terça-feira, 26 de março de 2013

Behavior setting da academia em pós-graduação

Behavior setting é um conceito dos psicólogos de boa estirpe, os psicólogos ambientais, que remete à sequência, diria, previsível, de comportamentos e atitudes em um contexto específico. A ordem de ações ao longo da missa, quando senta e quando levanta, como cumprimenta o altar e como recebe a óstia. O cerimonialismo da tradição kung funiana, a aula de kung fu é um behavior setting também, com suas ordens de cumprimentar tatame, cumprimentar general, instrutor, fazer fila para começar a aula, fazer fila para terminar a aula, cumprimentar todo mundo à mesma maneira, ao kin lay. A previsibilidade da sequência dá o tom behavior setting à coisa.

Sem referências bibliográficas. Isso soa subversivo a esse blog.

Agora aprendo o behavior setting aula-de-mestrado. Ou, ainda, aula-de-mestrado-em-psicologia. É possível que haja variações. Aliás, é melhor mesmo que haja.

Esse BS, vou abreviar porque tenho aprendido nas redes sociais que sou muito antiga por me recusar a abreviar Game Of Thrones (GOT), Instagram (insta), e afins (etc!), começa com a habitual cara de infelicidade antes de a aula começar. Ninguém tomou café da manhã, ninguém tomou café, ninguém come há alguns dias, aliás, e todos têm cara de mães recém saídas do puerpério que vivem noites insones.

Ao chegar na sala, na infelicidade, se cumprimenta com educação. Sem alegria. Quando o professor adornado de tantos títulos chegar, fala-se ainda mais baixo do que antes; a pós-graduação torna mais catedrática e submissa a sua posição aos mestres (pós-doutores).

Quando o professor não questionar, mas peremptoriamente afirmar "eu sei que vocês todos leram os textos para hoje", todos riem com tremenda satisfação, se regojizando por terem feito, mesmo que só tenham passado os olhos pelo livro na noite faminta e insone que tiveram ontem, mas, principalmente, satisfeitos por serem "os" que leram, e desejando que seus colegas não o tenham feito. A audácia da competição consigo mesmo alcança os maiores patamares, no mestrado. E tudo começa na afirmação do professor sobre quem leu os textos.

Se o professor não tiver dito, com clareza, o que queria para a próxima aula, nem que textos nem que livros ou mesmo elocubrações, assim que ele perguntar "quem trouxe algo para mim?", "quem vai escrever um manuscrito de oito páginas agora?", ou "quais livros da biblioteca você leu na última semana para fazer esse trabalho que eu não solicitei mas que imaginei sozinho dentro da minha cabeça", todos terão algo a dizer. Todos terão lido obras originais da filosofia e da literatura, resenhas críticas extensas em periódicos que não existem, e todos terão muito a dizer e a escrever, por horas, sem que digam coisa alguma sobre tudo. O mestre vai agradecer, ficar orgulhoso com tanta falácia.

Nesse BS, também, não está permitido fazer grandes amizades. Se há algumas ali, havia, desfaça. Nesse behavior setting, a ajuda não é mútua, simplória, muito menos autêntica - quando acontece. Essas coisas de ser-psicólogo estão todas proibidas - e agora você começa a entender porque seus professores psicólogos nunca foram tão psicólogos assim com você; a pós-graduação foi onde tudo começou.

Agora que você aprendeu a se regozijar com o fracasso alheio, a mentir e a não ter amigos, o próximo passo do behavior setting adorna sua postura. Um olhar que indique atenção. Depois, um olhar que indique crítica e descrença, conexão imediata e reflexão filosófica com as obras que você leu (na íntegra) no fim da semana. Até que um olhar compreensivo e com esboço de sorriso lhe sobrevenha. Agora é o momento de você "fazer uma colocação". Que pode ser qualquer coisa, inclusive, aliás, preferencialmente, depoimentos pessoais. Esses, por algum motivo que o behavior setting ainda não me explicou, recebem grande preferência.

Na postura, não esqueça a mão no queixo e a testa franzida. Também faz parte dos rituais. E não deixe de anotar tudo, absolutamente tudo, mesmo que (principalmente se) esse tudo seja nada. Ou seja muito pouco. Vá por páginas inteiras do seu caderno de vinte matérias, vire e revire o caderno a cada dez minutos, tempo aparentemente aconselhável para cumprir uma página pautada inteira. E guarde essas anotações com você, só com você, para sempre.

Depois das atitudes, posturas, e comportamentos, infle o peito do oxigênio do pós-graduando: a arrogância. Não baixe demais o queixo, não olhe para baixo, e também nunca fale muito baixo, como quem é resignado. Em verdade, fale alto, se possível com tom de voz de quem já terminou o mestrado e está ali só a passeio; um tom professoral, mestral, pós-doutoral. De quem sabe tudo e nada teme.

Daqui pra frente vou aprendendo. Pelo menos o trabalho da disciplina de Ambiental, com isso aqui, já dá pra fazer.

2 comentários:

-sOliNo- disse...

vc é antiga mesmo. é "GoT" e não "GOT". :)

Bia Madruga disse...

afy!