segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Dezembro e janeiro e eu com isso

Os fins de dezembro são meio eufóricos. São apressados. Parece que a gente tem que correr mais do que o ano todo, mas de um jeito menos sofrível do que quando corremos com trabalhos e obrigações menos festivas. Todo mundo corre. Os estacionamentos estão cheios, os flanelinhas faturam mais, já mandam todo mundo ir estacionando no canteiro central, que não tem mais jeito, os supermercados têm gente, muita gente.

Parece necessário entrar em um clima de últimos preparativos, mesmo que você não esteja preparando especificamente nada. Mas sim os outros estejam. O ar tá mais denso e as vozes vibram mais. Os últimos dias de dezembro convidam muita gente a acelerar, mesmo que a auto-ajuda proclame o dito momento de reflexão. Bobagem. Na praia, o verão já vive o auge e eu vi mais palitos de picolé do que gente nas areias, ontem mesmo.

Tudo para os primeiros de janeiro viverem uma preguiça anunciada, uma ressaca esticada no tempo e nas áreas da vida (trabalho e estudo e lazer e afazeres domésticos - espera, vamos com mais calma, o ano acabou de começar). O frenesi fica para o fim do ano, não para o começo. Não é engraçado? Eu acho invertido, divertido.

A gente corre e se desdobra pelo gran finale, pelo laço do presente, e relaxa para o começo de pés direitos e flores ao mar. Deixa o começo começar depois, agora não dá. É comecinho de janeiro, agora não dá.

Não sei se isso é bom ou ruim. Sei que é sempre assim, é um ciclo mesmo - conclusão máxima para alguém que sempre achou réveillon bobagem, afinal, o dia primeiro de janeiro é só a continuação do dia 31 (não acho mais que seja). São mesmo duas etapas, dois extremos, mesmo que fiquem um bem do lado do outro. Agora, eu começo a achar que é preciso fazer algo de significativo nessas duas pontas, ou pelo menos em uma delas. Aí dessa vez, pretendo começar pelo começo.

Pretendo.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Cachorros e humanos

Algumas vezes já me peguei pensando na nossa relação com os cachorros. Tenho um (uma) há onze anos, o que a configuraria mais ou menos como minha irmã mais nova, onze anos, sim, é uma vida bem longa, mais ainda pra um cachorro, e que me fez pensar porque fazemos tanta questão de manter essas vidas bem perto de nós.

Infelizmente eu nunca chegava a boas respostas. E a que eu mais achava acertar, era uma bem ruim - pra nós. Nosso cachorro faz festa quando a gente chega. Muita festa. Fica triste quando a gente sai, quando a gente viaja, e por isso eufórico quando voltamos com uma mala pesada depois de semanas fora. Parece ser alucinado pela nossa presença. Ele não desgruda, ele parece que sorri pra gente. E ama incondicionalmente. E taí o calcanhar de Aquiles do bicho.

Algumas vezes a gente briga feio com nosso cachorro - a expectativa de que ele só faça o que a gente acha legal é que acaba com tudo. A gente grita e até bate nele (numa imensa covardia; se ele não te mordeu, você não pode revidar, bater é proibido). Vinte minutos depois, se saímos pra comprar pão e voltamos, o cachorro tá alegre como se não nos visse há anos. E te faz companhia até a hora do sono (e durante). Parece que nos faz bem ter algo que nos ame incondicionalmente, mesmo depois de feri-lo. É claro que nem todo mundo faz isso com o cachorro, mas, sim, acontece, acontece sempre. Parece que ele é incapaz de se magoar com a gente, o que me faz apostar que é por isso que fazemos tanta questão de tê-los por perto. Como se quiséssemos ser amados com certa facilidade.

Penso muito nisso quando vejo que Hanna não se cansa de balançar o rabo e de latir e chorar e fazer barulhos diversos de felicidade toda vez que chego em casa. Ela que fica tanto só, que não enxerga, e que há muitos anos só reconhece seus donos pelo cheiro e pelas vozes. E pelo tilintar repentino do sino na porta de entrada. Vez por outra ela entra no meu quarto enquanto estudo (ou finjo que) e fica sobre as duas patas traseiras, põe as dianteiras na minha coxa, ou na minha mesa logo, como que em pé, avisando que ela está aqui, mesmo que não esteja prostrada do meu lado. Eu devo tê-la acostumado a não ficar sempre no meu quarto. E quando eu não estou em casa, diz minha mãe que ela entra no meu quarto e dá uma conferida no lugar (cheira tudo e faz um círculo no espaço). O cachorro tomando conta da gente.

Ainda me assusto com pessoas que não gostam de cachorros. E na verdade lamento um pouco por elas. Ter um cachorro simplesmente não vai te fazer alguém melhor - não necessariamente. Mas criar um cachorro e tentar retribuir à ele tudo que você significa para ele, aí sim, por mais bobo que isso pareça, isso parece que te faz uma pessoa melhor. É no que eu aposto agora.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

E de novo

Comece tudo de novo. Vá, pegue mais folha em branco e comece. Recomece. Se preciso, repita. Repetir é bom. Eu repetiria um quase tudo, um tudo quase todo de novo. Repita.

Faça de novo as malas, tire de novo as fotos, sorria como se a felicidade daquele dia fosse a novidade de hoje. Sorria por novidade nenhuma, e faça isso mais, repita, faça mais.

Volte pra história. Recomece-a ou continue-a ou termine-a de uma vez. Mas volte pro embrulho (imbróglio) e faça algo com ele, de uma vez. Faça duma vez ou de várias.

Não abandone os começos, menos ainda as metades. Os ruins e bons. Volte pros imbróglios ruins e termine com eles. Repita e renove os bons, recomece e faça tudo de novo. Sempre que der.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Começo agora no futuro

E ele me espera dormindo em meio a luz acesa, aos barulhos da rua, aos barulhos da minha respiração e tosse. As teclas que bato com força no computador. Sem usar quatro dos dez dedos. Nunca aprendi a digitar de outra forma, nem a fazer menos barulho enquanto digito.

Apresso. Quero escrever e não consigo. Agora sai, vê se alguma coisa sai. Se eu abrir aquele documento em Word vai me doer. Aquele que já tem coisa escrita. Mas não vai doer mais do que abrir o todo em branco. Páginas em branco me afligem. Inclusive eu diria que os editores deviam evitar as duplas páginas em branco no fim do livro. É uma toda em branco, frente e verso, para dizer que acabou, e outra cuja frente está em branco e cujo verso diz o material no qual a folha foi impressa, etcétera. Basta uma folha em branco para indicar o fim.

Vê? Como é difícil uma folha em branco indicando que devo começar a escrever. Uma folha em branco indicando o começo, pedindo o começo.

Começar e parar.

Eu acho que parei. Foi isso, eu parei. De escrever de ouvir de olhar pra dentro de mim sem mágoas sem pressas sem aversão. Eu parei de não ter aversões e agora tenho várias, e agora vivo delas. Bato as teclas com mais força ainda pensando nas minhas aversões e tendo aversão a essa minha incapacidade recente de escrever.

E a luz acesa. E eu em outro planeta.

Ele bem aqui do lado me esperando enquanto dorme e sonha. Sem aversões que pairam sobre nossa cama.

Ele nu, de botas

Eu pulava na frente dele com o livro aberto e dizia "vem cá, vem cá, você precisa ouvir isso, vou ler só um trecho". Depois "mais esse". "E esse aqui, olhe isso". "Tem mais. "Deixa eu ler a história do começo, espera". "Essa vou ler a crônica inteira, vê aqui".

O Antonio Prata você tem que compartilhar. Tem que ter plateia pra ouvir você lê-lo e para rir com você depois de você já ter rido alto e imaginado a cena em detalhes quando leu na primeira vez. Ele escreveu as imagens em detalhes e com seus respectivos movimentos. E vozes.

Eu ouvia as vozes das crianças e dos adultos, e, a principal, a voz do pensamento do Prata criança. Mas, gente. Ele escreve crônicas desde antes de aprender a escrever. Daí o desespero dele no último dia de aula do jardim dois, quando a professora anunciou com a devida solenidade [sic] que no próximo semestre as crianças aprenderiam a ler. Passou as férias ansioso. Também, a criança que dormia aos sons da máquina de escrever do pai, e cuja mãe trabalhava numa revista pra gente grande, ela "a moça que trabalha lá na editora". Pudera. Comeu o almoço com muita pressa e deu pressa a todo mundo; tinha medo de chegar na escola no primeiro dia de aula do pré e todo mundo já ter aprendido a ler a escrever, menos ele. Seria difícil superar o trauma.

Como deve ter sido superar alguns (ou todos) que estão no livro. Nu, de botas é um livro que você precisa ter e carregar por aí. Deixou meu dia (porque eu li em menos de vinte e quatro horas, não deu pra segurar) mais leve, mais cômico, mais lúdico, e Prata. Ele te faz rir tanto e de tanta coisa.

É o quarto livro dele que eu leio (na orelha de Nu, de botas diz que ele já escreveu dez!, o que me faz crer que editores e livreiros têm escondido Antonios Pratas só pra eles) e, assim como seus outros, mais um impossível de frear a leitura. E mais um que você lamenta (já) ter chegado ao final. Será que ele não tem umas milhares de crônicas prontas pra publicar agora mesmo e eu começar a lê-las... Pensa.

O mais bonito é que o livro é uma infância recontada e bem contada pelos olhos abertos, aguçados e surpresos de uma criança. A criança Antonio. E parece igual a muitas outras crianças e a muitos outros Antonios e a você próprio, e por isso você tem que ler as crônicas em voz alta pra mais gente igual a essas crianças e a esses Antonios e a esse você, para ficarem sorrindo junto, todos. É tão bom.

Me parece que seguem uma ordem cronológica, as histórias. Se sim, formam um romance. Se não, formam um romance. Umas crônicas incríveis de uma infância única e igual a muitas que formam um romance. Um romance. Um grande livro.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Natáis

Que bom, tão bom, chegou o Natal. Essa época de celebração e tal, propícia para fazer quase tudo que você não fez durante o ano todo, tipo ver mais da metade dos seus amigos e ir a mais da metade dos seus médicos, e de quando seus amigos espirituosos (pra quem os têm) ficam dizendo pra você parar de reclamar. É Natal.

Bom é chegar no shopping cedo e ver que todo mundo chegou no shopping cedo, e que quanto mais tarde fica, mais gente chega no shopping - e não sai, acho que ninguém sai daqui, meu Deus, todo mundo preso nessa outra dimensão. Ótimo. Olha as vendedoras, que felizes. Essa daqui foi me receber no caixa e eu pensei que era hoje a nova data de o mundo se acabar, já que o ano passado rolou até disso. As pessoas na fila, ai, as filas, aquela regra absoluta de que quanto mais perto do cangote da pessoa da frente, melhor. Tem uns que cheiram e soltam bafo no pescoço da gente, tem uns que sobem na minha cabeça, pisam nos meus pés etcétera. A gentileza também se faz presente quando o primeiro da fila não ouviu o "caixa livre": todo mundo grita CAIXALIVRE em uníssono, e perguntam o que você fazia dormindo na fila, né gente, lugar de dormir é em casa, ou só depois do Natal. Depois do Natal.

A cidade linda e iluminada e colorida para o Natal, e canteiro de obras pré-Copa; trânsito que não existe mais - agora é guerra no lugar de trânsito; todo mundo satisfeito na rua, é Natal; eu deixo os carros passarem na minha frente e ninguém agradece, é Natal. É Natal. Longe de mim estar usando algum duplo sentido, só porque eu moro aqui. E a gente se perguntando como foi que gastamos mais da metade do nosso salário com porra nenhuma, enquanto prometemos que no ano que vem seremos pessoas melhores, quer dizer, vamos esquecer tudo isso e viajar. O mês inteiro.

Muito bom. Natal feliz, feliz Natal.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Vem

Ainda bem que você fotografa o céu. E desenha-o de vez em quando. Tudo que eu mais quis aprender a fazer bem foi desenhar. Fazer os traços de rostos e olhos, pôr umas pessoas se olhando, umas pessoas olhando o céu, fotografando-o com os próprios olhares. Você. Desenharia você, que desenha o céu tantos dias.

Gosto mais das fotos dos tons róseas e vermelhos; gosto do céu assim, desmanchando o azul sobre nossas cabeças, pondo a gente a querer dormir nesse horário, avisando a noite. E a hora que você chegaria com mais fotos e céus a fazer, vários, me mostrando alguns. Tinha uns que não me mostrava nunca. E eu mexia nas suas coisas para enxergar os mesmos céus que você, logo que desse, eu ia lá e mexia para vê-los (você e os céus).

Os tons vermelhos agora aqui em cima e eu espero você chegar. Todos os começos de noite, sob céus iguais, espero você chegar.

