terça-feira, 6 de novembro de 2012

A favor dos não atendedores de celular

Eu venho aqui falar em favor deles. De mim, claro. Meu negócio é sempre falar a favor de mim.

Nos dias de hoje, quem não atende celular costumeiramente do tipo sempre, é hostilizado, estigmatizado. "Vai ligar para Beatriz? Coitado. Força no send." "Nem ligue, que ela não atende." "Eu nunca liguei pra você pra você me atender de primeira." E a queixa campeã: "E se tivesse acontecido alguma coisa comigo?! E se acontecer alguma coisa comigo?! E se eu precisar de você em uma emergência?! Como é que faz, se você não atende o celular?!".

Meu filho, primeiro. Necessariamente, você é uma pessoa muito interesseira. A sua maior necessidade em falar comigo é para quando você precisar de alguma coisa? Por isso o seu desespero em eu não atendê-lo?

Agora que não atendo mesmo.

Eles nunca dizem "eu querendo te dar uma boa notícia, e você não me atende!". "Eu querendo ter notícias suas, saber de você, aqui chorando de saudade, e você não atende minha ligação." Ou, mais: "se eu estiver na emergência real de precisar tomar uma cerveja, você não vai me atender? Me atenda, pô". Isso não. Apesar de que eu já ouvi essas "queixas", autênticas queixas. Mas o negócio é a pessoa precisar de você.

Meu filho, segundo. Que tipo de pessoa eu sou pra você que, em uma emergência, você vai ligar logo pra mim? Eu não sou médica, nem tenho porte de armas, nem dirijo rápido, nem sou chefe de banca examinadora de períodicos científicos, responsável pelo prazo de envio do seu resumo. Por que, filho, seria tão emergente assim me ligar? Não posso te salvar de uma morte iminente, matar o assaltante da sua casa, nem invadir o computador do chefe da banca (porque também não sou hacker). Então, onde está a urgência escrita nas costas da minha camiseta?

Hoje, o fato de um telefone ser portátil significa que você deve atendê-lo em todo lugar e circunstância, e rápido, e logo, antes que a pessoa do outro lado comece a ter palpitações e reproduza o comportamento humano mais irritante no universo das telecomunicações: ligar euforicamente, repetidamente, como sob efeito de anfetamina, para o sujeito do outro lado da linha. Se a pessoa estiver no dentista, atende! No trânsito, atende! No banho, óbvio, atende!, quem é você para não carregar o celular junto contigo no banho? No meio do sexo, atende. É só parar e continuar depois, porque vai que é uma urgência!, e na sala de aula, claro, não existe essa desculpa. Afinal, você faz Psicologia. O que sua aula tem de tão importante para aprender?

Um comentário:

Deyze Ferreira disse...

Me senti contemplada!