quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Invadindo (hall) espaço

Eu preciso que minha vizinha de andar deixe a porta da casa dela fechada. A porta que dá pro hall. A porta da sala de estar. Que agora também é sala de tv. Que ganhou móveis novos. Ela trocou aquele sofá em L por um sofá tradicional e duas poltronas marrons, e colocou uma tv moderna dessas que se penduram na parede, mas acho que o centro da sala é o mesmo, e os porta-retratos da família também. Teve outra neta que casou, parece, vi uma foto nova de outra noiva que não era aquela que já tem uma filha que agora estava na sala assistindo o Pintinho Colorido, ou a Galinha Pintadinha, que seja.

Não sejam.

Fechem a porta, vizinhos. Não se justifiquem com o calor e o fresco que corre pela sala se a porta estiver aberta. Pois nem os frescos nem os não frescos gostariam dessa exposição da sua casa que é a invasão do meu espaço.

O hall do elevador é um lugar vazio e solitário. Sem enfeites, sem vida, sem graça. Para uma pessoa só, ou poucas mais. Que só permanecem ali por mais de quatro segundos se estiverem esperando um elevador para ir embora. E não para obrigatoriamente ter de cumprimentar as pessoas da sua sala de estar que me olham enquanto eu espero o elevador para desesperadamente ir embora. Eu não quero cumprimentar sua família. Nada contra. Eu até gosto muito de vocês, da senhora principalmente, a dona da casa. Mas eu estou no meu espaço que é nosso, só que naquele momento deveria ser só meu, porque eu estou ali sozinha, pensando no que esqueci e no que estou levando na bolsa, preocupada com o relógio, chateada porque briguei com minha mãe ou porque acabou o pão e tô saindo sem tomar café da manhã. E aí tenho de cumprimentar vocês todos. Como se vocês fossem também minha família! A extensão da minha família. Porque eu estou, teoricamente, ainda em casa, e vocês estão aqui comigo, frente à tv, com sucrilhos nas mãos e com crianças fazendo lição de casa no centro da sala (psicólogos advertem que isso é erradíssimo, e pedagogos entram em choque epilético no momento em que escrevo isso), com seus problemas, que nada têm a ver com os meus, com suas vidas domésticas, que nada têm a ver com a minha, exceto pelo fato de pagarmos o mesmo absurdo condomínio, e eu tenho de olhar para vocês. E obrigatoriamente cumprimentar. Porque vocês não estão dentro de casa, mas fora, na rua, no mundo, invadindo meu espaço.

E agora que não posso cheirar meu sovaco pra confirmar o desodorante, nem falar puta que pariu muito alto se eu tiver esquecido algo, nem falar sozinha, eu que falo tanto sozinha, especialmente em lugares pseudomeus, como um hall de elevador, (que é quando se está sozinho!, entende?), nem subir mais o cós da calça, tirar a calcinha de onde não deveria estar, nem olhar para o vazio. Não posso ficar olhando para o vazio e pensando enquanto espero a luz das setas se apagarem porque isso me faria uma vizinha mal-educada. E eu sou bem educada. Apesar de chata e de cultivar meus espaços.

Eu quero o hall só para mim, quando ele tiver de ser. Eu divido com vocês, quando tiver de ser. E isso será quando os demais esperarem o elevador junto comigo, estiverem descarregando o supermercado do elevador de serviço, e também nas celebrações de aniversário e ceia de Natal. Aí, sim, porta aberta!, sem mais. O hall é nosso.

Mas amanhã e nos demais dias do ano, nos quase inteiros minutos do dia, me dá meu hall, não invade meu espaço, não vamos mesclar nossas casas. Cada um na sua, como deve ser. Pode ser?

Deve ser.

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