Bem guardados

Parece que de vez em quando os viciados em livros encontram uns livros específicos para se viciar. E para repetir e ler várias vezes de novo, por motivos vários e tolos. Porque é bom, porque foi bom, porque sempre é bom ler e ouvir essas palavras dentro da minha cabeça, esse trecho aqui que me lembra... Ou porque inspira, porque o livro conversa melhor comigo do que eu mesma aqui tentando explicar tudo o que sinto agora. Porque o autor usa as melhores palavras pra contar as melhores histórias que inventou. E isso pode ser tudo um grande exagero, causado pelo vício já avançado.

Dentes Guardados é um dos meus livros de repete. Eu vivo pedindo à mim mesma pra repeti-lo e lê-lo mais, e lê-lo de novo, e, sim, sempre é bom ler os contos novamente. É uma coleção de contos do Galera, são quatorze, e hoje só existe sua versão em pdf (à solta por aí, pra ser lido à exaustão e à repetição, como eu faço).

Ainda não sei porque leio tanto esse livro. Porque repito o ato. Porque as histórias me prendem tanto, ao mesmo tempo que me deixam bem livres dela quando eu clico o esc do arquivo. Não vivo de pensar naqueles personagens. Só no casal do conto Intimidade. De vez em quando eu vejo todas aquelas cenas, sem que eu peça (nem impeça) isso.

Me ajuda a escrever, o livro. Acho que é isso. Deve ser isso. Essa coisa de personagens desconhecidos iguais a nós e a uns tantos perto da gente. E essas palavras bem escritas dizendo tudo que a gente pensa e, principalmente, tudo que a gente pensa e não assume que o faz. É tão poderoso que a gente repete - afinal é assim que os vícios se instalam.

Me ajuda a escrever, eu acho. Acho que sim. Ler os Dentes repetidas vezes me fez imaginar mais histórias e mais gentes para eu falar sobre. Nem sempre consegui escrever uns textos inteiros depois; contos, muito menos. Mas me deu vontade. Me deu vontade de escrever mais, de escrever todos os dias, de ficar exausta junto das palavras (o que nunca acontece). E depois me dá vontade de ler de novo, tudo de novo. Eu não paro. Eu escrevo. Escrevo e leio.

Intimidade, Os Mortos de Marquês de Sade, Dafne Adormecida são as histórias que você vai sempre lembrar. E Triângulo a que vai te surpreender.

Das coisas estranhas de se fazer

Que a gente faz umas coisas estranhas e meio ridículas quase sempre, sem achar que são, porque sempre fez e vai continuar a fazer. Uma delas, uma das mais-mais, top fáive e tal, fica mais pela ala feminina e é, sim, comprar bolsas.

Talvez estejam enganchados por aí os motivos de a gente ter tantas bolsas (eu não). E por não tê-las, aí, eu tive de ir atrás de uma. E por vários dias.

Porque, não sei se tu sabe, mas cada vez que eu entro numa loja eu tomo um susto, levo uma queda, tenho um passamento, e todo o dinheiro da minha carteira se apaga, desaparece. É só entrar na loja. Parece que as coisas andam muito caras, mas acho que é só impressão minha mesmo. Eu não vejo ninguém reclamar. Assim como não vejo ninguém se achar ridículo comprando bolsa. Sofro dessas exceções.

É que tu tem que experimentar a bolsa. Tem que pegar, olhar bem de frente, afastando o corpo um pouco assim, como uma pessoa com hipermetropia faz com o livrinho da missa, pra ver bem como é a bendita. Talvez futura amiga ou inimiga - as bolsas têm esse poder, é verdade. (Outro motivo que talvez explique termos tantas (eu não), querermos sempre procurar por novas, se desfazer das velhas, e que também explica porque umas bolsas ficam bem em mim e não em você e vice-versa.) Depois de olhar bem de frente, experimenta ela no ombro direito, depois no esquerdo. Pega a alça menor e leva naquele espaço entre o pulso e o cotovelo, feito madame, vai que um dia tu precisa ser madame. E faz isso no espaço do outro braço depois. Tem que se ver no espelho de frente e de lado, depois tem que abrir a bolsa e os bolsos (os bolsos!), pode tirar o enchimento, senhora, pra senhora ver como é que fica a bolsa vazia (menina, tu acha que minha bolsa um dia vai ficar vazia?). E depois de ser ridícula por dez minutos você ainda não sabe o que faz.

Passa pra próxima bolsa.

Eu me sentia ridícula experimentando (?) bolsas. Onde já se viu, experimentar um negócio que não passa por cima da cabeça nem onde eu tenho de enfiar minhas pernas. Eu não sei se a intenção é ver se combina com o nosso tom de pele, com a nossa altura, com a nossa roupa, cabelo preso ou solto. Que se for isso quer dizer logo que tem algo de muito errado com a minha pele e altura e a roupa (todas as peças) - o cabelo com certeza sim.

Eu testei de várias formas, vários exemplares e modelos. (Aposto que as câmeras de segurança dessas lojas dão bons vídeos no fim do dia.) Era sempre difícil e ridículo.

Só pude mesmo apurar que o grande "OH" é quando, na primeira experimentada da bolsa, a vendedora grita com os olhos brilhando que tem uma segunda alça que você pode usar também!!! E regulá-la. Não sei o que de tão mágico sempre tinha na segunda alça, mas sei que era outro item para eu experimentar na frente do espelho, na frente de toda a loja, que ficava na frente de todo o shopping e que, aposto, aposto, tinha sempre milhares de pessoas passando em frente à essas lojas de bolsas para ver as sujeitas experimentando (ridicularmente) o acessório por cima delas. Pelos lados, por baixo, por onde elas queiram.

Repeti o exercício na última loja. A vendedora arrancou uma bolsa da minha mão e foi mostrar como é que faz: como a bolsa era maravilhosa, veja. Começou a vestir e a experimentar e a se mostrar de frente ao espelho; usou os dois ombros, braços, as duas alças da bolsa! Repetiu todo o ritual. A bolsa ficou ótima na moça. Que não ficou ridícula.

Comprei uma que mal experimentei e fui logo embora. Sorte.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Covarde bem aí

Aí não. Aí é melhor você me deixar em paz, mesmo, bem do jeito que estamos. Em paz ou fingida paz, porque distantes, justamente porque distantes. É melhor não me chamar pra ir te ver, não mais, talvez nunca mais, acho que nunca mais, apesar de os nuncas serem tão perigosos quanto os sempres, que são mentirosos por demais (e por serem mentirosos ficam logo perigosos). De a gente acreditar e sofrer.

Sofrer. Por isso aí acho melhor, acho melhor não. Irmos cada um pro nosso lado, e ainda bem que moramos longe e ainda bem que não nos vemos todos os dias mais. Seria pior. Seria bem mais difícil. Dizem que assim é melhor, assim se vendo todo dia, porque a gente se acostuma mais rápido. Se acostumar a uma presença indesejável é pior que se acostumar a uma ausência aceitável. E foi isso que você se tornou, eu acho, que coisa, uma ausência aceitável e preferível.

Eu não quis assim, claro que não. E você quis sabe-se lá por quê; nem me perguntou nada, nem sequer se perguntou nada. A burrice de não fazer perguntas à nós mesmos, de não ouvir nãos e sins de dentro da gente. Você devia experimentar um dia. Mas essa é a última vez que te converso. E que não sei se convenço. Espero não precisar te encontrar pra ter que dizer tudo isso. Nem te olhar nos olhos. Não, não. Olhar nos olhos, aí não. Mesmo.

Contra o verso

A. mora aqui no prédio lá pelos andares de cima. Todo dia, quando sai de casa, A. chama os dois elevadores do condomínio: social e de serviço. O que chegar primeiro ele(a) pega e desce pra ir embora; tem pressa, tem hora, tem um trabalho muito importante. Chama os dois elevadores do condomínio de 23 apartamentos, todos os dias, quando sai. E quando chega, faz o mesmo lá embaixo. Daí sobe, e, quando assiste ao jornal da noite, começa a xingar nossos políticos de oportunistas, diz que se aproveitam do poder que têm pra engordar os bolsos e as contas e os porta-jóias das mulheres. Oportunistas.

B. estuda Direito na universidade, sempre foi seu  sonho. Isso. É estagiário numa das principais instituições de justiça da cidade. Passou em um concurso daqueles, difíceis e tensos, e ganha um salário mínimo no fim do mês. Quando B. não quer ir trabalhar, ele diz, vai até a instituição, põe a digital para cadastrar seu acesso (o "ponto"), e vai embora. No final do expediente, ele volta e coloca a digital de novo. Tá cadastrado seu expediente diário. B. diz que faz Direito por acreditar que a justiça pode fazer uma sociedade melhor.

C. e D. fazem faculdade comigo. Eles(as), como eu, têm direito a 25% de falta em cada uma das disciplinas que cursam, ao longo do semestre inteiro. Quando C. não vai pra aula, D. assina a chamada por D. e por C.. Quando D. não vai a aula, C. assina a chamada por C. e por D. Encontrei com C. e com D. nas manifestações de junho, no meio da BR 101. Querem menos corrupção no Brasil, disseram nos cartazes.

E. foi minha vizinha em outro lugar que morei. Teve um dia que E. estava manobrando o carro em frente ao prédio e bateu em um carro estacionado. E. olhou em volta e viu a rua vazia; acelerou logo e foi embora deixar a filha no colégio, e trabalhar. Esses dias, enquanto lia o jornal no seu consultório, E. comemorava a prisão dos mensaleiros e pedia mais. "Eles têm que pagar", ela comentava com os pacientes aquele dia.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Agora em excesso

Ele cutucava as roupas que ela usava, e os sapatos. Dizia pra trocar. Aquele tênis velho era coisa de gente suja, mandou ela voltar em casa e ir trocar. Ela disse que não ia mais sair com ele aquela noite se tivesse que subir em casa e trocar os sapatos. Ele deu a volta até a casa dela e ela subiu e ele foi embora e não voltou mais. Nem ela desceu. Outro dia achou o vestido tão grande tão largo e cheio de panos. Troca isso. Subiu e vestiu uma calça bem justa, uma blusa que dava pra ver um pouco a mais. Desceu nos desconfortos pra ver o sorriso dele. Sorriu. Se sentiu melhor, ela, por causa disso. Ele desaprovava os amigos preferidos dela. Acho que porque eles usavam tênis meio velhos e roupas meio largas. E porque eles a aprovavam. Bem pode ser; ele que não aprovava sua menina. Ela amou-o em excesso. E depois de tantos anos em excesso de roupas apertadas e sapatos novos e melhores amigos reprovados e sabotagens de tantas ordens, descobriu que não o amava mais. E passou a se amar em excesso.

É capaz que ele sobre

Vamos apressar um pouco mais. Sua noite, meu jantar, seu texto pronto pra ontem, e os remexidos no meio do café frio que você ainda bebe. Vamos apressar. Vamos logo desfazer esse imbróglio, falar de nós dois, por mais chato que pareça, por mais urgente que seja. É tão urgente e tão possível de postergar. Mas vamos apressar.

Vamos apressar essa noite e a próxima sexta. Poderia ser um feriado e enforcaríamos um dia inteiro e duas madrugadas, logo de uma vez. Seria providencial essa forca. Para que apressasse todo o resto, e a gente apressasse todo o resto.

Vamos apressar minha insônia. Que ela venha e passe logo, apesar de que o logo e a pressa não são a cara dela, não são a cara de insônia nenhuma. Se arrasta. E também você, e seu café, e seu texto pra anteontem.

Vamos apressar mais essas horas, enforcar esses dias. Só não vamos matar o tempo daqui até lá. Pra que, depois de tudo isso que a gente apressar, ele passe vagaroso por nós dois. É capaz que ele sobre. Se a gente apressar, é capaz que ele sobre (sim?).

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Sonhos, pedidos e perguntas

Sonha comigo?
Sonho sim. A cada instante.
Sonha comigo? É um pedido.
Sonho. A cada instante.
E uma pergunta: sonha comigo?
Sonho, a cada instante.

E a ele eu fazia pedidos e perguntas, mais pedidos que perguntas por esses dias. E ele me dava tudo que podia e mais. Me deu os abraços em madrugadas inteiras, e os sorrisos nas que fossem insones. Me respondeu que o futuro seria bom, que, no final, e, principalmente, no meio e por quase todo o caminho, as coisas dariam certo. Quando foi minha vez de replicar e dizer que já estavam indo de um jeito certo, as coisas todas, as fáceis e as difíceis. Se difícil mesmo já é ser dois, sempre dois. E pedir para ser fácil nunca foi feitio da gente.

