domingo, 17 de fevereiro de 2013

Se não antes, agora

E a essa altura do tempo a gente se pergunta por que que não foi sempre assim, digo, por que que não foi assim desde o começo. Por que não adivinhamos, ou disseram logo a todos nós, que a melhor forma de ver passar os dias era estarmos logo todos juntos? Era escolher logo a mesma mesa e o mesmo bar, a mesma piada, criar logo essas piadas internas, dar apelido a quem lhe é de direito, e, sorrindo, ir em frente. Por que não logo?

Parece que demoramos tanto. Parece até que perdemos tempo. Que me perdoem os otimistas e os filósofos de primeira viagem (são os filósofos otimistas), mas parece mesmo que perdi um tempo. Vamos dizendo: perdemos de aproveitar tão bem como hoje e como agora, como os últimos meses, intensos, confusos, filhos da puta, que foram esses últimos meses. E bons e grandes, às vezes parece que foi bom o último ano ter durado anos, porque compensou. Ah, sim, então é isso. O último ano transformou-se em cinco para compensar os quase cinco anteriores passados em branco.Não passados em branco, mas em bege, nudes, opacos. Em paredes simples.

O último ano colocou tantos quadros e imagens nessa parede opaca, que precisamos de uma outra. Precisamos (passado), precisamos (presente). Mudamos e estamos a mudar, ainda, esse tempo que de barreiras e barracos teve demais, e agora convém um carinho e uma ternura maior. Temos agora uma parede cheia de imagens assim, ternas, suaves e intensas, novas, sorridentes, nossas.

Poderia ter sido assim sempre. Poderia ter sido assim desde o começo. Mas não foi. Pois é dado novo decreto: que esse começo seja agora, e que esse sempre seja sempre.

Amigos meus, está chegando a hora
Em que a tristeza aproveita pra entrar
E todos nós vamos ter que ir embora
Pra vida lá fora continuar

Tem sempre aquele 
Que toma mais uma no bar
Tem sempre um outro 
Que vai direitinho pro lar

Mas tem também
Uma sala que está vazia
Sem luz, sem amor, sombria
Prontinha pro show voltar

E em novo dia
A gente ver novamente
A sala se encher de gente
Pra gente comemorar

Vinicius.

Um comentário:

-sOliNo- disse...

vi um comentário no face que -não sei se é o caso aqui- contribuiu para minha opinião de que nesses tempos de redes sociais as pessoas sempre querem apenas o aqui e o agora. me explico: sempre que vc (qualquer um) escreve algo, posta uma poesia etc., já tentam associar com um momento "agora" que a pessoa (que escreveu, postou) esteja vivendo. se eu posto um trecho de shakespeare sobre dor, já vem alguém perguntar "o que houve?", como se eu não pudesse falar da dor da humanidade, mas apenas da minha, aqui e agora. é como se tívéssemos perdido a capacidade de abstrair, de generalizar, de falar de nós mesmos como parte de uma humanidade, de fazer poesia, de comunicar nossas descobertas como uma descoberta humana e não apenas minha, aqui e agora. perde-se o espírito do texto e busca-se apenas o corpo.

(não sei se ficou claro o que eu quis dizer, mas se vc olhar ao redor acho que vai concordar.)

de todo modo, ótimo texto, redondinho, muito bem escrito, com conteúdo, sem pieguice. nem precisava do poema de vinícius aí.

bjo