quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Com toda a dor

Parece que as coisas vão pelo avesso e muito mal. Sempre parece que o bom se esvai e o mal impera de alguma forma. Bem ao contrário do que aprendemos, como falei esses dias. Porque parece que tá tudo ao contrário.

O Deus ou o cosmos ou universo ou o destino, a fatalidade, o que quer seja, resolvem abreviar as boas vidas em lugar e em troco do quê, a gente se pergunta. Parece que os melhores sorrisos vão embora mais cedo. Parece que a felicidade mais aberta e verdadeira nunca dura o suficiente. Porque em verdade, felicidade e boas pessoas nunca são suficientes. Nós sempre queremos eternizá-las.

Se com tantos sonhos ingênuos e crenças de criança a gente não muda o que faz o destino, o deus, os deuses, o cosmos, a vida, a gente muda menos ainda a morte. Fica de nos restar o que nos leva até ela: a própria vida.

Estão faltando mais sorrisos por aqui. Estão faltando as pessoas que gostavam tanto de abraçar, aquelas que gargalhavam indiscriminadamente, que faziam o bem com a naturalidade de quem vive. Está faltando mais felicidade, mais intensidade, mais gritos de festa. Estão faltando mais vidas.

Nos resta recuperá-las. Sem transgredir dimensões, temos de recuperar os perdidos. Nos resta voltar a balança para o lugar de antes, e não deixar as lacunas que agora há transformarem a nós mesmos também em buracos, em espaços vazios. Nos resta aprender com quem se foi e sorrir como eles, sorrir por eles, abraçar a vida como se fosse o que ela de fato o é: a coisa mais preciosa que a gente tem. Abraçar a vida do outro como sendo o que ela mais ainda o é: a outra coisa mais preciosa que a gente tem. E viver. Nos resta sentir toda a dor sem acobertarmo-nos com ela, sem passar a viver moribundos sob sua sombra. As pessoas que se foram nos estão dizendo que a vida, por mais que difícil, por mais que amedrontada pela morte insípida, tem de ser vivida. E, em homenagem a elas, devemos sorrir indiscriminadamente, devemos viver com a urgência.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Pra mim não tanto faz

Eu cresci ouvindo palavras e lições de vida estilo clichê que todos conhecem, que todos concordam. Eu cresci acreditando em bons presságios, em vibrações positivas, em recompensas, em justiça. Meus pais me garantiram que o bom trabalho traz bons resultados, em todas as esferas. Meu avô me garantiu a justiça para cada coisa digna que você fizesse, o reconhecimento certo do seu esforço, da sua honestidade, e, principalmente, da sua modéstia, que deve ser sempre sincera.

Ou as coisas eram bem diferentes nos tempos deles, ou eles mentiram para mim na cara limpa.

Ninguém abriu sequer uma janela do meu palácio cor-de-rosa pra me mostrar uma verdade. Ninguém teve a coragem de desmoronar tanta certeza que eu carregava.

Quando eu comecei a virar adulta, tudo começou quando eu comecei a virar adulta, eu tive de dar com a testa na porta onde eu achei que não haveria porta. Muitas vezes. O excesso de senso de justiça e de dignidade que tenho (não sou modesta para isso) me deu um excesso de confiança. E um excesso de quedas e de têmporas explodindo. Tudo um excesso.

Porque existe injustiça em excesso. Porque existe mentira em excesso, e, me desculpem meus pais e meu avô que já se foi, a mentira, para mim, que pode nem ter vindo de vocês, mas que, quando chegou em mim, chegou mentindo, essa falácia começou por aí, com as palavras e os exemplos que eu não vejo mais. Não vejo mais.

Aliás, há muito tempo não vejo boas recompensas perto de mim. Não falo só de mim. Mas muitos dos meus estão cheios de pedras nos sapatos que ficam cada dia maiores. Estão cheios de um cansaço extremo em serem bons, em tentarem ser melhores, em se esforçar ao longo de semestres e anos, pra quê, pra no fim das contas ouvirem nãos e silêncios. Na melhor das hipóteses. Porque, na pior, ouvimos as mentiras.

Desfazem convites. Limpam seu nome do trabalho. Ofuscam o brilho que é seu de direito. Não existe, nunca, quem descubra, menos ainda quem prove. Não existe quem o recompense de verdade; existe quem os recompense pela mentira. Pelo pouco trabalho, pelo excesso do escôro, essa palavra nem existe, mas dá para imaginar o que seja.

Os clichês apitam junto com a raiva pra dizer que depois da tempestade sempre vem a bonança. Eu não acredito mais. Eu desacredito em excesso.

Então parece que é isso mesmo. Pra mim tanto faz. Comecei o texto mentindo (ops.).

sábado, 23 de fevereiro de 2013

O melhor da formatura

O melhor de se formar não é só se formar. O melhor da formatura não é a preparação, porque há festas que a preparação é mais excitante que a própria festa. O melhor da formatura não são as psicólogas recém-formadas dançando músicas obscenas como se esse fosse um rito cultural (e natural) de passagem. O melhor não é a maquiagem impecável que te dá a ilusão de ser bonita e não mais feia. Também não são as fotografias que marcam a época.

O melhor da formatura são os abraços.

