segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Com Carito,

Foi mais com curiosidade que entusiasmo que me dei a ler meu livro novo: Atestado de Órbita, de Carito Cavalcanti. Pesquei um comentário positivo sobre o livro enquanto escolhia qual dos muitos comprar. Como eu sei que, comprando o livro, não compraria também o tempo em lê-lo (não a essa altura do ano), me dignifiquei a ficar somente com um. Fui experimentar.

E enquanto atolo e furo a fila de livros em espera, desrespeitando, por exemplo, um Mario Prata e ainda os Monterroso, me dispus a folhear o Atestado e... não consegui mais parar. É livro de se ler de um fôlego só, de rir, às vezes até alto, e de compartilhar com quem estiver por perto o que o autor te diz, se diz (sem trocadilho caritês).

É um livro livre, de palavras bem escolhidas, ou pouco escolhidas, porque livres, e mais, é um livro belo. Eu achei. Me surpreendi com a escrita solta, as galhofas, as verdades, o sincero Carito. Não conheço, assim, de conhecer mesmo, o autor, só de autógrafo de lateralidade suspeita (igual à minha), mas é um livro que te faz pensar sobre quem o escreveu - tanto quanto ou mais que as próprias historietas.

E fiquei a adivinhar se ele tem um bloco de anotações nervoso, onde faz anotações nervosas, porque a cada palavra, ele vê poesia, e escreve. Ou se ele usa algum eletrônico do tipo ipad (?) para ajudá-lo em ser mais rápido. Duvido. Ele tem aura de poeta autêntico, não modernoso para assuntos de sua própria literatura. Imaginei um Carito que enquanto está numa conversa, não está. Porque a cada palavra, sua cabeça cria poemas e textos inteiros, e trocadilhos e quebras em letras, e novas palavras e neologismos que ele vai... Seria o Carito uma espécime de Transtorno de Déficit de Atenção, com hiperfoco nas palavras e seus sons? Não, nas palavras e sua semântica, e mais, nas palavras e seus sons e semântica e seus grafismos. Um TDA com suposta alta habilidade. Eu vejo.

O livro é surpreendente, leve, gostoso de se ler. Tem gente que não gosta quando você usa adjetivos próprios para outra categoria de substantivos (alimentos - gostoso), mas é que eu tentei ser mais concreta. É um livro de poesia concreto.

Seguem trechos. (Aviso de alerta para leitores disléxicos.)

~
Minha poesia nasce do espanto. Minha poesia nasce do ex-pranto. (...)

~
Aparelho de barbear para peles sensíveis, pasta
de dentes para dentes frágeis e gengivas delicadas...
Mas não há nada para corações sensíveis, frágeis,
delicados...
Supermercado reieira.

~
poeta é assim mesmo triste
ao morrer de desgosto
o poema cai
no meu gosto.

~
Tenho medo de objetos cortantes. 
Principalmente palavras.

2 comentários:

Vanessa disse...

sim sim sim!
Vou lendo no ônibus e rindo, enquanto ele mesmo recita outras coisas no fone de ouvido, breves incandescências. Essas coisas (o livro e esse texto) nos faz ficar tão inspirados, dá até vontade de ter os mesmos pensamentos que vocês têm na cabeça. Roubo suas palavras e, pra mim, o que leio é meu. Como essa resenha poética. Como o Atestado de Órbita.

Flavio Freitas disse...

PQP....até eu me emocionei com os comentários acima. Que dirá o próprio autor. Precisamos lhe conhecer BIa Madruga. Bj, Flavio Freitas