quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Quando Rodrigo Bico interpretou meu texto

Era esse:


Eu (a gente) poderia escolher falar agora, nesse momento clichê de nossas vidas, previsível, em muitos aspectos, de assuntos clichês e previsíveis. Eu (a gente) poderia tratar do que mais convém: o passado e o futuro, o medo, o amigo, o amor, a própria vida. A gente poderia dar um trato nos temas que mais sentimos e menos pensamos – seriam eles os mais importantes para se escrever. E não é à toa que tantos escrevem tanto e muitas vezes.
Mas vamos fazer diferente. Vamos falar diferente. Do diferente.

Não há nada que vivamos mais e que discutamos menos do que a diferença. Precisamos “falar mais sobre” ela.
Discutir é o que mais fazemos, o que melhor sabemos fazer, ou, em alguns casos, o que melhor sabemos evitar. Eu adoro evitar uma discussão. Eu adoro saber da discussão alheia. Ver as diferenças rugirem e se estapearem é muito bom, é inspirador. Pra quem gosta de política, diferença é sinônimo de democracia. Pra quem gosta de escrever, é inspiração pra história e pra personagem. Pra quem gosta de falar da vida alheia, é assunto novo.

A gente se esforça para ser diferente. Mais um no meio da multidão nunca cai bem. E a gente se esforça para aceitar o diferente.
A diferença tem que acompanhar a tolerância. A paciência. O respeito intenso e autêntico. A neutralidade (que nem existe). O problema é que a diferença não pode ser diferente demais. Porque faísca, machuca, pega fogo. E aí?
A gente gosta e aceita o diferente. Mas só até certa medida. A gente quer ser diferente, mas só até certa medida. Porque não dá pra ser flexível demais, imparcial demais, genuinamente interessado e “aceitador” do outro. Só Jesus, digo, só Rogers. E mais, é melhor que sejamos assim.
A abertura completa e a aceitação sempre espontânea não nos levariam a lugar algum. Não digo que não devamos, nunca, aceitar os nossos extremos opostos, desconsiderá-los. (Só quando não valem a pena...). O que digo é que ser neutro à diferença nos tiraria a característica mais nobre de se alcançar: defender quem nós somos.
Falar de nós mesmos. Dizer, para o outro, parecido ou não conosco, que pense igual ou não à gente, quem nós somos, onde eu começo e onde eu termino. E ter certeza, ao final, que sou diferente de você. (Que bom!)
Nesse momento esperado, clichê, ritualístico de nossas vidas, é válido ter mais essa discussão. Vamos levantar a questão (porque estudante de psicologia e psicólogo adoram uma “questão”): discutir o diferente.

Um processo seletivo qualquer, inventado por um qualquer, bem diferente de nós, totalmente desconhecido de nós, teve a ideia de fazer uma prova igual (!) para um monte de gente diferente, tentando dizer que dessa prova igual sairiam os melhores diferentes àquela altura. Esses montes de gentes diferentes são jogados numa vala, digo, numa sala, porque, se eles foram os melhores em uma prova igual, eles seriam parecidos em algo e...
Ledo engano. Já diria Pablo. Ledo engano. Foi a conclusão que ele chegou depois da escolha dele, unânime a de mais quarenta e quatro, sobre fazer Psicologia. E que outros também chegaram, eu sei. Pois nisso já nós somos diferentes. Nem todo mundo tinha certeza no começo, nem todo mundo tinha certeza no percurso, e nem todo mundo tem certeza do que quer fazer agora.
E desse monte de diferenças e incertezas, surgem algumas certezas (e também algumas indiferenças), e as diferenças se multiplicam. Porque a Psicologia se multiplicou. Sinceramente, à essa altura não me interessa (sou indiferente!) se você será psicólogo ou não. Mas não tenho dúvidas de que você seja diferente, bem diferente, por ter visto tanto de teoria e de mundos diferentes dentro desse mundo esquisito de Psicologia. Eu sei que você mudou graças a ele. Esse universo diverso e intenso. Essa filociência, que nem é filosofia nem é ciência, que mesmo vivendo em cima do muro, desfrutando agruras existenciais, fez você um ser todinho diferente. Todinho diferente.

Esses outros quarenta e quatro, que agora são menos que isso, passaram pelos mesmos cinco anos e pelo mesmo curso e pelos mesmos corredores, que não são os mesmos cinco anos nem curso nem corredores, e são outros. Parece uma conclusão esquizofrênica sobre estar ao lado de desconhecidos o tempo inteiro. E é exatamente isso.
Dentre outras coisas (amigos, fotografias, corredores, trabalhos repetidos, angústias existenciais), tenhamos em mente, esses cinco anos de teoria tinha esse objetivo impossível e ao mesmo tempo real: legitimar e abraçar (só simbolicamente, gente) o diferente. Aceitação incondicional e interesse genuíno a gente deixa para os deuses, de novo, para os Rogers, mas tornar legítimo e dar um abraço (simbólico), é possível e importante.
É para isso que a gente ouve, menino. Que a gente passa cinco anos aprendendo a escutar. E não com os ouvidos, não seja tolo! Mas com os olhos e o olhar, com a postura e os gestos, com o respeito perceptível, com a certeza de quem se importa. De quem aceita e, sobretudo, de quem deseja o diferente.
Não é à toa que a prática começa in loco. Começa numa metaprática, ou metateoria. Foi difícil ou não, um primeiro ano diferente cheio de gentes diferentes? E mais cinco anos, com pessoas que você conhecia, mas que eram assim tão diferentes? Reconheça o seu esforço, a sua doação, a dificuldade em estar assim, em meio a uma diversidade que muitas vezes você não concorda nem aceita. Considere o seu engrandecimento pessoal (termo senso comum que não pode ser excluído), e não se envergonhe dos seus deslizes, ou do tamanho da sua intolerância.
Aplauda-se. Aplaudamo-nos. Comemore, celebre. Você só está aqui hoje, você só o é hoje, por causa desse não clichê hoje quase clichê, e que, se é clichê, é porque é importante: a diferença.
E viva-a.


Esse texto me foi pedido para a Aula da Saudade da turma de Psicologia, minha turma de Psicologia. Quem me pediu sugeriu que fosse sobre o Amor, semelhante a um texto meu de trabalho antigo da faculdade. O texto sobre amor, planejava-se, acompanharia imagens da turma, seria sobre a turma. 
No dia desse pedido, entretanto, essa mesma turma, que seria ilustrada com um texto sobre o Amor, havia se empenhado em um debate sobre o nome da turma, debate inconcluso, cheio de faíscas, deixando nossa turma "sem nome", diante da discórdia e de tantas opiniões que brigavam. Eu faltei à discussão. Mas consegui imagina-la muito bem, porque eu conhecia bem a turma: um monte de gente diferente que pensa diferente demais uns dos outros. 
Eu nem discuti (indiferente). Comecei a escrever um texto recusando a proposta do Amor (que caberia, sim,  à turma, não precisa me interpretar mal). Eu decidi escrever um texto sobre a turma, que foi esse texto, diferente. 

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