quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Então sim

Então quer dizer que vamos estar juntos todas as noites. Quer dizer que vou chegar em casa e tomar esse café quente, e beijar sua boca com gosto de café quente, desejando um banho frio. Quer dizer que vou alcançar seu abraço rápido e fácil, ao longo do dia, às vezes, mas principalmente à noite, todas as vezes. Quer dizer que posso falar do meu dia enquanto você não desgruda o video game. E cantarolar a música da letra bonita que você não gosta, mas que acha a letra bonita. E beber mais café quente. E você vai beijar meu pescoço enquanto eu estudo e escrevo. E também perguntar todas as vezes enquanto levanto a cabeça dos papéis e nada faço: "tá pensando em quê?". Não vou dizer. Quase nenhuma vez eu vou dizer. Porque sua voz me chama para uma verdade grande e nossa, melhor que meu pensamento utópico e solitário, que é você perto de mim. E quer dizer que tudo bem ser assim. E você também vai reclamar que eu demorei a chegar e que no outro dia sairei bem cedo. Mas que vou me atrasar porque chamarei você (já com gosto de café quente) de volta pra cama, pra mais um afago e um silenciar de despertador. E quer dizer que a gente vai se olhar e dizer eu te amo quase ao mesmo tempo. Mas não vou falar tão perto por causa do bafo, você sabe. E quer dizer que vamos dançar essa música só nossa, que somente a gente ouve e lê sua letra, e lembra e entoa sem palavras, dentro dos ouvidos. Quer dizer que vai ser assim.

Então vamos.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

As delícias de um tocque

O Transtorno Obsessivo Compulsivo QUase Exagerado. Porque você não tem o rótulo do psiquiatra, mas sabe que tem (o transtorno e o rótulo). Ou pelo menos os genéricos de ambos. E às vezes você acha que você sofre. Como na vez que minha mãe reorganizou a estante de livros e eu comecei a chorar. A gritar. E a tremer. Mas foi só dessa vez. Nas outras eu só fiquei careca e me cocei até a exaustão, e foi só. Tô acostumada.

É preciso dizer. Os tocques te dão prazeres sutis.

Ontem pratiquei o lazer preferido de um tocquiniano com tempo de sobra: arrumei o guarda-roupa. Que começa com você, a cada dois ou três meses (é compulsão, já falei), se livrando da roupa em desuso. Do sapato em desuso, da bijouteria, o cinto, tudo! Aquelas sacolas de loja bem cheias de roupa do seu guarda-roupa, que não voltarão para lá, prenunciam o primeiro sorriso. Sobrou espaço, sobrou caixa, sobrou cabide!, e você pode matutar técnicas de arrumação e separação de peças (cor, tamanho, uso) por vinte ou trinta minutos. É sua meditação. Aí você sorri de novo, e, se joga!: organiza.

Aí você livrou o espaço da gaveta, que trouxe os uniformes da gaveta de cima, que passou a roupa da ginástica pra onde tinha vagado primeiro, e ficou com mais uma prateleira pra guardar sapatos. UH! Mais uma prateleira pra guardar sapatos. Em saquinhos. Com transparência em cima, pra você poder ver quais são, naquelas vezes que você quer montar os looks na cabeça para não bagunçar o guarda-roupa (eca).

Aí tá bom, tá ótimo, de mudar a ordem de algumas coisas. Calcinhas para a esquerda da gaveta, soutiens para a direita, pega essas caixinhas da horizontal e põe na vertical, assim, separando, e!, ai, uma gaveta nova. Organizada e separada por cores (claro, calcinhas e soutiens também se separam por cores, onde eu estaria com a cabeça se não fizesse isso?!). Mudada de ordem. Outra delícia do metodismo exagerado é quando você, além de arrumar, troca os lugares dos objetos. É a prova de que não somos tão aficcionados por rotinas e movimentos repetitivos (que usualmente significam organização). Viu? A gente muda as coisas de lugar! Deixando tudo ainda mais organizado. E se diverte com isso.

As blusas organizadas por cores. Os casacos organizados por cores. As echarpes dentro da cesta ao lado dos casacos. Troquei o Nemo de lugar. A boneca eu centralizei. Daí os cabides organizados por cores. Os shorts (jeans claros e jeans escuros não se misturam, por obséquio). Bijouterias de festa versus as prateadas versus as douradas. Nunca juntas. As ligas de cabelo e os cosméticos em seu devido lugar. E limpas e novas e também separadas por cores. Rodízio nas cestinhas do banheiro!, tudo de lugar novo e organização nova!. Sorrisos. Rolou o prenúncio de um cansaço.

