terça-feira, 26 de março de 2013

Behavior setting da academia em pós-graduação

Behavior setting é um conceito dos psicólogos de boa estirpe, os psicólogos ambientais, que remete à sequência, diria, previsível, de comportamentos e atitudes em um contexto específico. A ordem de ações ao longo da missa, quando senta e quando levanta, como cumprimenta o altar e como recebe a óstia. O cerimonialismo da tradição kung funiana, a aula de kung fu é um behavior setting também, com suas ordens de cumprimentar tatame, cumprimentar general, instrutor, fazer fila para começar a aula, fazer fila para terminar a aula, cumprimentar todo mundo à mesma maneira, ao kin lay. A previsibilidade da sequência dá o tom behavior setting à coisa.

Sem referências bibliográficas. Isso soa subversivo a esse blog.

Agora aprendo o behavior setting aula-de-mestrado. Ou, ainda, aula-de-mestrado-em-psicologia. É possível que haja variações. Aliás, é melhor mesmo que haja.

Esse BS, vou abreviar porque tenho aprendido nas redes sociais que sou muito antiga por me recusar a abreviar Game Of Thrones (GOT), Instagram (insta), e afins (etc!), começa com a habitual cara de infelicidade antes de a aula começar. Ninguém tomou café da manhã, ninguém tomou café, ninguém come há alguns dias, aliás, e todos têm cara de mães recém saídas do puerpério que vivem noites insones.

Ao chegar na sala, na infelicidade, se cumprimenta com educação. Sem alegria. Quando o professor adornado de tantos títulos chegar, fala-se ainda mais baixo do que antes; a pós-graduação torna mais catedrática e submissa a sua posição aos mestres (pós-doutores).

Quando o professor não questionar, mas peremptoriamente afirmar "eu sei que vocês todos leram os textos para hoje", todos riem com tremenda satisfação, se regojizando por terem feito, mesmo que só tenham passado os olhos pelo livro na noite faminta e insone que tiveram ontem, mas, principalmente, satisfeitos por serem "os" que leram, e desejando que seus colegas não o tenham feito. A audácia da competição consigo mesmo alcança os maiores patamares, no mestrado. E tudo começa na afirmação do professor sobre quem leu os textos.

Se o professor não tiver dito, com clareza, o que queria para a próxima aula, nem que textos nem que livros ou mesmo elocubrações, assim que ele perguntar "quem trouxe algo para mim?", "quem vai escrever um manuscrito de oito páginas agora?", ou "quais livros da biblioteca você leu na última semana para fazer esse trabalho que eu não solicitei mas que imaginei sozinho dentro da minha cabeça", todos terão algo a dizer. Todos terão lido obras originais da filosofia e da literatura, resenhas críticas extensas em periódicos que não existem, e todos terão muito a dizer e a escrever, por horas, sem que digam coisa alguma sobre tudo. O mestre vai agradecer, ficar orgulhoso com tanta falácia.

Nesse BS, também, não está permitido fazer grandes amizades. Se há algumas ali, havia, desfaça. Nesse behavior setting, a ajuda não é mútua, simplória, muito menos autêntica - quando acontece. Essas coisas de ser-psicólogo estão todas proibidas - e agora você começa a entender porque seus professores psicólogos nunca foram tão psicólogos assim com você; a pós-graduação foi onde tudo começou.

Agora que você aprendeu a se regozijar com o fracasso alheio, a mentir e a não ter amigos, o próximo passo do behavior setting adorna sua postura. Um olhar que indique atenção. Depois, um olhar que indique crítica e descrença, conexão imediata e reflexão filosófica com as obras que você leu (na íntegra) no fim da semana. Até que um olhar compreensivo e com esboço de sorriso lhe sobrevenha. Agora é o momento de você "fazer uma colocação". Que pode ser qualquer coisa, inclusive, aliás, preferencialmente, depoimentos pessoais. Esses, por algum motivo que o behavior setting ainda não me explicou, recebem grande preferência.

Na postura, não esqueça a mão no queixo e a testa franzida. Também faz parte dos rituais. E não deixe de anotar tudo, absolutamente tudo, mesmo que (principalmente se) esse tudo seja nada. Ou seja muito pouco. Vá por páginas inteiras do seu caderno de vinte matérias, vire e revire o caderno a cada dez minutos, tempo aparentemente aconselhável para cumprir uma página pautada inteira. E guarde essas anotações com você, só com você, para sempre.

