quinta-feira, 30 de maio de 2013

Sobre Barbas

Não é preciso advogar em favor de livro sobre o qual todos advogam a favor. Sobre o qual quem se debruça se destrambelha logo em dizer que você leia, que você não pare, que você vai gostar e vai entendendo o tudo aos poucos e no final haverá mais e melhores coisas ficando claras. No final, o livro, a história, o personagem e você ficam melhores. As verdades expostas vão comunicar outros mundos pra você. Vão falar mais de um mesmo mundo que você pensa que conhece. Você não sabe de nada. Você não sabe de muita coisa.

Poucas semanas antes da Barba Ensopada de Sangue eu tinha lido texto de Ana Elisa sobre poeta não ser eu-lírico, autor não ser narrador. E não é. Nunca é. Mas às vezes a gente aposta em se confundir, porque faz sentido a confusão.

Barba Ensopada de Sangue tem narrador, protagonista e personagens que parecem beber em quem os escreveu. E talvez seja pecado e seja feio o leitor ir assim, misturando as coisas, apontando os segredos nas linhas, como se ter conhecido o autor antes de conhecer a história do romance te desse um poder maior sobre suas barbas. E você se pega escarafunchando, algumas vezes. Como que fazendo fofoca. Mas é acidental e consegue costurar ideias e cenas, sobre a pastora australiana e os olhos meio afundados no crânio. O sujeito calado e disciplinado que só falava quando precisava. A impressão constante de estar chegando sem se aproximar. A descritiva e prontamente concebida sensação de silêncio. E uma ideia simples de um sorriso sério. Vai tudo isso em um caldeirão poderoso. E parece que assim faz mais sentido.

Porque o livro chega denso, com casca (capa) simples sem beleza e com sua beleza, e te puxa pra mergulho profundo. O fundo é silêncio. A água é protetora e retarda o tempo. Mas a superfície é o inferno. Ele não te dá o personagem de presente. Ele coloca você dentro dele. Ele te põe pensando bem igual, porque, em verdade, essa barba que cresce tem pensado e sentido nossos monstros, em superfície, fala de nossos monstros em profundidade. Até e mais quando não diz nada.

Esse sujeito que descreve, observa e escaneia, que por isso sabe de uma beleza fugaz e a reconhece várias vezes de novo, e de novo, incapaz de odiar, necessariamente inimigo do perdão, que não faz sentido. E você prontamente sorri e concorda porque ele pensa igual a você. Você pensa igual a ele, perdão (ops.). Tem um monte de gente afundada nessa figura, se contorcendo de prazer a cada verdade que ele diz. Ele personagem autor narrador. Agora não sei bem de quem que falo.

Os personagens não dados de presente, que te engolem, são reais quase tanto quanto o livro. Que é vivo. É um livro de cenas, cheio delas, e que guardei bem as fotografias coloridas e líricas comigo. Umas verdades bem-humoradas e um lirismo que perdoa a agressividade com que às vezes se conta. É um romance de romances belos, de cenas intensas sem nunca ser tórridas, esse adjetivo da vez que é feio e desnecessário nas boas histórias.

Um livro cujas cenas não se esquecem dispensa defesa. Um livro cujos personagens são reais porque são nós e nossas superfícies de inferno dispensa a persuasão por cima dele. A persuasão, essa coisa obscena.

O último capítulo é o melhor capítulo do livro. Os outros doze são inteiramente maravilhosos. Com a pieguice real que me seja permitida. Tive de chorar em algumas das cenas. Que o autor o narrador o personagem enfiaram seus dez dedos em feridas nossas que não saram. Em feridas nossas que latejam. E é preciso sentir essa dor ao mesmo tempo que se lê. É um ritual que faz parte de um livro real com personagens reais. Tô te falando.

Depois de alguns dias a gente retorna do mergulho. Retoma nós mesmos com doses de humor e honestidade retiradas dessas pessoas reais do livro. A superfície de inferno, que sou eu, parece agora de menos inferno, até.

Há apenas dois lugares possíveis para uma pessoa. A família é um deles. O outro é o mundo inteiro. Às vezes não é fácil saber em qual dos dois estamos. Parece que o livro ajudou a descobrir. Mas para ter certeza é preciso lê-lo de novo.

Uma história para sempre. Um autor um narrador um personagem espichados para a posteridade.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

TV à mesa

Mas bem antes dos esmartes fones, ái fones, mais fones, ela chegou pra dizer muito bem quem é que manda. E quem é vanguarda na história. Quando no bar e no restaurante a gente divide (compete, esgana, engasga, desiste) as atenções com as telas minúsculas, quando em casa, mais ainda, na casa de quem não é geração Yfones, a hora do almoço tem na mesa junto com feijão, arroz e azeite, a televisão.

Quando todos os dias almoço na casa da família, com mais gente além de mim mesma (quando eu almoçava em minha casa, eu almoçava comigo, somente, e com Hanna, vide relativamente o post anterior), a tv é a primeira a se sentar. Aliás, ela é convidada de honra. É aquele parente que só os mais novos acham desagradável, os menos criteriosos acham-na até valiosa, e os muito velhos simplesmente acostumaram-se à sua presença e conseguem trata-la com uma naturalidade que às vezes se aproxima da indiferença. (Mas que se a convidada não estiver presente, não conseguem ser indiferentes. Piram.)