Deixei os sapatos (que ganharam prateleira nova) pro dia seguinte. As bolsas do cabide também. Planejando organizações estratégias por enquanto. Que diversão às vezes é bom não gastar toda de uma vez.

Boa noite.

Desistiu de sofrer.
Desistiu e viu que por fim não tinha mais como, não tinha mais por onde, menos ainda por quês.
Desistiu tanto que ficou vazia. Ficou oca. Nada sobrou de tudo que havia.
Dor.
Desistiu de sofrer.
Garantiu que não fazia sentido, que não faria sentido, que motivo nunca houve, e sentido só um pouco.
E sentimento que sobrava.
Mas decidiu. Desistiu de sofrer.

Sem dor, sem dó, sem piedade. Se convenceu: saudade só é boa se for a dois, se forem duas, se for recíproca. Saudade platônica é impossível de lidar. E sofre. Sofre até desistir de sofrer.
Custou.
Desistiu.

E falta pouco pra tudo isso ser verdade.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Antissociável

Eu que sou fruto dessa geração que só vê uma tela de computador na frente, acompanhei a vida social virtual desde a pré-adolescência (eu não era criança!).

Eu mergulhei no universo anônimo do mirc, infelizmente transferido para a sem gracisse do msn, o azul deprimente do orkut (digitei 'orku' na primeira vez, sem querer), e então a deprimência (depressão e demência) do facebook. Os tempos modernos.

Sabe o que tinha de bom no mirc? Vou te contar. Você que nasceu depois de 1992. As pessoas tinham praticamente só um nome pra chamar de seu. O tal nickname. Elas se encontravam em verdadeiras salas de bate-papo!, veja que vintage isso não pode ser, chamadas de "canais". Porque era como se "sintonizar" a um canal mesmo, que seria um grupo, colégio, cidade, enfim. As pessoas que tinham sintonias parecidas (quando a pessoa fica velha e fala de coisas velhas, inexoravelmente é brega, perdoem) se encontravam sempre no mesmo lugar. Que nem na vida real, você me entende? Só que só carregando uma alcunha feia, e se mostrando em palavras.

O que era melhor era isso. A única coisa que havia no mirc era o diálogo. Triálogos, grupálogos, brigas, barracos também, e tal. Mas a conversa era o objetivo único. Só ficava famoso quem fosse bom de conversa. Parece fútil? E era. Mas se pensarmos que hoje em dia só fica famoso quem posta foto sem camisa ou de biquine no seu perfil, então a coisa era melhor. (Nada como antigamente...)

Alguma pessoa que confundiu praticidade com isolamento e círculo de amigos eterno, teve o devaneio de criar o Messenger. E a gente foi pra lá falar para sempre com as mesmas pessoas - o que não fazia o menor sentido.

Só que só com o msn, era impossível conhecer outras pessoas. Até porque quando conhecíamos pessoalmente e depois iríamos passar a pessoa para o nosso computador (no mirc era o inverso, e esse mistério era sempre divertido), era chato, pra não dizer impossível, trocar eme esse enes. "Oi, qual seu msn?". "Biazetz arroba...". "O quê?". "Bê. I. A...". Broxava-se.

E por isso que alguém bem depressivo criou o orkut. Com a cor mais depressiva da aquarela, com o intuito único de trocar poucas palavras e se expôr. Agora era a vez da gente deixar de conversinha e se mostrar. Anonimato nunca mais!, era o lema da vez.

Você podia colocar fotos. Não precisava a pessoa pedir e esperar seu download. Você se mostrava lá, o tempo inteiro. Você não precisava entrar e ficar online. Você sempre estava ali, mesmo que não estivesse. E isso facilitaria e troca de informações (inúteis) e também o início das psicopatologias graves e tendinites. Porque tinha de estar ali de instante em instante, se não pudesse o tempo inteiro.

O orkut começou a se aprimorar deixando que a gente colocasse mais fotos nossas. E mais fotos. E separasse-as por álbum. E depois deixasse que nós víssemos quem nos via. Era assim que a gente paquerava pelo orkut. Vendo se a pessoa tinha clicado no nosso perfil. E se a ex invejosa também. Era uma delícia, nera?

