quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Me diga o que tu escreves, que te direi quem és.

Quando você escreve, quando você é escritor, quando você pretende ser, sonha ser, não sabe se quer, mas de tanto todos dizerem que você vai ser, aí você vai ser, quer ser, enfim, quando tu te propões a dar vida a letras e palavras, você se expõe mais que álbum íntimo e espalhafatoso em rede social. Mais que barraco no meio da festa, que suvaco cabeludo, ruivas e torcedores do Alecrim. E aí você passa a ser o que acham que era o que você queria dizer quando escreveu aquele texto.

Você não quer dizer muito, mas diz. Você detona a si mesmo, revela seus segredos, e descreve suas dores em detalhes - sem perceber que o faz. Mas quem leu, viu, viu tudo aquilo que você disse. E mais. 

Porque daí eles interpretam. E sua dor fica maior, sua alegria recebe outros significados, o vestido de flores que você descreveu foi o presente do ex-namorado, de quem você sente falta, as portas fechadas, metafóricas por si só, são as propostas recusadas, os amigos que viraram as costas... Se está monotemática, ficou deprimida. Se fala com revolta, é tensão pré-menstrual, é rebeldia sem propósito, com o intuito do choque.

Se choca, não gostam. Porque choca porque só diz coisa verdade, e ninguém gosta de ouvir, ler, coisa verdade. Mas é ruim, e o outro lê. E então você ter escrito isso, parece realmente com o seu olhar e suas olheiras de ontem, bem me lembro... Penso nas verdades da sua vida e coisa e tal.

Esse monte de linhas está cheio de indiretas. O que está nas entrelinhas, ninguém vê - só vê entrelinhas quem escreve o texto, disso já tenho certeza. E se diz indiretas e se quer usar entrelinhas, é covarde. E quem escreveu é um pouco covarde porque...

E aí você se arrepende. Prende uma idéia, um suspiro, esconde as palavras explícitas. Tenta escrever genericamente, generalizadamente, em metáforas, em charadas, como que para si mesmo. Porque, na realidade, você começou a escrever escrevendo para si próprio, e porque faltou um pouco de modéstia, foi mostrar a dois e três e mais que viram, e que agora sabem. Tudo eles sabem.

E então, se em determinada data e texto, as pessoas lêem demais, várias pessoas, e tu acha que seu depósito textual vai entrar numa pane porque nunca recebeu tantos olhos curiosos, você fica curioso para saber se isso vai se manter. Que bom se sim. Que ruim se sim. Agora fiquei com medo, fiquei tensa, abobada, ainda, mas temerosa do que vão interpretar (descobrir?) de mim. Onde fui me meter. 

Nenhum comentário: