quarta-feira, 10 de abril de 2013

Tocando o dia

Quando eu acordei, a primeira vez, eram seis em ponto. A segunda vez eram seis em uma. A terceira, seis e duas. Até completar seis e dez, que acordei duas vezes no mesmo tempo porque tinha o efeito soneca de seis em ponto e o décimo minuto programado para despertar. Depois de onze vezes, levantei. 

Depois do banho, passei desodorante. Seguido do mesmo perfume de todo dia, o reparador nos cabelos. E prende o cabelo do mesmo jeito, enquanto termino a preparação de sair de casa, que queria que fosse todo dia a mesma hora, cronometradamente, mas ainda não consigo. Não consigo. Angústia. E depois do desodorante, perfume, semi coque, desodorante de novo. Depois que eu vestir a roupa, vou afastar as mangas da camisa, ou desensacá-la, pra poder passar mais um pouco de desodorante. Eu sei que passei, mas eu não tenho certeza. Vai que. 

Quando eu tomar café e voltar pro banheiro, preciso arrumar a bancada pra poder sair de casa. Quando eu passar pela porta do banheiro, afasto a manga da camisa pra colocar o desodorante que não sei se passei. Aí vou recolher os dois celulares, cada um para um fim, arrumar os cadernos antes de sair, eles que têm, cada um, uma categoria de utilidade (o do mestrado, o da nova faculdade, o da aula de alemão, aquele que anoto o que tenho que fazer, o bloquinho dos endereços, aquele que escrevo textos grandes, aquele que escrevo as frases soltas quando me vêm para depois eu fazer com elas os textos grandes que vão pro outro caderno). Se der tempo arrumo logo a cama, se não vou sair sentindo a angústia de não ter arrumado-a. Mas preferencialmente escondo os sapatos, embaixo da cadeira, cama, dentro do guarda-roupa, senão não saio. 

Depois que eu passar da porta e chamar o elevador, volto correndo pra colocar o desodorante. Não lembro se passei. Até tenho certeza, meu sovaco tá branco, mas pode ser o algodão evaporando direto da roupa, quem sabe, pode ser o de ontem, ainda, vai saber, ontem eu passei cinco vezes depois do último banho, dizem, mas ainda assim vou passar de novo para garantir. Garantir. 

No fim do dia, assim que eu chegar, só posso tomar banho ou começar a estudar depois que eu arrumar esse quarto. Veja só a posição do notebook, que nunca pode ficar assim. E a cama sem o edredon por cima. É capaz de alguém ter sentado no lençol que ninguém pode sentar. Que dor. 

Cheguei tão ansiosa hoje que arrumei meu quarto duas vezes. Agora vou na sala tirar aqueles livros da minha mãe de cima do sofá, que onde já se viu, conseguir se concentrar estudando se a casa tá uma bagunça, o sofá e tudo mais. Aí mais tarde vou limpar uma caixa, que é uma gaveta, eu não tenho gaveta, então minhas caixas são gavetas. Porque assim eu vou conseguir estudar e ler com mais concentração, entendeu. 

Depois do banho quando eu sentar pra escrever, tenho que prender o cabelo com a presilha do lado direito, unicamente. E mais tarde no semi coque igual ao da manhã. Cabelo solto atrapalha tudo; prende metade ou todo ele. 

Aí daqui a pouco vou dormir. Desligar um celular, usar o outro e colocar meu despertador, que são onze: seis, seis e um, seis e dois, seis e três, seis e quatro, seis e cinco, seis e seis, e sete oito nove dez. Duas vezes dez. 

Pra garantir.

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