terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Antissociável

Eu que sou fruto dessa geração que só vê uma tela de computador na frente, acompanhei a vida social virtual desde a pré-adolescência (eu não era criança!).

Eu mergulhei no universo anônimo do mirc, infelizmente transferido para a sem gracisse do msn, o azul deprimente do orkut (digitei 'orku' na primeira vez, sem querer), e então a deprimência (depressão e demência) do facebook. Os tempos modernos.

Sabe o que tinha de bom no mirc? Vou te contar. Você que nasceu depois de 1992. As pessoas tinham praticamente só um nome pra chamar de seu. O tal nickname. Elas se encontravam em verdadeiras salas de bate-papo!, veja que vintage isso não pode ser, chamadas de "canais". Porque era como se "sintonizar" a um canal mesmo, que seria um grupo, colégio, cidade, enfim. As pessoas que tinham sintonias parecidas (quando a pessoa fica velha e fala de coisas velhas, inexoravelmente é brega, perdoem) se encontravam sempre no mesmo lugar. Que nem na vida real, você me entende? Só que só carregando uma alcunha feia, e se mostrando em palavras.

O que era melhor era isso. A única coisa que havia no mirc era o diálogo. Triálogos, grupálogos, brigas, barracos também, e tal. Mas a conversa era o objetivo único. Só ficava famoso quem fosse bom de conversa. Parece fútil? E era. Mas se pensarmos que hoje em dia só fica famoso quem posta foto sem camisa ou de biquine no seu perfil, então a coisa era melhor. (Nada como antigamente...)

Alguma pessoa que confundiu praticidade com isolamento e círculo de amigos eterno, teve o devaneio de criar o Messenger. E a gente foi pra lá falar para sempre com as mesmas pessoas - o que não fazia o menor sentido.

Só que só com o msn, era impossível conhecer outras pessoas. Até porque quando conhecíamos pessoalmente e depois iríamos passar a pessoa para o nosso computador (no mirc era o inverso, e esse mistério era sempre divertido), era chato, pra não dizer impossível, trocar eme esse enes. "Oi, qual seu msn?". "Biazetz arroba...". "O quê?". "Bê. I. A...". Broxava-se.

E por isso que alguém bem depressivo criou o orkut. Com a cor mais depressiva da aquarela, com o intuito único de trocar poucas palavras e se expôr. Agora era a vez da gente deixar de conversinha e se mostrar. Anonimato nunca mais!, era o lema da vez.

Você podia colocar fotos. Não precisava a pessoa pedir e esperar seu download. Você se mostrava lá, o tempo inteiro. Você não precisava entrar e ficar online. Você sempre estava ali, mesmo que não estivesse. E isso facilitaria e troca de informações (inúteis) e também o início das psicopatologias graves e tendinites. Porque tinha de estar ali de instante em instante, se não pudesse o tempo inteiro.

O orkut começou a se aprimorar deixando que a gente colocasse mais fotos nossas. E mais fotos. E separasse-as por álbum. E depois deixasse que nós víssemos quem nos via. Era assim que a gente paquerava pelo orkut. Vendo se a pessoa tinha clicado no nosso perfil. E se a ex invejosa também. Era uma delícia, nera?

E pra ficar bom, bom mesmo, aí veio o Zuckerberg, o Eisenberg e o Justin Timberlake. O que aparentemente começou com uma brincadeira de julgar os outros, evoluiu para uma coisa séria de julgar os outros. E para mais tendinite e psicopatologias diversas - alguém da Psicologia por favor para fazer esse estudo?!.

A gente não conversa mais. A gente não fala. A gente tem uma parede imensa onde só ficam em bom tamanho as fotos. As letras e sua caixa de textos ficaram minúsculas. E não tem ferramenta de power point que te aumente isso, nem que te aumente a fonte, nem que te aumente a vontade de conversar com ninguém sobre nada. Que ninguém tá ali pra conversar. Mas para dizer como se sente, como está, sobre o que está pensando, ou o que deseja comer. Ou o que comeu e fotografou. E se você falar demais, ou falar algo medianamente complexo, só uns três amigos seus vão gostar (curtir). Se você colocar uma foto igual a de todas as pessoas, com uma frase óbvia e feia, todos seus amigos e seus inimigos vão curtir. Os inimigos vão inclusive gastar a tendinite digitando elogios. Assunto não tem. E ninguém se esbarra em sala nenhuma.

Eu tenho um amigo que chama as redes msn e mirc, as que ele frequenta, de redes antissociais. Eu acho que ele tá errado. Antissociais são as redes de agora, que somos nós, no auge dessa vaidade silenciosa.

Um comentário:

Clarisse Vieira disse...

Curti muito esse texto!