segunda-feira, 18 de março de 2013

Somos filhos

Eles insistem em nos inscrever planos e sonhos. Que são deles. Eles insistem em torcer por um sucesso que pode ser fracasso, que pode ser fracasso e pode ser fatal. Para nós. Eles insistem para que sejamos os melhores, os maiores, os gigantes sem anões nos ombos, os gigantes que nunca foram anões, que já são grandes desde a primeira letra aprendida do alfabeto. Eles insistem nisso demais.

Nossos pais andam apressando nossa vida adulta. A gente anda incomodado com a vida adulta. Nossos pais nos dizem para fazer tudo, para fazer logo, para pensar rápido, para não pensar e fazer logo, duma vez, essas oportunidades imperdíveis que só se tem uma vez na vida quando na verdade elas vêm e vão o tempo inteiro. É só a gente levantar a bunda e pegá-las de volta. Eles dizem que não é assim.

Eles nos ensinam e nos inscrevem que nada é bem assim. Nada é tão bem, na verdade. Que vai tudo mais difícil e mais inalcançável, e que por isso precisamos ser gigantes (desde pequenos). Eles estão varrendo o caminho e preparando o banquete para as comemorações; seremos grandes, lá vem alguns de nós, cheios de feitos. Os feitos e os títulos e as listas de aprovações, tudo por um enxame de aprovações. Deles.

Eles estão correndo com a gente. A gente tá correndo contra a gente. Eles nos imputam medo, sem deixar que tenhamos medo, não há por que ter tempo, não há tempo para ter medo, é preciso ir e fazer e ser grande duma vez. Olha que impaciência que eles têm que a gente cresça. Desde que éramos pequenos.

E, às vezes, num escorrego dum gigante, nos travestimos do pior dos medos, do mais feio dos defeitos: covardia.

E, quando há mais azar, no pior tipo de covardia que há: a de culpar os outros pelos erros que são nossos. Nossos.

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