sábado, 27 de abril de 2013

No dia

É provável que eu vá me arrumar inteira para um nada. É provável que eu me gaste em frente ao espelho e às câmeras, que faça de mim uma outra, que preencha algum vazio nesse instante. Rápido. Bem logo. É provável, também, que eu me contente com isso tudo. É provável que eu ache isso um certo auge, um certo máximo, pois de vez em quando me dizem "não se pode ter tudo". Outras, eu ouço "você pode ter tudo". Eu sei que posso. Eu já tive. Mas esse tudo não depende só de um dos lados. O outro lado do tudo abriu todas as mãos desse presente. E então ter um tudo não significa tê-lo consigo para sempre. A perda é iminente. Estamos perecendo perto dela.

Eu vou me preencher de alguma forma com as imagens de algo como eu acho que deve ser. E, quem sabe, fazer ser.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Levemente visceral

O único final feliz para uma história de amor é um acidente, sem sobreviventes, diz J.P. Cuenca nesse livro homônimo aí. É um romance breve de capítulos curtos, de linguagem boa, de verdades ditas, de entrelinhas às vezes mais reais que as próprias linhas. Bem parecido com muito do que já li, mas em verdade quase tão diferente de muito ou tudo que eu já tenha lido.

O único final feliz para uma história de amor é um acidente se passa lá no Japão, Tóquio, com personagens orientais, de nomes orientais, costumes orientais e ocidentais. Numa profusão que deve ser a Tóquio, Cuenca pegou todo o pano para manga que um romance romântico no Japão poderia dar. Usou sem pudores, e com as sutilezas de quem quer deixar o leitor ler sozinho essa obra. E elaborar seus personagens para si.

Ele dá de presente os personagens ao leitor. A gente fica com mais impressões nossas do que dele, e, pra quem não leu tanto, mas já leu um tanto até aqui, ter personagens mais nossos que do autor em um romance que se lê é um presente inesperado, de enciumar-se e tudo mais. O livro fica melhor, fica imediatamente muito melhor. Junto com os personagens, Cuenca me deu as perversões e as verdades deles, que são muito nossas, mas que nunca vimos ou contamos de verdade que são nossas verdades. Taí.

"(...) e o meu silêncio tem justamente o tamanho das lacunas que ele preenche com os versos sobre as coisas que não podemos ver ou tocar, que ele chama de 'ideias puras', e que tanto me confundem."

'E quanto menos é consciente do que se faz, mais o que se faz é o que se quer.'

'O Sr. Okuda tentou me explicar e disse que o tempo é o que separa o passado do futuro, e que para medi-lo existem aparelhos como relógios e calendários, que são como pequenos calabouços, porque ninguém pode escapar do tempo, que é a única coisa que iguala todos os seres humanos, junto com a morte, claro, que anda de mãos dadas com o tempo - o tempo todo.
(...) Ainda sem entender muito bem o que era o tempo, perguntei ao Sr. Okuda o que era a morte, que me parece ser a mesma coisa, só que dita de uma forma diferente.' 

E escreve aquelas frases icônicas, que todo bom escritor distribui bem em cada um dos seus livros, e que quem gosta de escrever sublinha-as porque sabe, um dia aquela(s) frase(s) vai te dar texto(s).

'(...) carregava um cesto de peixes e seu silêncio usual.'

'E o tempo desses relógios é desonesto
E o tempo desses relógios é obsceno'

'Os espaços sagrados entre os dedos dos pés'

'Os ossos arrebitados contra os suores'. 

'(...) fazer o agora deixar de passar.'

'Você sente como se pendurassem suas entranhas em cabides à exibição.'

'(...) o mundo seguiu seu curso à nossa revelia - outra coisa que já temos em comum com os mortos.'

Intenso e sutil. Levemente visceral. Para ler com lápis à mão, sublinhando as palavras que o Cuenca parece ter escrito exclusivamente para você. Para ler de novo. Para virar filme.