Não se começa a almoçar antes de encontrar o controle remoto. Primeiro o controle. Depois o ajuste do canal. Uma olhada rápida no taileur da apresentadora do jornal. Procura o lugar, alisa o prato, ouve um pouco a convidada sentada junto conosco, e só então começa a colocar as conchas e colheres de comida. Ninguém fala. Todos estão ali com um propósito de grupo, aliás, é família, que nem sempre é um grupo, menos ainda família, mas faz de conta que é pra ser, e que o horário do almoço coloca mais sentido nisso. Pois então. A tv fala sem parar. A tia do interior, pois é. Assim mesmo. E a gente ouve, todos mudos, seus relatos cotidianos. Antes fossem só relatos. Temos a imagem grotesca brigando por atenção, o anúncio da cerveja com uma mulher que fala da cevada enquanto espreme os peitos para eles parecerem maiores, as fotos do acidente de carro, dos corredores do hospital público, de crianças pedindo esmolas e vivendo no lixão, por exemplo. (Mas esse aqui era a novela que passava. Horário de jantar. Confundi o convidado!)

E a gente come e assiste aos jornalistas comentando sobre uma degradação política e social diárias. A gente come e assiste a essa degradação cotidiana e faz isso como rotina, diga aí, cotidiana. E os mais velhos tratam com indiferença, os menos criteriosos como algo importante de se estar ali. Eu nunca entendi por quê.

Na mesa, com duas, quatro, seis pessoas, conversa-se pouco, ou fala atravessado às notícias ruins. E sempre tem alguém mandando um desavisado calar a boca porque precisa ouvir da moça que atropelou o pedestre, e tem que ser agora, na hora do almoço. Ou do rombo milionário que acontece com o dinheiro que a gente paga todo mês, no imposto. Pegaram esse dinheiro e trocaram em caviar. Esse dinheiro que a gente ganha espremendo nosso horário de almoço e nossa refeição onde nunca falta essa convidada. Mas é preciso ouvir agora, é preciso saber da notícia ruim, da miséria e da pobreza, logo agora, quando eu separei vinte minutos do meu dia para não pensar em nada. Para comer e ouvir comentários indesejados sobre minha roupa e meu cabelo. Era só isso. Ia ser mais simples. Mas finjo a felicidade do apetite enquanto escondo os olhos e os ouvidos dos pacientes em leitos de corredor, dos pacientes sem leitos, do abuso sexual, e do auxílio moradia aos nossos deputados federais.

Eu não gosto dessa convidada no meu almoço. Eu não gosto dela quase nunca, mas nesses vinte minutos acho que ela sair pra uma passeada. Se quisesse voltar depois eu ouviria sobre o último atropelamento. O tornado. A bomba atômica. Não teria grandes problemas.

Mas ninguém deixa. Ou ela senta à mesa ou ninguém come. São as regras de algumas famílias.

terça-feira, 28 de maio de 2013

É(,) uma cachorra

Hanna chegou aqui em casa como a maior parte dos cachorros chegam em novos lares: parecendo um pelúcia, provocando um cuidado e um apego aqui imediatos por causa dos olhos apertados, trazida por um irmão mais velho que deliberadamente pagou pelo animal para trazê-lo para casa e fazê-lo membro da família, mas guardando para sempre esse detalhe financeiro omitido em todos os lares porque parece ultraje. E é.

Ela deixou de ser cachorro sem demorar. Houve uma vez em que disse que tava saindo pra "pegar a cachorra no pet shop", e minha mãe me repreendeu com os olhos sinistros de repúdio dizendo que aqui não tinha cachorra nenhuma. Só se fosse eu.

Pois bem. Hanna tem o hábito de saudar visitas e habitantes da casa (mesmo recém-saídos para deixar o lixo fora) com gritos e choros. Ela não late, e poucas vezes pula pra trepar nas nossas pernas, como os cachorros fazem sempre. Ela se emociona e grita de alegria, abana o rabo e anda em círculos à procura da posição mais fetal possível, pronta pra ser feito de bicho de pelúcia de novo. Isso pode acontecer uma dezena de vezes em um dia. Em um turno. Foi a cultura que ela apresentou ao nosso lar, e que a gente respeita. Os vizinhos nunca reclamaram.

Em pouco tempo, Hanna mostrou-se adepta do veganismo absoluto, reagindo mal às carnes e aos leites. E come uma ração vegana especial. Vive bem, é feliz, o pêlo brilha e seus dentes ficaram mais saudáveis depois que deixou os hábitos carnais. Também deixou os hábitos carnais de outro tipo. Porque bem cedo ela deixou clara sua opção celibatária. E foi preciso morder urrar e atacar machos desprevenidos. E também veterinários desprevenidos e seus termômetros anais. Mantém-se casta e independente. Engravida psicologicamente só às vezes, porque seu organismo demora ainda a aceitar sua opção filosófica religiosa sexual de vida.

Tem hora pra dormir e pra acordar, e é bom que façam silêncio. Detesta que a acordem chamando para se levantar da poltrona e ir pro quarto. Faz o que a maior parte dos humanos sente vontade de fazer nessas horas: morde. Ameaça. Rosna. E volta a dormir com cara de rainha.

Seu sinal de velhice foi quando passou a dormir sentada. Como todo velho, especialista que é em dormir sentado. Ela que frequentemente senta à mesa junto com a gente (fica no chão, ao lado, esperando uma porção de banana com granola ou uvas que possam surgir), muitas vezes senta e cochila. Espera. A idade, o celibato e a vida vegana fizeram dela mais paciente e circunspecta também.

Minha mãe a repreende se Hanna arrota ou solta pum. Desde bem pequena.

O perigo não é os cachorros ficarem cada vez mais parecidos com os humanos. Mas ficarem cada vez mais parecidos com cada um de nós. E também acho terrível essa coisa de tratar cachorro como se fosse gente. Hanna não merece uma ofensa dessas, vá lá.

Em carta

Falei que não ia demorar a escrever, mas já se passaram meses. Eu estudei menos do que devia e vi mais filmes do que devia. Não cortei mais o cabelo. Tu tem que ver. Eu não consigo mais nem prender o cabelo. Eu tenho comprado cadernos como se fossem doses homeopáticas de felicidade. E escrevo dentro dos cadernos minhas doses nada homeopáticas de tristeza e solidão. Eu nunca senti tanta solidão.