E pra ficar bom, bom mesmo, aí veio o Zuckerberg, o Eisenberg e o Justin Timberlake. O que aparentemente começou com uma brincadeira de julgar os outros, evoluiu para uma coisa séria de julgar os outros. E para mais tendinite e psicopatologias diversas - alguém da Psicologia por favor para fazer esse estudo?!.

A gente não conversa mais. A gente não fala. A gente tem uma parede imensa onde só ficam em bom tamanho as fotos. As letras e sua caixa de textos ficaram minúsculas. E não tem ferramenta de power point que te aumente isso, nem que te aumente a fonte, nem que te aumente a vontade de conversar com ninguém sobre nada. Que ninguém tá ali pra conversar. Mas para dizer como se sente, como está, sobre o que está pensando, ou o que deseja comer. Ou o que comeu e fotografou. E se você falar demais, ou falar algo medianamente complexo, só uns três amigos seus vão gostar (curtir). Se você colocar uma foto igual a de todas as pessoas, com uma frase óbvia e feia, todos seus amigos e seus inimigos vão curtir. Os inimigos vão inclusive gastar a tendinite digitando elogios. Assunto não tem. E ninguém se esbarra em sala nenhuma.

Eu tenho um amigo que chama as redes msn e mirc, as que ele frequenta, de redes antissociais. Eu acho que ele tá errado. Antissociais são as redes de agora, que somos nós, no auge dessa vaidade silenciosa.

Eu que vivo de mentir

"Escritores são mentirosos." Erasmus Fry, em conversa pessoal, 06 de maio de 1986.

Retirei essa passagem (até o último ponto final, depois de 1986) do Sandman, o primeiro volume. Transcrevi em post it que milagrosamente permanece colado na minha estante há meses. Quase ano.

Transcrevi essa verdade sobre a mentira. Que eu que não sou escritora me vi me deliciando com ela. Eu, que vivo de mentir.

Eu só minto para mim.

Eu aprendi a mentir muito bem quando criei labirintos no lugar de entrelinhas. Quando coloquei palavras que não diziam nada para expressar quase tudo. E fazia e faço isso escondida, me mostrando ao mesmo tempo. Todo mundo sabe. Mas é segredo.

Eu encho minhas letras de mentiras para dizer (minhas) verdades. Eu minto para contar verdades para os outros, mas eu minto para os outros para contar verdades para mim. Eu acredito no que escrevo, sempre, e, eventualmente, um dos três leitores também. Eu acredito no que escrevo porque aprendi a escrever só sobre as mentiras que eu acreditasse. São minhas "fantasias reais", diria meu pai.

E as confusões e interpretações que se seguem pela tríade de leitores são consequência das minhas mentiras. Como a linha infinita é consequência da fofoca. E eu não me importo, porque minha mentira não fica frouxa por conta disso.

Escritores são mentirosos. São bons mentirosos: para si mesmos, de si mesmos. Parece que eu vou no caminho certo, bom.

Microconto esquecido em envelope

De tanto amor recebido, isso é o mínimo que posso fazer para tentar retribuir. Amo você.

Estava escrito assim. Estava escrito assim no papel recortado de folha de ofício, em envelope azul marinho. Pequenos. Papel e envelopes pequenos. Sentimento grande.

Sem assinaturas. Em letras garrafais que não denunciam nada. Só levantam uma suspeita um tanto óbvia, mas, ainda assim, dá margem à possibilidades outras. Outros.

De tanto amor recebido, isso é mínimo que posso fazer para tentar retribuir. 

À que altura era aquela, então? Em que mês e ano foi aquilo? Quanto havia sido dado? E o que acompanhava o cartão? Que podia ser flores, podia ser foto, podiam ser presentes outros. Outras.

Encontrei o cartão no fundo da caixa que vinha abarrotada de nada que prestasse. Ou de quase nada que prestasse. Encontrei o cartão perdido no fundo dessa caixa. Que serve de metáfora para minha memória (sim), e para meu coração?. Encontrei o cartão sem procurá-lo, procurei na lembrança pelo seu dono, pelo real remetente e destinatário, porque é possível que esse cartão não houvera sido meu. Por que não. Porque sim.

De tanto amor recebido, isso é o mínimo que posso fazer para tentar retribuir. Amo você. 