Motorista muito careta

Eu sou uma motorista muito careta. Sempre fui, mas fiquei pior depois do dia que o menino da carteira provisória que dirigia o carro que não era dele com o seguro que não era dele bateu no meu carro fazendo um retorno proibido em alta velocidade para pegar cento e cinquenta metros de contra-mão. Aí foi quando fiquei pior.

Eu não deixo entrar na minha frente o carro que faz o retorno por cima da linha dupla (duas linhas amarelas paralelas, com tijolinhos e tudo mais). Principalmente se trinta metros à frente dele existe a interrupção das linhas. Ele podia ter tido menos preguiça e fazer o certo.

Eu acho um absurdo quem pára em linha dupla. Eu ainda sou assim. Quem pára sem ligar o pisca-alerta. Fico passada. E a galera fica pra mim: "ainda tem gente que se importe com isso? Francamente." E quem acha que o pisca-alerta significa que você pode parar em qualquer lugar, qualquer lugar, digo qualquer mesmo, sem a menor cerimônia. O pisca-alerta foi feito pra isso, menina, eles dizem, mas eu continuo achando uma falta de respeito (Aff.)

E mais. Eu ainda uso as sinaleiras. Eu dou sinal até pra mudar de faixa! Juro a você. Também ligo a sinaleira pra fazer retorno, hum rum, e quando faço retorno, sou tão careta que não empurro o carro pro lado oposto antes de entrar no retorno que eu realmente vou entrar, como se não houvesse ninguém na vida, além de mim e do meu carro popular que por acaso eu ache o máximo.

Eu dirijo dentro dos limites de velocidade e isso é muito ofensivo, descobri. Na faixa da direita, esquerda, meio, por cima, ficando em casa sem dirigir, é sempre muito feio quem dirige dentro do limite de velocidade. Eu sou uma motorista muito careta. No trânsito ninguém gosta de mim.



terça-feira, 23 de abril de 2013

Platônicos de verdade

Eu crio amores platônicos com a rapidez e a urgência dos amores reais. Só que mais. Eu crio amores platônicos como quem inventa histórias bobas de uma só vez, como quem lê a revista no café, nesse mesmo tempo, eu criei meu amor platônico. Ele vive. É grande e é sonho, mas é cheio, visceral, tem odores e um padrão de cores (meio sóbrias) que eu invento para ser só nosso. Só dele, do amor platônico.

O amor platônico que crio como no tempo do banho, ou do tempo que levo da minha casa até o trabalho, já tem nomes, tem apelido para cada um, comida preferida, tem até sequência desencontrada no início. Todo bom amor tem sequência de desencontros em seu começo. Com meu amor [platônico], não é diferente.

Meus amores platônicos eu crio rápido no espaço, eu materializo nossas viagens. Já comprei nossos livros e desenhei um plano de vida individual que é para poder ser a dois. E que vai dar certo. Minhas histórias platônicas dão certo simplesmente, também são leves e apaixonadas, sem dores grandes demais que não sejam uma saudade ou duas. Ou cinco - faz parte dos desencontros que criei.

Eu crio amores platônicos próprios impróprios na rapidez dessa música que tocou na rádio. Bem rápido, bem logo, bem intenso e meu - intenso é meu. E a rapidez com que vêm, não vão. A rapidez com que vêm é proporcional inversa da sua permanência. Eles se demoram. Eu criei os dois por mim mesma, mas eles viraram platônicos de verdade. E ficaram.

Não me livro. Eles ficam.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Dos bons conselhos

Não seja calado.
Seja calado só por educação, até o ponto em que isto não o prejudicar. Se prejudicar, só cale a boca quando deixar de prejudicar.

Não fui eu quem disse, foi João. Ubaldo.

Então fale. Então diga. Não dê voltas, não espere, não desista. Não seja reativo e só ouvidos; não deixe acontecer, só tomando as rédeas quando elas estiverem prontas. Não deixe passar os dias para dizer, não espere meses, não espere anos. Nem julgue o destino eficaz e sábio. Não existe destino se você não verborragia um pouco; se explica e defende.