Porque você foi, porque você foi e demora pra vir, porque agora tem um mar de distância e um tempo infinito entre a gente. Ao mesmo tempo que minha ampulheta por aqui quase cessa. Ando no fim dos prazos, estudando pouco, vendo filmes demais, postergando os trabalhos, escrevendo solidões. Enfim.

O só é o que mais me incomoda. Postergar demais e estudar de menos não é um problema. Aliás, comecei a botar a culpa da procrastinação e da falta de ensejo na ausência repentina de pessoas. Porque quis, mesmo. Fiz arbitrário porque quando as coisas dão errado, é assim que eu sou. Acho que é assim que tem que ser. Ainda. Porque pior que a ausência de pessoas, é a presença maciça de pessoas ausentes. Me dói.

Eu ouvia dizer que as distâncias e os mundos diferentes vinham, a gente via menos uns aqui, outros ali, enquanto se encontrava mais com uns outros, com a distância como única facilitadora dessa entropia rebuliçosa. Rebuliçosa não é palavra que se diga. Acho que não existe. Eu não ouvia dizer que as pessoas podiam ser outras.

Que lá na minha sala de aula anda todo mundo cada um por si. Não enxerguei um grupo nem uma calmaria. É uma tensão bem grande, parece que têm ali uns corações apertados, ou uma falta de corações apertados, substituídos por uma urgência que eu não conheço. Que eu não entendo. E as pessoas que ficam comigo ali estão fora. É uma sala cheia de gente ausente, cheia de gente dentro de si próprio, com menos abraço simbólico. (Você lembra daquele nosso papo sobre abraço simbólico.)

Também não consigo captar atenções. Aliás, não entendo atenções. Tenho tido que dividir atenções com celulares e câmeras em celulares, cada vez mais. Cada vez mais fones, cada vez menos ouvidos. Menos ouvidos e olhos. Isso me dói. Mas nem posso espalhar uma coisa dessas por aí. Já vês as bocas comprimidas nos cantos, uns olhares de desdém que não são dirigidos a mim, mas são pensados para mim, porque não se mantêm em mim, nem em pessoa nenhuma. Mas que desdenham, sim. Olhares que se detêm nas telas e nas letras a digitar. Na conversa tórrida mantida via sinais telefônicos - conversa sem vozes.

As palavras estão duras. Sinto uns humores engessados por perto. Essa absorção dentro de si mesmos, essa absorção dentro de telas que plainam como isqueiros em shows de roque de outras décadas. Essas luzes que acompanham superfícies de mesas e carteiras, absorvendo os olhos e os povos absortos.

Vem tudo isso ao mesmo tempo. Sem relação nenhuma comigo mesma. A postergação, os fios de cabelo, os cadernos, os absortos. A competição por atenção e por um pouco de olhar. Tá mais difícil aperceber-se de quem se dói, de quem comemora, de que não corta mais os cabelos. Dá pra sentir tudo ao mesmo tempo, transmitindo por aqui uns ditados sobre sentir-se só em meio a gentes ausentes. Há demais.

E parece que acrescem certezas esquisitas. As pessoas podem ser outras pessoas. As pessoas podem virar outras. E você deve estar preparado para perder pessoas. Que continuam aqui. Mas não.

Inclusive você mesmo.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Eu, meus livros e nós dois

Eu demorei um pouco pra perceber o valor do livro. Não o valor simbólico, bonito, dito feito, de que ler é importante e é vida e é tudo o mais que se pode ter. Para isso eu também demorei um pouco, até que é verdade. Mas falo do valor afetivo, sentimental, patológico, inclusive, com um teor de propriedade privada (no sentido estrito do termo).

Eu pedia e emprestava livros quando eu comecei a ler um pouco. Era início da minha adolescência, e eu achava que era normal, certa, e corriqueira essa troca de livros. Que hoje eu encaro como uma suruba. Um desrespeito medonho, uma falta de apego coletiva, se a troca é desmesurada e natural demais. Empréstimo de livro não é natural demais. Não pra mim, já há um tempo. E acho que nunca mais há de ser.

Antes, livro era só um livro. Uma história, uma boa história, e que bom que seria e que era compartilhá-la. E então podemos conversar depois sobre os personagens, sorrir falando dos finais felizes, quem sabe. Me empresta um outro aí seu, e eu escarafunchava estantes numa alegoria do que hoje conhecemos como furação de olho. Pra mim é mais ou menos isso.

Quanto mais fui gostando de ler, mais gostei de ter livros. Meus. Mais sublinhei, risquei, pensei sobre aqueles autores dentro de suas cabeças, aqueles personagens dentro de suas páginas, aquelas histórias de ficção que pra mim eram reais e nas quais eu tinha um nariz metido bem no meio delas. Eu estava no meio das histórias e as histórias estavam diluídas aqui por mim. Havia intimidade naquele livro, e houve um prazer, um gozo, uns segredos, cochichos. Umas anotações à margem que eram pro personagem ou pro autor. Ou pra mais ninguém que não fosse eu.

Viraram tesouros resumidos à alguns centímetros e peso em gramas, que ficam bonitos e bem organizados numas prateleiras brancas ou marrons, que pela vida a gente providencia. Eu deixei uns pedaços meus nos livros, e olhava para eles com carinho. Eu passei a sentir necessidades abruptas de abri-los e ler alguns trechos, num repente, pois em que dependendo do dia e circunstâncias afetivas, aquilo me seria importante. Aquilo me salvaria. E era verdade. Acontecia.