Depois das atitudes, posturas, e comportamentos, infle o peito do oxigênio do pós-graduando: a arrogância. Não baixe demais o queixo, não olhe para baixo, e também nunca fale muito baixo, como quem é resignado. Em verdade, fale alto, se possível com tom de voz de quem já terminou o mestrado e está ali só a passeio; um tom professoral, mestral, pós-doutoral. De quem sabe tudo e nada teme.

Daqui pra frente vou aprendendo. Pelo menos o trabalho da disciplina de Ambiental, com isso aqui, já dá pra fazer.

Olhos mudos

Sim, que eu olho para esses seus olhos verdes apertados e vejo um brilho bem opaco e cheio de sentidos. Sem palavra nenhuma. É um olhar que significa um tanto. Um desejo e um amor, uma leveza que sente-se pelo beijo, um pesar dos dias inteiros, da família próxima que é distante. Um olhar cheio de significados, mas sem palavra alguma.

Não saem palavras dos seus olhos. Como eu converso com você, olhando nos seus olhos? Porque conversamos sem nada dizer, olhando nos olhos um do outro. Assim fazem os casais breves e intensos. Da paixão. Os casais de longa data em muito pouco fazem isso. A gente se olha sem nada dizer e eu nada escuto dos seus verdes miúdos. Só vejo um brilho leve, uns olhos que sorriem mas não gargalham, nem abrem sorrisos largos, de dentes tortos. Só uns sorrisos breves e sinceros. Calmos.

Assim estamos enquanto nossos olhos conversam. Breves e sinceros. E sua sinceridade vem desse silêncio guardado. Não saem palavras do seu olhar enquanto o meu grita uns sopros de satisfação. Eram suspiros, agora são gritos e aplausos, você vê? Você vê.

Mas não me diz. Nada me diz. O que você vê, eu não sei. Nada você me diz.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Quando será que

Quando eu deixar de ser psicóloga, eu vou virar pra todos meus amigos psicólogos e acrescentar a todas minhas frases: "você que é psicólogo, entende o que eu estou dizendo".

Quando eu deixar de ser psicóloga, eu vou perguntar sobre qualquer tema humano desumano subjetivo da ordem do cosmos exigindo resposta esclarecedora e coerente: "ei, você que é psicólogo, me explique por que...".

Quando eu deixar de ser psicóloga, eu vou sentar na roda dos psicólogos com a mão no queixo e os óculos hipsters, fazer cara intelectual, e depois de oito minutos de discussão, sorrir com o canto da boca. Se me perguntarem o que foi, vou dizer que não foi nada.

Quando eu deixar de ser psicóloga, e qualquer pessoa vier justificar coerentemente um assunto difícil para mim, vou interrompê-lo dizendo: "eu sei bem, já fui psicóloga e...".

Quando eu deixar de ser psicóloga, não vou ser toda ouvidos. Vou ser mais boca que ouvidos. Em verdade, vou ser mais letras que ouvidos. Vou ser mais letras ouvidas.

Quero só ver.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Conversando consigo mesmo nas redes sociais

Vai correr pra entrar na moda. Quer dizer, entrar em forma:
#corridinha #tênis #asics #suor #rihanna #asfalto

Tira foto do cachorro igual a todos os cachorros de pessoas que tiram muitas fotos de cachorro:
#pet #vet #floco #amor #mimo #vida #tudo

Foto da decoração que agora fazem na superfície do café. (imagem: coração)
#café #amor #livraria #sábadoàtarde #adoro #amigas #shopping #compras #tudo

Aula de disciplina que ela/ele não entende.
#aula #saco #chato #sociologia #antropologia #professor #temponãopassa #chatiada #intervaloquenãochega #sono #afy

Não tinha mais o vestido do tumblr do blog do instagram que a it girl comprou na loja de departamentos.
#compras #fail #vestido #estampa #animalprint #c&a #ahazada

Vai correr com as amigas pra entrar na moda.
#corridinha #tênis #amigas #operaçãoverão #operaçãovestido #operaçãosemanasantacomaviões

Não sabe fazer começar terminar o trabalho da disciplina que ele/ela não entende.
#trabalho #infinito #sono #tédio #temponãopassa #afy #ahazada

Lendo romances nas horas vagas.
#livro #amor #literatura #cinquentatons #amo

Foto no espelho sábado à noite.
#balada #amigos #dj #tudo #festa #look #pretinhonadabásico #amo

Tá com inveja da melhor amiga.
#chatiada

Mais inveja.
#afy


O pior das hashtags é a gente chamá-las hashtags. 