Não cale os anos todos, as pessoas. Não cale a história. Transformar o hoje em um poderia ter sido, isso sim, é doído. E prejudica.

Prepare logo o discurso e aposte. Não fique mudo de suas palavras, também não de suas atitudes. Isso vai deixar uns outros mudos; de novo, vai ser prejudicial.

Então siga o conselho. Ponha a verdade nas palavras, acene, assuma. Então depois, sim, aguarde. E então ouça a resposta inexorável, de que antes sua verdade feia que o silêncio limpo.


Não seja medroso.
Todo mundo tem medo, mas a pessoa não pode ser medrosa.
Para viver e fazer, é necessário manter uma coragem constante e acesa.

João Ubaldo Ribeiro.

Poucos deles para muito mundo

Das difíceis despedidas na fase adulta, tão pior (?) quanto a do brinquedo transicional, dos patins azuis e dos quilos de menos, o abraço de volte-logo aos amigos é a mais difícil delas. É quando ingenuamente a gente se dá conta, são amigos de menos para lugares demais. E não adianta haver mais deles. A equação não vai pender a seu favor.

E eles vão. A gente chega na faculdade, alguns deles vão. A gente sai da faculdade, mais deles vão. Se a cidade é pequena, as despedidas são mais frequentes. Os planos de mudança são iminentes e urgentes em quem precisa buscar fora o que não tem aqui. Ou em quem quer, sem precisar. Porque ser adulto te deu o arbítrio quase-livre, e, se, como dizem, amigos são para vida toda, estão perto mesmo que distantes, etcétera e tal, eles vão. A gente ajuda nas malas e se despede de uma vez.

Tem espaço demais para eles mundo todo, país inteiro. Que óbvio, e ninguém me contou. E eles se aprontam na primeira melhor oportunidade de se apertar num avião para abrir a cabeça e os sonhos. Eu tenho ficado menor, vazia, feliz e triste. Não dá pra reunir todo mundo no mesmo fim de semana. Uma vez por ano, agora dá. Mas ainda assim, na possibilidade. A conversa tete-a-tete merece passagens, fotos, ônibus, folga. E a gente merece todos eles.

Não tem tecnologia que supra a certeza do perto. Menos ainda a que convoque o abraço. Se fica adulto, se acostuma à solidão, às novas companhias no mesmo bar de sempre, o bar que era nosso, só da gente sem ser, se acostuma também a menos abraços tão cheios de nós. Nossos abraços são cheios de nós, vocês entendem quando falo isso.

Eu sinto saudade. Feliz e triste, sinto uma saudade. Essa palavra nostálgica de nosso vocabulário de então.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Lá vem na minha frente

Galera caminhando na Alexandrino. De novo. Outro post, depois daquele que azamiga combinam uma corrida.

Eu falei, né, está desenhado no chão, em pinturas rupestres, hieróglifos, alfabeto romano, letras garrafais, letras bastão, de todos os modos: há direção de ir, a direção de vir. O lado que corre, o lado que anda. Além dos especialistas em andar no lugar de quem corre, e das turmas unidas que só andam aos cinco, lado a lado, quem vem se especializando é o clube do corro-na-contra-mão-principalmente-se-for/sou-gostoso.

O natalense anda com a autoestima elevada. Até demais. Depois dessa Roberto Freire com calçadão, alameda em frente ao hospício, Via Costeira fechada aos domingos, a gente tá muito saúde, todo mundo fitness, aqui é quase uma Copacabana, minha gente, até porque já teve ator local na novela das sete e tudo mais. A gente é muito sucesso. Então vamos fazer parecido com eles. Esse negócio de andar em filas, separar quem corre de quem caminha, todo mundo igual, isso é tudo muito primeiro mundo, Dinamarca pé-no-saco. Aqui no Brasil a gente faz diferente. E aqui na província a gente faz como na metrópole: vamos se esbarrar e fazer de conta que tem centenas, centenas! de pessoas nessa avenida. Vamos esbarrar e encostar esses corpos suados. Cada um vai em uma direção. Numa sorte que a gente der, o pessoal do hospital psiquiátrico sai daí e fica correndo aos círculos ao redor de cada um de nós. Pra ficar como deve ser, a correria literal, desnecessariamente caótico.

