quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Ainda em defesa dos não atendedores

(Pensei sobre o não atendimento dos celulares como uma falha de caráter, atenção, ou consideração (!). Pensei.)


Percebi que telefone, pra mim, é troca de intimidade muito grande.

Vai dizer. Eu não saio ligando para semi-conhecidos ou pouco conhecidos com intuitos não claros nem urgentes nem imprescindíveis de contato voz a voz. Você gosta de contato voz a voz? Seu promíscuo. Eu não. Deter-me a só ouvir e só falar, assim, perto do ouvido do outro (falar no celular é falar dentro do ouvido do outro, vai dizer que porque é telefone você acha que não?) eu não faço com qualquer um. Cadê sua seletividade?

Não, minha voz não é absurdamente sexy, nem pouco sexy, nem normal, ela provavelmente é feia. Nem eu fico excitada com vozes alheias. Não é bem isso. A intimidade que falo é do nível social.

Se você não é meu amigo, com quem eu converso quase diariamente, cuja voz eu, além de conhecer, devo gostar, afinal, fiquei sua amiga, ouço sua voz quase sempre reclamando de si e dos outros, você não tem o direito de me ligar sem motivos claros urgentes e imprescindíveis de áudio. Eu não quero cochichar no seu ouvido. Não me sinto à vontade. E falar ao telefone é cochichar no seu ouvido.

Eu preciso entender qual a das pessoas que, depois de insistirem por três ligações, receberem uma mensagem com "fala aí", "oi, flor", quando sou feliz, ou até o óbvio "manda mensagem", insistem em ligar. É cognitivo ou emocional, o seu problema? Pode ser uma dislexia ou uma carência absurda. Pode ser uma falta de bom senso também.

Não gosto de pessoas dadas. Não venha ser "dado" pra cima de mim. As pessoas que insistem em ligar mesmo recebendo mensagem sugerindo, pedindo, implorando, que o outro escreva, e não fale ao ouvido, quase sempre estão em condições de mandar mensagem, mas não o fazem. E o conteúdo? Urgente de cochicho? Nunca. As mesmas pessoas que insistem na ligação, cochicham sem necessidade.

Também não reclame que eu não atendo celular dirigindo, mas mando mensagem dirigindo. Pra mim, que não gosto de cochichos, de vozes dentro da minha cabeça (não tenho esquizofrenia), selecionar toda a minha atenção para uma voz é ato impossível. Quando estou falando ao telefone, sempre, sempre, eu, sempre, sempre é todas as vezes, certo?, me distraio e perco algo que você falou. Não reclame. Eu perco. Eu não te vejo nem te leio em palavras. Eu me perco. Eu vou ler umas palavras enquanto você fala desnecessidades dentro da minha cabeça. Eu vou dividir a minha atenção, que nunca vai ser exclusiva pra uma só voz. E, se estiver dirigindo, o que é pior, eu vou errar o caminho e te dirigir (!) todo o meu ódio. Vou criar uma antipatia com você, já pensou?

Então, é mais fácil (vamos lá, ano de estágio!) ter atenção alternada para mensagem/trânsito, do que atenção simultânea, que não existe, para voz/trânsito. Como é que eu vou ouvir e entender o que você me diz, e dirigir? E os buracos? E os limpadores de para-brisa? É mais fácil parar de dirigir enquanto dirige, parar de olhar para a frente enquanto dirige, e olhar para o que eu ou você escrevemos. Porque eu faço uma coisa de cada vez, entendeu? E, pra você que não me conhece, eu mal consigo andar e contar uma história ao mesmo tempo. Eu esqueço partes da história e tenho que parar de andar, pra poder lembrar.

E você ainda me exige um ouvido só seu?

Nunca. Só dentro de um castelo de intimidade, em condições ótimas de humor e silêncio.

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