O melhor de se formar é descobrir que há mais pessoas do que você imagina que torcem por você. O melhor de se formar é compartilhar felicidade, alegria, verdadeiras. Porque a gente vive de compartilhar alegrias falsas e felicidades superficiais, dando abraços por conveniência e congratulações por educação básica. A gente faz isso em vários aniversários, no Natal, e até em casamento, não me desminta.

São tantos abraços em uma só noite, ou em uma só semana, tantos sorrisos realmente alegres, e palavras de quem está feliz porque a gente está feliz, e não há nada mais genuíno e felizmente humano do que sentir-se feliz pela felicidade de outra pessoa. Não há nada mais bonito que isso.

Pois essa foi uma semana bonita. Ontem foi uma noite bonita, com gente bonita, porque até quem é feio fica bonito quando se sente feliz pela felicidade do outro. Esse é o melhor presente que você pode dar a alguém: seu sorriso por motivo do sorriso dele. E um abraço.

Eu quero agradecer as centenas de abraços reais que me foram dados essa semana, e que eu também dei. O compartilhamento além-facebook de felicidades e de muito carinho. A comemoração pelo seja-lá-o-que-isso-signifique, porque na prática, na prática, a gente não sabe o que significa formar-se e ser jogado no mundo dos adultos grandes. Éramos adultos pequenos. Que ficaram grandes com os abraços sinceros.

Obrigada.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Então boa sorte

Que o melhor a fazer, com determinados fatos, com determinados seres, é fingir que nada aconteceu, que nada acontece. É relevar. Desconsiderar, principalmente quando não existe consideração, desconsiderar. É deixar de lado, acender o cigarro e esperar a primeira cerveja, enquanto se conversa sobre qualquer coisa, como se nada tivesse acontecido. Sempre: como se nada tivesse acontecido. Coisas boas nem ruins. Principalmente as ruins. Que não estão com vocês.

É melhor respirar essa fumaça de Marlboro e pensar em nada, e ouvir com filtros, ou sem filtros sem se importar com o que ouve. Sem filtros e sem se importar. E cantar a música, repetir uma história antiga, compartilhar uma fofoca que você sabe que ele vai gostar. Vai gostar.

Essa não é você, nunca será. Mas, em situações xis, terá de ser.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Fim em si mesmo

Fins são sempre ruins. Fins são sempre feios, úmidos, ardilosos, fins são sempre fins. Fins não avisam, não enviam previsão, não acalentam, não sussurram suave.
Fins são ruins porque só existem fins para tempos bons. Tempos bons é que têm fins. Que vêm e fecham, encerram, baixam a porteira e avisam que hoje só amanhã. Que hoje só nunca mais. Ficou tudo pra ontem, o balanço vai ser para sempre, porque é fim.
Fim é o decreto da eternidade. Fim é quando é para sempre, é todo, é inteiro, é desespero e choro gritado.
Fim é sempre ruim.
E a rima não é proposital. É só a rima em si mesma. Fim.

Tempo ruim não tem fim. Tempo ruim tem pulo rápido de etapas. Intervalo, pausa para café, espreguiçada, recomeço. Respira e vai. Tempo ruim te maquia com um ânimo novo, uma caixa com auto-estima breve, ao final ele sempre faz isso, para que haja o novo começo, o novo tempo, não necessariamente o fim.

Tempo bons são perseguidos pelos fins. Essa ventania barulhenta, com essa lembrança silenciosa, sem predizer recomeço imediato. Mas predizendo tempo ruim. Fim de tempo bom prediz tempo ruim. Sem fim. Com novo recomeço, distante, não breve, enfim.

Quando meu texto foi parar no canudo


Aula Dá Saudade

Eu não. Eu vou falar sobre a saudade. Não dá pra falar de outra coisa se não ela. Não agora.

Eu uma vez pensei e disse que saudade não vale a pena se for sozinha. Saudade só vale a pena quando é compartilhada. Quando são duas. Quando é recíproca, se encontram no meio do caminho da lembrança, papeiam e crescem. Orgulhosas de estarem saudosas uma da outra.

Saudade só vale a pena se for com mais. Saudade de um só é solidão, é nostalgia sem propósito, é tristeza provável. Saudade de dois ou mais é passado real, é alicerce também, e companhia para lembrar. Não existe nada melhor do que ter companhia para lembrar.

E a gente na Aula da Saudade comemorando o fim do ciclo e o início da nova era (!). Da nova era de incertezas, só se for. E a gente mentindo pra gente: queria logo o fim, queria logo ir embora, se sentindo sufocado pelos corredores de pedras e pelas matrículas semestrais que não terminavam nunca... Esperando pelo último dia do último ano. Pela última vez.

A gente veste um invólucro rígido que não nos deixa brecha para sentimentalismos. “Realidade”, o nome desse invólucro. E por que ele não aceita sentimentos, eu não sei bem. E não vou “falar mais sobre isso”.

Acontece que a gente só mentia e fingia. Que o fim seria bom, que o passado seria só passado, uma chave bem passada (!) pela fechadura, saudade alguma, saudade nenhuma!, onde já se viu?, ter saudade da faculdade.

Nem com dois invólucros. Nem com dois empregos. Nem com outra graduação na sequência. Se a gente abrir um pedaço do zíper desse invólucro a gente vai respirar e se espantar com o que vai vir para os nossos pulmões: a saudade. E a danada da lembrança.

Que a saudade a gente sente. A lembrança a gente vê. E faz a gente sentir mais saudade, porque a gente vê, e pensa, e às vezes ouve, tudo junto.