E a frase é simples e doce. Singela. Inocente. É verdadeira e intensa também. As palavras foram sutis sem ser efêmeras, e eu quero esse cartão para mim. Porque eu quero as palavras dele. E o cheiro de amor bom que saltou para fora. E a sinceridade da vida, no mais. Vem nele também.

Joguei fora o cartão. No envelope. Sem rasgá-los. Não sei se foram meus; o foram por um tempo. Será então de quem encontrá-lo.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Busca impagável

Depois dos cinco quilos a mais da ceia de natal, da ressaca desnecessária do primeiro de janeiro, do novo ano que não é novo, que dá no mesmo, que foram só os dias seguintes, e dos restos de presente da árvore de Natal que tua avó te dá (necessáires e sabonetes não faltam), daqueles que faltaram à ceia, o que, além dos shows imperdíveis e inesquecíveis de Wesley Safadão e Thiaguinho, movimentam essa cidade de meu Deus? Pelo que, agora, as pessoas correm e se afobam e descontam frustrações umas nas outras?

É a saga do vestido. Os vestidos impecáveis e impagáveis da cidade. Tá chegando a sua formatura. Corre!

Já deixei clara aqui minha não vocação para o glamour e a feminilidade. E a desimportância básica que dou às festas importantes. Na real na real, eu detesto datas comemorativas. E na real pela terceira vez, tenho preguiça de casamentos e formaturas e seu movimento de pré-festa.

Fui hoje pegar qualquer vestido que me vista e que não espante as pessoas, para eu usar no "baile". Que de baile não tem nada, porque eu sei que só vai tocar Grafith, Thiaguinho, e Wesley Safadão.

Vendedora: Sim, certo, quando é a sua festa?
Eu: 22 de fevereiro.
Vendedora (suando): JÁ? MAS TÁ EM CIMA!

Na verdade, ela disse essa frase com muitas, muitas exclamações. Eu não transcrevo porque é visualmente feio. E memoravelmente desagradável.

Mas como toda vendedora mal-educada, sempre vem o sermão: Mas por que você não viu isso antes? Já está muito perto!

Eu passei a minha manhã consultando o calendário: mas hoje não é quatorze de janeiro? É.  Pelo menos no calendário oficial. Provavelmente alheio ao calendário dos vestidos glamurosos.

Teve uma que disse que tem gente que vai à loja comprar seu vestido com um ano de antecedência. Um ano. Já pensou essa mulher quando for casar na catedral e receber os convidados no Arena das Dunas? (Ao som de Wesley Safadão.) Dez anos vai ser a média de procura das noivas pelos seus vestidos.

A mais educada foi a dona da boutique:
- E aí, vai deixar a entrada, ou já vai levar o vestido logo?
- Não, eu volto mais tarde qualquer coisa...
- OLHE, VOCÊ VAI FICAR SEM NADA, HEIN! SUA FESTA ESTÁ EM CIMA!

A boa educação acompanha os bons preços dos vestidos finos das boutiques finas de gentes finas em Natal. Que a tua boa sorte te acompanhe também. Tim-tim!


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A quatro mãos

- Estar tudo bom demais é um tanto arriscado. Você não acha? 

- É arriscadíssimo. Se bobear, os convites vão pra gráfica.



Seu Augusto. E o Cheiro do Ralo.

Últimos dias

E eu que achei que ia ser tão fácil. Achei que já estava tudo resolvido. Que, à essa altura, estaria tudo resolvido, sem esforço, sem pretextos, sem mais. Eu que achei que não haveria por quê complicar o que já sempre fora tão embaraçado. Esses sentimentos de quem sente demais. Dois que sentem demais, se postos juntos, não dá certo, vai dar errado, é certeza, e por que isso acontece com tanta frequência no universo inteiro de um universo de pessoas, eu não sei. É pólo positivo com positivo, ou negativo com negativo. Encosta, repele, machuca. Nera assim? Acho que aprendi assim. Não fui bem no exame, mas era quase isso. E sendo iguais demais, e tendo sensibilidades iguais de mais, tanto extremadas, isso não há de dar certo.
Eu achei que daria sem maiores esforços.
Haverá esforços.