Perdi tempo fazendo as legendas. Se, aparentemente, todos entendem monólogos em jogos da velha. Só eu que não.

Voltei pro caderno.

Voltei pro caderno, agora. Eu tinha um exemplar, se é que assim pode ser chamado, encostado na cabeceira, cheio de folhas não pautadas, azul, em branco. Com passagens transcritas do Marçal e nada mais. Coloquei quase ao lado do travesseiro porque minha mãe normalmente me diz para eu escrever meus sonhos. Imediatamente, ao acordar. Que os sonhos têm suas mensagens e conselhos, suas previsões, até. Eu acredito, viu. Mas não conheço ser humano nenhum que em pleno 2013 acorde na calmaria de quinze minutos para a escrita. Porque escrever à mão, em 2013, qualquer lista de supermercados leva um certo tempo, né verdade?

Eu que vinha colecionando textos ruins, expondo os textos ruins, verificando no dia seguinte que eram textos bem ruins, fiquei com vergonha deles. Mas tinha ainda muito a dizer.

Só que em momentos assim, assim como, não vou explicar porque não sei, em que escrevo vários textos de uma só vez, dizendo coisas diferentes em cada um deles, é preciso expulsar palavras. Imediatamente, igual com a história dos sonhos.

Quando escrevo algo, esse algo foi escrito sozinho pelas palavras que ecoaram na minha cabeça. (Não tenho comportamentos esquizofrênicos, nunca tive.) O texto inteiro saiu de um relance, de uma olhadela pra imagem, de uma voz que trouxe lembrança. Principalmente eu que escrevo muito sobre lembrança. (Nota: é preciso mudar isso.) Então dou laço nas palavras e trago logo elas pra cá, quando dá, quando quero. Só que em momentos assim, assim como, não sei explicar, não consigo sempre trazê-las. Como, por quê, não sei dizer. Só sei que está assim.

E foi preciso imediatismo nos dedos e no punho, só em um agora, o direito, um silêncio e minha voz. Agora tenho precisado me concentrar pra dizer algo para mim, e isso é novidade. Mas as folhas em branco me assustam menos porque guardam todos os segredos. Até agora. Eu tenho guardado todos os segredos até agora.

Que o brinquedo não fique mais só. Mas as palavras saíram daqui para um longo passeio, prevejo.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Somos filhos

Eles insistem em nos inscrever planos e sonhos. Que são deles. Eles insistem em torcer por um sucesso que pode ser fracasso, que pode ser fracasso e pode ser fatal. Para nós. Eles insistem para que sejamos os melhores, os maiores, os gigantes sem anões nos ombos, os gigantes que nunca foram anões, que já são grandes desde a primeira letra aprendida do alfabeto. Eles insistem nisso demais.

Nossos pais andam apressando nossa vida adulta. A gente anda incomodado com a vida adulta. Nossos pais nos dizem para fazer tudo, para fazer logo, para pensar rápido, para não pensar e fazer logo, duma vez, essas oportunidades imperdíveis que só se tem uma vez na vida quando na verdade elas vêm e vão o tempo inteiro. É só a gente levantar a bunda e pegá-las de volta. Eles dizem que não é assim.

Eles nos ensinam e nos inscrevem que nada é bem assim. Nada é tão bem, na verdade. Que vai tudo mais difícil e mais inalcançável, e que por isso precisamos ser gigantes (desde pequenos). Eles estão varrendo o caminho e preparando o banquete para as comemorações; seremos grandes, lá vem alguns de nós, cheios de feitos. Os feitos e os títulos e as listas de aprovações, tudo por um enxame de aprovações. Deles.

Eles estão correndo com a gente. A gente tá correndo contra a gente. Eles nos imputam medo, sem deixar que tenhamos medo, não há por que ter tempo, não há tempo para ter medo, é preciso ir e fazer e ser grande duma vez. Olha que impaciência que eles têm que a gente cresça. Desde que éramos pequenos.