A lembrança tem vontade própria. Ela vem sem avisar. E quando vem convidada, aparece em retratos aleatórios, em ritmos que desobedecem totalmente a cronologia, o início, meio e fim, e, não sei por quê, muitas vezes com imagens e sons de dias comuns, de um evento qualquer. Às vezes, a lembrança faz pouco caso dos grandes dias. Ela diz que é mais intenso o dia comum.

Principalmente os dias comuns de um tempo longo. Desses que têm início, meio e fim. Ritual de entrada e de saída. As lembranças da graduação que chegam na frente são as dos corredores e dos sorrisos, dos amigos, da aula que você assistia sem querer, sem saber por quê. Elas passam pela cantina e pelas mesas, pelos cheiros do setor de aulas. Inebriam e embriagam (hum...) com esses cheiros. Maltratam porque parece que você os sente agora, tudo de novo, mas nada está aqui realmente. É só a poderosa lembrança, desmanchando seu invólucro de realidade e te deixando sentir... a saudade.

E essas imagens metafísicas, vulgo nossa história, têm a tarefa não simples de nos trazer e nos mostrar pessoas. De coloca-las em seus devidos lugares, na vida de cada um de nós, na nossa história. É como colocar os pingos nos is. E dizer pra gente quem nós somos, através de outros. E de nos dar saudade desses outros, que são nossos amigos, que foram nossos parceiros, que driblaram nossas próprias dificuldades melhores do que nós, e fizeram de nós pessoas melhores – de um jeito que a humanidade não descobriu. Junto com os lugares e os espaços, é deles que mais lembramos, assim que olhamos pra trás. E não venha fechar seu invólucro, alegando nenhuma saudade.

A gente parou em um pedaço da nossa vida que quer só olhar pra frente. Pra se encher de tensões e incertezas. Não sei que ganho vocês vêem nisso, olhando somente para frente. Eu sou a favor da nostalgia agora. Eu sou a favor de pensar no que já foi, no que você já foi, no que aconteceu e não volta mais, e, principalmente, no que aconteceu e ficou para sempre.

Arreganhe logo esse invólucro, e pense que, como quer que tenham sido, os cinco (ou mais) últimos anos foram a sua história. São a sua história. Hoje a mais recente, hoje a que é mais você mesmo. E aposto que não foram bons nem ruins. Nem neutros. Do tipo que você poderia passar sem eles. Foram tudo isso. Às vezes bons demais, outras vezes cheios de lágrimas; com as dores que o invólucro mascara, com as angústias que o invólucro da realidade traz. Com os amigos gargalhando, com os professores que foram amigos. Com os professores que não foram amigos. E com os que não foram (que faltaram a aula, porque tinha...). Foram anos com a raiva das escolhas, com a felicidade das escolhas. De falência de sonhos, de reconhecimento de limites. De sensações de dever cumprido, de ciclos fechados. Com a sensação desse grande ciclo fechado.

Mas não feche! Não volte pro invólucro, nem embrulhe essas lembranças. Não fuja delas. Não faça pouco delas. Principalmente, não faça pouco delas. As lembranças são quem nós somos, são quem seremos para sempre. Seu pedaço psicólogo, mesmo que você não vá sê-lo, já tem cinco anos (ou mais). Já tem esse tempo para trás. Agora sim, vá, olhe pra frente... Mas não olhe demais, o horizonte é tão infinito que vai te dar vertigem. Volte um pouquinho seus olhos e seu coração (abre invólucro!) para trás, para nós, para o que fomos. Para você. 


Houve ainda uma insistência pelo tema Amor, enquanto o texto diferente das diferenças ficava pronto, e eu mantinha-o meio que em segredo. À medida que os dias passavam, minguando a contagem regressiva da formatura, eu não tinha fôlego nem criatividade nenhuma para falar sobre o Amor. Eu não tinha nem motivos suficientes. Se o que era jogado sobre todos esses dias era esse sentimento ambivalente e grandioso chamado saudade. 
Comecei o texto recusando, de novo. 
E enfiaram-no no canudo da colação de grau.

Quando Rodrigo Bico interpretou meu texto

Era esse:


Eu (a gente) poderia escolher falar agora, nesse momento clichê de nossas vidas, previsível, em muitos aspectos, de assuntos clichês e previsíveis. Eu (a gente) poderia tratar do que mais convém: o passado e o futuro, o medo, o amigo, o amor, a própria vida. A gente poderia dar um trato nos temas que mais sentimos e menos pensamos – seriam eles os mais importantes para se escrever. E não é à toa que tantos escrevem tanto e muitas vezes.
Mas vamos fazer diferente. Vamos falar diferente. Do diferente.

Não há nada que vivamos mais e que discutamos menos do que a diferença. Precisamos “falar mais sobre” ela.
Discutir é o que mais fazemos, o que melhor sabemos fazer, ou, em alguns casos, o que melhor sabemos evitar. Eu adoro evitar uma discussão. Eu adoro saber da discussão alheia. Ver as diferenças rugirem e se estapearem é muito bom, é inspirador. Pra quem gosta de política, diferença é sinônimo de democracia. Pra quem gosta de escrever, é inspiração pra história e pra personagem. Pra quem gosta de falar da vida alheia, é assunto novo.

A gente se esforça para ser diferente. Mais um no meio da multidão nunca cai bem. E a gente se esforça para aceitar o diferente.
A diferença tem que acompanhar a tolerância. A paciência. O respeito intenso e autêntico. A neutralidade (que nem existe). O problema é que a diferença não pode ser diferente demais. Porque faísca, machuca, pega fogo. E aí?
A gente gosta e aceita o diferente. Mas só até certa medida. A gente quer ser diferente, mas só até certa medida. Porque não dá pra ser flexível demais, imparcial demais, genuinamente interessado e “aceitador” do outro. Só Jesus, digo, só Rogers. E mais, é melhor que sejamos assim.
A abertura completa e a aceitação sempre espontânea não nos levariam a lugar algum. Não digo que não devamos, nunca, aceitar os nossos extremos opostos, desconsiderá-los. (Só quando não valem a pena...). O que digo é que ser neutro à diferença nos tiraria a característica mais nobre de se alcançar: defender quem nós somos.
Falar de nós mesmos. Dizer, para o outro, parecido ou não conosco, que pense igual ou não à gente, quem nós somos, onde eu começo e onde eu termino. E ter certeza, ao final, que sou diferente de você. (Que bom!)
Nesse momento esperado, clichê, ritualístico de nossas vidas, é válido ter mais essa discussão. Vamos levantar a questão (porque estudante de psicologia e psicólogo adoram uma “questão”): discutir o diferente.

Um processo seletivo qualquer, inventado por um qualquer, bem diferente de nós, totalmente desconhecido de nós, teve a ideia de fazer uma prova igual (!) para um monte de gente diferente, tentando dizer que dessa prova igual sairiam os melhores diferentes àquela altura. Esses montes de gentes diferentes são jogados numa vala, digo, numa sala, porque, se eles foram os melhores em uma prova igual, eles seriam parecidos em algo e...
Ledo engano. Já diria Pablo. Ledo engano. Foi a conclusão que ele chegou depois da escolha dele, unânime a de mais quarenta e quatro, sobre fazer Psicologia. E que outros também chegaram, eu sei. Pois nisso já nós somos diferentes. Nem todo mundo tinha certeza no começo, nem todo mundo tinha certeza no percurso, e nem todo mundo tem certeza do que quer fazer agora.
E desse monte de diferenças e incertezas, surgem algumas certezas (e também algumas indiferenças), e as diferenças se multiplicam. Porque a Psicologia se multiplicou. Sinceramente, à essa altura não me interessa (sou indiferente!) se você será psicólogo ou não. Mas não tenho dúvidas de que você seja diferente, bem diferente, por ter visto tanto de teoria e de mundos diferentes dentro desse mundo esquisito de Psicologia. Eu sei que você mudou graças a ele. Esse universo diverso e intenso. Essa filociência, que nem é filosofia nem é ciência, que mesmo vivendo em cima do muro, desfrutando agruras existenciais, fez você um ser todinho diferente. Todinho diferente.

Esses outros quarenta e quatro, que agora são menos que isso, passaram pelos mesmos cinco anos e pelo mesmo curso e pelos mesmos corredores, que não são os mesmos cinco anos nem curso nem corredores, e são outros. Parece uma conclusão esquizofrênica sobre estar ao lado de desconhecidos o tempo inteiro. E é exatamente isso.
Dentre outras coisas (amigos, fotografias, corredores, trabalhos repetidos, angústias existenciais), tenhamos em mente, esses cinco anos de teoria tinha esse objetivo impossível e ao mesmo tempo real: legitimar e abraçar (só simbolicamente, gente) o diferente. Aceitação incondicional e interesse genuíno a gente deixa para os deuses, de novo, para os Rogers, mas tornar legítimo e dar um abraço (simbólico), é possível e importante.
É para isso que a gente ouve, menino. Que a gente passa cinco anos aprendendo a escutar. E não com os ouvidos, não seja tolo! Mas com os olhos e o olhar, com a postura e os gestos, com o respeito perceptível, com a certeza de quem se importa. De quem aceita e, sobretudo, de quem deseja o diferente.
Não é à toa que a prática começa in loco. Começa numa metaprática, ou metateoria. Foi difícil ou não, um primeiro ano diferente cheio de gentes diferentes? E mais cinco anos, com pessoas que você conhecia, mas que eram assim tão diferentes? Reconheça o seu esforço, a sua doação, a dificuldade em estar assim, em meio a uma diversidade que muitas vezes você não concorda nem aceita. Considere o seu engrandecimento pessoal (termo senso comum que não pode ser excluído), e não se envergonhe dos seus deslizes, ou do tamanho da sua intolerância.
Aplauda-se. Aplaudamo-nos. Comemore, celebre. Você só está aqui hoje, você só o é hoje, por causa desse não clichê hoje quase clichê, e que, se é clichê, é porque é importante: a diferença.
E viva-a.


Esse texto me foi pedido para a Aula da Saudade da turma de Psicologia, minha turma de Psicologia. Quem me pediu sugeriu que fosse sobre o Amor, semelhante a um texto meu de trabalho antigo da faculdade. O texto sobre amor, planejava-se, acompanharia imagens da turma, seria sobre a turma. 
No dia desse pedido, entretanto, essa mesma turma, que seria ilustrada com um texto sobre o Amor, havia se empenhado em um debate sobre o nome da turma, debate inconcluso, cheio de faíscas, deixando nossa turma "sem nome", diante da discórdia e de tantas opiniões que brigavam. Eu faltei à discussão. Mas consegui imagina-la muito bem, porque eu conhecia bem a turma: um monte de gente diferente que pensa diferente demais uns dos outros. 
Eu nem discuti (indiferente). Comecei a escrever um texto recusando a proposta do Amor (que caberia, sim,  à turma, não precisa me interpretar mal). Eu decidi escrever um texto sobre a turma, que foi esse texto, diferente. 

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Se não antes, agora

E a essa altura do tempo a gente se pergunta por que que não foi sempre assim, digo, por que que não foi assim desde o começo. Por que não adivinhamos, ou disseram logo a todos nós, que a melhor forma de ver passar os dias era estarmos logo todos juntos? Era escolher logo a mesma mesa e o mesmo bar, a mesma piada, criar logo essas piadas internas, dar apelido a quem lhe é de direito, e, sorrindo, ir em frente. Por que não logo?

Parece que demoramos tanto. Parece até que perdemos tempo. Que me perdoem os otimistas e os filósofos de primeira viagem (são os filósofos otimistas), mas parece mesmo que perdi um tempo. Vamos dizendo: perdemos de aproveitar tão bem como hoje e como agora, como os últimos meses, intensos, confusos, filhos da puta, que foram esses últimos meses. E bons e grandes, às vezes parece que foi bom o último ano ter durado anos, porque compensou. Ah, sim, então é isso. O último ano transformou-se em cinco para compensar os quase cinco anteriores passados em branco.Não passados em branco, mas em bege, nudes, opacos. Em paredes simples.

O último ano colocou tantos quadros e imagens nessa parede opaca, que precisamos de uma outra. Precisamos (passado), precisamos (presente). Mudamos e estamos a mudar, ainda, esse tempo que de barreiras e barracos teve demais, e agora convém um carinho e uma ternura maior. Temos agora uma parede cheia de imagens assim, ternas, suaves e intensas, novas, sorridentes, nossas.

Poderia ter sido assim sempre. Poderia ter sido assim desde o começo. Mas não foi. Pois é dado novo decreto: que esse começo seja agora, e que esse sempre seja sempre.

Amigos meus, está chegando a hora
Em que a tristeza aproveita pra entrar
E todos nós vamos ter que ir embora
Pra vida lá fora continuar

Tem sempre aquele 
Que toma mais uma no bar
Tem sempre um outro 
Que vai direitinho pro lar

Mas tem também
Uma sala que está vazia
Sem luz, sem amor, sombria
Prontinha pro show voltar

E em novo dia
A gente ver novamente
A sala se encher de gente
Pra gente comemorar

Vinicius.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Tem que ver isso aí

Verão. Sol. Calor. Casas de praia. Lotadas casas de praia. Lotada praia. Lotação de paredões de som. Essa época barulhenta e malcheirosa, chamada veraneio, prediz praias lotadas no que até então era deserto e civilizável. E esquisito, perigoso, pacato demais, próprio de assaltos e roubos e sequestros, né, veja só, sem ninguém nas praias como isso não deve ficar.

Mentira. Vocês que tão por fora que ladrão não gosta de fazer hora extra em tempo de férias. No veraneio, além de paredões e um quatro-por-quatro por meio-ser-humano, existe uma boa pedida para roubos e afins. Furtos. Loucos furtos. Os escândalos e as casas de praia com reféns e sequestros, por sua vez, têm diminuído de frequência, ao que parece.

No último final de semana de veraneio, subimos, quatro, para um crepe na hora do jantar. O cachorro ficou na varanda, curtindo a brisa e o forró que o vizinho entoava, alegremente, conforme um bom veraneio pede. Voltamos, dois, primeiro que os outros dois, que esticaram a balada frenética por um sorvete. Os dois primeiros que chegaram viram um cachorro teimoso do lado de fora da casa; os dois últimos, a cena do crime.

A necessáire do cachorro (tão chique quanto tu) em um lugar diferente; aberta; com um remédio a menos. Um protetor solar a menos. E, mais tarde, uma toalha foi contada a menos também.

Um roubo, três furtos, amigos do Direito, não me corrijam, furtar e roubar dá no mesmo, porque eu fico sem as coisas, pois foi. Entraram em nossos aposentos, levaram o spray de colocar nas feridas do cachorro, um protetor solar fator 15 pela metade, e uma toalha de banho, branca com detalhes cor-de-rosa.

No próprio carnaval, agora, fim-de-semana, em mesmos aposentos. Era cedo da noite, ninguém tinha ido comer crepe; família reunida pro jornal. A cunhada da dona da casa foi no quintal tirar sua toalha do varal pra tomar banho, e, antes de lá, um cavalheiro do lado da rede, onde dormia o dono da casa. Cobiçando relógios e dinheiro, celulares, chaves de carro? Não sei. Esse aí só levou roupas. Na verdade, não conseguiu roubar todas que tinha tirado do varal, mó do susto que levou quando descoberto; carregou consigo uma bermuda, estilo surfista, tamanho 40, a que lhe servia. O restante das roupas de praia ficou pra trás. Foi o que o bazar desse dia permitiu.