E me deu os olhos tranquilos nos dias de tanta tormenta. Tormenta boba e tormenta séria. Me deu a calma. E me respondeu sem que eu perguntasse que, sim, as tempestades viriam sempre, mas que, mais ainda, ele estaria de novo ali, ele não sairia de perto de mim. Nem agora nem nunca.

Não saiu. Perguntei se não cansava de mim, se não abusava das minhas fúrias inexplicáveis e do meu gênio solitário, e se não detestava alguns dias que eu fosse assim. Entre nãos e sins, me deu todas as respostas de que eu precisava. E ficou.

Sonho com ele tanto. Tanto.

Ainda bem que me lê

É preciso que você pare de repetir que ficou o vazio e o nada. Que você gastou o crédito dos amores num só, as dores dos amores numa só, e nos cigarros idos e nas cartas em gavetas. E que há alguma vergonha nisso tudo, e alguma vergonha em continuar doendo a história inteira, ainda. E que pare de repetir que melhor seria doer de novo por outra história, que assim não haveria vergonha. Como se houvesse vergonha em amar demais.

Não há vazio nenhum. Mesmo que haja a falta e os pesos, as sensações de que as peças não se encaixam mais, que o molde se desfez. Formar vazios é impossível.

No presente, eles vão cheios. Está tudo no lugar, eu juro, e completo também. No presente, os espaços já se arrumaram de novo. E é pra lá que você tem que ir. Logo.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Vai tudo igual

Uns meses iguais de dias iguais, e anos assim.

Saí de casa e quis olhar mais pro lado de fora das janelas. E todos os prédios da cidade têm agora os vidros verdes, bem verdes, de uma cor que só existe neles. E todos altos e estreitos, imensos e magros, esses modelos de passarela. Verdes. E as famílias se apertando dentro deles. E os escritórios espremidos pelos andares de baixo, espremidos nos milhões e bilhões mal gastos.

Eu indo espremida por baixo, no meio de carros imensos e iguais. Pretos e pratas e brancos. Com tons de brilho, tons de novos. Achei que todos os carros da rua eram novos, hoje. Haviam saído da fábrica nas últimas horas.

E de novo os cinco, os seis, os sete carros esperavam em fila única pra fazer o dito retorno. De novo um sujeito julgou ser certo furar a fila e enfiar-se na avenida usando a mão da nossa esquerda. Ficamos todos esperando, no mesmo lugar. Perdemos a vez para um. E depois para outro.

E almocei no meio dos barulhos que as notícias ruins fazem, e os não-sustos reclamando, já que ninguém se surpreende mais com nada disso. Almocei em meio aos tantos mortos do fim de semana, atropelados e bêbados dito assassinos. E as notícias de caos.

A natureza continua a se vingar em uns lugares.

E os celulares substituem os rostos deles, os olhares e os sorrisos que a gente recebia. E eu continuei a conversa quando ele virou os olhos para as telas e me fugiu. Não me ouviu nunca mais. Perdi todo o tino.

E as moças com os batons de mesmíssimo tom.

E o dia se apressou no fim da tarde, que quando vi já era noite. E de novo eu dirigia pela mesma avenida beira-mar, e, sim, devia de ser os mesmos de novo, aqueles dois amigos na moto com o da garupa levando duas pranchas. Um perigo, um perigo eles aproveitando a vida na segunda-feira, se arriscando a vivê-la de um jeito livre.

E os casais aproveitando a pressa do fim do dia e o demorado do início da noite, do início da janta, do fim do fim do expediente. Quatro ou cinco, acho que os mesmos de sempre, sim, nos bancos das outras vezes, perto das luzes - ou um pouco longe delas. Aqueles dois rapazes da outra vez. A menina em seu debate acalorado e ele com os olhos dele nela.

Repetições rasas que não dizem nada de nós.
Rotinas rasas tão intensas.
E os incômodos e os confortos em estar tudo igual.

domingo, 24 de novembro de 2013

Alfabeto que segue

Amizade e amigos foram coisas que sempre me preocuparam durante minha vida. Que parece que já vai longa, quando penso que tenho preocupações tão antigas.

Pois é. Eu tenho a ilusão de que pra todos, e não pra muitos, mas, pra todos, amigos e amizade são na verdade o ópio da existência, não o problema. A panaceia, remédio para todos os males. Solução. E pra mim foi sempre metade um problema, metade um conflito interno, uma preocupação que atravessou as décadas (duas) e os cenários em que estive. Penso o tempo inteiro nesse ópio controverso.

Me preocupava os grupos de amigos em que alguns amigos eram mais amigos entre si do que dos outros. Minha ficção me fazia crer em grupos cujos laços afetivos fossem homogeneamente distribuídos. Uma massa bem feita pra um bolo ficar bom é assim, e era assim que eu imaginava que era. Mas daí as histórias dos livros (bobos) não se repetiam, e eu perdia uns cabelos com isso (ainda bem que sempre tive muitos).

E me perguntava o que eu tinha de fazer para que o amigo X gostasse tanto de mim quanto gostava do amigo Y, já que eu gostava tanto de ambos, e ambos eram meus amigos, mas só quem me convidava para os aniversários era o Y, e outras vezes o Z, com quem meu gênio nunca bateu. Pois é. Z talvez perguntasse coisas parecidas em relação a mim. Ou não. Na verdade, não. Na verdade, eu não achava que ninguém ao meu redor se perguntava muito sobre isso (muito menos sofresse uns pedaços).

E por essas e outras letras do alfabeto, eu passei uma infância e uma adolescência me perguntando se havia algo de errado comigo, e o que era. A massa do bolo estava esquisita. Consertei um bocado de coisas, me parece. Outras, não, evidentemente (a gente tem defeitos de fábrica e de história de vida que não se consertam). E nesse meio tempo talvez eu tenha conseguido agregar para junto de mim outros ípsilons, que também eram amigos de outros xis, e, também, deixou de me incomodar a amizade inesperada com zês. Mas outras letras incompatíveis nunca deixaram de acontecer, nem de incomodar.

Há amigos por perto que eu tenho dúvidas se devo chamar assim. Pelo menos chamar assim todas as vezes. (Mas se as vezes são um critério, a resposta já estaria aí.) Daí, que depois dessas duas primeiras décadas de vida, me lembro de uma frase que li numa das crônicas da revista Capricho, exatamente nos tempos em que resolver esses conflitos era mais determinante para que a vida fizesse sentido. Acho que foi a Liliane Prata, mas é um acho bem grande e bem velho, com dez anos. Quando ela dizia que além do clichê de que amores vêm e vão, amigos também vêm e vão. E ela dissertava, mas não necessariamente explicava o por quê (e o meu problema foi sempre procurar por esse).

Suas leitoras deviam estar lidando com os namorados que vinham, ficavam, e que elas achavam que iriam durar pra sempre. E que, ocasionalmente, iam embora. Depois de um tempo, iríamos embora deles também. E viria(m) novo(s) amor(es). E ela sugeriu que acreditássemos: amizades também vêm e vão, algumas ficam por muito tempo, outras ficam até para sempre (há amores que ficam para sempre), e muitas vão embora. Os amigos também podem ser passageiros na vida da gente, sem que haja nada muito errado quanto a isso.

O que na época me pareceu um conforto breve para alguém que sofria um pouco com tudo isso, agora é mais um fato pronto sobre o qual a gente nunca pensa. Ou, pior, o qual a gente esconde de nós mesmos, como se também não tivéssemos sido amigo passageiro de ninguém. (A culpa é sempre do outro, eu sei, eu sei.)

Às vezes, grandes amigos fingem um interesse que não existe mais. Às vezes, fingem uma disponibilidade que eles não querem dar, de jeito nenhum, e que empurram pra frente fingindo a vontade. Eles esquecem. Tampam a história antiga com uns problemas cotidianos, com um plano que deu errado. E novos ípsilons e xis podem ser os protagonistas de agora. A rede começa a se rearranjar, parece. E a gente sofre. E passa.

E amigos de outros tempos surgem iguais a nós. Uns que estiveram por perto vão se fazendo partes da gente de um jeito que a gente não espera. E uns de outros cenários vivem histórias opostas, e vêm e somam, e brotam junto com os novos velhos amigos, e com os velhos novos amigos. Os de sempre.

O ciclo se repete, e acontece todo ao mesmo tempo. Os começos e os fins e os meios se dão o tempo todo.

Mas, é provável, há os que ficam para sempre. Há os que sempre estiveram lá. E os que inevitavelmente abandonam sem a despedida. O remédio é não tentar descobrir o resultado pra cada um. O futuro que cada um pode levar, e por quê, e quem, e você. Um alfabeto que quando desisti de montar, deu certo. Ou parece estar dando.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Sabe de mim

Que eu ando sem paciência para nada, e, principalmente, pra tudo. Ainda bem que ele sabe.

Ainda bem que ele sabe que eu sofro, e os por quês. Ainda bem que ele sabe das minhas tampas em cima dos passados, em cima dos meus defeitos, e sabe mais ainda que os defeitos escapam e estão gritando por aí, enchendo os ouvidos dele. De mim. Ainda bem que ele vai se enchendo de mim, no sentido bom que isso possa ter.

Ainda bem que ele sabe que eu mordo, que meus calos são grandes, qualquer sapato aperta com facilidade. E eu saio dando mordidas ou me fingindo de morta. Ainda bem que ele sabe que me finjo de morta e que me encho de ódio às vezes, mesmo achando isso feio. Acho feia muita coisa. Faço muita coisa feia. Ele sabe.

Ainda bem que ele sabe dos meus pecados. E sabe que eu sinto inveja, eu digo a ele que sinto, nas vezes que sinto, às vezes eu sinto. Inveja. Ainda bem que ele sabe que eu sinto preguiça, e sabe mais que quando eu não a sinto, é difícil de me acompanhar. Ele espera. Espera que eu volte. Ainda bem que ele sabe que eu volto todas as vezes.

Eu sei. Que não quero que ele vá. Ele que sabe de mim.

Há graça em mais palavras

Engraçado como a gente estraga tudo tão rápido. Engraçado como a gente briga por nada, se destrata por nada, e guarda mágoa como se mágoa fosse um tudo que nos sustentasse. Engraçado como a gente abraça mais o indevido. Como a gente olha menos nos olhos pra dizer o que devemos. Engraçado conseguir estragar noites ou dias ou semanas inteiras, meses, por... por nada. Engraçado o tamanho das tragédias cujo motivo a gente esquece. O motivo às vezes a gente esquece. Engraçado como na gente dói, e a gente disfarça e cobre com raiva. Podendo encobrir com duas partes de sinceridade absoluta e mais honra. Não fazemos. Engraçado como muito disso é uma questão de honra e a gente finge ser bobagem. E as pessoas terminam sendo uma grande bobagem.

Engraçado percebemos o quadro pintado quando terminamos sozinhos.

Seria trágico. Se não fosse tão cômico.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Sob cílios

Ele veio e sentou bem aqui, quase do meu lado, na beirada da cama, de modo que pudesse me ver, e... cantou. Tocou e cantou a música antiga, que não é nossa, que não é linda, mas que fala de beleza e de como ele me vê. Da beleza de como ele me vê. E cantou me vendo dormir e acordar e senti-lo tão sublime nesse dia.

E guardou o violão e veio ter comigo, veio abraçar e deitar enquanto me abraçava, e me olhar dormir completamente abraçada por ele. Os dois ouvindo, em alguma dimensão, a música não nossa que ele tinha cantado.

Ele me vê dormir e pensa em me acordar e me convidar pra vida. E chama. Desiste, e me deixa e me deita a dormir. E me vê. Eu não respondo e ele sabe que mais do que acordar e sair à vida, eu preferiria de novo o seu abraço.

E tenho.

E ele me olha com olhos que me agarram, tiram fotografias e filmam. Fazem filmes completos de eu só, de toda a complicação que já sou eu sozinha, sem coadjuvantes. Grava esses filmes dentro dos próprios olhos, usando os cílios como cadeados e  os seus pensamentos em trilha sonora absoluta. Não faço ideia de qual seja a trilha sonora pros filmes que os olhos dele fazem.

E me torna triste quando é assim que ele vem. E quando eu choro, beija todas as minhas lágrimas.

Acho que foram os olhos, os cílios fechando as imagens que os olhos viam, a melodia do violão e toda a voz. Acho que foram as lágrimas bebidas. Os dias inteiros que já passaram. Acho que foram, que estão sendo, e deverão ser tudo isso o nosso tudo.

Meus cílios fecham pra guardar as imagens.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Que Festival Literário?

Eu comecei a frequentar festivais literários porque meu pai, com alguma frequência, estava presente neles. Em cima dos palcos ou dos bancos da plateia.