Quanta bobagem andei pensando.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Zuenir me contou

Fui apresentada ao Zuenir Ventura na última edição da Flipipa, em novembro que acabou de passar. Por ocasião de eu estar no lugar certo, na hora certa, com os genes certos: ele tinha sido entrevistado pelo meu pai naquela noite. Como se já não bastasse o bom bolo que foi aquela conversa e aquela presença, veio essa cereja - ou um outro bolo, ainda melhor, eu diria.

Ele perguntou se eu fui dos que dormi enquanto ele falava. Uma colocação que ele fez ao longo da noite, sobre as pessoas que estavam quase cochilando, e as que riam e sorriam, que, para ele, significava aprovação. Como se não tivesse como aprová-lo. Como se tivesse como dormir. Eu fui das que estavam sorrindo; meu pai justificou isso pelo fato de eu ser psicóloga.

(Psicólogos são sorridentes?...)

Quase uma hora depois, eu tinha escolhido um livro dele para autógrafo, um dos que ele falara na noite: Cidade Partida. Um relato jornalístico resultado de muitos meses (dez) vivenciando a favela Vigário Geral. Meses que começaram na sequência rápida da chacina de 1993, veja que bárbaro isso poderia ser.

Eu fui a última da fila, e, quando pegou no livro, Zuenir (que atenciosamente autografaria-o para "Beatriz, a psicóloga") surpreso: Olha!, nunca autografei Cidade Partida pra ninguém!

A minha surpresa foi: Como não? Um autor como ele, famoso que só ele, que deve somar em meses o tempo que gastara dando autógrafos nessa vida, nunca autografou um de seus livros... Não entrei em detalhes. Também não pensei mais no por quê. O livro não tinha como ser ruim, o assunto era fantástico, o autor era fantástico (porque eu conheci, não porque o li, veja que ultraje), e a forma como o livro fora feito (vivendo-o) não deixaria a desejar.

E hoje, terminado o livro, pergunto com surpresa ainda maior: mas por quê?

Mas por que, quem comprou o livro e leu, que não foram poucos, com certeza não, não telefonaram pro Zuenir, escreveram, perseguiram-no, foram até o jornal O Globo e exigiram: queriam um autógrafo? Se ele ganhou o prêmio Jabuti com o livro, por que não, nenhum autógrafo? No próprio livro. Urgente!

Eu sou a favor do capricho do autógrafo. Embeleza muito mais o livro. Torna-o mais especial. Foi tocado e comentado pelo autor, que olhou nos olhos de quem leu ou leria-o. É supérfluo essencial em terra de leitor babão. Em Cidade Partida, quem lê o livro, lê uma favela, uma cidade, um Brasil inteiro. Inteiros, né, e ir em busca do autógrafo era um mínimo de parabéns. Uma multidão cobrando autógrafos por esse livro, tão vivo, vale mais que um Jabuti. Assim, simbolicamente falando. Assim, assim, passionalmente falando.

Em Cidade Partida, Zuenir mergulhou numa favela que se doía de injustiças de todo tipo. A primeira delas, a econômica, essa que dói milhares pelo país. A outra, social, que diverge seres humanos tão iguais em mundos tão distantes, por causa do lugar onde moram, da cor de pele que a maioria têm, das oportunidades lugares-comum da favela ("'Eu sou otário e ele é bandido, mas a polícia confunde tudo', revelou, sem emprestar nenhuma conotação pejorativa àquelas palavras, como é hábito na favela. Diz-se que alguém é bandido como se poderia dizer que é pedreiro, vagabundo ou trabalhador. Faz-se uma constatação, não um julgamento."). E talvez a maior que se veja no livro: a injustiça da incompreensão.

Como reportagem e como denúncia, o livro conta os bastidores dessa paisagem que a gente compra da mídia e do preconceito (sinônimo de mídia, quantas vezes).

No percurso histórico, a gente lê que o nosso crime mais antigo é o da corrupção... dos nossos governantes, protetores (polícia), dos homens brancos, ricos, não moradores da favela. E como esse ainda é o crime mais grave. Não o do tráfico, não o da favela, dos bandidos pobres carentes de escolha.

Por trás da chacina de vinte e um inocentes em Vigário Geral, existiam policiais sócios do tráfico, com ganância sobre poder e cocaína, e indiferentes às consequências de suas ações (que terminaram por ser duas dezenas de mortes).