Então se o desenho manda eu ir para esse lado, eu vou pro outro. Mas, antes, vou tirar a camiseta, exibir minha barriga que não é tão tanquinho assim, mas, veja lá, é Natal, é galera na rua, todo mundo suado aproveitando o esporte ao ar livre, a gente tem mais é que se mostrar. E só assim para todos me verem. Todos. Meus equipamentos de corrida prontos: aipode cinco em aparato braçal que parece tensor, fones maravilhosos, mamilos duríssimos. É minha vez.

E assim ele vai.
Corre na contramão, não desvia das pessoas que, como tudo deve ser, Chorão, cumprem o consenso conforme o figurino. Sai desfilando peitoral e bíceps a todos que não querem ver isso. Esperam uma paquerada, um encarar de olhos. Uma menina ousada que, depois de olhar a bagagem de frente, vai virar o rosto para ver a retaguarda - porque, como se diz na Playboy e adjacências, a gente em Natal somo tudo tarada. Ele corre.

O coeficiente desse tipo de gente está aumentando na corrida. Estão tornando as coisas mais difíceis e irritantes (ai, Bia, como você é chata). E tornando o caminho mais desagradável de ser visto, porque, sim, essas pessoas não são dotadas de beleza de se admirar. E se fossem, deveriam bater foto no espelho e postar no facebook. E não se jogar na minha frente, como algo tão natural que para eles é.

Sugestão. Eu não posso fazer isso, mediante meu estado civil, envergadura, bom senso e bom nojo de suor alheio, mas é preciso que alguém faça. Então, aproveitando os trechos escuros da alameda, alguém que esteja correndo no sentido correto, quando vir o corredor otário-oposto de aproximando, como quem está filmando novela da Globo, não hesite: acelere, não desvie... e abrace! Largue, continue correndo, acelerando, e abrace o próximo! Faça isso sem parar. Faça isso três vezes em uma semana. Com todos eles. Corra já com os braços abertos, vá sorrindo até. Na próxima semana, bastarão duas, depois somente uma. Eles vão entender que não faz sentido correr no sentido oposto de 97% das pessoas se não for para abraçar o  amigo suado (como se confraternizando em um abraço hétero não homofóbico). E alguma ordem há de ficar ali. Menos homens descamisados em contramão, menos suor que respinga de testas que te olham, menos bíceps te mirando sem necessidade. Sem esbarros, sem desvios. Vai ficar melhor.

Abraços, por uma caminhada civilizada.

Qual seja uma conversa

- Oi amiga, tudo bem con tigo?
- Concerteza! E você, amiga?
- Ain, mais ou menos. Tô meia perdida nessa disciplina.
- Qual?
- Essa do mestrado. 
- Sei. 
- Tem uma resenha pra mim fazer pra amanhã. Não sei de nada. 
- Sobre o quê?
- Umas filosofias, mulher. Não sei não. Negócio de Descartes, Positivo, essas coisas. E a vida, vai bem?
- Vai sim, amiga. Tô escrevendo aqui um laudo. A criança fez uns inzames, aí tô dando uma olhada. Pra mim fazer um laudo mais completo. 
- Entendi. Vai pra praia com migo sábado? 
- Sim, concerteza!
- Beijo, amiga.
- Beijo, amiga.
- Tchau. 


