quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Quando o porteiro comemorou comigo

Os fatos ruins e atrapalhosos nunca acontecem isolados. Eles obedecem a uma sequência rigorosa: manhã, tarde e noite de um mesmo dia. Os fatos atrapalhosos não te encontram em companhia adequada, nem em bons lençóis. Eles só te pegam desprevenida e na solidão do lar, ou, no meu caso hoje, imediatamente fora dele.

Essa semana fui deixar minha mãe para ir viajar (essa frase não tem tanto sentido), e ela foi até seu carro pegar algum objeto que provavelmente não encontrou - ela nunca encontra o que procura no carro dela, às vésperas de um compromisso ou viagem. Entrou no meu carro, desfez-se da chave do carro, e foi-se depois que deixei-a. Hoje, ela ainda viajando, eu sem gasolina, o carro dela com gasolina, o meu tênis no carro dela, cenário perfeito: peguei as chaves dela e desci rumo à minha caminhada... que nunca aconteceu.

Foi só entrar no elevador que, puta que pariu, o chaveiro sem a chave de casa. Porque minha mãe foi feliz em lembrar de tirar a chave de casa para quando voltar pra Natal, ser independente ao chegar em casa. E eu, infeliz, tapada e atrapalhada, no fim de um dia em que tudo, óbvio, deu errado, presa do lado de fora. Porque, sim, amigos, aqui em casa, a fechadura moderna é dessas que, do lado de fora, só se abre com chave.

O cara que inventou essa fechadura infeliz é do tipo de gente que teima em viver dizendo: "tudo tem seu lado bom e seu lado ruim". É o cara que inventou a metáfora da faca de dois legumes, que materializou a metáfora dos dois lados da moeda. Foi o filho da puta que me tirou do sério hoje.

Na portaria, peço socorro a Santo Antônio, digo, a Seu Antônio, nosso porteiro mais antigo, e o segundo Seu Antônio porteiro que conheço em vida. Esse é gente boa, o outro parecia uma assombração. Eu resmungo e choramingo no pé da escada junto dele, pergunto "o que a gente faz?!", e peço uma escada para pular a porta, afinal, quebrou-se o vidro fosco que havia no vão superior da porta da sala, e eu ainda me caibo por ali. Acho. Mas Seu Antônio ficou preocupado: e como é que você vai pular do outro lado? E será que você não vai cair? E você vai se segurar? Ou, Bia, e eu tô sozinho aqui... Não tinha nem um sujeito pra ir comigo me dar o apoio moral, e ouvir eu me estabacar no chão. Seu Antônio me negava a escada, por mais que eu dissesse que poderia pular. Enquanto isso, eu tinha raiva da fechadura, do imbecil da fechadura, da proprietária do apartamento que botara a fechadura, e da minha cachorra inútil que fornicava com a toalha e as cortinas, aproveitando todo o seu cio também inútil, enquanto eu me exasperava sem teto, sem ter quem me abrisse a porta da minha esperança.

Fiz Seu Antônio procurar um chaveiro, um vândalo, um maluco qualquer que pudesse me livrar dessa. Perguntei se ele não teria um colchonete: eu jogo o colchonete, pulo, e abro a porta, Seu Antônio. Coisa mais simples! O colchonete que tem aqui é de dar nojo, Bia. E não me deu. Ele não queria que eu me machucasse nem ficasse fedendo. E eu só queria entrar em casa.

Seu Antônio não tinha telefone de chaveiro nenhum, mas procurava, ou fingia que. Fui no carro pegar meu celular que eu tinha jogado lá quando desci. E então lembrei: a pessoa que trabalha aqui em casa tem a chave da área da serviço! Ficou só a dúvida cruel: a porta de serviço está com a corrente passada? Tensão.

Falei para Seu Antônio: vou lá na casa dela, volto, se tiver com corrente, pego a escada, um cabo de vassoura, e a gente abre a porta! Fechado? Fechado, boa sorte! E eu saí com suas bençãos.

Voltei com a chave, entrando na garagem, ele me dá um joinha, pergunta se deu certo a primeira parte do plano. "Interfono lá de cima se tiver dado!". Subo ansiosa, é o elevador de serviço que já me espera, então, bons presságios, vai dar certo, (quando a gente quer forçar algo a dar certo, a gente vê qualquer coisa que aconteça e interpreta como sinal), faço figa, ABRIU. Entrei. Dei logo de cara com os cocôs da cachorra e as roupas sujas da lavanderia. E nunca, a não ser quando passei uma semana de carnaval em Caicó, senti tanta satisfação ao entrar em casa, ao voltar para casa.

Na felicidade, interfonei, Seu Antônio deveria ser o primeiro a saber: Seu Antônio, deu certo, consegui! 'Valeeeeeeeeeu, Biaaaaaaa!!!!!', ele me responde como quem sorri e fica aliviado, me responde quase como quem grita "Gol", como quem me vê passar no vestibular depois de anos.  Exagerei.

A gente se congratulou e comemorou junto no interfone, cada um deu uma gargalhada, eu agradeci, ele agradeceu também (?), acho que porque não pulei a porta e quebrei um pescoço. A gente ficou feliz, eu achei graça, e não saí de casa mais.

Vou esperar Ana chegar amanhã para eu poder sair, não quero correr mais riscos.

E era só isso.

Nenhum comentário: