segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Celebrações em meio ao limbo

Eu imagino que as tradições guardem verdades por trás de seus motivos. Nos tempos dos nossos pais ou avós, receber um diploma era um óbvio motivo de festejos e alegrias, e fotografias, e felicitações. Se fosse pra receber um diploma, era precisa e necessária a festa, o glamour, os presentes caríssimos simbólicos e sem uso como anéis e canetas. Era um canudo valioso, um prenúncio de um futuro melhor, o carimbo da superioridade do nível Superior (sem redundância; aqui encontro o motivo de chamar-se nível Superior. Eureka.)

Eu venho aqui para pedir (a mim mesma) que paremos com isso. Terminar uma graduação deveria de ser uma grande festa, ainda motivo de celebração. Mas, reconheçamos, não quero cuspir no prato que acabei de jantar, mas também é preciso ser franca: o passaporte do bom futuro e o carimbo de um presente sortudo ficaram demodê.

A saída do ensino médio para a entrada da graduação pode, às vezes, guardar uns anos de suor e lágrimas (sem dramas, com dramas), um tempo chato, com sensação de inutilidade, mas com objetivo próximo e claro. Um tempo ruim, mas um tempo cheio. Uma ampulheta incessante e nervosa.

Mas a saída do ensino superior se vinga de todos os anos em que você se queixava das aulas sobre metodologia científica e antropologia básica, desejando o fim próximo, desdenhando de professores prolixos, dando o troco à sonolência deles ficando na cantina ao invés de assistir às aulas. Ela faz isso te jogando em um limbo violento. Um poço fundo, sem fundo, eu acho, ainda tô chegando no fundo, nesses dias em que o ócio me enlouquece, veja bem, então não sei bem se o poço termina (fica pior do que isso?). Você sai de corredores de muros de pedra cuja metáfora não vale de nada. Era o próprio conforto e bem estar dos professores sonolentos e alguns inspiradores, das possibilidades inúmers (eu não uso a expressão 'leque de possibilidades' nem sob tortura), da dinherama que era uma bolsa de IC, agora que você não tem nada, e dos amigos por perto. Você, que debochava, agora sofre.

E, por motivo único de manter as tradições, a gente celebra. A gente não celebra por motivo de celebrar, é claro que não. Em meio ao limbo, nada se celebra, meu amigo. Você esforça-se (nos momentos sóbrios do ócio predizente da loucura), concentra, mentaliza e até medita (há também quem apele para novas religiões), que esse é um tempo bom, um novo tempo, como dizem, o fechamento de um ciclo importante, ciclo que vai te dar presentes e recompensas futuras. Então você torce. Apela pra sorte. Pra cartomante, pros Classificados, pro painho que pode te empregar. Em algum lugar. Em qualquer lugar.

E, enquanto medita, você sofre com o ócio. Eu esses dias comecei a achar que eu era outra pessoa. Porque eu estou em outra vida. Viver um limbo é viver uma outra vida, uma vida que não é a sua (nesse momento um eco aqui no poço esbraveja 'essa é a sua vida, sim, a sua vida de agora, de agora em diante...'), você me entende? Como eu posso achar que sou eu se eu não faço nada que eu faço e sempre fiz? Se eu não faço nada que faça de mim quem eu sou? Não mais. Aí eu virei uma página em branco, num foi. Fiquei transparente. Na verdade, opaca, que é muito mais deprimente que ser uma transparência. Engordei e emagreci, perdi cabelos e unhas, mudei de personalidade várias vezes, meu bipolar alcançou a ciclotimia, e o próximo passo é o arrombamento do cartão de crédito ou tomar todos os uísques da formatura antes do dia do baile.

Então, eu venho aqui para pedir (2), que invertamos as tradições. Que deixemos as solenidades, festas, glamoures, brilhos, para o início (real) de um tempo adiante, como é o início da graduação. Não interessa se você vai terminar, flor. Se você vai desistir e trancar, se você vai abandonar a ideia do diploma superior pelo de nível técnico ou de dançarina de funk. O futuro não interessa. Ele não pode interessar nem ser o centro das celebrações; porque ele tá cada vez mais incerto. E tá macerando a gente, é verdade, não sou exagerada, só um pouco. É melhor comemorar o alcançado, o futuro próximo e iminente de um setor dois cheio de fumaças e cores, do que o adeus a um setor dois de fumaças e cores professores alunos promessas e um tempo bom que... Não volta mais.

Eu queria ter brindado ao futuro quando o passado foi assim bem bom. O limbo me faz lamentar.

Hora da meditação.
Boa noite.

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