quinta-feira, 11 de abril de 2013

O mau vidraceiro

E quando me perguntam  Tudo bem?, isso pra mim é sério, muito sério, e preciso começar do começo, pensando bem no que farei ou direi, acordo na verdade todos os dias para essa exata pergunta, Tudo bem?, os tímpanos repletos dela, sabendo que nada haverá para responder depois que encontrar a resposta.
(Copo d'água)

Sou o homem-bomba voluntário, sem paraíso prometido, para explodir de vez esta soma de vozes, hierarquizada em intervalos (oitavas, quartas e terças), com o único eco, bum, da minha solidão - vocês ouvem seu ruído espantoso? o deslocamento de ar? os carros incendiados, os pedaços de carne humana, o sangue no asfalto, nas paredes? Outra solidão se vingará. 
(Homem-bomba)

O tempo transforma as metáforas em coisas, mas antes, muito antes, as coisas e o próprio tempo é que foram impiedosamente transformados em metáforas. 
(Metáforas)

Pai, vou prestar vestibular para Letras. Letras é o quê? Literatura, pai. Livros? Livros, respondi. Ele ficou em silêncio, apalpando a textura da mesa. Assim era o seu entusiasmo. 
(História concisa da minha família).



São trechos do livro de Nuno Ramos: O Mau Vidraceiro.
Bem bom, bem fluido. Capa feia. Então por dentro pode ser ótimo. E digo que é.

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