Eu continuei a frequentar festivais literários porque desde essas primeiras vezes, eu percebi que, sim, literatura e festival, literatura e bienal, além de formarem essa rima, são interessantes e passam longe do academicismo. E de diálogos incompreensíveis. Ou, pior, de monólogos incompreensíveis. Na verdade, os protagonistas do palco estão loucos por se fazer entendidos, sempre, e melhor do que se fizeram (ou não) dentro dos seus livros. E isso garante o papo bom. O evento animado.

E continuei a frequentar com mais vontade os festivais depois que aprendi a gostar de ler. Quando vi que o conselho do intelectual não era mentiroso. Os intelectuais têm razão às vezes, é sério: ler é bom, ler é massa, ler pode fazer toda a diferença na sua vida. E faz.

Foi mais ou menos nesse tempo daí que para além dos papos, dos livros, das histórias que se contavam, das experiências segredadas à plateia animada e atônita (normalmente é assim que ela é, mesmo que seja pouca - o que, infelizmente, ocorre tanto), eu descobri o que julgo mais legal nesse tipo de evento. É ouvir a voz de quem você lê.

No sentido literal e metafórico, claro. (Sou apaixonada pelas letras mas não tanto assim pelas figuras; meu hipsterismo-intelectual não vai muito além, eu juro.)

Eu tenho uma relação muito peculiar com meus livros, vulgo cheia de frescura. Eu sublinho, risco e escrevo, transcrevo, marco orelhas por cima ou por baixo, dependendo do código, organizo-os por categoria na estante, não empresto (não), e, sim, olho sempre pra eles com muito carinho. Exatamente. Desse jeito ridículo que você pode ter imaginado.

Acredito que os livros guardam grandes pedaços meus. As experiências de empatia que tive com muitos deles, os avisos e puxões de orelha que alguns deram em mim (acontece; pegue um livro de crônicas e veja o que se dá), e, em muitos, apertos no peito e nas feridas eternas que a gente tem.

E aí, uma ou duas vezes em um ano, na melhor das hipóteses alguma outra vez também, eu consigo ouvir a voz de um livro que fez algo de tudo isso comigo. Ou que provocou tudo isso de uma só vez. Não é bem a própria voz do livro. Mas a voz de quem deu voz ao livro*, de quem tornou-o vivo, e, obviamente, de quem é diretamente responsável pelas experiências que tive lendo.

Talvez eu esteja pondo pedestais debaixo dos escritores, e exagerando no poder dessas vozes que deram vozes. Talvez eu esteja sendo justa. Mas eu queria ver o prazer da leitura sendo mais compartilhado. O prazer de ouvir as vozes, de valoriza-las. E de prestigia-las. Para que, passados quatro dias de um bom festival, eu não tenha de ouvir "que festival literário?!" outra vez.


*Nesse momento, o pensamento e o argumento ficam esquizóides, mas eu passo bem.

A primeira aula a gente nunca esquece

Mas eu pretendo esquecer a minha.

Quando a gente, por motivos provavelmente irracionais, decide, imberbe na vida, ser professor, admirando dois ou três de vinte professores que tem, ou todos os vinte, e, por outro motivo irracional, acha que eles estão felizes na vida fazendo aquilo, a gente só não sabe do maior segredo que eles escondem (ou disfarçam): o tamanho dos monstros que vêem. 

Dei minha primeira aula na última sexta-feira e ela foi, como muitas primeiras vezes na vida, pior do que eu imaginava. 

Não basta a ansiedade eufórica de planejar a aula. Porque hoje o "professor tem que ser dinâmico", "a aula tem que ser dinâmica", "é preciso usar recursos multimídia", e etcétera! Que se danem os professores, foi assim que eu soube, que têm que dar a tal aula em movimento contínuo desuniforme pra que ninguém durma nem se canse. Os alunos não estão nem aí nem aqui nem em lugar nenhum que não seja o grupo do whatsapp, mas o professor que se vire e seja (seja!) dinâmico. A possibilidade de o aluno, e não o professor, ser dinâmico (equivalendo a simples movimentos a cada vinte minutos, sinalizando que está vivo) não foi aventada. 

Enquanto você dinamiza e diversifica e varre as bases de dados procurando algo que sirva (seja dinamicamente interessante), e as borboletas no estômago brincam. Tudo pronto para o grande dia. 

E nos primeiros cinco minutos: acho que matei os alunos de tédio. E o que restou ali foram cópias ou réplicas do que eles já foram. E possíveis zumbis esperando o toque de retirada para ir à caça. Se eu tivesse soltado a apresentação em slides e sentado junto com eles pra assistir, o desastre teria sido menor. Eu acho. 

O professor (ou projeto de) fica na frente deles os meninos morrem aos poucos. Eu não sei o que foi que eu fiz (pra merecer tudo isso etc). Eles enchem os olhos de tristeza, e escrevem nas testas deles uma vontade inexpugnável de estar em qualquer lugar que não ali. Respiram. Suspiram. Inspiram e param de fazer isso de vez. Morrem muito rápido e não voltam à superfície. (Se é que a sala de aula é a superfície ou o direto oposto.) 

Alguns resistem e até falam, perguntam. Ficam até o final. E juram que não foram pagos por ninguém pra fazer tudo isso - uma manobra inteligente que impede que o professor morra durante a aula, podendo falecer logo em seguida, sem problema nenhum, logo depois de ter postado os slides no Sigaa. 

O ensaio geral foi ruim; foi só a docência assistida, e o professor (o de verdade) estava na sala de aula lutando junto contra os zumbis. Foi só o ensaio, mas eu já estraguei o espetáculo. Imagine quando (se) a apresentação for pra valer. 

Dá medo. Os zumbis entediados. Dá medo. 


P.S.: Sim, tenho monitorado meu semblante nas aulas em que sou aluna, desde esse dia.

sábado, 9 de novembro de 2013

É sábado à tarde

Sufoquei uma manhã inteira em sono depois de uma semana que teve mais que cinco dias, de uma sexta-feira com quatorze horas de trabalho ou coisa parecida, de dois pesadelos com gatos e batidas de carro. Quando agora virou rotina aviões passarem baixo, fazendo barulho alto, bem nas nossas janelas e telhados, acordo com eles de novo. Xingo eles de novo. Pergunto o que é que tá acontecendo e que treinamento é esse de que tanto se fala. Imagino os combustíveis gastos nos aviões que encostaram nos prédios da cidade essas últimas semanas. E no que de mais urgente poderia ter sido feito com o dinheiro gasto neles. Ou o tempo.

Tomei café da manhã sem café como quem sabe que vai dormir por mais horas, e pede que a cafeína não interfira em nada. Eu não sabia, mas meu corpo já adivinhara, e dormi até completar o sono que os aviões e os pesadelos interromperam.

Compartilhei a preguiça que vem depois de muitas horas de sono, aquela que avisa que não ter dormido tanto te deixaria mais disposta, isso sim. E você pensa em aproveitar o dia de alguma forma. Desiste. Comi a janta na hora do almoço, dirigi por ruas surpreendentemente cheias de carros, é sábado, é tarde, achei que todos estariam descontando o sono interrompido de mais cedo, mas não, todos iam fazendo algo de útil com seus sábados. Li o livro novo enquanto escrevia textos inteiros dentro da minha cabeça. Perdi todos.

No salão, a dona do estabelecimento assistia ao programa do Raul Gil, com crianças (ou adultos com vozes de crianças) cantando para impressionar jurados. Eu não olhava para a tv, que fica de frente para outro ambiente do lugar. A plateia vaiava os jurados. A plateia vaiava ainda mais os jurados. A cliente contou do velório aonde tinha ido, e aproveitou o ensejo e a certeza própria de que todas as pessoas vivas gostam de saber histórias de pessoas recém mortas, e tragédias que terminam com pessoas mortas, e dispôs-se a falar da vida da defunta. O pressuposto me exclui da sua plateia ideal, que não te dava atenção e lamentava além da morte da moça, a ideia de que, sim, foi tudo uma tragédia e é uma pena ter acontecido, mas as notícias ruins não me alimentam - sou exceção. As manicures suspendiam os alicates e olhavam para a cliente, enternecidas e curiosas, mais curiosas que enternecidas, queriam saber detalhes da vida de pouco antes da morte. A morfina e a vida particular da mulher que se foi. Todos tão curiosos pelas dores dos outros, pelo simples sabor que a curiosidade (e não a empatia ou a preocupação genuína) lhes dá. E pela mera saciedade que aquilo que é fúnebre proporciona a elas. Das coisas que me assustam, ainda.

O programa atravessava a tarde a plateia vaiava os jurados. Minha rua ficou mais vazia e sozinha. A cidade se prepara para a noite que, inusitadamente, hoje ferve. Há muito o que fazer e pessoas para serem vistas e loucas para ver pessoas que só querem sair para serem vistas. Eu vou ao supermercado. Volto para casa, para o abraço, e namoro. Vamos jantar logo mais, é sábado. Anoitece. É dia de ficarmos a dois, a sós. É o nosso sábado que chegou.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Pesadelo recorrente

No meu pesadelo, eu chegava na festa e estavam todos tristes, e estavam todos cansados e sem graça de estarem ali e de não terem ficado em casa no lugar. Pareciam querer estar em casa, ou em qualquer outro lugar que não fosse ali, pareciam querer ser outra pessoa que não eles próprios, ter outra vida que não a deles mesmos. Estava tudo errado com eles e dentro deles. E por ali.

E há dois, três anos atrás, enquanto sorríamos mais e estávamos menos mórbidos e era preferível estar junto do que só, parece tudo imagem de uma vida inteira antes de uma grande tragédia. Que não houve. No meu pesadelo, pareciam todos meio descontentes e frustrados. Numa espécie de frustração posterior, mais funda, pesada, difícil de ser revertida, exceto em caso de extrema coragem em mudar a vida de ponta cabeça.

Os olhos vazios demais. Pareciam esperar que algo de extraordinário acontecesse, que alguém suficientemente engraçado divertisse-os naquela noite. Eles eram incapazes disso (hoje; eram capazes disso há dois, três anos atrás, eu me lembro!). Senti tanta saudade.

No dia seguinte, na semana inteira, e mais pra frente, eu vi as fotos, as mensagens, os vídeos curtos, os comentários sortidos. Vi mais fotos, vi imensos sorrisos. Me senti dentro de outro mundo. Na internet, estavam todos felizes. Estavam incríveis. Parecia a vida real de dois ou três anos atrás.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Espécie de ressaca

De repente quando vimos, estávamos com quase trinta. Ela estava com quase trinta. Era a mais velha das duas, um dado que inevitavelmente te faz lembrar de quando você se conheceram, e como foi quando você conheceu essa que seria uma "amiga mais velha" que você teria em breve. E por muito tempo. E quem sabe sempre.

Quando adolescíamos daquele jeito tempestuoso, com cara de desastre. Quando eu não fazia nem ideia de quem eu era, muito menos de quem eu deveria ser. E fumava e bebia e ia para onde não deveria ir, com vontade de nunca voltar pra casa. Íamos juntas. Conforme devia de ser.

A imprevisibilidade e a intempestuosidade eram as ordens. A falta de planos para o sábado à noite, que inevitavelmente terminava no traço de grandiosos planos futuros, feitos na cama e na bicama, alta madrugada, quarto escuro e domingo meio sombrio pela frente. Eu era uma folha cheia de rabisco e rascunho. Ela tinha um texto bem escrito. Vivíamos de um jeito meio parecido meio próprio meio diferente. Éramos iguais em muito.

Ainda bem que as lembranças falam mais do que as fotos. Infelizmente, há amizades que guardam boas fotos e poucas lembranças únicas. As lembranças ficam com cara de nada, são meio opacas e mais do mesmo; as fotos são lindas, mas sobre dias que guardaram quase nada - e há os que fingem que guardaram.

Nosso caso: as fotos são poucas. Poucas e até belas. Ou poucas e normais. O forte é a lembrança. Nossos dias foram intensos de alguma forma, ou de todas as formas. Quando penso que tivemos uma vida normal e dentro do previsível, imagino que eles foram intensos só em um ou dois terços deles. Ou metade. Quando penso no que nos tornamos e no que poderíamos não ter sido nunca caso não tivéssemos nos conhecido, penso que eles foram vividos bem demais, em intensidade máxima.

Os anos passam. Os dez anos passam. Quinze, vinte. Eles atropelam. E é bom quando de vez em quando eles despertam e dizem: parece que tudo aquilo foi ontem, mas ainda bem que não foi.

domingo, 3 de novembro de 2013

O resto inteiro

O que eu mais gosto e o que mais me preocupa é que a gente vive sem pressa.

O que eu mais gosto é que temos domingos assim, em cores claras. E que o dia segue desse jeito, no ritmo próprio, no nosso ritmo meio lento, com os relógios circadianos mais atrasados do que o normal. E a semana começa sem desespero.

