segunda-feira, 15 de abril de 2013

Lá vem na minha frente

Galera caminhando na Alexandrino. De novo. Outro post, depois daquele que azamiga combinam uma corrida.

Eu falei, né, está desenhado no chão, em pinturas rupestres, hieróglifos, alfabeto romano, letras garrafais, letras bastão, de todos os modos: há direção de ir, a direção de vir. O lado que corre, o lado que anda. Além dos especialistas em andar no lugar de quem corre, e das turmas unidas que só andam aos cinco, lado a lado, quem vem se especializando é o clube do corro-na-contra-mão-principalmente-se-for/sou-gostoso.

O natalense anda com a autoestima elevada. Até demais. Depois dessa Roberto Freire com calçadão, alameda em frente ao hospício, Via Costeira fechada aos domingos, a gente tá muito saúde, todo mundo fitness, aqui é quase uma Copacabana, minha gente, até porque já teve ator local na novela das sete e tudo mais. A gente é muito sucesso. Então vamos fazer parecido com eles. Esse negócio de andar em filas, separar quem corre de quem caminha, todo mundo igual, isso é tudo muito primeiro mundo, Dinamarca pé-no-saco. Aqui no Brasil a gente faz diferente. E aqui na província a gente faz como na metrópole: vamos se esbarrar e fazer de conta que tem centenas, centenas! de pessoas nessa avenida. Vamos esbarrar e encostar esses corpos suados. Cada um vai em uma direção. Numa sorte que a gente der, o pessoal do hospital psiquiátrico sai daí e fica correndo aos círculos ao redor de cada um de nós. Pra ficar como deve ser, a correria literal, desnecessariamente caótico.

Então se o desenho manda eu ir para esse lado, eu vou pro outro. Mas, antes, vou tirar a camiseta, exibir minha barriga que não é tão tanquinho assim, mas, veja lá, é Natal, é galera na rua, todo mundo suado aproveitando o esporte ao ar livre, a gente tem mais é que se mostrar. E só assim para todos me verem. Todos. Meus equipamentos de corrida prontos: aipode cinco em aparato braçal que parece tensor, fones maravilhosos, mamilos duríssimos. É minha vez.

E assim ele vai.
Corre na contramão, não desvia das pessoas que, como tudo deve ser, Chorão, cumprem o consenso conforme o figurino. Sai desfilando peitoral e bíceps a todos que não querem ver isso. Esperam uma paquerada, um encarar de olhos. Uma menina ousada que, depois de olhar a bagagem de frente, vai virar o rosto para ver a retaguarda - porque, como se diz na Playboy e adjacências, a gente em Natal somo tudo tarada. Ele corre.

O coeficiente desse tipo de gente está aumentando na corrida. Estão tornando as coisas mais difíceis e irritantes (ai, Bia, como você é chata). E tornando o caminho mais desagradável de ser visto, porque, sim, essas pessoas não são dotadas de beleza de se admirar. E se fossem, deveriam bater foto no espelho e postar no facebook. E não se jogar na minha frente, como algo tão natural que para eles é.

Sugestão. Eu não posso fazer isso, mediante meu estado civil, envergadura, bom senso e bom nojo de suor alheio, mas é preciso que alguém faça. Então, aproveitando os trechos escuros da alameda, alguém que esteja correndo no sentido correto, quando vir o corredor otário-oposto de aproximando, como quem está filmando novela da Globo, não hesite: acelere, não desvie... e abrace! Largue, continue correndo, acelerando, e abrace o próximo! Faça isso sem parar. Faça isso três vezes em uma semana. Com todos eles. Corra já com os braços abertos, vá sorrindo até. Na próxima semana, bastarão duas, depois somente uma. Eles vão entender que não faz sentido correr no sentido oposto de 97% das pessoas se não for para abraçar o  amigo suado (como se confraternizando em um abraço hétero não homofóbico). E alguma ordem há de ficar ali. Menos homens descamisados em contramão, menos suor que respinga de testas que te olham, menos bíceps te mirando sem necessidade. Sem esbarros, sem desvios. Vai ficar melhor.

Abraços, por uma caminhada civilizada.

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