E, às vezes, num escorrego dum gigante, nos travestimos do pior dos medos, do mais feio dos defeitos: covardia.

E, quando há mais azar, no pior tipo de covardia que há: a de culpar os outros pelos erros que são nossos. Nossos.

Se é pra mudar

Falei que a nova faculdade era a melhor coisa que eu havia feito na vida. Que não queria saber de mais nada. Que não era pra haver mestrado, que não era pra haver clínica nenhuma, que era para ser só o velho sonho agora meu e presente. Tascou-me logo um não seja burra, não seja tonta, não faça o que eu fiz. Não seja burra como eu fui. Me disse. Quis dizer mais. Que eu esquecesse, que nunca mais repetisse tal coisa, que eu estava desrespeitando a ordem das coisas da casa da nossa religião de eu ter de ser a melhor e nunca desistir. De nada.

E não querem que a gente sinta medo.

domingo, 17 de março de 2013

Excesso de humor de domingo

Eu tinha pensado em te escrever hoje. Como vinha fazendo. Desisti pela expectativa da não-expectativa da resposta. Pelo humor do domingo.

Com excesso de humor de domingo, por hoje. Bem hoje. Ou os domingos ficaram mais soturnos, ou os dias estão mais domingos. A verdade é que, com o fim da faculdade, me sinto mais sozinha. Esses dias me dei conta que de nada vale uma semana se não se vê o maior número de melhores amigos possíveis nos seus dias de feira. De nada vale. Como se já não bastassem os distantes, agora há também os ausentes.

Então ficou pior o domingo. A segunda é meio domingo. A terça e a quarta escapam um pouco. Na quinta e na sexta vira marasmo, solidão, com expectativa para a cerveja da noite. Que nem sempre é possível. Com todo mundo mais distante, há menores possibilidades de convergência. Tu sabe como é esse estudo que é fato.

Eu tô sedenta de passado. Eu hoje quis que fosse um daqueles domingos que poderíamos ter nos visto para um sorvete. Que eu detesto. E enquanto você terminava o sorvete, e eu esperava a casquinha, e a gente programava um filme qualquer ou um banco qualquer para a conversa com cara de fim de semana, a gente colocava um ao outro a par das novidades. Eu teria algumas, você teria muitas. E, como sempre, no fim da noite trocaríamos uns segredos, uns planos, e planos secretos. Seria assim.

Já hoje, venho fazendo menos planos. Venho mantendo poucos segredos. A menor quantidade de gente me arrodeando me deixa com menos assunto, com menos conversa, com menos sextas-feiras e mais domingos. E eu não falo. Há dias em que quase não falo. E nem sinto falta de ter algo a dizer.

Esse é um domingo que não me põe planos para a semana. Assim como a metáfora vale para minha vida para frente, para meus anos que estão vindo. Não ponho planos, não desenho, não segredo nada. Porque esse vazio tá me dando medo, e as distâncias me tiram todo o ânimo.

Repete

Me disse que a vida dele mais parecia uma repetição entediante de causos e fatos, de brigas. Arrisquei: de palavras, não é? Dizia que não sabia se viver era assim tão bom, se a repetição não perdoava fazia tempo.

O que é a vida da gente se não a insistência da repetição. Que a gente não percebe sempre, e, quando percebe, fica rubro de tanta raiva. Para que repetir, a gente pergunta, como se isso acontecesse a nós, e não fôssemos nós que fizéssemos tudo isso acontecer sempre.

A gente não muda. A gente muda, mas não muda tanto. A gente não pode ser uns outros, mudar demais de quem gostamos, de quem gostaríamos. Isso é tender ao fracasso absoluto, o erro pior de todos: abandonar a nós mesmos. Tudo pela ânsia de mudar.

A vida vai se repetir sempre. A história dos ciclos é clichê e é bobagem e não é bobagem, porque é clichê. Então acontece. Vai acontecer. Ninguém que me desminta. Você vai continuar afim e a fim dos amores complicados, das histórias breves inesquecíveis, cheias de feridas a serem lambidas depois. Você vai continuar sentindo a solidão de sempre, junto, só, bem ou mal acompanhado. Você vai continuar criando as mesmas expectativas sobre as mesmas pessoas, e, pior, sobre pessos diferentes; você aposta no outro diferente mas você não é um diferente - como você queria que desse certo?

