terça-feira, 28 de maio de 2013

É(,) uma cachorra

Hanna chegou aqui em casa como a maior parte dos cachorros chegam em novos lares: parecendo um pelúcia, provocando um cuidado e um apego aqui imediatos por causa dos olhos apertados, trazida por um irmão mais velho que deliberadamente pagou pelo animal para trazê-lo para casa e fazê-lo membro da família, mas guardando para sempre esse detalhe financeiro omitido em todos os lares porque parece ultraje. E é.

Ela deixou de ser cachorro sem demorar. Houve uma vez em que disse que tava saindo pra "pegar a cachorra no pet shop", e minha mãe me repreendeu com os olhos sinistros de repúdio dizendo que aqui não tinha cachorra nenhuma. Só se fosse eu.

Pois bem. Hanna tem o hábito de saudar visitas e habitantes da casa (mesmo recém-saídos para deixar o lixo fora) com gritos e choros. Ela não late, e poucas vezes pula pra trepar nas nossas pernas, como os cachorros fazem sempre. Ela se emociona e grita de alegria, abana o rabo e anda em círculos à procura da posição mais fetal possível, pronta pra ser feito de bicho de pelúcia de novo. Isso pode acontecer uma dezena de vezes em um dia. Em um turno. Foi a cultura que ela apresentou ao nosso lar, e que a gente respeita. Os vizinhos nunca reclamaram.

Em pouco tempo, Hanna mostrou-se adepta do veganismo absoluto, reagindo mal às carnes e aos leites. E come uma ração vegana especial. Vive bem, é feliz, o pêlo brilha e seus dentes ficaram mais saudáveis depois que deixou os hábitos carnais. Também deixou os hábitos carnais de outro tipo. Porque bem cedo ela deixou clara sua opção celibatária. E foi preciso morder urrar e atacar machos desprevenidos. E também veterinários desprevenidos e seus termômetros anais. Mantém-se casta e independente. Engravida psicologicamente só às vezes, porque seu organismo demora ainda a aceitar sua opção filosófica religiosa sexual de vida.

Tem hora pra dormir e pra acordar, e é bom que façam silêncio. Detesta que a acordem chamando para se levantar da poltrona e ir pro quarto. Faz o que a maior parte dos humanos sente vontade de fazer nessas horas: morde. Ameaça. Rosna. E volta a dormir com cara de rainha.

Seu sinal de velhice foi quando passou a dormir sentada. Como todo velho, especialista que é em dormir sentado. Ela que frequentemente senta à mesa junto com a gente (fica no chão, ao lado, esperando uma porção de banana com granola ou uvas que possam surgir), muitas vezes senta e cochila. Espera. A idade, o celibato e a vida vegana fizeram dela mais paciente e circunspecta também.

Minha mãe a repreende se Hanna arrota ou solta pum. Desde bem pequena.

O perigo não é os cachorros ficarem cada vez mais parecidos com os humanos. Mas ficarem cada vez mais parecidos com cada um de nós. E também acho terrível essa coisa de tratar cachorro como se fosse gente. Hanna não merece uma ofensa dessas, vá lá.

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