O que mais me preocupa é que os dias correm assim, em cores claras. E as semanas começam assim, sem desespero.

O que eu mais gosto é que os planos vêm com calma. E que os próximos meses e as festas de fim de ano podem ser e serão bem como a gente quer, uns momentos de nós dois, uns dias sem solavancos, e os risos com café e o macarrão improvisado darão boa conta.

O que mais me preocupa é que os planos vêm com calma. E sem medo. E os dias serão assim, assim como nós, assim como os planos.

O que eu mais gosto é que você se acomodou de eu ler os textos em voz alta para que você os ouça. Você se acomodou à minha mania de gostar das palavras, de falá-las em voz alta pra me deliciar, e para conquistar uns outros mais, querendo que você ache isso delicioso assim como eu acho.

E gosto mais foi que me acomodei às suas interrupções de rompantes. Ao seu contrato consigo mesmo de nunca interromper seu próprio raciocínio feito em voz alta enquanto eu conto. Aceito tudo.

E o que não me preocupa é que a gente se acomodou do jeito certo. Um ao outro. E não ao que o mundo espera da gente, ao que a gente espera da gente, às circunstâncias inventadas. Nos acomodamos às nossas verdades, o que eu mais gosto, o que não me preocupa, o que me diz que não devo de me preocupar com o resto inteiro.

Passa

Saudade passa.
Saudade vem antes da hora, vem antes da despedida, obedece a sucessão de abraços contínuos antes do abraço apertado que for o último. Último até a próxima vez.

Saudade machuca antes de doer de verdade. E depois dói. Não se distrai, não se esquece, não se guarda pra depois do almoço nem pro final de semana. Fica avisando que é preciso matá-la se não quer que o mate antes. E vem cedo pra ir embora por último, sugando os últimos segundos da espera, e alimentando o fluxo das expectativas. Elas vivem andando juntas por aí. Difícil ver uma longe da outra.

As duas doem.

Mas passa. Saudade vem, sufoca e passa. E se despede de jeitos diferentes.

A minha morreu lento, sem abraço de volta, sem olhar perto do outro. Sem plano de presente e futuro e o que vamos fazer a partir de agora. A minha morreu lento. Não morreu de volta, de recomeço, nem de tempo. Não morreu porque morreu a memória.

Morreu de ausência, morreu de tédio, morreu de marasmo absoluto de espera. Morreu porque dessa vez ficou de repente desacompanhada da expectativa. Se desculpou por ter vindo com aviso prévio, e antes da hora, e mais forte que o anúncio predizia. E foi.

Saudade passa até virar nada.

Tentando

A folha em branco, o texto pronto, a ideia fixa. A história feita, contada, recontada, incompleta, como deve ser. Minha história incompleta que já terminou. O texto pronto há dias, há meses, ou quase um ano inteiro, o texto pronto dentro da gente. A página em branco, e as palavras engolidas, sufocadas, remexidas, atropeladas no caminho entre a cabeça e os dedos, o coração e os dedos.

Escrever dói quando você tem muito a dizer. A você.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O que temos para hoje

Vamos nos contentar um com o outro hoje. Vamos, se vamos. Nós dois vamos.
Vamos nos contentar um com o outro que esses dias correram tanto que eu perdi a ideia do presente que nunca pensei. Vamos nos contentar um com o outro.
Que o dinheiro tá curto, na verdade ele já foi curto, agora ele falta, e não tem muito mais do que uma geladeira sem graça para hoje à noite. E nós dois decidindo o que fazer com o que tem dentro dela.
Vamos nos contentar um com o outro hoje. Que o tempo desse dia aqui também corre, acelera, é morto pelo trânsito, é sufocado pelos relógios da casa (são muitos). E as horas que restarem é melhor que sejam preenchidas com nós dois. Ficando cheias.
Vamos nos contentar um com o outro hoje. Não tem programação à nossa altura na cidade. Nunca tem, hoje muito menos. É quarta-feira.
Vamos nos contentar um com o outro hoje.

É tudo. O que temos.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Academia tem dessas coisas: do que tem na academia.

Academia tem dessas coisas né.

A moça da recepção me tentava cativar com seu sorriso herbalife falando de um possível programa verão. "E aí você já se prepara para o verão!". Quando a única forma de me preparar pro verão é comprando um ar-condicionado, é óbvio. Ou me preparando psicologicamente por não ter comprado um ar-condicionado para passar o verão.

Tá certo. Me vê uns quatro meses aí.

O sorriso herbalife insistindo pelo plano anual. Porque quando você faz a soma, divide por doze, subtrai e dá um desconto a si mesmo por ter escrito sete cheques à mão, em pleno 2013, você vai ver como vale à pena! E eu sabendo que quanto mais ela insistisse menos tempo eu ia querer ficar ali. Um ano, deus me livre. Tenho que me preparar psicologicamente pra isso também, se for o caso. Não foi.

No primeiro dia, a professora pergunta de supetão: qual seu objetivo? Assim? Calma, no meio da academia. Tá todo mundo vendo, professora. A música tá alta, mas sou dessas que quando conta um segredo o trio elétrico desliga e a boate faz voto de silêncio. Não vou te contar assim. Aliás, você não me disse nem seu nome; foi logo perguntando sobre meus objetivos.

Quando eu dei conta que não sabia nem o que estava fazendo ali.

Sei lá. Só manter mesmo. Só... Ela virou as costas e deve ter ido escrever qualquer coisa na ficha que eu talvez um dia entenda o que quis dizer ("saúde", "tonificação", "bem estar - zero projeto verão", etc.).

Aí perguntei se eu deveria estar ali, já que minha resposta não foi "hipertrofia dos inferiores"; "secar"; "detox"; "rasgar", ou qualquer outro termo desses que vocês usam o tempo todo e eu não sei o que querem dizer, quase todos.

E eu comprovo. Existe algo que quebre mais do que impressora HP e celular Sony Ericsson. Esteiras. E toda academia tem suas esteiras de estimação, aquelas que mais quebram, que quase sempre estão ali, encostadas, com a placa Manutenção em cima delas. Preguiçosas. Vagabundas. Mau exemplo fitness. Ou talvez tenham sucumbido ao peso dos músculos hipertrofiados ao longo dos anos. Coitadas. Aí descansam.

36,9% dos alunos do sexo feminino conseguem malhar de cabelo solto. Acho curioso, só.

71,5% dos alunos (ambos os gêneros - como vocês dizem?, alunxs) malham usando o celular. Conversando no whatsapp: 70,05% desses 71,5%. Acho difícil, só. Eu não consigo malhar e ouvir música ao mesmo tempo que me atrapalho, por exemplo.

Por algum motivo que não existe ou por alguma regra intra-academia jamais promulgada, os alunos com personal trainer tem status superior na academia, maior direito sobre o uso dos equipamentos, maior direito sobre o monopólio de dois ou três equipamentos, direito absoluto sobre o não revezamento de equipamentos. Ou pelo menos eles juram que têm.

E os personais? trainers? admitem que sim, é fato, verídico, verdade.

E os sem personal que, apesar de se matricularem numa academia que não é só deles, fingem em caras-de-paisagem ou de ninguém-nunca-me-comeu que aceitam quase sem contra-gosto que você também use o mesmo equipamento junto com eles. Até que você se sinta desconfortável o suficiente para desistir de pedir isso a todos eles, e peça perdão por ter se enganado sobre todos (inclusive você!) poderem usar os equipamentos, sem preferência.

Tem quem não faça a menor ideia do que faz lá, reclame de tudo, e ainda perca tempo escrevendo sobre isso. Tudo por um pouco de endorfina.

Academia tem dessas coisas.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Em dia

Acordei com pressa de novo depois de bater no despertador tantas três tantas quatro vezes, como sempre. Saí com pressa para fazer coisas desimportantes sem as quais eu não poderia pôr o dia para frente. Fiz. Perdi a manhã inteira em nada, em claro, fingindo que tomava conta de minha própria vida, porque é capaz de que um dia isso termine se tornando verdade.

Tentei colocar o trabalho em dia de novo, a tarefa de ontem pra hoje, o documento errado nos moldes que têm. Tudo em desencontros. Eu em desencontros.

Pensei sobre o sonho de ontem que não escrevi, que não te contei, e que não consigo esquecer - caminho contrário ao absurdo dos sonhos. Eu lembro. E achei que lembrar de alguém atirando e gritando contra tudo era uma fotografia de um grande nada. Um nada que sonho quase sempre, esqueço quase sempre, e dessa vez só me lembro.

E pus o nada pra frente de novo. O dia e a dor. Simbolicamente, a dor.

Dormi no começo da noite e acordei na hora em que todos dormem. Tomei café na hora em que todos dormem, acendi um cigarro pra me manter acordada com certa dose de sono. O trago.

Escrevi nosso romance.

Sonhei de novo o mesmo sonho.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Feliz dia nós

Com vontade de um café no meio da madrugada.
Você é um café no meio da madrugada. Um excesso, uma contradição, depende, um contra senso absurdo, enquanto que uma necessidade absoluta. Depende de quem peça. Eu peço.

Porque nosso amor tem jeito de madrugada agitada, cheia de vozes. Só nossas vozes. Só a agitação de nossos corpos e nossos nervos, nossas xícaras de café, nossas trapalhadas na língua, eu te dando a metade do copo cheio de cerveja quente. Porque logo cedo eu anunciei que iria encher a cara madrugada adentro. Madrugada agitada a nossa, o que somos. E eu embriagada de cerveja e de outros itens. Nós.

Esse plural para "nó". Nós. Que só podia dar isso, nós dois. Um nó grande de cada lado, dois gênios bem amarrados em nó cego, cada um, dois humores que de tão iguais são impossíveis de conversar, quase sempre. Dois humores feito dois nós. Um nós, no final.

E nessa madrugada agitada onde só existem nós dois, nesse café de contra senso à guisa de vontade, travestido de excesso, mas, em essência, uma bruta necessidade, essas doses excêntricas vão desatando nossos nós antigos cegos surdos mudos eternos. Afrouxando os tempos e os termos difíceis. E amarrando novos nós.

É o que há, é o que resta. Esse tudo no meio do meu nada. Nós.

Feliz dia do primeiro beijo. Feliz.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Rebote

Todos os dias ela anuncia que é sexta-feira. A professora lá na academia. Como que o efeito breve da mentira, antes de nos darmos conta de que é mentira, pudesse surtir algum efeito. E surte. A gente ri, mesmo previsivelmente, a gente ri.

E eu comecei a mentir em voz alta ao longo do dia hoje. Falei que as mensagens iam estar no celular depois que eu saísse do banho. E que por volta das nove você ia de novo me ligar. E sorri sabendo que a semana passaria se arrastando, ou rápida caso nos víssemos antes dela acabar. E eu te vi passando por mim, aqui na rua, e noutras. Umas três vezes hoje.

E eu menti que saberia dizer como você estava se sentindo hoje, mesmo sem ter te visto. Pois menti de termos nos visto ontem, antes de ontem. E eu saberia que pouco tinha mudado de lá pra cá. Os corações iam calmos - menti sobre isso também.

Eu menti em voz alta que ainda não tinha dado tempo de sentir saudades. Que meu peito não apertava antes de trocarmos os sons de nossas vozes noite adentro. Tão perto tão longe, poderíamos estar juntos em carne e osso agora. Mas manter-se distantes por dias inteiros é bom, é de fazer bem. E eu menti em voz alta que eu estava bem.

Menti logo que o tempo era o mesmo, era esse, só esse, o nosso.

Só não pude dividir a mentira com você dessa vez. Sem efeitos. E cem efeitos rebote.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Inexoráveis/mimimi

Que eu não queria abraçar o mundo com as pernas nem atirar para todos os lados. Nem nenhuma outra metáfora parecida que talvez convencesse. Eu tinha um objetivo e um foco certeiro. Então me disse que "você não vai longe".

Quer abraçar o mundo com as pernas e atira para todos os lados e faz mais metáforas e atropela tudo pelo caminho. Inclusive a si mesmo.

De tanto desistir de abraçar o mundo, perdeu quase todas oportunidades. Ficou com a única que queria. Não conheceu nem soube de nenhuma outra.

Mudar de cidade muda a amizade.

Mudar de cidade te muda.

Pensar sobre verdades sujas imutáveis é esperar por um futuro extraordinário. Sem assumir que o faz.

Pendura

E a vida vai cheia de penduricalhos.
Por acaso esses dias lembrei de passados que descobri presentes. Fiquei cheia deles. Penduricalhos são saudades e dias, decisões mal feitas, e outras pessoas que fomos.