Cleptomania é um problema sério, já diria a wikipedia. E, nesses casos, de segurança/saúde públicas.
Psicólogos, vocês precisam fazer alguma coisa com isso aí. Tem que ver.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Celebrações em meio ao limbo

Eu imagino que as tradições guardem verdades por trás de seus motivos. Nos tempos dos nossos pais ou avós, receber um diploma era um óbvio motivo de festejos e alegrias, e fotografias, e felicitações. Se fosse pra receber um diploma, era precisa e necessária a festa, o glamour, os presentes caríssimos simbólicos e sem uso como anéis e canetas. Era um canudo valioso, um prenúncio de um futuro melhor, o carimbo da superioridade do nível Superior (sem redundância; aqui encontro o motivo de chamar-se nível Superior. Eureka.)

Eu venho aqui para pedir (a mim mesma) que paremos com isso. Terminar uma graduação deveria de ser uma grande festa, ainda motivo de celebração. Mas, reconheçamos, não quero cuspir no prato que acabei de jantar, mas também é preciso ser franca: o passaporte do bom futuro e o carimbo de um presente sortudo ficaram demodê.

A saída do ensino médio para a entrada da graduação pode, às vezes, guardar uns anos de suor e lágrimas (sem dramas, com dramas), um tempo chato, com sensação de inutilidade, mas com objetivo próximo e claro. Um tempo ruim, mas um tempo cheio. Uma ampulheta incessante e nervosa.

Mas a saída do ensino superior se vinga de todos os anos em que você se queixava das aulas sobre metodologia científica e antropologia básica, desejando o fim próximo, desdenhando de professores prolixos, dando o troco à sonolência deles ficando na cantina ao invés de assistir às aulas. Ela faz isso te jogando em um limbo violento. Um poço fundo, sem fundo, eu acho, ainda tô chegando no fundo, nesses dias em que o ócio me enlouquece, veja bem, então não sei bem se o poço termina (fica pior do que isso?). Você sai de corredores de muros de pedra cuja metáfora não vale de nada. Era o próprio conforto e bem estar dos professores sonolentos e alguns inspiradores, das possibilidades inúmers (eu não uso a expressão 'leque de possibilidades' nem sob tortura), da dinherama que era uma bolsa de IC, agora que você não tem nada, e dos amigos por perto. Você, que debochava, agora sofre.

E, por motivo único de manter as tradições, a gente celebra. A gente não celebra por motivo de celebrar, é claro que não. Em meio ao limbo, nada se celebra, meu amigo. Você esforça-se (nos momentos sóbrios do ócio predizente da loucura), concentra, mentaliza e até medita (há também quem apele para novas religiões), que esse é um tempo bom, um novo tempo, como dizem, o fechamento de um ciclo importante, ciclo que vai te dar presentes e recompensas futuras. Então você torce. Apela pra sorte. Pra cartomante, pros Classificados, pro painho que pode te empregar. Em algum lugar. Em qualquer lugar.

E, enquanto medita, você sofre com o ócio. Eu esses dias comecei a achar que eu era outra pessoa. Porque eu estou em outra vida. Viver um limbo é viver uma outra vida, uma vida que não é a sua (nesse momento um eco aqui no poço esbraveja 'essa é a sua vida, sim, a sua vida de agora, de agora em diante...'), você me entende? Como eu posso achar que sou eu se eu não faço nada que eu faço e sempre fiz? Se eu não faço nada que faça de mim quem eu sou? Não mais. Aí eu virei uma página em branco, num foi. Fiquei transparente. Na verdade, opaca, que é muito mais deprimente que ser uma transparência. Engordei e emagreci, perdi cabelos e unhas, mudei de personalidade várias vezes, meu bipolar alcançou a ciclotimia, e o próximo passo é o arrombamento do cartão de crédito ou tomar todos os uísques da formatura antes do dia do baile.

Então, eu venho aqui para pedir (2), que invertamos as tradições. Que deixemos as solenidades, festas, glamoures, brilhos, para o início (real) de um tempo adiante, como é o início da graduação. Não interessa se você vai terminar, flor. Se você vai desistir e trancar, se você vai abandonar a ideia do diploma superior pelo de nível técnico ou de dançarina de funk. O futuro não interessa. Ele não pode interessar nem ser o centro das celebrações; porque ele tá cada vez mais incerto. E tá macerando a gente, é verdade, não sou exagerada, só um pouco. É melhor comemorar o alcançado, o futuro próximo e iminente de um setor dois cheio de fumaças e cores, do que o adeus a um setor dois de fumaças e cores professores alunos promessas e um tempo bom que... Não volta mais.

Eu queria ter brindado ao futuro quando o passado foi assim bem bom. O limbo me faz lamentar.

Hora da meditação.
Boa noite.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Sob(re) contradições

Quando a amiga falou sem pestanejar que a pior coisa que ele havia feito teria sido deixar a última namorada para trás. Aquela do passo incerto, dos cabelos curtos, do tempo efêmero. Efêmero demais, disse.

Sabia bem quem era, como ela era, e como seria. A amiga tinha tanta certeza sobre isso, que mais certeza tinha ainda sobre o erro do melhor amigo. Não falou por puxar saco. Falou por contestação simples assim como dois é par, e dois menos um é solidão.

- Eu não quis, mas eu tive. Eu tive e precisei de fazê-lo. E não há quem entenda. Nem espero que haja. Não espero que você entenda.
- De novo isso? 
- Foi só a pessoa certa na hora errada. 
- Que simples.

