente quis se derreter, e pulverizar, disfarçar-se em uma poeira não qualquer, cósmica, que serve para muito e ao mesmo tempo parece não fazer falta. A gente quis não fazer falta para si, e parecer não fazer falta para nada ou ninguém.

É que poeira cósmica não sente saudade, pra começar. Não sente falta, não acha que a distância dói. Não lembra do passado com mágoa, ne tem raiva do que aconteceu, muito menos do que você não fez para evitar. Poeira cósmica não se arrepende de sê-la. Ela somente é. E é fora no mundo. Poeira cósmica não procura fugir, não tem entranhas corroídas de ansiedade, não sente cheiros que são pessoas e histórias, não tem angústia de sê-la. Porque não é.

A poeira cósmica é pequena, pequeniníssima. Nela não se repara. É como eu disse: não se vê que existe. E se ela não precisa ser vista, é nela que quero me diluir. Se diluir no mundo é um dos planos, e fora dele é utopicamente intenso. Perfeito. Poeira cósmica tem um pouco de plenitude, talvez.

Eu quero virar o invisível e indissolúvel. O minúsculo e o simples, o eterno e indispensável (?), colorido, e belo. O fim em si mesmo. É para lá que vamos?, eu quero ir de uma vez.

Me diga o que tu escreves, que te direi quem és.

Quando você escreve, quando você é escritor, quando você pretende ser, sonha ser, não sabe se quer, mas de tanto todos dizerem que você vai ser, aí você vai ser, quer ser, enfim, quando tu te propões a dar vida a letras e palavras, você se expõe mais que álbum íntimo e espalhafatoso em rede social. Mais que barraco no meio da festa, que suvaco cabeludo, ruivas e torcedores do Alecrim. E aí você passa a ser o que acham que era o que você queria dizer quando escreveu aquele texto.

Você não quer dizer muito, mas diz. Você detona a si mesmo, revela seus segredos, e descreve suas dores em detalhes - sem perceber que o faz. Mas quem leu, viu, viu tudo aquilo que você disse. E mais. 

Porque daí eles interpretam. E sua dor fica maior, sua alegria recebe outros significados, o vestido de flores que você descreveu foi o presente do ex-namorado, de quem você sente falta, as portas fechadas, metafóricas por si só, são as propostas recusadas, os amigos que viraram as costas... Se está monotemática, ficou deprimida. Se fala com revolta, é tensão pré-menstrual, é rebeldia sem propósito, com o intuito do choque.

Se choca, não gostam. Porque choca porque só diz coisa verdade, e ninguém gosta de ouvir, ler, coisa verdade. Mas é ruim, e o outro lê. E então você ter escrito isso, parece realmente com o seu olhar e suas olheiras de ontem, bem me lembro... Penso nas verdades da sua vida e coisa e tal.

Esse monte de linhas está cheio de indiretas. O que está nas entrelinhas, ninguém vê - só vê entrelinhas quem escreve o texto, disso já tenho certeza. E se diz indiretas e se quer usar entrelinhas, é covarde. E quem escreveu é um pouco covarde porque...

E aí você se arrepende. Prende uma idéia, um suspiro, esconde as palavras explícitas. Tenta escrever genericamente, generalizadamente, em metáforas, em charadas, como que para si mesmo. Porque, na realidade, você começou a escrever escrevendo para si próprio, e porque faltou um pouco de modéstia, foi mostrar a dois e três e mais que viram, e que agora sabem. Tudo eles sabem.

E então, se em determinada data e texto, as pessoas lêem demais, várias pessoas, e tu acha que seu depósito textual vai entrar numa pane porque nunca recebeu tantos olhos curiosos, você fica curioso para saber se isso vai se manter. Que bom se sim. Que ruim se sim. Agora fiquei com medo, fiquei tensa, abobada, ainda, mas temerosa do que vão interpretar (descobrir?) de mim. Onde fui me meter.