quarta-feira, 24 de abril de 2013

Levemente visceral

O único final feliz para uma história de amor é um acidente, sem sobreviventes, diz J.P. Cuenca nesse livro homônimo aí. É um romance breve de capítulos curtos, de linguagem boa, de verdades ditas, de entrelinhas às vezes mais reais que as próprias linhas. Bem parecido com muito do que já li, mas em verdade quase tão diferente de muito ou tudo que eu já tenha lido.

O único final feliz para uma história de amor é um acidente se passa lá no Japão, Tóquio, com personagens orientais, de nomes orientais, costumes orientais e ocidentais. Numa profusão que deve ser a Tóquio, Cuenca pegou todo o pano para manga que um romance romântico no Japão poderia dar. Usou sem pudores, e com as sutilezas de quem quer deixar o leitor ler sozinho essa obra. E elaborar seus personagens para si.

Ele dá de presente os personagens ao leitor. A gente fica com mais impressões nossas do que dele, e, pra quem não leu tanto, mas já leu um tanto até aqui, ter personagens mais nossos que do autor em um romance que se lê é um presente inesperado, de enciumar-se e tudo mais. O livro fica melhor, fica imediatamente muito melhor. Junto com os personagens, Cuenca me deu as perversões e as verdades deles, que são muito nossas, mas que nunca vimos ou contamos de verdade que são nossas verdades. Taí.

"(...) e o meu silêncio tem justamente o tamanho das lacunas que ele preenche com os versos sobre as coisas que não podemos ver ou tocar, que ele chama de 'ideias puras', e que tanto me confundem."

'E quanto menos é consciente do que se faz, mais o que se faz é o que se quer.'

'O Sr. Okuda tentou me explicar e disse que o tempo é o que separa o passado do futuro, e que para medi-lo existem aparelhos como relógios e calendários, que são como pequenos calabouços, porque ninguém pode escapar do tempo, que é a única coisa que iguala todos os seres humanos, junto com a morte, claro, que anda de mãos dadas com o tempo - o tempo todo.
(...) Ainda sem entender muito bem o que era o tempo, perguntei ao Sr. Okuda o que era a morte, que me parece ser a mesma coisa, só que dita de uma forma diferente.' 

E escreve aquelas frases icônicas, que todo bom escritor distribui bem em cada um dos seus livros, e que quem gosta de escrever sublinha-as porque sabe, um dia aquela(s) frase(s) vai te dar texto(s).

'(...) carregava um cesto de peixes e seu silêncio usual.'

'E o tempo desses relógios é desonesto
E o tempo desses relógios é obsceno'

'Os espaços sagrados entre os dedos dos pés'

'Os ossos arrebitados contra os suores'. 

'(...) fazer o agora deixar de passar.'

'Você sente como se pendurassem suas entranhas em cabides à exibição.'

'(...) o mundo seguiu seu curso à nossa revelia - outra coisa que já temos em comum com os mortos.'

Intenso e sutil. Levemente visceral. Para ler com lápis à mão, sublinhando as palavras que o Cuenca parece ter escrito exclusivamente para você. Para ler de novo. Para virar filme.

Um comentário:

Anônimo disse...

Só por essa passagem o livro já conquista:" Um dia você entenderá que o único final feliz possível para uma história de amor é um acidente,sem sobreviventes"