sexta-feira, 26 de outubro de 2012

É normal

Começa com pouca pretensão. Começa com loucura. Começa com propósito. Ou porque dois acasos absurdos levam a um caminho em comum. Não importa como comece. Importa por que tantas vezes há término sem haver um fim. E de quem é a culpa?

Fomos reunindo palavras e gargalhadas e pensamentos iguais. E planos para o futuro, e cafés e cervejas. Fomos reunindo destroços desnecessários, fazendo-os desnecessários, chamando-os assim, e então limpando nossa aura. Fomos contando dias para um grande dia, colecionando viagens, também decepções que viraram piadas, pois não há boa decepção nem boa vida que não seja repleta de piadas.

E algum dia o cosmos sofreu desalinho e a gente também. Ou a gente dormiu do lado errado, levantou com o pé errado, trocou de gênio, e já era. Ou a gente guardou para a distância e a comodidade um lugar maior do que deveriam ter. Elas que nem merecem lugar nessa nossa órbita.

E as conversas cessam e se remetem aos problemas. E os problemas cessam e viram um só. E o só problema vira recorrente e a amizade recorrente para tanto. E então quem sabe uma cerveja. E a gente não se conhece mais.

O comodismo e a dúvida tomaram o nosso lugar, antes tão certo, e tornou a saudade uma estranha, a conversa um alienígena. Fez o abraço desnecessário ou pouco real. Pouco sincero. Agora é assim que a gente se conhece. Acabou, sem ninguém ter dito ou notado que era chegado o fim. Era um amigo, agora é uma pessoa querida - porque fora um amigo.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Fala-se

Falou para mim que tinha o medo da troca. Falei que era o medo da traição, por conhecer a traição. Falou que era o medo de ser abandonado repentinamente, sem motivo, sem sorte, como sempre havia feito. Como sempre havia feito? E sem motivo? E com desdém? Quase. Era esse o novo medo, agora sim, era possibilidade. Falei que entendia. Falei que já havia sido deixada num repente, envolta em fumaça de desmotivos, de não vestígios, e só dúvidas, que manipularam toda a minha dor. Falei que doeu. Falei que não o fizesse, que pensasse antes do primeiro passo, pois o primeiro passo e os poucos próximos são de causar alvoroço, expectativa. Lembrei-lhe da minha dor, que, só de ouvir falar, de ouvir ser falada, me deu, me doeu doendo.  Lembrou-se. Sabia. E falou-me: não iria fazê-lo.

E se o falar fosse assim sempre fazer, a vida tinha mais de alegrias e jus.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

É que sou eu

Eu tiro os óculos para comer. Eu evito de abrir e fechar guarda-chuvas, eu não gosto, eu tinha medo. Eu passo cinco vezes desodorante antes de sair de casa. E do elevador volto e tiro toda a roupa e passo mais uma vez. Pra garantir. Eu não gosto de emprestar livros. É contra minha religião. As poucas exceções que abri (três?) me trouxeram arrependimentos quase todas (cinco das três). Eu não sei fazer uma coisa de cada vez. Eu não sei fazer várias coisas ao mesmo tempo, esse gene feminino me faltou. Sofro de síndrome de perseguição. Alguém me persegue. Muitos me perseguem. Eu não gosto que me chame de Beatriz se você não tem muita intimidade comigo. Então você tem que me chamar de Bia. Mas pode me chamar de Bia também tendo intimidade comigo. À escolha. Só que intimidade é um conceito muito relativo, que a cada dia eu mudo. E, dependendo do dia, você não tem intimidade comigo, ou tem. E nunca me pergunte "no que você está pensando?". Se eu estou só pensando, e não dizendo, é porque eu não quero compartilhar. Não me faça perguntas se você só aceita "sim" ou "não". "Responda, responda". "É porque...". "Não. Diga sim ou não. Sim ou não?". "Eu acho que...". "Sim ou não?". Tome no cu. E aprenda a conversar. Mas eu não gosto de conversar. Só às vezes. Tem vezes que eu vejo alguém conhecido e desvio o caminho. Se o alguém conhecido não for tão conhecido assim, e exigir mais esforço em habilidades sociais (sorrisos, criatividade em iniciar e manter diálogo), eu fujo. Eu fujo! É preciso organizar meu quarto pela terceira vez hoje, senão não é possível dormir. É preciso fechar as portas do guarda-roupa, senão não é possível estudar. Não é possível! É preciso enfileirar os livros ainda melhor, e logo, e todos, para que eu consiga desfocar minha atenção. E por falar em atenção, eu poderia ter anotado... Esqueci o desodorante?