A vida é cheia de pessoas certas nas horas erradas. A vida é cheia de horas erradas, e, ainda mais, de pessoas erradas e errantes. Que pena. Se a equação pende para as pessoas, não é possível teimar em ater-se a matemática perfeita, que não há!, entre pessoas e tempo. Não é possível que queiramos preparar o tempo para peneirar pessoas. Cuidar de nós nesse tempo, para que por uma mágica ou poder do espírito santo, lhe venha uma (a) pessoa certa. Ou várias. Porque a balança torta se repete ao longo dos anos, e as boas pessoas nos tempos ruins não pararão de existir.

Não é preciso que você aprume o terreno, organize os sentimentos em estantes, apague com borracha definitiva as dores do passado que são presentes. Aliás, é preciso, bem que é. Mas não é preciso tudo isso para só então você receber as visitas. Estas, boas e ruins, vão aparecendo à medida que a faxina segue - e é difícil que essa faxina um dia acabe por completo, pois ela é que nem a louça da pia: diminui mas nunca acaba.

E se você aplica metodismo exagerado aos sentimentos da cabeça, para que eles não invadam o diabo do seu coração, você é burro. Você desperdiça e dispensa pessoas certas por "nada". Por "tempo", pelo seu tempo, que para eles tanto importa. Eles, os certos. Você, o errado, por causa do tempo. De novo, do seu tempo.

E aí você afunda (afundou) na estupidez do egoísmo. E egoísmo do pior estirpe: aquele que implica indiferença total e absoluta (à prova de lágrimas e descrições fenomenológicas coerentes a um estado de felicidade próximo, iminente) logo a que, a pessoas! A pessoas, e aos seus corações e suas dores, e aos seus tempos.

Você teria de ser indiferente ao seu tempo. Ao contrário do que você estupidamente imagina, ele é maleável, adaptável e flexível às pessoas (boas e ruins, mas especialmente às boas). Ele é quem transita indiferente, e é assim que você tem de ser com ele. Ele não vai trazer de volta as pessoas certas. Nem necessariamente trazer novas pessoas certas. Mas é possível (em ambos os casos, com menos chance para o primeiro). Talvez você ainda tenha chance.

Vamos ver com o tempo.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Invadindo (hall) espaço

Eu preciso que minha vizinha de andar deixe a porta da casa dela fechada. A porta que dá pro hall. A porta da sala de estar. Que agora também é sala de tv. Que ganhou móveis novos. Ela trocou aquele sofá em L por um sofá tradicional e duas poltronas marrons, e colocou uma tv moderna dessas que se penduram na parede, mas acho que o centro da sala é o mesmo, e os porta-retratos da família também. Teve outra neta que casou, parece, vi uma foto nova de outra noiva que não era aquela que já tem uma filha que agora estava na sala assistindo o Pintinho Colorido, ou a Galinha Pintadinha, que seja.

Não sejam.

Fechem a porta, vizinhos. Não se justifiquem com o calor e o fresco que corre pela sala se a porta estiver aberta. Pois nem os frescos nem os não frescos gostariam dessa exposição da sua casa que é a invasão do meu espaço.

O hall do elevador é um lugar vazio e solitário. Sem enfeites, sem vida, sem graça. Para uma pessoa só, ou poucas mais. Que só permanecem ali por mais de quatro segundos se estiverem esperando um elevador para ir embora. E não para obrigatoriamente ter de cumprimentar as pessoas da sua sala de estar que me olham enquanto eu espero o elevador para desesperadamente ir embora. Eu não quero cumprimentar sua família. Nada contra. Eu até gosto muito de vocês, da senhora principalmente, a dona da casa. Mas eu estou no meu espaço que é nosso, só que naquele momento deveria ser só meu, porque eu estou ali sozinha, pensando no que esqueci e no que estou levando na bolsa, preocupada com o relógio, chateada porque briguei com minha mãe ou porque acabou o pão e tô saindo sem tomar café da manhã. E aí tenho de cumprimentar vocês todos. Como se vocês fossem também minha família! A extensão da minha família. Porque eu estou, teoricamente, ainda em casa, e vocês estão aqui comigo, frente à tv, com sucrilhos nas mãos e com crianças fazendo lição de casa no centro da sala (psicólogos advertem que isso é erradíssimo, e pedagogos entram em choque epilético no momento em que escrevo isso), com seus problemas, que nada têm a ver com os meus, com suas vidas domésticas, que nada têm a ver com a minha, exceto pelo fato de pagarmos o mesmo absurdo condomínio, e eu tenho de olhar para vocês. E obrigatoriamente cumprimentar. Porque vocês não estão dentro de casa, mas fora, na rua, no mundo, invadindo meu espaço.

E agora que não posso cheirar meu sovaco pra confirmar o desodorante, nem falar puta que pariu muito alto se eu tiver esquecido algo, nem falar sozinha, eu que falo tanto sozinha, especialmente em lugares pseudomeus, como um hall de elevador, (que é quando se está sozinho!, entende?), nem subir mais o cós da calça, tirar a calcinha de onde não deveria estar, nem olhar para o vazio. Não posso ficar olhando para o vazio e pensando enquanto espero a luz das setas se apagarem porque isso me faria uma vizinha mal-educada. E eu sou bem educada. Apesar de chata e de cultivar meus espaços.

Eu quero o hall só para mim, quando ele tiver de ser. Eu divido com vocês, quando tiver de ser. E isso será quando os demais esperarem o elevador junto comigo, estiverem descarregando o supermercado do elevador de serviço, e também nas celebrações de aniversário e ceia de Natal. Aí, sim, porta aberta!, sem mais. O hall é nosso.