Eles me valem demais. Eles são meus, em todos os sentidos amplos que essa frase consiga abraçar. Esses livros, histórias e letras são minhas. E eu sou bem deles.

Emprestá-los é afronta contra minha religião. Mas passivo de perdão em circunstâncias bem específicas e especiais. Em caso de linda história, de livro cheio de verdades, de eu não poder dá-lo de presente no momento, de a pessoa necessitar lê-lo (segundo minha opinião, exclusivamente, por motivos que eu julgue apropriados e urgentes, exclusivamente), de a pessoa não poder adquiri-lo por outras vias sob nenhuma hipótese, de ser alguém meu preferido, que eu saiba onde mora, tenha todos seus telefones, e reconheça na rua parentes de até terceira geração, eu até empresto. E não demoro a procurá-los, de volta. Sinto falta. Eles são meus, eles estavam bem aqui, eu sinto falta.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Lugar de gênios burros

E o que estão fazendo com a ciência.

É primeiro dia de aula na nova vida da pós-graduação, nos novos tempos de achar que sabe bem o que fazer da vida, quando o professor retoricamente pergunta pra turma. Vocês estão aqui pra que, gente?!. Minha mente pueril responde bem rápido e bem pura: pra fazer pesquisa, professor. Mas antes que minha voz pueril diga o mesmo: "Estão aqui pra ser professor, não é?!".

Não, professor. Eu vim aqui pra fazer uma pesquisa mesmo. Pra fazer ciência. Produzir conhecimento. Essas coisas bonitas que se diz quando se faz uma pesquisa bem boba no universo de um universo (de fato) de pesquisadores mais experientes e mais sabidos do que eu. Que pesquisam coisas mais urgentes. Mas isso não diminui a importância do que estou fazendo, já sei, eu comprei essa ideia e ela faz sentido hoje e... Não. O mestre que é doutor me diz: vocês fazem mestrado e doutorado para ser professores em uma universidade. Eu grito ENCONTRE O ERRO. Mas continuam todos com cara de paisagem e conformismo e concordância absoluta. Como se o professor falasse sobre como é bom o Intermitências da Morte, do Saramago.

No meu último ano da faculdade, a despeito da crise ainda em andamento, e da certeza sobre fazer Letras, independente de que rumo minha vida profissional levasse, meu interesse foi repuxado pelos Transtornos Invasivos de Desenvolvimento, e eu queria fazer pesquisas nessa área a partir de então. Meu plano, na minha mente pueril, novamente, era debruçar-me em cima do autismo, durante um mestrado bem bonito que eu iria fazer, e então aprofundar isso aí em uma tese de quatro anos de duração. Meu mestrado e meu doutorado implicariam uma prática contínua; a consequência do meu mestrado e do meu doutorado, obviamente, era única: colocar minhas descobertas em prática.

Sim. Que quando você faz uma pesquisa, você faz descobertas. Apesar de nem sempre parecer - se tu vir as pesquisas que eu vejo por aí, hun, não parecem nem são. Mas então. Quando você estuda o assunto de seu interesse ao longo de seis anos ou mais, pratica-o, e, felizmente, descobre algo que deve ser feito sobre ele, ou, em hipóteses mais tristes, mas igualmente válidas, o que não deve ser feito sobre ele, você então pega essas centenas de páginas e espreme no quê?, na prática. Você estuda, descobre, divulga, e faz. Estuda, descobre, divulga, e faz. Não é assim, universitários!?

Não. Quando eu relatava meu (então óbvio) planejamento, meus professores arregalavam os olhos e me preveniam: não faça isso, pelo amor de Deus, não faça isso, pelo amor de Deus não, pelo amor do seu Lattes e da burocracia do Comitê de Ética; esqueça! Às vezes eu rebobinava a fita e verificava se eu tinha dito realmente o que eu tinha pensado em dizer. Ou se no lugar tinha saído um "professor, vou virar jornalista", "professor, meu sonho é ir pra Banheira do Gugu". Mas não.

Todos meus professores (bons e ruins), não deixaram dúvida: quer ser psicóloga de autista, então vai trabalhar. Faz aí uma especialização. Não perca seu tempo [sic] com pesquisa, se você não quiser ser professora.

De novo, ENCONTRE O ERRO. Mas ninguém se manifestou.

Meus bons professores disseram claramente para eu reproduzir conhecimentos. Em outras palavras, ou nessas mesmo, foi isso que eles me disseram. E complementaram: se quer produzir conhecimento, fica aqui, faz suas pós-graduações, namora alguém do Comitê de Ética pra facilitar tua vida, e vai dar aula pros alunos. Eu parei de pedir que encontrassem o erro. O erro só quem via era eu. E como minha esquizofrenia em potencial por vezes se manifesta, deixei estar. Eu não consegui provar o contrário.

Não pode ser permitido, não é sensato, muito menos ético, que fazer pós-graduações acadêmicas tenha como finalidade ser professor de uma universidade. Ser professor é consequência última de uma sequência intricada de estudos extensos, de práticas importantes, de experiência e autoridade no assunto que se ganha. É consequência, às vezes até acaso, mas não é fim. Não pode ser.

Fazer pesquisa não me dá o direito de ensinar. Não me dá o direito de formar ninguém. Fazer pesquisa me dá a obrigação de aplicar a pesquisa. De pegar essa tese rechonchuda e dilui-la na minha clínica particular, na unidade básica de saúde, na ongue, no lugar que seja. Na população que seja. É ela, a população (a de onde é retirada a amostra, lembra?!) quem precisa da minha pesquisa, não sou eu, nem o portal de periódicos.

