quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Obrigado por escolher a TAM!

A gente tava na segunda fila de seis da primeira etapa da viagem, que foi até a oitava, e a pobre da criança implorava por uma resposta: "Mãe, a gente não ia viajar?". "Mãe, a gente não vai viajar?". "Mãe, quando a gente começa a viajar?".

Quase nunca, meu filho. Sua mãe deveria ter te dito. Antes de viajar de verdade, existe a sessão pré-tortura aerotraumática pela qual você vai passar, e de onde nunca vai sair bem.

Depois de passar por tanta gente bonita e simpática pra despachar nossas bagagens, passar pelo detector de metais, ir e voltar, ir e voltar, tirar os sapatos e coisa e tal, e depois de esperar em sala de embarque, sentado, depois em pé, na fila, você finalmente entra na aeronave.

É quando tudo começa. Não a viagem, claro.

Os aviões hoje em dia obedecem a um rigor behaviorista de provocar claustrofobia, asfixia e cãimbras em todos os passageiros ao mesmo tempo. Você entra e já se sente assim, associa rapidamente, via condicionamento clássico, e depois segue na tortura.

Se você é obeso mórbido, obeso leve, ou tem peso de um ser humano normal, sente-se gordo e deprimido. Não consegue entrar, né, na tríade de poltronas para miss universos.

Aí, vários seres humanos com peso ou sobrepeso, não anoréxicos, debatem-se em cãimbras e desconfortos, sentem as fobias relacionadas à impossibilidade de não mexer os membros do seu corpo, respirar pouco, receber choros de crianças dentro dos ouvidos, tudo ao mesmo tempo. É a prova de resistência do big brother. Mas ninguém vira líder nem ganha um milhão. No máximo, um panetone da Bauducco no sorteio jeito tam de voar.

A prova de resistência começa, se estende... O comissário Bial não diz por quanto tempo vamos estar ali, mesmo que a previsão seja de alguns minutos. Passam dez, quinze, quarenta minutos. Passa uma hora e meia. Algum problema, produção. Mas não fala pros candidatos, é todo mundo filho da puta aí dentro, não importa, termina de fazer suas compras ou o seu cocô que a gente te espera.

Depois de quase duas horas, mais da metade do tempo previsto para o vôo dessa gente feia, vamos tirar nossa onda, que nessa época de Natal felicidade demais enche o saco. Se levanta, negada, a gente vai mudar de avião. Foi que deu problema no motor. Na embreagem, sei lá.

Mais de duas horas depois, no silêncio absoluto da prova de resistência, dos pescoços doloridos e os choros intermináveis, porque todas as crianças guardaram seus choros de ao longo do dia para a hora dentro do avião, um pedidozinho de desculpa,  vai lá, na falsidade maior que o inglês proficiente do aeromoço.

Isso tudo é só pra quase perder a conexão. Quase.

Na volta, vamos lá. Ao invés de duas horas, só uma hora dentro do avião, sem ninguém saber o que está acontecendo! O importante é o mistério!, veja só. Mais de uma hora depois, a gente fala que se atrapalhou guardando as bagagens... Tem muita mulher aqui, o pessoal vai entender.

O quê? Perdeu a conexão porque a gente atrasou? Menina, corre lá. Você agora só tem a fila da receita federal, depois aquela organização pra pegar sua mala, com velhos e crianças e adultos educados à beira da esteira, impedindo que você veja e pegue seus pertences, depois você passa pela alfândega, coisa rápida, e sua até a fila do novo check-in. Lá, passando dez minutos após entrada no embarque, o que significa cinquenta minutos antes da decolagem, ninguém vai ter deixar entrar no avião e voltar pra casa. Porque a gente tá com preguiça, veja bem. E eficiência e boa vontade não são bem o nosso propósito, por mais que você pague por isso.

Então vamos lá. A gente se atrapalhou guardando as malas, apesar de fazermos isso todos os dias há muitos anos, e, por causa disso, você perdeu seu avião pra sua casa, mentira, você não perdeu, a gente só não quer te colocar nele agora. Porque, assim, você não esperou nada por ele. Você não ficou na fila do check-in, na fila para o detector de metais, para o embarque, nem vai ficar tanto tempo assim preso dentro da aeronave. Que viagem seria essa? Assim tão rápida? Não, de jeito nenhum! Vamos te colocar no próximo vôo, que sairá daqui a quatro horas.

Mas claro que não temos corações tão ruins assim. Sabe o que a gente vai te dar de consolo? Uma refeição! Para cada um de vocês, passageiros, que além de panacas, estão cansados e com fome, e ainda vão ficar em Guarulhos, um lugar agradável para se estar, teremos esse presentão, que a gente finge ser o mínimo que poderíamos lhes dar.

Na refeição, eu escolho o restaurante, que será obrigatoriamente self-service, e, hoje, às oito da noite, o cardápio vai ser feijão marrom, arroz branco, purê de batatas, que acabou, e três carnes diferentes não identificáveis (visualmente, pelo sabor, nem como foram preparadas). Tá ótimo.

Senhora e senhor, vocês têm quatro horas para desfrutar de um aeroporto que, como nós, é esculhambado e desorganizado, de um jantar cortesia da casa!*, e de uma dose de cansaço extra da qual não cobraremos nenhum adendo. Todo mundo no aeroporto vai te tratar mal, e ninguém da companhia vai te pedir desculpa alguma, porque já foram desculpas demais (duas) de lá pra cá (sete dias).

Boa viagem, e obrigado por escolher a Tam!




*Não é meu hábito fazer pouco de comida, desprezar 'o que tem na mesa'. Mas a qualidade do restaurante, somada ao desrespeito da companhia, me deu a liberdade de reclamar do que eles tiveram a nos 'oferecer'. Foi só dessa vez.

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