Eu me procurando.
Eu perguntei tantas vezes sobre os caminhos cruzados que, vez ou toda, fazemos questão de descruzar, e de estabelecer a ordem quando naqueles dias. Os caminhos assobiam depois, denunciando a bagunça que a gente fez. Com a gente mesmo.

Me enfureci de sentir tanta nostalgia assim. Saudade é de se levar, mas nostalgia é sinal ruim. Sinal de que o hoje tá cinza, e que o dia amanhece sem cores de novo amanhã, logo mais, e desde quanto tempo pode estar assim e ninguém viu - os olhos também embaçados de cinza.

As decisões mal pensadas e o que sobrou delas. A gente cheio de nós (!), com um asco do passado que é só fantasia pra mágoa. O passado cheio de pedaços nossos e umas cores vibrantes jogadas pela descarga.

E por isso os penduricalhos. E os pedaços. E os remendos. Tem dias que o que ficou pra trás parece que é tudo, e agora restou um pedaço escroto de nada, pendurado numa ânsia de viver que não existe mais.

E a gente finge.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A beleza extraordinária da tristeza extraordinária

Devo escrever sobre livro de novo. Mesmo que fale com semanas de atraso. Mas fale.

O título me causava estranheza demais. A imagem da capa me inquietava um pouco, e me indignava à medida que eu lia as resenhas e elas diziam que talvez eu não soubesse muito mais do que o que a capa dizia sobre o personagem principal. Ou. É controverso. De quem seja o personagem principal.

A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves é um livro extraordinário. Com estranheza e inquietude, mantidas ao longo dele e ao final. Mas sem indignação. É surpreendente.

Enquanto as páginas corriam (e elas corriam, eu digo), eu me assustava com a veracidade de uma ficção tão absurda e real no que se dizia sobre ela. É um livro cheio de elementos sobre os quais você nunca pensou, com fatos incomuns e próprios em si mesmos, e personagens improváveis de estarem juntos em um mesmo lugar. Estão ali.

Parece história absurda e improvável. E parece absurda a fixação que você mantém em descobri-la, vê-la ser contada, indo pesquisar a veracidade do leopardo das neves e da sua solidão. A solidão. A capa. E todo o impossível do livro.

Joca Terron é um desses caras "inteligentes de dar medo". E ele escreveu essa história de cenas pouco críveis e de beleza única. A tristeza extraordinária reúne elementos distantes e peculiares que talvez você não leia em história alguma. E eles conversam de jeito simples, como se a história, de tão bem escrita, pudesse soar corriqueira. Por isso as páginas correm, a leitura flui, o suspense ajuda.

Uma criatura em um sobrado no bairro do Bom Retiro. Judeus, coreanos e bolivianos. O escrivão em expediente. Um velho demente cuja história pouco se sabe, nem ele mais sabe. Um zoológico e seu leopardo das neves - extraordinariamente triste.

Um livro inteligente de dar medo.


É típico dos imigrantes: sofrem ao partir de sua terra natal, depois passam misérias por não pertencerem ao lugar para o qual migraram e então, de hora para outra, esse lugar lhes pertence como se tivesse sido sempre seu, e daí passam a não admitir a entrada de mais ninguém. 

Para segui-la, o leopardo-das-neves enfrentou a matilha de cães que seguia a caravana. Como odiava aqueles escravos dos homens, aqueles sujeitos simplórios.

No comecinho da manhã, o Bom Retiro volta à vida e é tomado pelos comerciantes coreanos que batem papo nas portas de suas lojas, enquanto os velhos judeus que restaram vão à sinagoga rezar para que em breve possam aumentar o preço do aluguel pago pelos coreanos, e as ruas então são ocupadas pelos bolivianos, por toda a população de Santa Cruz de la Sierra e La Paz juntas, que rezam para Ekeko lhes arranjar dinheiro fácil para retornarem ao seu país, mas na verdade só conseguem ser explorados pelos coreanos, que devem seus aluguéis aos judeus. 

E,

Sou filho único. Ao menos era o que pensava ser. Difícil explicar qual é a sensação de ser sozinho e mesmo assim nunca ter recebido atenção. É como ser um animal extinto ou um comanche apartado de seus bisontes. 

Eu até estava disposto a ouvir o que ele tinha a dizer,  e para isso tinha enfiado num saco bem fundo não sei quantos ressentimentos filiais que vinha colecionando desde a infância, creio que desde a primeira ocasião em que meu pai mudou de calçada ao me ver me aproximar.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Fuga(z).

Escapo. Aperto o passo. Escapo. Eu ia correndo e fugindo tão forte, tão longe, tão distante. Não sentia eu mesma, não sentia nada em mim. Havia um catalisador de tempos e sensações. Eu corria forte e escapava, escapava tanto. Não sobrava nada de mim.

Abusava dos cabelos soltos e por acaso claros, secos, embaraçados, e eles iam perdendo os nós à medida em que eu corria. Apertava ao passo. Passa, corre, escapa. Os nós se desembaraçando sozinhos, o estômago testemunhando solavancos, os pulmões sem reclamar de nada. Eu aguentava.

Eu corria e sentia cansaço forte nas pernas, fadiga e dor, os músculos gritando e me espiando lá de baixo, sendo testemunhas com raiva da minha insistência. Eu em fuga absoluta, louca para chegar lá, em lugar nenhum.

Escapo. Aperto o passo. Escapo. Eu ia correndo e fugindo tão forte, tão longe, tão distante. Não sentia eu mesma, não sentia nada em mim. Havia um catalisador de tempos e sensações. Eu corria forte e escapava, escapava tanto. Não sobrava nada de mim. Me acabei.

Meu sonho.

Ser(mos) feliz(es)

Se for para ser feliz, venha
E se for para ser feliz, que fique
Se for para ser feliz, chegue
Se for para ser feliz de novo, esqueço

Abro a porta
Abra a porta
Vamos entrar

Em nós dois.

Inexoráveis

O cara que regula o ar-condicionado aprendeu a regra não dita de que o ar é para refrigerar, congelar, produzir desconforto. Não para climatizar.

O cara do ar-condicionado aprendeu que climatizar é sinônimo de refrigerar, congelar, produzir desconforto, e sumir com o controle.

Os sinais de trânsito só entram em sincronia no dia em que você não está atrasado.

E o ônibus chegou no horário porque naquele dia não tinha aula na universidade e você só chegou até lá para ter a viagem como perdida.

O príncipe não vem quando você quer.

Basta aceitar desejar e começar a aproveitar a condição de solteira de um jeito inédito e não querer príncipes ou sapos. Ele chega. E se deixá-lo ir... vide regra anterior.

Te convidar para o emprego significa que ele não será seu. É só passatempo do destino pra te deixar com expectativas. Quando for para efetivar... não vai ser.

Saber o que vem depois garante que você nunca lembre o que vem depois.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Peça de pouco encaixe

Se sentia fora do círculo, sentia com os encaixes frouxos. Mais dia menos dia e continuava tudo igual. Tinha consigo mesma amizade do jardim de infância, que cada vez era menos da mesma, cada vez mais diferente, as duas sendo outras, ou somente um dos lados era outro, nunca deu pra saber. E a amizade perecia. Não devia ser amizade. Ou foi tudo culpa da paciência fraca e do comodismo fortíssimo. A vida.

Naturalmente colocada dentro de grupo, mantida e levada. Pulava o elástico e era do time titular no jogo do recreio. Dava pro gasto, especialmente numa época em que isso determina o início e manutenção de algumas amizades. Isso não é amizade. Perece, parece.

Tinha sal demais ou de menos na mistura, nunca foi possível de se saber. Os segredos escusos e os não segredos, os fatos esmiuçados da vida privada, ali trocados entre os outros. A peça frouxa, o laço frouxo, perecível. Mas foi mantida. Em espécie de satélite, curso à distância, virtualidade. E isso em dias quando os encontros carne e osso eram diários. Foi difícil.

Migrou um pouco. Migrou totalmente de grupo. Voltou pra antes e manteve alguns. Não é como mudar de partido; é natural manter e levar os outros consigo. Sempre. Os outros não levavam-na consigo. Nem esperavam para o caso dela vir. Afrouxa.

Viu a história se repetir. O ciclo, o vício, o cachorro tentanto morder o rabo e terminando exausto. A peça frouxa e fora do lugar, as suas peças escapulidas, perdidas, que ela foi deixando seus pedaços pelos caminhos e pelos braços dos outros. Acreditou que era assim que se fazia.

Terminou em poucos pedaços, tão feia, tão pouca. No final não conseguindo fazer nem parte de si mesma. Fechando o ciclo pela última vez.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Vozes longe

Faz anos que não escutamos nossas vozes, as vozes um do outro. Faz anos que não abrimos diálogo enquanto olhamos um para o outro, você olhando nos meus olhos preguiçosos. E enquanto o tempo vem e passa, que os anos poderiam vir enquanto nós ficávamos a ouvir nossas vozes. Eu esperando sua gargalhada que sei a hora que vai chegar.

Faz anos que não te escuto. Que seu tom grave não ressoa aqui nos corredores, na sala, no nosso sofá. E eu não consigo fazer o esforço e imaginar que te ouço. Tanto tempo que faz.

Liguei aquela playlist para ver se ela me traz as nossas vozes que conversavam enquanto ela, como o tempo, vinha e ia, se repetia. Enquanto ela, assim como o tempo, não nos cansava. Não estávamos cansados de o tempo passar por nós e continuarmos sendo os mesmos.

Faz anos que você não me faz rir vivamente. Que não sabemos mais como é.

Passei hoje em frente à garagem e a mesma caminhonete estava lá. O cachorro não latiu; guardando a voz dele consigo também. Dirigi em silêncio até em casa, até nossos corredores, nosso sofá e teto. Não ousei contar meus segredos a mim mesma, nem sem palavras. Você será o primeiro a sabê-los.

Quando chegar, vou estar pronta para gritar.

E que seja logo.

domingo, 22 de setembro de 2013

Na segunda vez, você desaprende

Na primeira vez, eu vinha no sábado a tarde, a cerca de 60km/h ou menos, visto que no dia que mais acelerei no perímetro urbano eu devo ter ido até 78km/h, e me assustei. Eu estava na faixa da esquerda, nas avenidas que circundam o campus universitário, mais um do meu lado, mais um no banco de trás. O carro veio pela pista oposta, a de cima, indo como quem dirige até a escola de música - e eu ia como quem tinha saído dela. A cada cinquenta ou cem metros, porque eu não faço a menor ideia de distância medida em metros ou quilômetros, só em tempo, então, a cada trinta segundos que se dirige, tem um retorno ali para quem queira passar para a pista de baixo. Ele pegou o retorno errado. Ele colocou seu carro no retorno que só pode fazer quem vem pela pista de baixo. Ele pegou o retorno proibido, desceu imediatamente, em alta velocidade, sem ver quem ou o quê ou se vinha algo na direção oposta (onde deveria com certeza vir, por isso os retornos servem para que você pare), e fez esse retorno proibido para pegar a faixa da direita, para fazer uma contramão, e entrar no bairro do Mirassol. Ele errou três vezes em uma única manobra, pela minha conta. Errou quatro (mil) vezes quando colidiu com meu carro, sem escapatória nenhuma para freio nem desvio de caminho. Ninguém se machucou sério. Quem tava no banco do passageiro sentiu dores no joelho e sente um pouco até hoje. Quem tava no banco de trás arreganhou vários ferimentos de outro acidente automobilístico de um outro dia, que já saravam. Quem era motorista ficou sem carro por trinta dias, enfrentou burocracia, perda de tempo, susto, e tamanha frustração. Pois foi a primeira certeza de que ser responsável no trânsito não é garantia de nada.

Na segunda vez, o carro da frente freou rápido. Eu freei logo. O carro de trás não freou logo e foi mais que certeiro no meu pára-choque. Também sem escapatória, freio ou desvio que ajudasse. Mas com a atenção e a calma que faltaram - antes e depois da batida. O culpado quem era estava claro. No carro do culpado, tinha criança de dois anos de idade, e nenhuma cadeirinha - eu não vi. Também não perguntei. O culpado não queria chamar a perícia, pois no meu carro não acontecera nada, "foi só uma manchinha". Chamei a perícia depois de ela ter chamado seu guincho. Ela disse que não esperaria perícia nenhuma; estava com uma criança de colo e uma senhora idosa dentro do carro (o que não garantiram a calma e a atenção no trânsito, nem a cadeirinha visível). Não poderia ficar lá duas horas até a perícia chegar. A perícia chegou em trinta minutos. Enquanto isso, fui constrangida por estar pela "segunda vez" envolvida em uma batida. A motorista, a passageira, e a corretora de seguros da motorista me constrangeram outras vezes mais. Esperei. O guincho dela demorou duas horas para chegar.

