segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A ressaca e o depois

Demorei para escrever sobre a eleição porque pensei demais sobre escrever sobre a eleição. Pois não entendo de política. Não acompanho, me dá preguiça, às vezes, não sei das informações vindas da fonte, mas só do ouvir falar. Eu acompanhava quando a redação do vestibular me ameaçava com esse tema, e eu tinha de me garantir na prova. Cinco anos depois, estou na mesma situação, mas nem isso. Meu mundo cor-de-rosa de psicologuismos me prende e me traz confortos, muitos confortos.

Acontece que, em determinadas circunstâncias e momentos de sua vida (você se torna adulto e um pouco responsável e um pouco consciente), ao menos um pouco de política você tem de provar, tem de tirar uma mordida. Isso equivale a ler, votar, e, principalmente, pensar.

Eu hoje dirigia pelas bê erres 101 e 304 para mais um dia de estágio curricular. E com a ressaca de ontem, extremamente surpreendida ainda, pois eu vi o placar se inverter só porque subi para tomar banho e voltei (não era para eu ter tomado banho), em um curto e inacreditável intervalo de tempo. Eu lembrei que, por quase cinco anos, eu não almejei sinceramente estar fazendo o que eu estava fazendo no momento em que pensava sobre o que estava fazendo. Na verdade, antes desses cinco anos, eu já não quis fazer, quis "radicalizar", como bem diriam meus pais conservadores (sem o sentido político, apesar de que essa qualificação também caiba neles). Só que faltou coragem. Eu pude apelar para a extrema racionalidade da parte deles, para o caminho dito mais confortável e seguro. Disse que não. Eu pude apelar para o meu caminho, arriscado, novo, até pueril. Também não. Escolhi um meio termo por causa do medo de que desse errado, e do medo da represália - que faz parte.

Eu continuei, ao longo dos anos, querendo mudar. Não mudei. Porque, assim, não estava assim tão ruim... Estava bom. Às vezes achava que era eu que não via o lado bom das coisas (de tudo). Mas, outras vezes, eu criava uma convicção sincera de que tinha de mudar. Mas, na hora H, é preciso pensar melhor... E deixar para depois.

O medo da mudança me trouxe a um caminho que não escolhi deliberadamente. É um caminho que não me faz infeliz (não mais), mas não foi o caminho da mudança, de modo algum. Foi a escolha brotada pelo meu mundo cor-de-rosa confortável, citado aí mais acima.

E é com medo de fazer diferente, que a gente não faz. Que a gente não desiste do casamento, não muda o emprego, nem tranca a faculdade. Que a gente come o mesmo prato no mesmo restaurante de sempres (plural), que optamos pelos destinos conhecidos em viagens, em experiências, e é por medo de mudar que vamos a cartomantes, por que não ir? Eu fui. Assim, a gente dá uma repicada no cabelo porque teme cortá-lo (por mais que queira), muda o prato mas não o restaurante, propõe a segunda lua de mel para não ir em busca de um segundo marido, e se atrapalha com "projetos paralelos" para não desistir do emprego que faz mal.

Pode ser que esse seja o tipo se insight sem nenhum sentido, porque falo muito intimamente de um plano individual, pessoal. Mas me explica, de alguma forma, quando milhares de individuais, de sujeitos com medo de mudança sustentem uma não mudança, ou leves mudanças, mas nunca uma mudança completa, porque isso lhes dá medo demais. Não dá para confiar no diferente, dá? Ou você acredita no seu oposto à primeira vista? Eu não. Mas posso tentar acreditar nele depois de muitas vistas, encontros, anos. Ainda assim, é capaz (é prudente!) deixar sempre meu pé atrás, por via das dúvidas (que são muitas, que só pendem para o lado ruim).

E assim que província é sempre província. A gente tem medo de deixar de sê-la. De mudar sua cor e seu nome oligárquico, de mudar a governanta da casa grande. Eu compreendo a dificuldade, aliás, fiz psicologia senão para que, para compreender o que os demais sentem. (Fiz pelo medo de mudar, também, mas, não vou me entregar tanto mais hoje.)

Eu espero que a gente tenha mais coragem. Eu quero que eu tenha mais coragem. Ontem, por exemplo, eu apostei na mudança. Não venci. Mas já dei o meu primeiro passo.

Um comentário:

Fábio Farias disse...

Bela crônica em Bia :) se garantindo bastante. Gostei da leveza das palavras e da fluência do raciocínio. É isso daí mesmo, as pessoas tem medo da mudança, de sair da zona de conforto, de arriscar. Viver é mais difícil do que a gente pensa, às vezes.