Galera com diploma de nível superior, batendo um papo.
Pode?
Pode. No Brasil, pode.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O mau vidraceiro

E quando me perguntam  Tudo bem?, isso pra mim é sério, muito sério, e preciso começar do começo, pensando bem no que farei ou direi, acordo na verdade todos os dias para essa exata pergunta, Tudo bem?, os tímpanos repletos dela, sabendo que nada haverá para responder depois que encontrar a resposta.
(Copo d'água)

Sou o homem-bomba voluntário, sem paraíso prometido, para explodir de vez esta soma de vozes, hierarquizada em intervalos (oitavas, quartas e terças), com o único eco, bum, da minha solidão - vocês ouvem seu ruído espantoso? o deslocamento de ar? os carros incendiados, os pedaços de carne humana, o sangue no asfalto, nas paredes? Outra solidão se vingará. 
(Homem-bomba)

O tempo transforma as metáforas em coisas, mas antes, muito antes, as coisas e o próprio tempo é que foram impiedosamente transformados em metáforas. 
(Metáforas)

Pai, vou prestar vestibular para Letras. Letras é o quê? Literatura, pai. Livros? Livros, respondi. Ele ficou em silêncio, apalpando a textura da mesa. Assim era o seu entusiasmo. 
(História concisa da minha família).



São trechos do livro de Nuno Ramos: O Mau Vidraceiro.
Bem bom, bem fluido. Capa feia. Então por dentro pode ser ótimo. E digo que é.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Tocando o dia

Quando eu acordei, a primeira vez, eram seis em ponto. A segunda vez eram seis em uma. A terceira, seis e duas. Até completar seis e dez, que acordei duas vezes no mesmo tempo porque tinha o efeito soneca de seis em ponto e o décimo minuto programado para despertar. Depois de onze vezes, levantei. 

Depois do banho, passei desodorante. Seguido do mesmo perfume de todo dia, o reparador nos cabelos. E prende o cabelo do mesmo jeito, enquanto termino a preparação de sair de casa, que queria que fosse todo dia a mesma hora, cronometradamente, mas ainda não consigo. Não consigo. Angústia. E depois do desodorante, perfume, semi coque, desodorante de novo. Depois que eu vestir a roupa, vou afastar as mangas da camisa, ou desensacá-la, pra poder passar mais um pouco de desodorante. Eu sei que passei, mas eu não tenho certeza. Vai que. 

Quando eu tomar café e voltar pro banheiro, preciso arrumar a bancada pra poder sair de casa. Quando eu passar pela porta do banheiro, afasto a manga da camisa pra colocar o desodorante que não sei se passei. Aí vou recolher os dois celulares, cada um para um fim, arrumar os cadernos antes de sair, eles que têm, cada um, uma categoria de utilidade (o do mestrado, o da nova faculdade, o da aula de alemão, aquele que anoto o que tenho que fazer, o bloquinho dos endereços, aquele que escrevo textos grandes, aquele que escrevo as frases soltas quando me vêm para depois eu fazer com elas os textos grandes que vão pro outro caderno). Se der tempo arrumo logo a cama, se não vou sair sentindo a angústia de não ter arrumado-a. Mas preferencialmente escondo os sapatos, embaixo da cadeira, cama, dentro do guarda-roupa, senão não saio. 

Depois que eu passar da porta e chamar o elevador, volto correndo pra colocar o desodorante. Não lembro se passei. Até tenho certeza, meu sovaco tá branco, mas pode ser o algodão evaporando direto da roupa, quem sabe, pode ser o de ontem, ainda, vai saber, ontem eu passei cinco vezes depois do último banho, dizem, mas ainda assim vou passar de novo para garantir. Garantir. 

No fim do dia, assim que eu chegar, só posso tomar banho ou começar a estudar depois que eu arrumar esse quarto. Veja só a posição do notebook, que nunca pode ficar assim. E a cama sem o edredon por cima. É capaz de alguém ter sentado no lençol que ninguém pode sentar. Que dor. 

Cheguei tão ansiosa hoje que arrumei meu quarto duas vezes. Agora vou na sala tirar aqueles livros da minha mãe de cima do sofá, que onde já se viu, conseguir se concentrar estudando se a casa tá uma bagunça, o sofá e tudo mais. Aí mais tarde vou limpar uma caixa, que é uma gaveta, eu não tenho gaveta, então minhas caixas são gavetas. Porque assim eu vou conseguir estudar e ler com mais concentração, entendeu. 