No dia seguinte, a perícia mostrou que por dentro do pára-choque com manchinha tinha grandes danos. A mala sequer fechou depois de aberta. E pelo menos uma semana de carro parado na oficina, na melhor das hipóteses. Salve a(s) perícia(s). Justas.

Depois da segunda vez, você desaprende. Depois da segunda vez, não existe mais sentido em dirigir. Porque, sim, alguém vai bater em mim a qualquer momento. Eu olho para trás e para frente e para os lados de um jeito que nunca achei que fosse capaz de fazer. Vejo o carro de trás batendo em mim, o carro da frente no retorno batendo em mim, o carro que cruzou pela direita colidindo com o carro à frente dele e ambos sobrando em cima da minha faixa dependendo da organização dos vetores e das velocidades dos carros. Claro. No sonho, o carro quebra no meio da rua. E se eu não tomar cuidado, vão bater logo atrás.

Depois da segunda vez, fica difícil dirigir. E mais difícil ouvir e aceitar que "você tem que enfrentar". Como se fosse uma guerra; que é. Porque não adiantou tanta atenção e tanto cuidado. Adianta só contar com a sorte.

E pedir e dizer. Menos imprudência. Mais atenção. O problema de tanta gente dirigindo mal é sempre achar que "vai dar". Tantas vezes não dá, e o que me diz isso é o tamanho da fila na concessionária, de tantos carros batidos, e por isso já prevejo que a "uma semana" se transforma em um mês bem rápido. Bem lento, é verdade. Mas quis dizer que facilmente.

Não dá pra achar que "vai dar", não dá para fazer o proibido, nem ser apressado, nem, muito menos, acidentar os outros com as palavras depois que o acidente tá feito. Você corre cinco minutos e de repente perde o dia inteiro. Economiza dois retornos e fica sem o fim de semana. Sem passarmos para o mérito de quando as perdas são irreversíveis. Se a gente pensar que os carros são pessoas, fica mais fácil o respeito.

Não sei se vou dirigir mais tanto. Não sei se vou conseguir que seja logo. Mas, sim, dá pra ter certeza que o Celta branco à dez quilômetros por hora pode ser eu; mesmo na faixa da esquerda, quando a direita estiver ocupada aos pedaços, ou quando eu for fazer o retorno lá na frente. Dez quilômetros por hora. E se tu jogar as luzes ou buzinar eu não vou sair; nem correr. Vou é ficar mais tranquila, que só assim vou ter certeza de que, nessas vezes, alguém tá me vendo pela frente.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

E tomara que não

E que algo me livre de eu ficar sem você. Já pensou?, eu pensei. Sem você não teria manhã de domingo preguiçosa. Nem domingo preguiçoso. Não teria filme ruim no primeiro encontro, no segundo, no terceiro, e ao longo dos anos. Escolhidos por você. Não teria filmes ruins sempre escolhidos por você. Nem teria os surpreendentemente bons escolhidos por mim e com você dando o braço a torcer ao final - às vezes.

Sem você não teria restaurante preferido no meio da semana. Nem esse café nem esse cheiro de café que só lembra nós dois. Se não houvesse você eu não leria livros em voz alta, nem trechos, nem frases. Porque não haveria ouvidos cúmplices de nós. Não haveria verão com sono e com pouco mar. Nem quem me fotografasse o tempo inteiro em trajes típicos de vida comum, de vida nossa, de ser mais de nós dois que de cada um.

Sem você não teria gargalhada sem precedentes, nem as cócegas, o aperto, o beijo nos pés. Não haveria olhos que escaneiam, ensaiam imagem, se compenetram. Sem você não teria tanta concentração em ser nós dois. E nem teria ternura nem abraço nem assim tanto amor. Muito menos tanto ímpeto de amar.

Ainda bem que há; tudo há. O haver no presente, especialmente, ele há.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Exclusão digital involuntária

As redes sociais me fazem sentir excluída por motivos de: alguns.

Um deles é eu nunca ter assistido ao seriado Breaking Bad (ao que meus quatro leitores ficam surpresos nesse momento, mas como?, afe, etc). Na timeline da vida, aliás, na timeline da minha vida, todos assistem a esse seriado que eu já sei do que trata e que só pode ser muito, muito incrível. Amigas fofas gostam. Meninos grosseiros gostam. Uma pessoa que eu conheço que nunca gosta de nada e que sempre fala mal de tudo, vulgo meu namorado, também aprova. Quase a Capitu para Ana Elisa Ribeiro: "uma sumidade". Aposto que é. Mas já encomendei o download!, porque, também isso, nunca aprendi a fazer sem que fosse carregando trouxas de vírus, outro item e exclusão sócio-digital que pratico involuntariamente. Em breve me sentirei mais alguém na humanidade online.

Outro: são as feministas se esgoelando todos os dias por um mesmo motivo: as cantadas que levam na rua. Elas estão apavoradas com os "nóssinhora" que recebem e seus derivados. Eu não lembro nem quando foi a última vez que eu ouvi um "psiu" enquanto andava na rua. E, sim, eu ando na rua; não é questão de estar mais ou menos dentro de um carro. Eu me questiono se isso é preocupante, visto que anônimos não me cantam, mas se eu disser isso as feministas irão gritar é comigo porque na verdade eu deveria é comemorar que ninguém me joga uma cantada gratuitamente quando eu saio na rua, mesmo que esteja no good-hair-day, isso é sinal de progresso e respeito à minha condição de mulher, etcétera. E tal. Mas eu nem posso enfileirar para o coro, concordar como me senti exposta hoje quando o cara reparou na minha bunda (que não é nada que realmente se ponha reparo). O que me deixa muda, algumas vezes, na timeline da vida - essa timeline da vida tem seus dias temáticos, e os dias feministas dão uns dois ou três ao longo da semana, dependem dos incidentes e da quantidade de cantadas malcriadas que as mulheres (todas menos eu) levam nas ruas.

Mais: meu 3G não funcionar e eu me sentir menos mal em estar vida. É quase isso. Porque eu prefiro, realmente, um teor menos infinito e insistente de comunicação. Um celular que apita vinte e quatro horas ao dia não é de Deus, gente, quem foi que disse que é. Mas de vez em quando me puxavam os cabelos e me botavam de castigo por eu não ter um whatsapp ou por eu ter desativado o facebook. Claro que você não foi pro aniversário, você não tem facebook!!! Porque aniversariantes só usam esse meio de comunicação agora. Nem soube que eu estava grávida de gêmeos e que me casei na semana passada, afinal, você não tem whatsapp!!! Cedi. Mas a tecnologia já me boicotou, vocês estão vendo. (E o fato de eu não fazer nada para resolver não entra na discussão agora.)

Às vezes eu lembro de quando minha única rede social era esse blogue. 2003 e lá vai. Era só ler e escrever, ler e escrever; circulo pequeno, notícias poucas, e a vida das pessoas não era tão movimentada como hoje. Hoje vocês têm dias com mais de cinquenta horas, é demais pra mim. E ainda tão arrumando tempo de levar cantada. "Nóssinhora, hein!".

Vou pôr a série em dia. E pedir umas cantadas ao responsável pelo download. Aí quem sabe eu possa manter um feed de notícias em um hangout qualquer na timeline dessa vida. Antes disso, tá difícil. Peço tempo.

domingo, 15 de setembro de 2013

Palco vazio

Estamos em palco vazio. Somos só nós, nós dois, fingindo que temos um pano de fundo que nos justifica e que se justifica de estar ali. Mas somos só nós, e não vemos.

Não existe plateia, nem coadjuvantes. Mas a plateia imaginamos que existe, e deve estar mesmo dentro de nós; e os coadjuvantes que já foram embora faz tempo. Não deixaram nem os textos velhos, levaram foi tudo. E a gente esperando e os ouvindo sem que eles estejam aqui, com medo deles; vendo fantasmas.

Eu vejo fantasmas tanto e tempo inteiro. Em cima e longe desse palco. Perto e fora de você. A gente separado eu vejo mais. E sonho, agarro e sorrio. Tem fantasma que vem com nostalgia, mesmo que a gente não peça.

Por isso tenho acendido as luzes desse palco para eu ver melhor quem realmente está aqui; para afugentar fantasmas. E só restam nós dois. Só estamos nós dois. E não haverá mais. A possível mudança, única, é que reste apenas um. Mas esse não foi o texto que escrevi.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Estranhamente confortável

E tomava a cerveja em goles fartos, olhando com certa altivez e falando comigo sem me olhar tanto nos olhos. Tantos olhavam para ela. Falava com tantas pessoas diferentes nesse dia, e estava com meninas e menino que eu nunca tinha visto ali. Mas todos confortáveis em estar naquele lugar, em estarem uns com os outros. Ela estranhamente confortável.

Emanava sorriso triste e liberdade. Parecia ter os braços abertos para algo enquanto parecia não se importar com nada. Estranhamente confortável.

Havia trocado os sapatos de salto médio e bico fino por um tênis esporte, uma camiseta, um cabelo bem solto e mais claro. Mas tinha os olhos apertados como eu nunca tinha visto antes, não nela, e pensei sobre choro.

Eu ouvia sua voz mais alta, e ela mal ouvia sua própria voz. Os sorrisos tristes e os goles fartos na cerveja, o garçom aparecendo à cada sorriso como aquele. Parecia combinado.

Mas gargalhava e recebia olhares nos olhos, peitos e coxas. Mal se via tanto disso. Mas chamava a atenção, sendo ela, meio que outra, uma espécie de novidade para o salão.

Sem a aliança na mão direita. Menos serenidade na sua gargalhada, hoje eufórica e rouca. Salão de olhos nela.

Bebeu mais goles cheios e copos inteiros, não voltou cedo para casa. Recebeu mais olhos de outros e teve mais gargalhadas roucas, mostrando-se num conforto estranho em estar viva.

Em insônia, horas depois, descansou o sorriso triste em mais lágrima. Pedindo que a felicidade fingida fosse toda verdade.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Sem escapatória

O problema e a solução é que a gente pensa, que a gente pensa demais.

A gente pensa demais e desiste do amor breve. A gente pensa de menos e aposta os dinheiros do bolso no amor errado, que dura. E dura mais quanto menos a gente pensa. E se ama mais quanto mais a gente pensa. Desafiando nossa racionalidade. O desatino posterior é pensar ainda mais no que pensou antes. Poderíamos ter arriscado, vivido, e morrido em dores. Era para tu ter pensado de menos lá. Pensando muito hoje, eu sofro.

É medindo os atos e as palavras que a gente esquece. Passou o momento e não houve a fotografia da palavra bem dita. Pensei tanto no que dizer que passaram os minutos e a hora inteira. Nunca mais a verei, nem a terei comigo, acho, aceito, é o que penso por hora.

E de pensar demais a gente sente a dor da escolha que é vazio. E se pensar muito, toda escolha é vazio.

Escolhemos a separação. Escolho pensar, hoje, que foi o pior que fizemos por nós, que foi o melhor que veio para os outros. Os outros, que vieram. Que foi o melhor para nós, se então.

O pensamento estanca a gente. E põe pra frente. Põe pingos nos is e pratos sobre a mesa e retira as máscaras e mais, etcétera. Enquanto encobre tudo isso.

Fatal porque presente. Porque somos nós, pensando o tempo inteiro no que somos nós.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Nego até sonhar

Sonhei que passava os dedos entre os cabelos, e ele caía em tufos. Me saíam tufos de cabelo seco e crespo nas mãos, e quanto mais mão eu punha no cabelo, mais cabelo me saía. Já estavam todos soltos, eu é que não tinha percebido.

O sonho acabou enquanto eu sentia o desespero de alguma dor, de uma interrogação com desenho de certeza, circunstância que invariavelmente termina numa grande negação. Terminou o sonho eu numa grande negação.

Eu havia pensado sobre perda de cabelos aqueles dias. Por acaso de propósito. A serotonina que baixava e que avisava, já; era em morte adormecida que eu passaria a pensar - sempre igual. E eu lembrando dos cabelos me saindo pelas mãos. Nenhum desespero é maior pensando do que sentindo-o. Claro. Mas sentindo-o a gente não entende como desespero. É qualquer outra coisa. Sem nome.

Há dias da vida em que dá pra ver muito nítido: parece que perdemos mais do que ganhamos ao longo dela. O que resta é o que merece estar, é o que vale à pena, é o lucro. Há mais cabelos que caem do que crescem. Mais pessoas de passagem rápida do que os de malas eternas. E mais denúncia de ódio consequente do que de amor. Que peso.

Saíam-me os cabelos pelas mãos. Muitos, tantos, secos e crespos, soltos, fracos. Eram cabelos mortos.

E tanta coisa morreu e tanta coisa perdi. É preciso que eu sonhe com cada uma delas para admitir que sim. Já foi. Não volta.