Essa reprodução esquisita e horrorosa da ideia de que devemos ser doutores para ser professores está arreganhando um tumor lá pelo Departamento de Psicologia, e talvez por muitos outros: temos, cada vez menos, professores psicólogos. Menos professores com experiência em ser psicólogo, em praticar, em estar acostumado e exaurido com tanta empatia que forneceu na vida. Temos professores intelectuais, que pesquisam, produzem, divulgam via jornais de periódicos, o que não significa divulgar, no sentido amplo da palavra, menos ainda pôr em prática, toda sua intelectualidade. E quem eles estão formando? Pesquisadores. Psicólogos é que não estão.

Eu ainda não vejo despropósito no meu projeto inicial. Aplicar a pesquisa à prática. Dizem que os países que mais investem em pesquisa e que têm os maiores índices de desenvolvimento humano fazem por aí. Dizem. Vai que. Eu não vejo despropósito em me matricular em pós-graduação stricto sensu para fazer uma pesquisa. Assim, simplesmente. Minha resposta é essa. Sempre foi, ainda será. Tenho outros interesses e motivos, é óbvio, os quais não envolvem ser professora de psicologia, ainda bem (para os alunos), mas o intuito que mantenho é esse.

Não posso ser professora se não consumir uma experiência. Não posso ser pesquisadora se não desmembrar minha pesquisa em fatos reais - o que não significa voltar à comunidade e apresentar sua dissertação com os dados, distribuindo autógrafos. Não posso. Se for pra ser assim, tá feio, tá errado, tá anti-ético demais. Tá até bem vergonhoso.

Esses egos robustos encobriram o objetivo precípuo do conhecimento: mudança. Da ciência: desenvolver. E se for pra continuar tudo assim, na falácia, é preciso que vocês parem com esse toc horroroso de dizer: não consegui coletar os dados, porque a escola não deixou eu fazer pesquisa lá!, acredita? Nem o hospital. A ongue. A comunidade hippie. Ninguém valoriza a ciência, só nós mesmos, meu Lattes e meu orientador. Assim não dá pra fazer pesquisa nesse país!

A sociedade desvaloriza ciência. Porque desconhece. Desconhece por ignorância, e não a ignorância pejorativa, da estupidez, (a que parece ser a que vocês têm), mas a de nunca ter sido apresentada a ela. E parece que ela continua apenas ouvindo falar, se sujeitando de quando em vez a uns malucos que dizem fazer a tal da ciência, mas que estão ali cumprindo uma tabela besta, caminho pequeno, porque seu fim único não é fazer nada, de fato. Mas dizer que fez. Para então contar pros alunos assim que passar no concurso certeiro.

Fazer pesquisa para o quê? Fazer pesquisa para quem? ENCONTRE A RESPOSTA.

terça-feira, 21 de maio de 2013

O pior de ficar velho é ficar surdo

O pior de ficar velho é ficar surdo, é ouvir de menos, de menos, e dar-se conta de ouvir de menos demais. E já não ouvir. Não saber o que te dizem, e adivinhar. O pior de ficar velho é ter de adivinhar, porque não se ouve nem te repetem o que não se ouve. E, sem querer, irritar.

O pior de ficar velho é deixar de saber das verdades. E ouvir menos boas mentiras. Haver menos elogios para se ler em vozes, e menos histórias longas. É ter de preferir ficar com as histórias curtas, por falta de opção.

O pior de ficar velho e ficar surdo então é lidar com menos paciência, um rancor, já uma hesitação. Se não ouve, não começam nem a falar. Não ouve nem houve vozes por dias inteiros que já passaram.

É um silêncio de incomodar, um aborrecimento sutil e cujo desespero nunca se transparece. Ele guarda em segredo. O velho que fica surdo tem a paciência de quem não ouve, paciência para os mais jovens que ele, esses sem paciência nenhuma dessa surdez que ninguém quis. Nem o velho.

O pior de ficar velho é ficar surdo. O pior de ficar velho e ficar surdo é não haver quem se lembre de que o pior de ficar velho é ficar surdo.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Em casa, mas não

Quando eu tenho muita coisa pra fazer, penso muito sobre coisas inúteis, por exemplo ponderar o lado bom e ruim das coisas. Tudo tem lados bons e ruins, né, e pensar sobre eles filosoficamente é inútil, só não pior do que vir aqui e dizer que tudo tem seu lado bom e ruim.

Mas que. Nessa nossa vida muderna e ousada, a gente deu pra trabalhar em qualquer canto que se preze, preferencialmente no nosso birô, preferencialmente alternando o trabalho com as redes sociais, com a fingida argumentação de que é "pra relaxar" do trabalho, e apoiando-se sobre o preceito do conforto e a cronobiologia. Tudo verdade. Bem dito, bem feito. Acontece que o troço cheio de benfeitorias só podia dar em merda. Como tudo na vida. (Clichê filosófico 02.)

Com a devida disciplina, trabalhar em casa é melhor que trabalhar no trabalho. Sempre. Poder emendar a manhã no pijama, enfiar a garrafa de café na própria mesa, regular a temperatura do ambiente (que deve ser sempre climatizado, não refrigerado), e ainda alternar com o vídeo do youtube e a ligação pro namorado fazendo vozes não promíscuas mas não reveláveis (nunca, tá proibido em ambiente de trabalho). Não tem nada, nada de ruim nisso. A não ser as pessoas que não fazem isso.

Porque trabalhar em casa, para quem não trabalha em casa, significa que você não trabalha. Valendo o mesmo para o verbo estudar ou seu variante morrer-de-estudar. Não interessa. Você tá na sua casa, o que significa que a qualquer momento eu posso entrar no seu quarto e perguntar pela cerra de unha. Ou pedir uma opinião sobre o apartamento do sétimo andar, o que você acha, e se a gente falasse com o seu pai e, sentou na minha cama, já era. Eu não estou trabalhando, por que não entrar e conversar sobre o que pode esperar pelo jantar? Nunca. Se você já está em casa, ora Bias.