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Feliz um ano do primeiro beijo

Feliz um ano do primeiro beijo. Feliz um ano do deixar-se envolver. Feliz um ano do apostar, da nova aposta, concomitante a grande torcida. Feliz um ano do alcance, da novidade, do esperado, do desejo. De novos e tantos desejos, também antigos desejos. Feliz um ano do que fora consumado, agora reinventado, renovado, límpido e nosso. Feliz um ano de felicidade. Feliz um ano para quem acredita, para quem cultiva, e, então, conserva, sem reserva, vive de cuidar. Se cuide. E você me cuide. Ok. Feliz um ano de novos anos, de novos beijos. Beijos. Amor.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Com Carito,

Foi mais com curiosidade que entusiasmo que me dei a ler meu livro novo: Atestado de Órbita, de Carito Cavalcanti. Pesquei um comentário positivo sobre o livro enquanto escolhia qual dos muitos comprar. Como eu sei que, comprando o livro, não compraria também o tempo em lê-lo (não a essa altura do ano), me dignifiquei a ficar somente com um. Fui experimentar.

E enquanto atolo e furo a fila de livros em espera, desrespeitando, por exemplo, um Mario Prata e ainda os Monterroso, me dispus a folhear o Atestado e... não consegui mais parar. É livro de se ler de um fôlego só, de rir, às vezes até alto, e de compartilhar com quem estiver por perto o que o autor te diz, se diz (sem trocadilho caritês).

É um livro livre, de palavras bem escolhidas, ou pouco escolhidas, porque livres, e mais, é um livro belo. Eu achei. Me surpreendi com a escrita solta, as galhofas, as verdades, o sincero Carito. Não conheço, assim, de conhecer mesmo, o autor, só de autógrafo de lateralidade suspeita (igual à minha), mas é um livro que te faz pensar sobre quem o escreveu - tanto quanto ou mais que as próprias historietas.

E fiquei a adivinhar se ele tem um bloco de anotações nervoso, onde faz anotações nervosas, porque a cada palavra, ele vê poesia, e escreve. Ou se ele usa algum eletrônico do tipo ipad (?) para ajudá-lo em ser mais rápido. Duvido. Ele tem aura de poeta autêntico, não modernoso para assuntos de sua própria literatura. Imaginei um Carito que enquanto está numa conversa, não está. Porque a cada palavra, sua cabeça cria poemas e textos inteiros, e trocadilhos e quebras em letras, e novas palavras e neologismos que ele vai... Seria o Carito uma espécime de Transtorno de Déficit de Atenção, com hiperfoco nas palavras e seus sons? Não, nas palavras e sua semântica, e mais, nas palavras e seus sons e semântica e seus grafismos. Um TDA com suposta alta habilidade. Eu vejo.

O livro é surpreendente, leve, gostoso de se ler. Tem gente que não gosta quando você usa adjetivos próprios para outra categoria de substantivos (alimentos - gostoso), mas é que eu tentei ser mais concreta. É um livro de poesia concreto.

Seguem trechos. (Aviso de alerta para leitores disléxicos.)

~
Minha poesia nasce do espanto. Minha poesia nasce do ex-pranto. (...)

~
Aparelho de barbear para peles sensíveis, pasta
de dentes para dentes frágeis e gengivas delicadas...
Mas não há nada para corações sensíveis, frágeis,
delicados...
Supermercado reieira.

~
poeta é assim mesmo triste
ao morrer de desgosto
o poema cai
no meu gosto.