Vai terminar de novo, viu. Vai começar tudo de novo depois. Talvez seja melhor não se dar conta disso. Mas, se a ficha cair, que tu se acostume logo. Mesmo repetindo o álbum e as figuras, não acho que seja assim tão ruim de viver.

terça-feira, 12 de março de 2013

Sim, eu vou

Eu vou agora mesmo. Eu vou esquecer essas presilhas e meu estojo por aqui, para voltar logo. Você bem sabe que eu esquecendo o estojo, volto rápido. Meus transtornos obsessivos me impedirão de continuar um dia normal sem você. Sem o estojo, eu digo.

Pois eu vou. Logo mais eu chego aí.

Vou esquecer essas sandálias no banheiro, pois é certo que eu venha por aqui essa semana, como quem tem muita pressa e improviso, tomar um banho na metade do dia. Ou como quem vem na urgência de te amar e precisa de um banho, de improviso, na sequência. E meus transtornos obsessivos não permitem o banho sem os chinelos.

Pois fique que eu vou. Venho.

Eu vou logo olhar o cinema e as passagens, as datas, as viagens para logo. Eu quero com você viver viagens e viajar a vida inteira, por completo. Não quero que falte um pedaço desse mundo de nós dois, sem ser visitado por nós. Quero que a gente se ame em todos os cantos dessa odisséia, que somos nós.

Vai dormir que eu chego já. Eu fecho o livro, tranco a caixa que te dão as perguntas "no que você está pensando?", e logo vou. Já chego. Bem aí nos seus sonhos de agora.

sábado, 9 de março de 2013

sexta-feira, 8 de março de 2013

Carta pra painho e mainha

Painho e mainha:


Oi painho, mainha. Estou escrevendo para falar pra vocês como andam as coisas aqui pelo lado da universidade. Eu tô achando difícil, viu. Não, não o curso, as disciplinas, nem andar de circular. Quer dizer, às vezes andar de circular é bem difícil mesmo, mas não é isso. Eu tô achando difícil ir pra universidade.

Painho, o senhor, logo o senhor, que respeita tanto a universidade, que é do tempo que não deixava os alunos entrarem de camiseta regata na sala de aula, porque era um desrespeito descomunal a academia e ao professor, painho, o senhor viveu na mesma universidade do que eu? Lá, além de todo mundo não fazer a mínima para a roupa que veste (eu acho mesmo que isso não é importante), eles cortaram as mangas e as barras das calças (cortaram bastante) em quase tudo, pai. Sabe no que foi que eles economizaram? Fazendo a metáfora com a indumentária: na honestidade, na ética, no respeito aos alunos. Arregaçaram as mangas, depois cortaram, despiram, e hoje em dia tem um visual parecido com praia de nudismo lá pelos corredores. Mentira, parecido com suruba mesmo. Não vamos maldizer a praia de nudismo.

Mas painho, não era melhor no seu tempo? Apesar de que eu prefiro as bermudas e as regatas, mas eu mesmo preferiria que fossem as mangas de camisa e os sapatos sociais, se houvesse, junto com eles, tudo isso de volta, pai. Isso, os valores. Né não?

Painho e mainha, vocês me disseram que eu tinha de vencer na vida com os meus méritos. Mas eu tô aprendendo diferente na universidade! Como é que pode? Isso é anti-pedagógico, é contraditório, é mais confuso que minha metáfora das roupas aí em cima. É inclusive esquizofrênico, pra usar um termo que está na moda (e que combina com o que eu estudo lá pela academia). Mas eu não sei, só sei que tá assim.

Nam, painho, e eu achando que o preconceito era por causa disso: eu ia pra universidade com as pernas de fora. Mas nem quando eu comecei a me vestir igual a gente grande, coberta até as panturrilhas, eles começaram a gostar de mim. De mim e de umas colegas minhas. Curiosamente, elas também estão confusas com isso: é pra fazer tudo ao contrário? O juramento que a gente fez na colação de grau, e aí, Marília, tu leu alguma coisa que a gente não ouviu direito? De que podia mentir e bater a cabeça das pessoas na parede, quando a gente bem entendesse?

Não sei o que é que tá acontecendo, painho e mainha. Mas aposto que no tempo de vocês era diferente.