Você sendo estudante de psicologia ou psicólogo, além de confundirem seu trabalho-estudo em casa com tempo livre, há também há certeza de que quando você está em silêncio, existe a posta disposição para escutar. Absolutamente. Essa ideia preconcebida do psicólogo precisa ser revolucionada logo; os free-talkers me perseguem na rua, na universidade, no trabalho (na universidade), e na minha casa. Já deu, gente. Peraí. Tenho um trabalho a fazer.

Estudando ou trabalhando em casa também comunica outra certeza para a sociedade: visita surpresa. Qualquer um pode ir na sua casa a qualquer hora do dia (inclusive de madrugada, uma hora que você opta por estudar e trabalhar exatamente por conta dos free-talkers diurnos). E aí, Bia, tá em casa? Tô, tô sim, tô estudando aqui pra pro... Tô chegando aí!, beijo!. Já era.

É preciso se pensar num Código de Ética do Trabalhador em Próprio Domicílio. Com urgência. Enquanto isso vou tomar meu banho e me aprontar para ir para a biblioteca.


*Esquece o celular em casa.

sábado, 18 de maio de 2013

Cinco dias

Estranho, né? Extraordinário.
Essa semana não doeu mais. Não lembrei mais (tanto). Seu fantasma não veio sussurrando na madrugada, no sonho, no pesadelo. Seu fantasma nem me prometeu novidades. Nem eu mesma fiquei esperando por isso. Não esperei por isso.
Essa semana fiz os mesmos caminhos sem tanta lembrança. Essa semana vi o jardim e a casa, ouvi sobre o filme e talvez tenha visto seus olhos enquanto isso. Mas não doeu.
Essa semana acelerei. Virei uma velocidade máxima, incrível, minhas circunvoluções talvez tenham até virado outras, porque, agora vejo, foi tão diferente. Fui outra.
Fui eu de novo.

E essa semana decidi o futuro meu.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Meus Segredos com Ana Elisa Ribeiro

Alguns têm a sorte na vida de se identificar com textos que lêem por aí. Poucos devem ter a sorte de se ver em um livro inteiro. Inteiro.

É bem verdade que coisas boas e ruins a gente sente nessas horas. Sim, meu Deus, é exatamente assim... Ei, peraí, essa frase é minha?! Ai, só porque não escrevi logo um livro antes, me roubou. E ninguém vai acreditar que eu já dizia isso antes! E isso. E isso. E isso também, olha, é exatamente assim que eu me sinto, ainda bem que você me entende, Ana Elisa, porque...

Eu às vezes tenho dificuldade de me expressar. Por mais que eu escreva. Sou pouco falante. Sou também reservada. Então minha escrita nem sempre é escrachada, e, até acontece às vezes, mas não é sempre que eu arreganho as entrelinhas. Ainda bem que você fez isso pra mim. Publicou. Me deu 116 páginas, que eu li em um sábado inteiro, só meu. Só nosso.

Meus Segredos com Capitu foi um livro escrito pra mim, é claro. É óbvio. E você aí me chamando de egocêntrica, eu nem me importo. Se eu estou no livro inteiro, as coisas que sempre digo, que eu sempre penso, e mais o que nunca consegui dizer, o que eu planejo para o meu futuro. Isso é muito grave. A autora escreveu sobre o que eu penso para o meu futuro, e eu nunca disse desses planos para ninguém. Ave Maria.

Ana Elisa segredando com Capitu é ela falando sobre algumas das melhores coisas do mundo: literatura, leitura, escrita, escola. Ela compilou muito de mim em um livro único, preciso repetir. A experiência, se preparem, sou piegas, foi do tipo inesquecível. Havia trechos em que eu lia, e imaginava a mineira puxando os fios do meu pensamento pelos cabelos (oche, minha calvície então é isso). Outros, eu lia, e terminava a frase ao mesmo tempo que ela. Ao mesmo tempo que ela. (Me arrepiei algumas vezes - falo muito sério).

Mentira e verdade, eu terminava um pouco depois dela, né. Eu lia um pouco depois, e não era ela quem puxava meus cabelos e pensamentos letrados, mas o contrário, claro. Sou mais nova do que ela, fizeram questão de me dizer: não é ela que parece com você, é você que se parece com ela. Então uma honra. (O contrário, estando no lugar dela, não seria grandes coisas. Não seria era nada.)

Eu tentei selecionar os melhores trechos, mas sublinhei o livro quase inteiro. Tentei escolher algumas páginas sublinhadas, mas o livro ficou com tantas orelhas que duplicou a grossura. Vou sortear alguns, pra vocês lerem, se tiverem disposição. Pra vocês lerem-na, se tiverem algum bom gosto.

Livros proliferam. A casa é violada, mas os ladrões não levam. (...) Os livros são desejados, comprados e habitam a casa, como as pessoas, só que eles costumam durar mais do que elas. 

Os namorados tinham ódio dos textos, dos espelhos, da exposição e até das dedicatórias. Um poema dedicado a um amigo podia soar estranho: "Quem não te conhece vai achar que você tem um caso com esse cara, vão pensar que eu sou chifrudo." E o eu lírico se refestelava em amores ambíguos e intensos (...). 

E quanto mais a gente escreve, mais a gente escreve. Não adianta só ler. Se ler muito fosse o único investimento para escrever bem, o segredo do sucesso estaria esclarecido: osmose.

Lá vem a máquina de ler códigos de barras. Coitada, só lê isso num livro. Aliás, mais do que muita gente. Mas não lastimo, não. As pessoas foram apresentadas ao livro. Só não entram nele porque acham que têm coisa melhor para fazer. Não sabem o que dizem. Mas isso não é coisa que se peça a alguém ou que se obrigue a fazer. É como pedir amor. Não dá. Então deixe estar.