~
Tenho medo de objetos cortantes. 
Principalmente palavras.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Não mais adiar

Sim, o livro, é preciso terminar de escrevê-lo. É preciso correr com ele, cuspi-lo e vomitá-lo, nos sentidos honestos e desonestos dessas palavras. Porque é preciso ser honesta comigo mesma. É preciso percorrer toda a história e repeti-la, e cansá-la, até ficar exausta - a história. Eu já não estou mais exausta. Se quando estive isso não me ajudou, então não vou estar. E se essa regra aplicar-se ao mal estar, melhor, mas não, não se aplicou. Então retiro alguma vantagem disso, que não há, porque é um fim sem vantagens, uma lembrança sem propósito. E falar e ouvir traz convidados indesejáveis. Pois se há vantagem na não infelicidade, que seja o livro. É preciso terminá-lo, e fim.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A ressaca e o depois

Demorei para escrever sobre a eleição porque pensei demais sobre escrever sobre a eleição. Pois não entendo de política. Não acompanho, me dá preguiça, às vezes, não sei das informações vindas da fonte, mas só do ouvir falar. Eu acompanhava quando a redação do vestibular me ameaçava com esse tema, e eu tinha de me garantir na prova. Cinco anos depois, estou na mesma situação, mas nem isso. Meu mundo cor-de-rosa de psicologuismos me prende e me traz confortos, muitos confortos.

Acontece que, em determinadas circunstâncias e momentos de sua vida (você se torna adulto e um pouco responsável e um pouco consciente), ao menos um pouco de política você tem de provar, tem de tirar uma mordida. Isso equivale a ler, votar, e, principalmente, pensar.

Eu hoje dirigia pelas bê erres 101 e 304 para mais um dia de estágio curricular. E com a ressaca de ontem, extremamente surpreendida ainda, pois eu vi o placar se inverter só porque subi para tomar banho e voltei (não era para eu ter tomado banho), em um curto e inacreditável intervalo de tempo. Eu lembrei que, por quase cinco anos, eu não almejei sinceramente estar fazendo o que eu estava fazendo no momento em que pensava sobre o que estava fazendo. Na verdade, antes desses cinco anos, eu já não quis fazer, quis "radicalizar", como bem diriam meus pais conservadores (sem o sentido político, apesar de que essa qualificação também caiba neles). Só que faltou coragem. Eu pude apelar para a extrema racionalidade da parte deles, para o caminho dito mais confortável e seguro. Disse que não. Eu pude apelar para o meu caminho, arriscado, novo, até pueril. Também não. Escolhi um meio termo por causa do medo de que desse errado, e do medo da represália - que faz parte.

Eu continuei, ao longo dos anos, querendo mudar. Não mudei. Porque, assim, não estava assim tão ruim... Estava bom. Às vezes achava que era eu que não via o lado bom das coisas (de tudo). Mas, outras vezes, eu criava uma convicção sincera de que tinha de mudar. Mas, na hora H, é preciso pensar melhor... E deixar para depois.

O medo da mudança me trouxe a um caminho que não escolhi deliberadamente. É um caminho que não me faz infeliz (não mais), mas não foi o caminho da mudança, de modo algum. Foi a escolha brotada pelo meu mundo cor-de-rosa confortável, citado aí mais acima.

E é com medo de fazer diferente, que a gente não faz. Que a gente não desiste do casamento, não muda o emprego, nem tranca a faculdade. Que a gente come o mesmo prato no mesmo restaurante de sempres (plural), que optamos pelos destinos conhecidos em viagens, em experiências, e é por medo de mudar que vamos a cartomantes, por que não ir? Eu fui. Assim, a gente dá uma repicada no cabelo porque teme cortá-lo (por mais que queira), muda o prato mas não o restaurante, propõe a segunda lua de mel para não ir em busca de um segundo marido, e se atrapalha com "projetos paralelos" para não desistir do emprego que faz mal.

Pode ser que esse seja o tipo se insight sem nenhum sentido, porque falo muito intimamente de um plano individual, pessoal. Mas me explica, de alguma forma, quando milhares de individuais, de sujeitos com medo de mudança sustentem uma não mudança, ou leves mudanças, mas nunca uma mudança completa, porque isso lhes dá medo demais. Não dá para confiar no diferente, dá? Ou você acredita no seu oposto à primeira vista? Eu não. Mas posso tentar acreditar nele depois de muitas vistas, encontros, anos. Ainda assim, é capaz (é prudente!) deixar sempre meu pé atrás, por via das dúvidas (que são muitas, que só pendem para o lado ruim).

