sexta-feira, 8 de março de 2013

Carta pra painho e mainha

Painho e mainha:


Oi painho, mainha. Estou escrevendo para falar pra vocês como andam as coisas aqui pelo lado da universidade. Eu tô achando difícil, viu. Não, não o curso, as disciplinas, nem andar de circular. Quer dizer, às vezes andar de circular é bem difícil mesmo, mas não é isso. Eu tô achando difícil ir pra universidade.

Painho, o senhor, logo o senhor, que respeita tanto a universidade, que é do tempo que não deixava os alunos entrarem de camiseta regata na sala de aula, porque era um desrespeito descomunal a academia e ao professor, painho, o senhor viveu na mesma universidade do que eu? Lá, além de todo mundo não fazer a mínima para a roupa que veste (eu acho mesmo que isso não é importante), eles cortaram as mangas e as barras das calças (cortaram bastante) em quase tudo, pai. Sabe no que foi que eles economizaram? Fazendo a metáfora com a indumentária: na honestidade, na ética, no respeito aos alunos. Arregaçaram as mangas, depois cortaram, despiram, e hoje em dia tem um visual parecido com praia de nudismo lá pelos corredores. Mentira, parecido com suruba mesmo. Não vamos maldizer a praia de nudismo.

Mas painho, não era melhor no seu tempo? Apesar de que eu prefiro as bermudas e as regatas, mas eu mesmo preferiria que fossem as mangas de camisa e os sapatos sociais, se houvesse, junto com eles, tudo isso de volta, pai. Isso, os valores. Né não?

Painho e mainha, vocês me disseram que eu tinha de vencer na vida com os meus méritos. Mas eu tô aprendendo diferente na universidade! Como é que pode? Isso é anti-pedagógico, é contraditório, é mais confuso que minha metáfora das roupas aí em cima. É inclusive esquizofrênico, pra usar um termo que está na moda (e que combina com o que eu estudo lá pela academia). Mas eu não sei, só sei que tá assim.

Nam, painho, e eu achando que o preconceito era por causa disso: eu ia pra universidade com as pernas de fora. Mas nem quando eu comecei a me vestir igual a gente grande, coberta até as panturrilhas, eles começaram a gostar de mim. De mim e de umas colegas minhas. Curiosamente, elas também estão confusas com isso: é pra fazer tudo ao contrário? O juramento que a gente fez na colação de grau, e aí, Marília, tu leu alguma coisa que a gente não ouviu direito? De que podia mentir e bater a cabeça das pessoas na parede, quando a gente bem entendesse?

Não sei o que é que tá acontecendo, painho e mainha. Mas aposto que no tempo de vocês era diferente.

Eu tô aprendendo muita coisa esquisita lá. Tô vendo, olha, que é importante que a gente minta, melhor, que a gente omita, seja omisso, não minta escrachadamente, mas falte com a verdade! Sabe? Parece que assim é mais fácil de ganhar dinheiro, abraços, sorrisos dos professores, e ter um currículo melhorado. Você viu, pai, meu currículo aquele dia. Preciso te dizer que se eu já soubesse mentir, digo, faltar com a verdade, aquele currículo seria melhor. O senhor sentiria muito mais orgulho do que estaria escrito ali! Mesmo que nada daquilo fosse verdade. Mesmo que se dissesse, como diz um filósofo aqui da província: "é tudo mentira". Não importaria se filósofo algum dissesse que era mentira, painho. Se eu tivesse aprendido bem, qualquer pessoa me desmintiria, mas a minha mentira seria maior. Porque eu comecei primeiro (a faltar com a verdade).

E a corrida na universidade é mais ou menos assim, visse, mãe. Não é a corrida-armamentista-das-publicações-desnecessárias-e-vazias, é a corrida de quem falta com a verdade primeiro! Quem começa a mentir e a inventar ganha. Sempre ganha! Ganha mais dinheiro, mais emprego, mais ponto, mais publicação (desnecessária ou não). E essa hora o filósofo grita pros mentirosos: "é tudo mentira!". Mas aí virou um bacanal metalinguístico, e ninguém entende mais nada.

Veja só, mainha, que dia desses andaram dizendo por aí que "estruturaram e conduziram" um trabalho que eu fiz no meu estágio. Que eu fiz! Outras pessoas fizeram juntas, sim, mas não fizeram sozinhas, como agora se diz por aí (por AÍ, não só entre as quatro paredes do quarto delas). Tanto fui eu que fiz, mãe, que quando foi preciso apresentar um trabalho (nem era publicação, e eu apresentei de verdade!, droga, a maldita da verdade, a maldição de não ser uma publicação, olha, que vacilo, agora vejo), disseram pediram imploraram exigiram e me bajularam que fosse eu! Que fosse eu.

Porque eu tinha mais propriedade sobre o meu trabalho (óbvio). Eu ainda fui linda e afirmei que, no duro, todo mundo deveria saber falar sobre o trabalho, porque, apesar de eu ter feito boa parte dele, todo mundo estava fazendo a sua parte (mentira) (para eles, verdade), todo mundo estava estudando (mentira) (para eles, verdade), e tinha obrigação ética (PALAVRÃO ACADÊMICO!) de apresentar isso. Né não?

Mainha, eu recebi esculacho em forma de pedido de desculpas. E mais bajulação. Como no fundo era verdade (o quê?), eu fui lá e apresentei. Seria tranquilo falar sobre o que eu tinha feito, mainha. Num é não? Que nem quando você ensina o povo a falar na televisão. Você sabe tanto que num instante você diz como é. Pois é. Mas esse ano, agora, isso virou mentira. Eu não sabia de nada. Eu não fiz foi nada. Quem fez foram os outros, os vencedores da corrida!

Mãe, pai, eu estou perdendo. Eu sou aquele filho que a gente não deseja por medo que ele sofra: um loser. Loser de perdedor, pai, você que detesta quando eu falo em inglês ou neologismos do inglês, desculpe, aliás, desculpem por tudo isso. Desculpem por eu ser uma perdedora quando vocês tinham certeza do contrário. Mas eu estou muito confusa e ainda não consegui virar o jogo. Nem sei se vou conseguir. Porque eu vou ter que fazer tudo ao contrário do que eu aprendi com vocês? E eu aprendi tudo aquilo pra quê, af, só pra perder tempo, foi?

Eu estou escrevendo porque eu queria que vocês me explicassem tudo. Tudinho. Pedagogicamente. Porque lá não tem professores pedagógicos e que ensinam o que a gente espera. Aí eu preciso de vocês. Não posso "pedir ajuda aos universitários". Tenho que pedir ajuda a painho e mainha, que já foram universitários e professores de universitários. Então vocês sabem mais. (Hum?)

Às vezes eu penso que é melhor desistir. Tá muito esquizofrênica essa minha esquizofrenia de ver tudo ao contrário.

Né verdade (mentira)?

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