O barato é que é seguro: milhares de reais investidos nas paredes destas estantes brancas e nenhum ladrão há de querer levar isso um dia. Leva TV, leva som, leva computador, leva até meu tablet cheio de obras virtuais, mas meus livros provavelmente ficarão ali. É torcer para que não me venha um ladrão incendiário. 

(...) Se tocou a sua imaginação, se abriu você para novas ideias, ou para um mundo particular - e quantos romances de entretenimento não nos levam para lá - este livro é sua obra-prima particular.

Ana Elisa me deu uma obra-prima particular.
Muito obrigada!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Não tem?

Tem dessas saudades que se surgem em plena quarta-feira.
A gente se sente injustiçado se começa a chover antes de dormir e se está sozinho.
Tem um pouco de sair da cozinha imaginando o que estariam conversando com o outro à mesa, nos fins do café. E mais de conversar sozinho, de, novo, se sentindo injustiçado assim.
Eu sento no sofá pra ver um terço de telejornal, e sei o que você está fazendo e o que estaria se estivesse aqui, ou se estivéssemos em outro mundo: nossa vida lá na frente.
Tem um pouco também de telefonar sempre nos mesmos horários, sem perceber, nem combinar.
E tem mais de telefonar sem assunto nenhum. Fazer as mesmas perguntas. Dizer tudo outra vez.
E sentir um tico de injustiça de novo.
Esse urso de pelúcia de presente, vários travesseiros, uns sonhos bons, a espera pela sexta-feira, tudo isso agora faz mais sentido.

O amor tem dessas coisas.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Três Ações incomodam bem demais


Tô com esse texto nas pontas dos dedos desde ontem. Só não sei como começar.

Eu não tenho falado sobre outra coisa que não seja Letras, e sei que já vai cansando. Mudei meu disco lado Psicologia pra esse outro lado do vinil, esse lado sublime das Letras. Mas eu sei e insisto no por quê. Eu acredito demais no poder da leitura. Eu acredito que ler muda pessoas e mundos. Muda escolas, cidades, muda ideias retrógradas. E em se tratando de boas leituras (o que não significa leituras de bons livros), só muda para melhor.

Muito pela criação que tive, pelos genes que recebi, pelo meu pai escrevendo palavras e minha mãe anunciando palavras às vezes sempre, eu cresci sabendo que ler era o hábito mais nobre e urgente de se adquirir. E as estantes e os livros eram muitos. Nunca teve lacuna de literatura na minha casa.

Mesmo com toda a influência, com meu pai me dando Raul Pompeia e Lima Barreto nos aniversários de nove anos, por exemplo, eu só comecei a ler pra valer aos dez. E não parei nunca mais.

Eu não posso me julgar assim tão linda, mas eu sei que ler só me fez (e me faz) crescer. Não é de se ignorar a experiência de viver histórias que não aconteceram, de conhecer pessoas de mentira como se elas existissem. Não dá pra deixar de lado as vantagens da fantasia banal, do floreio, dos mundos diferentes, quando se vive em lugar-comum tão pueril como esse aqui, da nossa vida boa demais, nessa cidade e escolas estáveis demais.

A leitura pode te fazer ser outros, ser muitos. Melhor ainda: pode te fazer ser ninguém, olhando para vários alguéns. E pelo tempo que você quiser. Saber sobre outros, disso os bons psicólogos já sacaram, faz você pensar sobre você mesmo. Suas semelhanças e brigas com os personagens, suas mágoas dos autores que não sustentam sonhos, ou que sustentam sonhos demais, sua decepção com o ponto final mentiroso. Sem simbolismo de final nenhum. Tudo isso vai te fazendo gigante, pelo simples fato de conseguir te colocar defronte outros, tão diferentes, e, o mais importante: concentrando-se neles.

A importância de ler parece que está na importância do seu lugar de espectador, te chamando a atenção para o fato de que existe um mundo fora de você. Existem muitos mundos. Não é possível que você não veja como isso é arma poderosa, destruição em massa: de mesquinhez, do egocentrismos, de sinapses quadradas e rígidas.

Ler transforma você, transforma quem te lê, com quem você conversa e te ouve parafrasear umas linhas que um outro escreveu. Umas linhas sobre qualquer outro assunto não seu, não nosso, que passa a importar simplesmente por que nos tira desse lugar insosso, real, essa vida sem letras que os dias podem ser.

Se as palavras me fizeram mais, em bons sentidos, em importantes sentidos, elas podem fazer isso num mundo inteiro. Depois de fazerem em país, cidades, escolas, casas, pessoas. Começa da gente, é claro. E a gente precisa cutucar quem tá do lado, estendendo uns livros. Precisa cutucar mais gente, e abraçar mais estantes. Precisa acreditar que elas vão ler, porque depois das primeiras páginas, é óbvio, não existe mais volta.

Nas cutucadas, a gente muda alguns, e já muda muito. Há quem diga que Natal tem pouca cultura e pouca literatura porque tem pouco leitor. Mas há quem acredite que o caminho pode ser o contrário: um mergulho de cultura e de literatura pode produzir mais leitores. E vai. E tá sendo. Só precisa da tal cutucada e quem sabe um beliscão.

A terceira edição da Ação Leitura já vem. Em 13, 14, 15, 16 e 17 de maio, vai ter mais literatura em Natal. Vai ter mais palavra, mais autógrafo, mais verso, muita prosa. Até cordel. Tem escolas (públicas e não públicas) no roteiro. Tem leitura até pra quem não gosta de ler. Pra quem não conhece, nunca viu, não sabe como é. Quanto mais gente, melhor. Mais gente melhor.

:)
Vai no link: http://www.jovensescribas.com.br/acaoleitura/

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Eu tô por fora.