Eu tô aprendendo muita coisa esquisita lá. Tô vendo, olha, que é importante que a gente minta, melhor, que a gente omita, seja omisso, não minta escrachadamente, mas falte com a verdade! Sabe? Parece que assim é mais fácil de ganhar dinheiro, abraços, sorrisos dos professores, e ter um currículo melhorado. Você viu, pai, meu currículo aquele dia. Preciso te dizer que se eu já soubesse mentir, digo, faltar com a verdade, aquele currículo seria melhor. O senhor sentiria muito mais orgulho do que estaria escrito ali! Mesmo que nada daquilo fosse verdade. Mesmo que se dissesse, como diz um filósofo aqui da província: "é tudo mentira". Não importaria se filósofo algum dissesse que era mentira, painho. Se eu tivesse aprendido bem, qualquer pessoa me desmintiria, mas a minha mentira seria maior. Porque eu comecei primeiro (a faltar com a verdade).

E a corrida na universidade é mais ou menos assim, visse, mãe. Não é a corrida-armamentista-das-publicações-desnecessárias-e-vazias, é a corrida de quem falta com a verdade primeiro! Quem começa a mentir e a inventar ganha. Sempre ganha! Ganha mais dinheiro, mais emprego, mais ponto, mais publicação (desnecessária ou não). E essa hora o filósofo grita pros mentirosos: "é tudo mentira!". Mas aí virou um bacanal metalinguístico, e ninguém entende mais nada.

Veja só, mainha, que dia desses andaram dizendo por aí que "estruturaram e conduziram" um trabalho que eu fiz no meu estágio. Que eu fiz! Outras pessoas fizeram juntas, sim, mas não fizeram sozinhas, como agora se diz por aí (por AÍ, não só entre as quatro paredes do quarto delas). Tanto fui eu que fiz, mãe, que quando foi preciso apresentar um trabalho (nem era publicação, e eu apresentei de verdade!, droga, a maldita da verdade, a maldição de não ser uma publicação, olha, que vacilo, agora vejo), disseram pediram imploraram exigiram e me bajularam que fosse eu! Que fosse eu.

Porque eu tinha mais propriedade sobre o meu trabalho (óbvio). Eu ainda fui linda e afirmei que, no duro, todo mundo deveria saber falar sobre o trabalho, porque, apesar de eu ter feito boa parte dele, todo mundo estava fazendo a sua parte (mentira) (para eles, verdade), todo mundo estava estudando (mentira) (para eles, verdade), e tinha obrigação ética (PALAVRÃO ACADÊMICO!) de apresentar isso. Né não?

Mainha, eu recebi esculacho em forma de pedido de desculpas. E mais bajulação. Como no fundo era verdade (o quê?), eu fui lá e apresentei. Seria tranquilo falar sobre o que eu tinha feito, mainha. Num é não? Que nem quando você ensina o povo a falar na televisão. Você sabe tanto que num instante você diz como é. Pois é. Mas esse ano, agora, isso virou mentira. Eu não sabia de nada. Eu não fiz foi nada. Quem fez foram os outros, os vencedores da corrida!

Mãe, pai, eu estou perdendo. Eu sou aquele filho que a gente não deseja por medo que ele sofra: um loser. Loser de perdedor, pai, você que detesta quando eu falo em inglês ou neologismos do inglês, desculpe, aliás, desculpem por tudo isso. Desculpem por eu ser uma perdedora quando vocês tinham certeza do contrário. Mas eu estou muito confusa e ainda não consegui virar o jogo. Nem sei se vou conseguir. Porque eu vou ter que fazer tudo ao contrário do que eu aprendi com vocês? E eu aprendi tudo aquilo pra quê, af, só pra perder tempo, foi?

Eu estou escrevendo porque eu queria que vocês me explicassem tudo. Tudinho. Pedagogicamente. Porque lá não tem professores pedagógicos e que ensinam o que a gente espera. Aí eu preciso de vocês. Não posso "pedir ajuda aos universitários". Tenho que pedir ajuda a painho e mainha, que já foram universitários e professores de universitários. Então vocês sabem mais. (Hum?)

Às vezes eu penso que é melhor desistir. Tá muito esquizofrênica essa minha esquizofrenia de ver tudo ao contrário.

Né verdade (mentira)?