quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Zuenir me contou

Fui apresentada ao Zuenir Ventura na última edição da Flipipa, em novembro que acabou de passar. Por ocasião de eu estar no lugar certo, na hora certa, com os genes certos: ele tinha sido entrevistado pelo meu pai naquela noite. Como se já não bastasse o bom bolo que foi aquela conversa e aquela presença, veio essa cereja - ou um outro bolo, ainda melhor, eu diria.

Ele perguntou se eu fui dos que dormi enquanto ele falava. Uma colocação que ele fez ao longo da noite, sobre as pessoas que estavam quase cochilando, e as que riam e sorriam, que, para ele, significava aprovação. Como se não tivesse como aprová-lo. Como se tivesse como dormir. Eu fui das que estavam sorrindo; meu pai justificou isso pelo fato de eu ser psicóloga.

(Psicólogos são sorridentes?...)

Quase uma hora depois, eu tinha escolhido um livro dele para autógrafo, um dos que ele falara na noite: Cidade Partida. Um relato jornalístico resultado de muitos meses (dez) vivenciando a favela Vigário Geral. Meses que começaram na sequência rápida da chacina de 1993, veja que bárbaro isso poderia ser.

Eu fui a última da fila, e, quando pegou no livro, Zuenir (que atenciosamente autografaria-o para "Beatriz, a psicóloga") surpreso: Olha!, nunca autografei Cidade Partida pra ninguém!

A minha surpresa foi: Como não? Um autor como ele, famoso que só ele, que deve somar em meses o tempo que gastara dando autógrafos nessa vida, nunca autografou um de seus livros... Não entrei em detalhes. Também não pensei mais no por quê. O livro não tinha como ser ruim, o assunto era fantástico, o autor era fantástico (porque eu conheci, não porque o li, veja que ultraje), e a forma como o livro fora feito (vivendo-o) não deixaria a desejar.

E hoje, terminado o livro, pergunto com surpresa ainda maior: mas por quê?

Mas por que, quem comprou o livro e leu, que não foram poucos, com certeza não, não telefonaram pro Zuenir, escreveram, perseguiram-no, foram até o jornal O Globo e exigiram: queriam um autógrafo? Se ele ganhou o prêmio Jabuti com o livro, por que não, nenhum autógrafo? No próprio livro. Urgente!

Eu sou a favor do capricho do autógrafo. Embeleza muito mais o livro. Torna-o mais especial. Foi tocado e comentado pelo autor, que olhou nos olhos de quem leu ou leria-o. É supérfluo essencial em terra de leitor babão. Em Cidade Partida, quem lê o livro, lê uma favela, uma cidade, um Brasil inteiro. Inteiros, né, e ir em busca do autógrafo era um mínimo de parabéns. Uma multidão cobrando autógrafos por esse livro, tão vivo, vale mais que um Jabuti. Assim, simbolicamente falando. Assim, assim, passionalmente falando.

Em Cidade Partida, Zuenir mergulhou numa favela que se doía de injustiças de todo tipo. A primeira delas, a econômica, essa que dói milhares pelo país. A outra, social, que diverge seres humanos tão iguais em mundos tão distantes, por causa do lugar onde moram, da cor de pele que a maioria têm, das oportunidades lugares-comum da favela ("'Eu sou otário e ele é bandido, mas a polícia confunde tudo', revelou, sem emprestar nenhuma conotação pejorativa àquelas palavras, como é hábito na favela. Diz-se que alguém é bandido como se poderia dizer que é pedreiro, vagabundo ou trabalhador. Faz-se uma constatação, não um julgamento."). E talvez a maior que se veja no livro: a injustiça da incompreensão.

Como reportagem e como denúncia, o livro conta os bastidores dessa paisagem que a gente compra da mídia e do preconceito (sinônimo de mídia, quantas vezes).

No percurso histórico, a gente lê que o nosso crime mais antigo é o da corrupção... dos nossos governantes, protetores (polícia), dos homens brancos, ricos, não moradores da favela. E como esse ainda é o crime mais grave. Não o do tráfico, não o da favela, dos bandidos pobres carentes de escolha.

Por trás da chacina de vinte e um inocentes em Vigário Geral, existiam policiais sócios do tráfico, com ganância sobre poder e cocaína, e indiferentes às consequências de suas ações (que terminaram por ser duas dezenas de mortes).

Por dentro de Vigário Geral, tem um sujeito com vida de bandido, heróico e valente, mais consciente das dificuldades de sua comunidade, e mais propositor de resoluções do que o governo ou polícia ou qualquer pessoa. Na contramão de uma polícia que só subia atirando, tantas vezes à esmo, tem traficantes (inimigos) que repreendem o erro dos mais jovens (cair na bandidagem), tem comunidades dentro da grande Vigário que fazem caminhada pela paz. Que, com a ajuda do crime (!), se alcança.

Nunca assaltou ônibus, que não assalta trabalhador. Reina a punição e a ameaça a quem assalte simples cidadãos, a quem leve violência em arrastão a cidade grande. Reina punição também para quem erre e prejudique terceiros, com ou sem intenção.

... O cara derramou, errou, cheirou toda a carga. Roubou da boca e cheirou tudo. Quase mataram de quem ele tinha roubado o pó, que por sorte, escapou, e o verdadeiro ladrão andava livre. Iam matar, tudo pronto.
Aí falei pra ele: 'Tá vendo que que tu arruma? Pra entrar nessa vida não é assim não. Tu vai embora, mas vou te falar. Tu não vai se envolver mais com boca-de-fumo. Tu vai trabalhar, tu vai ter que mostrar tua carteira assinada pra mim'."

E com poucos dias, Flávio Negão via o contracheque.

A inversão de valores, ou de pontos de vista, vão sendo os protagonistas do livro, que nos coloca na testa uma grande interrogação: onde tudo isso começou?, e como isso pode terminar do melhor jeito possível? Essa linha infinita em começo e em fim, que de linha não tem nada, mas sim de nós e balaios, não se explica de forma alguma. Mas se compreende. Zuenir faz esse esforço ao assumir seus questionamentos inevitáveis e às vezes preconceituosos (como somos, assim mesmo), sem nenhum filtro.

"... Não se sabe o que impede esses rapazes, sem emprego e sem renda, de caírem no tráfico. Em matéria de juventude pobre, até a pergunta está errada. Não é 'por que tantos jovens estão no tráfico?', mas 'por que tantos ainda não estão?'."

O traficante que não bebe nem cheira seu pó, viciado em Coca-Cola, não deixa ninguém duvidar que ele não tá sozinho. Nem ele, nem a pobreza, nem a falta de oportunidades da favela. O tráfico tem poderosos chefões de colarinho branco, policiais que assassinam uns aos outros, na busca do lucro do pó. Mais do que imaginamos ou supomos, e mais escrachados e arreganhados para os bandidos e para a comunidade do que deveria ser. (Deveria ser?!...)

Talvez conhecer o autor deixe a crônica bem contada ainda melhor. Parece que é possível imaginar seu olhar atento e a fala calma, os ouvidos cheios de interesse, pacientes demais, curiosos demais, com aquele jeito fraterno de falar e de fazer jornalismo, que ele deve ter. Nada mais vivo e valioso que esse livro de anônimos protagonistas, reais, vivos (até quando?), com mais sonhos no peito que suas realidades podem comportar. Uma reportagem na favela que vira romance com personagens reais. Não canso de pensar nisso: um romance de personagens reais.

Daqueles livros para reler. Daqueles livros pra você abrir agora mesmo. E aproveitar.




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