A despeito de toda birra que sempre tive, da mania oposicionista desnecessária, do comportamento adolescente de contrariar. Sempre fui difícil de aceitar os planos dos outros para mim. Mas sempre cedi em meio termo, ao final. Dizia 'não' pelo simples prazer de demonstrar que eu era eu, não era eles, nem eles eram eu. Ainda bem pra mim. Péssimo pra eles. Que argumentavam à qualquer custo que "com as notas que eu tinha", "com o gosto de estudar" que era meu, e era verdade, eles, no meu lugar, alcançariam rapidamente os pódios sociais sem significados que significavam demais para eles. Para todos.

Eu disse que não. Depois disse que poderia ir pelo meio do caminho. Hoje me arrependo. Em partes.

Mas também me preocupo e começo a espernear, trazendo à tona meu espírito adolescente agonizante. Cadê um analista nessas horas. Muito caro. Passa.

Hoje eu li numa matéria nacional, jornal de grande circulação, notícia retuitada à exaustão mais pelo turno vespertino. Os adolescentes andam desistindo da faculdade para tentar o emprego público, o concurso, a carreira estável, a possibilidade da casa própria e do carro novo conseguidos via independência de dinheiros. Alguns trancam, outros nem tentam. E muitos dizem: vão fazer um curso superior lá na frente, quando houver a estabilidade, mas para poderem fazer outros concursos para quem tem diploma de facul.

E os sorrisos e os livros não-literários e não-acadêmicos em mãos atestam o futuro brilhante. Na verdade, o futuro estável, raso, morno, cinquenta por cento, mas com todos os sonhos que nossos pais e sociedade nos imbutem hoje. Ou seja, o futuro completo. E está bom assim.

Mais exaustivos que os comentários da notícia foi a quantidade de vezes que fiz o testemunho de adolescente frustrado aqui por esse blog. Eu queria ser jornalista, enlouqueceram. Disseram que tinha que ser Direito ou Medicina, assim como tudo na vida. Eu neguei. Apelei para a Psicologia numa tentativa de agradar a todos. E fiz todos sofrerem no final. ('Todos' inclui eu.)

Nos últimos semestres do curso, eu desisti de pensar em desistir. E simplesmente levei as teorias psicológicas do jeito que elas me caíam: nas coxas, de qualquer jeito. Depois desse "câmbio, desligo", em poucas semanas, eu que vinha sofrendo há oito semestres, então, em duas ou três semanas, tive o estalo ligeiro, que é como acontece com pessoas que têm ideias geniais, para a vida toda: eu deveria fazer Letras. Depois do curso, ou durante, pagando disciplinas, ou lá na frente. Eu iria fazer. Por prazer, por profissão, para nova formação, unir com psicologia ou não unir. Não importava. E ainda não importa. Eu iria fazer aquilo que, visivelmente, iria me deixar feliz em fazer (não em ter, manter, ostentar, me foder).

Eu ainda não sei bem o que fazer com essa bagagem pesada e confusa que estou arrumando. Um diploma não-tão-desejado, um mestrado desejado para esse diploma sem muito tesão, e uma nova graduação que parece fazer meu cérebro e meu coração sorrirem, ao mesmo tempo.

A certeza sobre fazer Letras tornou-se maior quando eu paguei, no sorteio, uma disciplina que era deles. Mas como a universidade federal tem dessas vantagens, eu, dois terços psicóloga, podia experimentar o outro curso, e decidir qual seria a do próximo vestibular. (Uma boa ideia para uma sociedade ideal com adolescentes cheios de ideais: experimentar o curso superior, pensar, fazer o Enem.) Nessas terças-feiras insossas, de quatro horários noturnos, eu assistia a simples alunos querendo fazer a ação mais nobre que se possa fazer em vida: ensinar. E eu assistia a um professor que ensinava nobremente, apaixonadamente, que sem arrogâncias, contaminava qualquer dos seus vinte e poucos espectadores com um prazer absoluto em ensinar, em ensinar a ler. Ele me contaminou com as obras de que falava, sobre as quais se debruçou ou derramou, ou que criticou de um jeito voraz e humano como se daquela aula dependesse a vida dele. E dependia. Por que não dizer.

Eu nem sempre queria que a aula terminasse. Eu sempre queria que a aula terminasse logo, para eu ir embora estudar e ler aquele mundo que não só parecia, mas que é belo de verdade, e a gente vive de esconder-se dele, como Narcisos de espelhos. Basta uma olhada nesse espelho para a gente... enxergar.

Eu me permiti. Eu não desisti do sentido no que eu esteja fazendo; do prazer e da beleza do que quer que eu faça. Eu me desesperei, primeiro. Antes de tudo porque considerei as possibilidades escorregadias do salário e do status. Depois desse tudo porque eu havia feito a escolha pensando somente no salário e no status.

Quando reconheci o relevante como irrelevante, e quando o contrário também aconteceu, vendo o então supérfluo ser o que realmente nos move (mas estão escondendo esse outro segredo de nós, hoje adolescentes conformistas), eu me tornei uma outra. Eu fiquei grande, de verdade. Eu virei adulta.

E ainda aposto em tudo isso. Em uma ideologia barata que me salvou. Lamento a vida rasa que é a linda da vez, e lamento mais ainda a ausência do inconformismo, do idealismo, do romantismo tão típico de quem é dois terços adulto, e de todos os ismos que só conhece e gosta quem aprendeu a senti-los um dia.

Se um dia eu me convencer de que estou errada, não vou esquecer do que disse. Volto aqui para retomar as rédeas, e me desculpar. Desculpar pelo meu ato falho (literalmente), até porque não me responsabilizo, não estou aconselhando que vocês façam nada do que eu disse... Sim?