Depois do banho quando eu sentar pra escrever, tenho que prender o cabelo com a presilha do lado direito, unicamente. E mais tarde no semi coque igual ao da manhã. Cabelo solto atrapalha tudo; prende metade ou todo ele. 

Aí daqui a pouco vou dormir. Desligar um celular, usar o outro e colocar meu despertador, que são onze: seis, seis e um, seis e dois, seis e três, seis e quatro, seis e cinco, seis e seis, e sete oito nove dez. Duas vezes dez. 

Pra garantir.

terça-feira, 9 de abril de 2013

O novo para sempre

O para sempre é o novo eu te amo de antes. De pouco antes e de ainda então. O banal e espontâneo do tipo trivial. Agora é o para sempre.

Para sempre, agora, é um eu te amo que quer ser mais real. Porque banalizaram demais o amor de nós todos. Banalizaram as declarações espontâneas não triviais. Virou para sempre. Para sempre não tem. Para sempre não existe, que nunca existiu o sempre, você num sabe. E vai ser sempre assim.

Não é para sempre se é para frente mais um pouco. Não é para sempre se é um futuro brilhante e bonito a dois, com mais dois pequeninos perfeitos que virão. Um auge. Para sempre não é um auge. Para sempre deveria ser um sincero aceitar de interrogações e páginas em branco. Sabendo que não existe nada mais desesperador que aceitar páginas em branco para um sempre.

Para sempre a dois não é o seu para sempre. Não é imaginar esse futuro de altos e altos, com carreiras e todos alegres, com tempos somente alegres. Para sempre que pára por aí. Os para sempres de hoje não vão muito adiante. Eles nem vêem nem sabem das páginas em branco e dos baixos que vêm depois dos altos; que vêm mais que os altos; que são mais desesperadores e e torturantes que os altos todos. Os para sempres de hoje não vão até o sempre, mas até um certo ponto do caminho.

Para dizer para sempre, deve ser aceito o sempre. Deve aceitar a incógnita inteira, porque é possível que tudo dê errado. Enquanto tudo dê certo. Para dizer para sempre, deve aceitá-lo como vier. Com carreiras brilhantes ou trabalhos sem muito gosto, com filhos poucos ou muitos, com interrupção de sonhos, com feitura de novos sonhos. O para sempre é cheio de novos sonhos a serem feitos. Não adianta você tomar o sempre para si, como se fosse seu (e nem do outro, só seu). Que não é seu nem dele.

Não adianta inexplorá-lo. Não seguir a linha para frente. Um para sempre é um desejo de vida longa e inteira, de velhice mórbida que ficará melhor se houver o outro. De crises de meia-idade compartilhadas, de rugas conjuntas e fotos que ficam velhas. E fotos que ficam feias. Fotos que ficam belas.

Tudo vem. Se se quer o para sempre, tem que aceitar o tudo que, com o sempre, vem. Tem que ser honesto, e tem que ser um sempre até nunca mais.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Essa moça tá igual

E quem vai diferente sou eu.

Essa menina tem demais de mim. Ou: essa menina tem demais do que eu tentei de ser. Essa menina tem demais do que seria eu, do que fui, do que me esforcei e quis, só tentei. Não era eu. Essa menina tem o jeito e o olhar bem parecidos. Ela veste as roupas que eu usava. Fez o trocadilho que eu comecei na piada. Repetiu minha piada sem transmitir autoria alguma. E fez mais sobre ela. Fez menos de mim. Anda fazendo  pouco de mim.

Essa menina tem nas saias longas a graça que foi minha. Tem nos lábios o rapaz que sempre foi meu e que nunca tive. Ela tem também o quarto com as mesmas cores, os quartos com o mesmo tamanho e andar. Tem o mesmo andar.

Tem os passos miúdos e as palavras já prontas. Essa menina vai com as palavras já prontas.

Essa menina não sou eu.

Ela é só tudo o que eu tentei de ser.