Mas amanhã e nos demais dias do ano, nos quase inteiros minutos do dia, me dá meu hall, não invade meu espaço, não vamos mesclar nossas casas. Cada um na sua, como deve ser. Pode ser?

Deve ser.

Foi Vinicius, não fui eu

Vinicius cá comigo falou. Com a vida você cria uma espécie de capacidade seletiva. De não amar as pessoas que não valem a pena.
Vinicius sabia tanto que insistiu demais, foi intenso demais.

Eu venho aqui dizer que fui intensa demais. Vivi demais em tão pouco, por tão pouco, tão poucos. De doer dias inteiros o não ter selecionado. Eu ainda não havia aprendido! Como poderia de ser?

E a gente aprende mas não faz. Ou faz e não é assim tão bom. É médio, é tênue, terno, com muita ternura e sem explosão. E você se vê buscando e sentindo falta das explosões, dos impulsos, extremos. Lados extremos, onde vigoraram paixão e tristeza. Tristeza de doer dias inteiros. Paixão que virou saudade.

Mas não esqueça do que falei! Saudade só é bom se for a dois. Paixão melhor que seja. Com a capacidade seletiva, melhor que seja. Sem desperdício de sentimentos, para não desperdiçarmos nós mesmos. Sem desperdício de amor por outrem, para não perdermos o amor de nós mesmos, o amor a nós mesmos.


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Como somos

Você aí se fantasiando de fortalezas que não existem. Você aqui vivendo sobre e sob superficialismos, adepta que é dos superficialismos, achando que eles é que valem. Você então se embebendo de muros que parecem gessos fortes, cimento revestido de cal, mas que, visto de perto, é óbvio, são meros isopores. E eles balançam e fraquejam, envergam, logo vão embora, ao menor sinal de vento moderado a forte. Imagine de uma tempestade.
Vem aí a tempestade.
A tempestade nunca passa, ela sempre é tempestade - em algum lugar. E em poucos minutos seus isopores vão se despedir de você assim como chegaram: de repente. Como quando você mal pestanejou e encheu-se  deles, e de outros muros também, e cobriu-se de superficialismos ainda mais, veja só, pra onde você foi?, você ficou agora tão fundo. Que não há quem te alcance. E quando sair da imersão vai levar um susto. Suas muralhas-palito. De nada serviram.
Só vai restar você. Depois de todos superficialismos. Depois de todos tetos e paredes de que se encobriu, suas fantasias e suas crenças, e sua fé sem fé, só vai restar você.

Você que sou eu.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Azamiga

- Mulher, tô indo caminhar toda noite lá na Alexandrino. 
- E é? E é bom lá? 
- É, mulher, é ótimo. Mas tem umas coisas chatas. Mas é bom. 
- Mentira, o quê? 
- Porque assim. Você sabe onde é né? 
- Não.
- Então. A gente fica dando volta, dando volta, dando volta, e todo mundo igual. Mas sempre tem um povo que anda pro lado errado, na contramão. Não sei por quê.
- Mentira. Por quê?
- Não sei. Tem uns desenhos rupestres no chão mostrando pra onde a gente vai e pra onde a gente volta. Mas tem uns que vai no lugar de voltar e volta no lugar de ir. Normalmente são uns gatinhos bem feios sem camisa. 
- Ai, mentira. Nácreditonão. 
- Pois é. 

- Também é ruim outra coisa. Lá nem todo mundo lê, sabe como é?
- Lê?
- É, lê, ler. Escreveram no chão um monte de vezes: do lado esquerdo você corre, do lado direito você caminha...
- Mas essa frase é muito grande pra ficar lendo, assim, na caminhada. 
- Não. Só são duas palavras: "correr" e "caminhar".
- Aí?
- Aí o povo faz o contrário.
- Mentira.
- É. Quem caminha anda do lado direito, quem além de caminhar, passeia, anda do lado esquerdo.
- Af Maria... 
- E às vezes tem uns grupos de amigos instagram que andam lado a lado, aos cinco, aos seis, e não tem como caminhar com eles conversando sobre o instagram. 
- Mulher!
- Se você quiser ir, eu te pego em casa. Esses dias foi meio difícil estacionar. 
- Mentira! 
- Verdade.
- Tem tanta gente assim?
- Até tem. Mas é que tem uns grupos de educadores físicos, que, com três licenças do Seturn, duas do Detran, e talvez uma da Semurb, conseguem usar as faixas para estacionamento para outro fim.
- Mentira. Pra quê?
- Pra dar aula. 
- De graça? Pra população, é tipo aquelas academias das praças que...
- Não, mulher. É pagando. 
- Mentira, mulher.
- É. Aí eles interditam vagas de carros pra isso. Colocam uns cones, que o Detran, a Seturn e Semurb cederam a eles, porque eles não só podem como devem estar ali, disse o ofício publicado do diário oficial, aí espalham uns colchonetes, pros alunos deles, sabe. 
- Aí bem no estacionamento?
- É. 
- Af, mentira, mulher.
- Mas é. Mas tirando isso é legal. 
- Sei. 
- Tem um cara que vende salada de frutas que ele grita muito, sabe, pra conseguir vender salada, que ninguém compra. Aí é melhor ir com fones de ouvido. Pra ficar mais legal. 
- Menos ruim, né.
- E aí, vamos?