E assim que província é sempre província. A gente tem medo de deixar de sê-la. De mudar sua cor e seu nome oligárquico, de mudar a governanta da casa grande. Eu compreendo a dificuldade, aliás, fiz psicologia senão para que, para compreender o que os demais sentem. (Fiz pelo medo de mudar, também, mas, não vou me entregar tanto mais hoje.)

Eu espero que a gente tenha mais coragem. Eu quero que eu tenha mais coragem. Ontem, por exemplo, eu apostei na mudança. Não venci. Mas já dei o meu primeiro passo.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Beatrizes

Então eu ponho para tocar nossa música, nossa música preferida. E foi sem intenção, sem esse fim específico, simplesmente calhou de eu querer ouvi-la. Então eu tomo banho enquanto ouço e vivo noutro tempo, noutra era, quiçá. Aquilo era outra era. Então eu danço sem movimentar-me, danço em devaneios, em pensamentos encontrados, muito bem encontrados. Eu volto aos seus braços e te ponho do meu lado, bem do meu lado, bem se parecendo comigo, que nem antes.

A música me pergunta onde o fio da meada desprendeu-se, onde a melodia entrou em um ouvido diferente, e fez desse ouvido diferente uma história outra, um caminho novo. Um caminho novo e longe. Eu evito me defrontar no espelho para não perceber a diferença, pergunto se as alças tecnológicas e as demais gambiarras que foram feitas estão realmente dando conta, e, é mais claro que a enorme distância, jamais darão.

A música me traz a sua presença e os seus ideais. Me traz o espelho que eu realmente desejo, não esse de agora. Ah, esse agora. E então eu me ponho a pensar, à medida em que há música, se é possível reinventar e viver um novo melhor. Eu espero que sim. Pois pareceu distante demais, até impossível, o estado real e antigo de nossos pensamentos, sorrisos e respiração em ritmos idênticos, e nossos.

Vou em busca.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Sou uma farsa

Sim, acho mesmo que eu poderia mudar de casa. Porque o caminho de volta, sempre o mesmo caminho de volta, e, quando não é o mesmo, sei por quê não é, deliberadamente escolhi fazer diferente pelo motivo mesmo, vai me trazer as mesmas imagens. Quase que sempre. O horário da noite, ou o ar de domingo à tarde. Domingo à tarde. E a casa, a minha casa. 

Então, se o retorno e a permanência em mesmo lugar deixam todas as outras coisas, simbolicamente, em mesmo lugar, eu é que preciso sair dele. Não? Nada mudou, essencialmente. O que aconteceu foi que eu descobri indumentárias diferentes, um ou outro ar diferente, porque o ar eu também pensei em mudar, eu também tive de mudar, mas só foi possível muito pouco, e nesses ares e indumentárias e máscaras, foi como eu consegui continuar. Foi como eu adormeci e acordei dias e dias, e mais, é como hoje eu planejo meu futuro. Tive de escolher novas roupas, tive de usá-las, de novo, simbolicamente, preciso deixar isso claro?, e assim ir. Exato, foi mais uma nova pele, novas peles, outras. E assim sinto-me mentirosa, indecente, também fútil. Porque adquiri superfícies, vivo de construí-las, mantê-las, cuidá-las para que o desastre não se dê - eu volte exatamente ao de antes, em carne e osso. 

Estou sendo uma farsa para quem senão para mim mesma. Cabe interrogação (?).

Passa tempo

Então sempre vai ser assim? Então sempre vai doer, e sempre vou lembrar sem querer, ver sem querer, e sentir por que não tenho outra escolha? Então sempre vou achar que o problema foi meu. Que o investimento, antes da rejeição, é o pior castigo que alguém pode ter, e por que, por que comigo, e por que mais de uma vez. Uma segunda vez. E então vou escrever de maxilar travado e de dedos frouxos, e me arriscando a afirmações peremptórias que não sinto, não é bem isso, não vai ser mais assim, e passou. Passou.