Antes disso vou negar. Terminando em grande negação.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Aluno professor professor aluno

1. Era uma turma de licenciatura e já havia seus alunos que já eram professores. Acho que eram uns três. Na aula desse dia, tinha uma deles, uma aluna que é professora no contra-turno. O professor (também aluno, em outras ocasiões) dava uma aula preparada com o triplo do cuidado. Ele estava sendo avaliado, parece. A aula tinha conceito, tinha texto, tinha exercício. O professor disposto; e cansado do dia inteiro. A aluna que é professora no contra-turno conversava sem parar. Eu não conseguia ouvir o que o professor dizia. Ela conversava e ria. O professor se desconcentrava e esquecia o que vinha dizendo. Pedia silêncio. A aluna que é professora não fazia silêncio.

2. Os calouros chegaram na faculdade e odiaram o professor novo. Professor esquisito. Não escrevia no quadro para ser copiado. Não usava slides. Não falava conceitos um por um nem fazia provas com questões que perguntavam os conceitos um por um. Não colocava textos de fácil digestão para os alunos xerocarem. E ele falava pelos cotovelos. Começava a dar aula e falava de todos os assuntos relacionados ao assunto da aula. Retomava e explicava tudo em conjunto. Fazia o mesmo no próximo tópico. E de novo no próximo. Ia da psicologia à filosofia e às ciências naturais. História, notícia de ontem. Dava os exemplos domésticos e contava histórias de Darwin. Os alunos desistiam da aula aos poucos. Reclamavam do professor que não dava aula, que nunca tinha aprendido a ensinar, como é que eles aprenderiam algo com esse professor, etcétera. O professor era uma das maiores referências bibliográficas do país. Era aplaudido e até esperado nos congressos a que ia. E o público ansioso por suas aulas - aplaudidas no final. O professor ficou carimbado pelos calouros como o mau professor. E ninguém o defendeu.

3. No ensino médio, meus horários alternavam-se entre professores show-biz e professores tradicionais. Os professores que davam show eram os que tinham aprendido métodos escandalosos de dar aula em cursinhos pré-vestibular. Os professores-show usavam seus cinquenta minutos de aula bem distribuídos em sequências de piadas e histórias. Eram bons professores, sabiam bem, sabiam muito, explicavam o difícil em palavras fáceis. Explicavam em pouco. Usavam muitos minutos para que os alunos rissem e vibrassem; eles aprenderam em algum lugar que aluno só aprende quando se diverte (muito). Não necessariamente. Meu professor de biologia era do tipo tradicional. Era chato. Ranzinza. Às vezes um pouco arrogante, e tinha uma intolerância às piadas, enquanto que seus concorrentes-show viviam às custas delas. Os alunos criavam asco fácil do professor tradicional. Eu que só entendia cinquenta por cento de sua aula, porque, afinal, era biologia, usava os minutos finais e os corredores para que ele explicasse melhor aquele desenho. Eu juro que via os olhos do meu professor tradicional brilharem um pouco quando isso acontecia. E isso acontecia pouco, considerando as centenas de alunos que ele tinha. Eu querendo entender a aula. Ele se aproximava de mim e do meu caderno como um pai. Explicava tudo de novo e melhor. E mais. Sabia muito, sabia mais. Diziam que ele não sabia dar aula. É um grande professor. E ninguém o defendeu.

Não precisa de mais escola nem de mais dinheiro nem de mais professor. Se a gente só olha para o professor desse jeito. Também não é solução para vir "de baixo para cima", mas preferencialmente o contrário. Se a professora, quando é aluna, desrespeita o lugar do professor igual como os alunos dela fazem com ela todos os dias, o dia inteiro, se o calouro não fica menos cego, e o aluno do ensino médio mais esperto com o valor daquilo que ele faz (estudar), não adianta de muito: mais escola, mais dinheiro, mais professor bem formado.

Tiraram as medalhas de mérito do peito dos professores. E não param de fazer isso. Todas as idades, todas as classes. Se é melhor fazer do que falar, é bom então começar por aí. É preciso pôr a honra de volta em cima desse trabalho. Todas as idades. Todas as classes. Não é imbróglio de educação básica; pode começar pela aula da faculdade hoje.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Futuro que não foi

Umas coisas e nada demais.
Uns dias e nada mais.
Porque sim.
Porque nós.

Os rostos fixos.
Olhos fundos.
Dez anos que esqueceram de nós,
que esquecemos de nós.

Tudo sempre igual

Perdi os sonhos assim que acordei. Perdi a hora pela manhã. E esqueci as meias confortáveis por dentro dos sapatos. Calcei as novas, sem querer. Comprei o jornal fingindo hábito, notei de ver que não tinha mais do meu cigarro, e senti calor de dia sem nuvens, sem muito. Dirigi com pressa de mentira e vi seu carro três, quatro, umas oito vezes. Entrevi a placa alta e já estava lá, seu apartamento, e você perdendo a hora, passando o café com real atraso, sem dor nenhuma para hoje. Vi você pelos muros do edifício. Peguei a fila, o café, matei o trabalho inteiro. Fiquei de frente à ele vendo-o prostar na minha frente, que não importava. Ouvi as mentiras e criei mais delas pra mim, só pra mim, eu que às vezes pareço ser várias, aos pedaços. Escrevi em obsessão na tarde, e não disse coisa alguma em tudo que escrevi. Meus segredos. Com vidros abertos, com noite com frio, senti os cheiros da rua, pensei nos sonhos e na hora perdidos no começo do dia, nos minutos perdidos pelo dia inteiro, e no todo que perdi.

Encontrei você em todas as brechas.

Não ser sempre assim

Me deu susto olhar para a gente assim. Me deu dó e dor, ainda mais que avisaram. O que havia antes era a situação de mais conforto, e por isso mais valor daí pra cá. E fui avisada; há quem aja assim, no duplo, na espreita, e em haver menos vantagem, não existe mais máscara.

Entrei na sala e vi você antiga, à moda antiga, eu quero dizer. Como antes, como nos velhos tempos, como nós. Quando foi dali para fora era outra, era nova, ou na verdade era tu bem velha, bem tu, e eu me assustando com o zíper do rosto assim escancarado. Que não pudesse ser, era só impressão.

E fiquei me perguntando pelas amizades que duram realmente para sempre. Ficam poucas.

Chegada

E diz que só quer me ver assim mesmo, de cara lavada. E nas roupas poucas e o dia vazio, em fartura de silêncio. Pede que eu vá sem batom, sem cores, sem muito. Que leve-me comigo mesma, pra encontrar nós dois.

E me escaneia com os olhos. Enche os olhos e de repente eu fico cheia de cores. Nos ombros, no colo, nos olhos. Os cheiros ficam em cores; e vibram. O ar ficou mais quente quando eu encontrei com nós dois. Somos nós agora.

Me pede pela falta de adornos e brilhos. Assim, assim. Passa o café. Me chama para ouvirmos o silêncio de novo, e inflar esse balão com nosso respirar, com o peito que arfa. A gente volta pro quarto antes sem nós, que fica repleto. E ficamos repletos, completos.

Não me pede que volte. Porque não quer nunca que eu vá.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Levemente pessoal

Eu li crônicas muito bonitas nos últimos dias. Em verdade, eu li crônicas tão diferentes entre elas e tão diferentes de tantas outras que já li, que acho difícil falar delas, assim. Pode ser que eu não consiga colocar as palavras do outro em palavras, numa citação indireta mal explicada.

Veja lá. Autores que te conquistam no primeiro romance (livro), você leva-os pra casa sempre que encontra com eles na livraria (metáfora). E imediatamente. Encontrei A Última Madrugada do Cuenca e levei comigo pro hotel. (Eu não estava em Natal, o que significou imersão em livrarias, com destaque para a próxima fatura do cartão de crédito.) Não abri nem folheei, não vi orelha (eu nunca vejo orelhas, no sentido literário e literal da expressão, nunca vejo), no máximo uma olhada na foto do autor para ver se era ele mesmo. O mesmo. E só no dia seguinte descobri que leria suas crônicas, e não mais um romance.

E foi uma surpresa que acompanhou o livro inteiro. Cuenca escreveu crônicas que terminam e/ou que são permeadas com muita sutileza. Não há leveza, necessariamente, mas beleza. Em verdade, ele alterna o sutil com o profundo, algumas vezes; coloca em superfície as imagens nítidas, mas subscreve com intensidade. As crônicas têm seu quê de conto, mas não sei se ele iria gostar dessa comparação.

Porque nem vale. A Última Madrugada é uma coletânea de crônicas muito próprias em si mesmas. Parece que muito pessoais. O cotidiano delas não é assim tão passageiro, mas algo que fica. E, por isso mesmo, são crônicas cheias de imagens (sentido figurado, só), com cenas, com memórias, com traços de lugares e episódios que são possíveis pra fotografar com rapidez.

As fotografias são de países, do mundo, de arte, de música, do Rio, e de memórias de nossas vidas. O arsenal de temas impressiona, e algumas vezes afasta um pouco o leitor daquilo ali; há muitos países e gentes, nomes curiosos, fatos também assim, há muito de desconhecido por ali, e a distância é inevitável. O que faz com que se aprecie, mais do que se critique. E aí eu fico aqui tentando apreciar com minhas palavras. Não sei se faço jus.

Os pontos finais dos textos surpreendem. Porque o término quase sempre é de um jeito sutil, pontual, espontâneo. Os olhos arregalam e sorriem, de vez em quando, surpresos com aquela frase com cara mesmo de ponto final. Ou de laço.

Trechos que ficam:
Como "eu te amo" é daquelas frases que só têm sentido quando ditas pela primeira vez.

Escrever uma crônica dedicada aos pierrôs que descobriram seus amores nas mãos do alheio, a boca aberta em outra, fazendo gargarejo com suas lágrimas.

Porque a verdade é que ainda acredito na metafísica e, pior, em Paris como metáfora de existência - cada vez que venho aqui, conheço menos a cidade, ela é como uma mulher ou a própria vida.

Simulamos que nos importamos muito uns com os outros, o que é doce e necessária mentira.

À espera que os minutos se transformem em frases, e as horas em parágrafos - para que não precise mais escrevê-los.

(...) enquanto procuro por um rastro dos seus olhos nos olhos da gente que passa pela rua.


E os (meus) destaques: Ore por mim; Os objetos da mulher; As últimas vezes; O homem polvo; Dinâmica de grupo sob luz estroboscópica; O homem de trinta anos; O último brasileiro; O casal que se beija; A última madrugada.


~ A Última Madrugada, de João Paulo Cuenca. Editora Leya, 2012.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

A terça básica

Todo mundo surpreso. Todo mundo com vergonha agora. Estarrecido. Indignado. Todo mundo mais que isso. Aonde tanta gente enfiou o respeito e a noção breve e limitada de que existem mais pessoas no mundo além de você, mais pobres, mais famintas, mais difíceis de viver com... respeito. É preciso encontrar esse depósito logo, para que as coisas voltem ao normal. É preciso acender algumas lâmpadas. Algumas centenas de milhares. E ainda há gente que precise ser lembrado o tempo inteiro...

Faz já seu tempo que não opino mais, que não opino tanto. É tudo tão inflamado e hostil, as inimizades hoje surgem tão fáceis (por que será, hein?), que eu desliguei minhas antenas wi-fi (simbolicamente falando; realisticamente, minha banda larga tem feito isso, de fato, dia sim dia não) para evitar o desgaste. Dos dedos nas teclas. Mas:

O problema é que, no fim das contas, tudo gira em torno não de políticas públicas nem de projetos milionários. Nem de regulamentar a profissão mais bem regulamentada da história da humanidade. Muito menos de acordar ciclopes - e isso seria tão mais fácil. Começa e termina, e por assim fica, por toda a eternidade, em cima de um abismo imenso que agora temos, o lugar onde deveria haver praticamente a única coisa que nos faz legitimamente humanos: o respeito. O lembrete básico de que o outro é tão igual a mim, assim como sou igual a ele. E esse outro não tem predicados nem variáveis associadas. É um outro. E, justamente por falar assim, de um jeito anônimo e indefinido, sem sabermos nem podermos defini-lo muito mais, é que devemos encobri-lo de respeito. Sem exageros. É assim que tem que ser.

Hoje é aniversário da minha profissão, e sei que é mais um dia onde os psicólogos renovam esses votos aí, que eles valorizam tanto, militam, se tornam às vezes insuportáveis vendendo essa ideia básica, que é somente um componente vital para se estar em sociedade. E para que a gente não sucumba. Se sua profissão segue pelo mesmo, se o seu trabalho é cuidar de uns outros, não esqueça dessa regra. Não esqueça. Um dia você incorpora, e a gente quem sabe vive melhor assim.