quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Quando meu texto foi parar no canudo


Aula Dá Saudade

Eu não. Eu vou falar sobre a saudade. Não dá pra falar de outra coisa se não ela. Não agora.

Eu uma vez pensei e disse que saudade não vale a pena se for sozinha. Saudade só vale a pena quando é compartilhada. Quando são duas. Quando é recíproca, se encontram no meio do caminho da lembrança, papeiam e crescem. Orgulhosas de estarem saudosas uma da outra.

Saudade só vale a pena se for com mais. Saudade de um só é solidão, é nostalgia sem propósito, é tristeza provável. Saudade de dois ou mais é passado real, é alicerce também, e companhia para lembrar. Não existe nada melhor do que ter companhia para lembrar.

E a gente na Aula da Saudade comemorando o fim do ciclo e o início da nova era (!). Da nova era de incertezas, só se for. E a gente mentindo pra gente: queria logo o fim, queria logo ir embora, se sentindo sufocado pelos corredores de pedras e pelas matrículas semestrais que não terminavam nunca... Esperando pelo último dia do último ano. Pela última vez.

A gente veste um invólucro rígido que não nos deixa brecha para sentimentalismos. “Realidade”, o nome desse invólucro. E por que ele não aceita sentimentos, eu não sei bem. E não vou “falar mais sobre isso”.

Acontece que a gente só mentia e fingia. Que o fim seria bom, que o passado seria só passado, uma chave bem passada (!) pela fechadura, saudade alguma, saudade nenhuma!, onde já se viu?, ter saudade da faculdade.

Nem com dois invólucros. Nem com dois empregos. Nem com outra graduação na sequência. Se a gente abrir um pedaço do zíper desse invólucro a gente vai respirar e se espantar com o que vai vir para os nossos pulmões: a saudade. E a danada da lembrança.

Que a saudade a gente sente. A lembrança a gente vê. E faz a gente sentir mais saudade, porque a gente vê, e pensa, e às vezes ouve, tudo junto.

A lembrança tem vontade própria. Ela vem sem avisar. E quando vem convidada, aparece em retratos aleatórios, em ritmos que desobedecem totalmente a cronologia, o início, meio e fim, e, não sei por quê, muitas vezes com imagens e sons de dias comuns, de um evento qualquer. Às vezes, a lembrança faz pouco caso dos grandes dias. Ela diz que é mais intenso o dia comum.

Principalmente os dias comuns de um tempo longo. Desses que têm início, meio e fim. Ritual de entrada e de saída. As lembranças da graduação que chegam na frente são as dos corredores e dos sorrisos, dos amigos, da aula que você assistia sem querer, sem saber por quê. Elas passam pela cantina e pelas mesas, pelos cheiros do setor de aulas. Inebriam e embriagam (hum...) com esses cheiros. Maltratam porque parece que você os sente agora, tudo de novo, mas nada está aqui realmente. É só a poderosa lembrança, desmanchando seu invólucro de realidade e te deixando sentir... a saudade.

E essas imagens metafísicas, vulgo nossa história, têm a tarefa não simples de nos trazer e nos mostrar pessoas. De coloca-las em seus devidos lugares, na vida de cada um de nós, na nossa história. É como colocar os pingos nos is. E dizer pra gente quem nós somos, através de outros. E de nos dar saudade desses outros, que são nossos amigos, que foram nossos parceiros, que driblaram nossas próprias dificuldades melhores do que nós, e fizeram de nós pessoas melhores – de um jeito que a humanidade não descobriu. Junto com os lugares e os espaços, é deles que mais lembramos, assim que olhamos pra trás. E não venha fechar seu invólucro, alegando nenhuma saudade.

A gente parou em um pedaço da nossa vida que quer só olhar pra frente. Pra se encher de tensões e incertezas. Não sei que ganho vocês vêem nisso, olhando somente para frente. Eu sou a favor da nostalgia agora. Eu sou a favor de pensar no que já foi, no que você já foi, no que aconteceu e não volta mais, e, principalmente, no que aconteceu e ficou para sempre.

Arreganhe logo esse invólucro, e pense que, como quer que tenham sido, os cinco (ou mais) últimos anos foram a sua história. São a sua história. Hoje a mais recente, hoje a que é mais você mesmo. E aposto que não foram bons nem ruins. Nem neutros. Do tipo que você poderia passar sem eles. Foram tudo isso. Às vezes bons demais, outras vezes cheios de lágrimas; com as dores que o invólucro mascara, com as angústias que o invólucro da realidade traz. Com os amigos gargalhando, com os professores que foram amigos. Com os professores que não foram amigos. E com os que não foram (que faltaram a aula, porque tinha...). Foram anos com a raiva das escolhas, com a felicidade das escolhas. De falência de sonhos, de reconhecimento de limites. De sensações de dever cumprido, de ciclos fechados. Com a sensação desse grande ciclo fechado.

Mas não feche! Não volte pro invólucro, nem embrulhe essas lembranças. Não fuja delas. Não faça pouco delas. Principalmente, não faça pouco delas. As lembranças são quem nós somos, são quem seremos para sempre. Seu pedaço psicólogo, mesmo que você não vá sê-lo, já tem cinco anos (ou mais). Já tem esse tempo para trás. Agora sim, vá, olhe pra frente... Mas não olhe demais, o horizonte é tão infinito que vai te dar vertigem. Volte um pouquinho seus olhos e seu coração (abre invólucro!) para trás, para nós, para o que fomos. Para você. 


Houve ainda uma insistência pelo tema Amor, enquanto o texto diferente das diferenças ficava pronto, e eu mantinha-o meio que em segredo. À medida que os dias passavam, minguando a contagem regressiva da formatura, eu não tinha fôlego nem criatividade nenhuma para falar sobre o Amor. Eu não tinha nem motivos suficientes. Se o que era jogado sobre todos esses dias era esse sentimento ambivalente e grandioso chamado saudade. 
Comecei o texto recusando, de novo. 
E enfiaram-no no canudo da colação de grau.

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