Por dentro de Vigário Geral, tem um sujeito com vida de bandido, heróico e valente, mais consciente das dificuldades de sua comunidade, e mais propositor de resoluções do que o governo ou polícia ou qualquer pessoa. Na contramão de uma polícia que só subia atirando, tantas vezes à esmo, tem traficantes (inimigos) que repreendem o erro dos mais jovens (cair na bandidagem), tem comunidades dentro da grande Vigário que fazem caminhada pela paz. Que, com a ajuda do crime (!), se alcança.

Nunca assaltou ônibus, que não assalta trabalhador. Reina a punição e a ameaça a quem assalte simples cidadãos, a quem leve violência em arrastão a cidade grande. Reina punição também para quem erre e prejudique terceiros, com ou sem intenção.

... O cara derramou, errou, cheirou toda a carga. Roubou da boca e cheirou tudo. Quase mataram de quem ele tinha roubado o pó, que por sorte, escapou, e o verdadeiro ladrão andava livre. Iam matar, tudo pronto.
Aí falei pra ele: 'Tá vendo que que tu arruma? Pra entrar nessa vida não é assim não. Tu vai embora, mas vou te falar. Tu não vai se envolver mais com boca-de-fumo. Tu vai trabalhar, tu vai ter que mostrar tua carteira assinada pra mim'."

E com poucos dias, Flávio Negão via o contracheque.

A inversão de valores, ou de pontos de vista, vão sendo os protagonistas do livro, que nos coloca na testa uma grande interrogação: onde tudo isso começou?, e como isso pode terminar do melhor jeito possível? Essa linha infinita em começo e em fim, que de linha não tem nada, mas sim de nós e balaios, não se explica de forma alguma. Mas se compreende. Zuenir faz esse esforço ao assumir seus questionamentos inevitáveis e às vezes preconceituosos (como somos, assim mesmo), sem nenhum filtro.

"... Não se sabe o que impede esses rapazes, sem emprego e sem renda, de caírem no tráfico. Em matéria de juventude pobre, até a pergunta está errada. Não é 'por que tantos jovens estão no tráfico?', mas 'por que tantos ainda não estão?'."

O traficante que não bebe nem cheira seu pó, viciado em Coca-Cola, não deixa ninguém duvidar que ele não tá sozinho. Nem ele, nem a pobreza, nem a falta de oportunidades da favela. O tráfico tem poderosos chefões de colarinho branco, policiais que assassinam uns aos outros, na busca do lucro do pó. Mais do que imaginamos ou supomos, e mais escrachados e arreganhados para os bandidos e para a comunidade do que deveria ser. (Deveria ser?!...)

Talvez conhecer o autor deixe a crônica bem contada ainda melhor. Parece que é possível imaginar seu olhar atento e a fala calma, os ouvidos cheios de interesse, pacientes demais, curiosos demais, com aquele jeito fraterno de falar e de fazer jornalismo, que ele deve ter. Nada mais vivo e valioso que esse livro de anônimos protagonistas, reais, vivos (até quando?), com mais sonhos no peito que suas realidades podem comportar. Uma reportagem na favela que vira romance com personagens reais. Não canso de pensar nisso: um romance de personagens reais.

Daqueles livros para reler. Daqueles livros pra você abrir agora mesmo. E aproveitar.




Começou, mudou

E eu já começo xingando. E eu já começo cheia de si cheia de mim cheia de nada, é verdade. Eu acho que estou com as verdades. Em dia de pré-instalação de depressão, decorrentes de tantas e tantas coisas, principalmente de uma tendência já conhecida e de um histórico de antidepressivos, consulto até horóscopo e mapa astral. Leio tudo que me caia nas mãos. Porque pode ser que o cosmos ajude. Se eu ainda estou nessa confiança, veja bem, a depressão ainda não sentou muito bem no meu colo.

Ele me manda ficar calada. Eu que coincidentemente acabo de comprar o voto de silêncio (caro), de preferência eterno (muito caro), eu que praticamente prometi mudar praticamente complemente. Porque devo optar pelo silêncio e pela parcial submissão e o aceito. Aceito. Que o que digas é verdade. É a sua verdade. Eu revendi a verdade para todo mundo, que não tenho aqui comigo mais nenhuma. E é por isso mais ainda que nada falo. É melhor.

Deixa os ouvidos abertos, fecha quase toda a boca, deixando-a abrir somente para os sorrisos (com dentes). Não é bem quem eu sou, mas é quem eu preciso ser. E assim, vai. Só assim que dá certo.

(Vai-se aqui uma nova verdade?...)