terça-feira, 28 de maio de 2013

Em carta

Falei que não ia demorar a escrever, mas já se passaram meses. Eu estudei menos do que devia e vi mais filmes do que devia. Não cortei mais o cabelo. Tu tem que ver. Eu não consigo mais nem prender o cabelo. Eu tenho comprado cadernos como se fossem doses homeopáticas de felicidade. E escrevo dentro dos cadernos minhas doses nada homeopáticas de tristeza e solidão. Eu nunca senti tanta solidão.

Porque você foi, porque você foi e demora pra vir, porque agora tem um mar de distância e um tempo infinito entre a gente. Ao mesmo tempo que minha ampulheta por aqui quase cessa. Ando no fim dos prazos, estudando pouco, vendo filmes demais, postergando os trabalhos, escrevendo solidões. Enfim.

O só é o que mais me incomoda. Postergar demais e estudar de menos não é um problema. Aliás, comecei a botar a culpa da procrastinação e da falta de ensejo na ausência repentina de pessoas. Porque quis, mesmo. Fiz arbitrário porque quando as coisas dão errado, é assim que eu sou. Acho que é assim que tem que ser. Ainda. Porque pior que a ausência de pessoas, é a presença maciça de pessoas ausentes. Me dói.

Eu ouvia dizer que as distâncias e os mundos diferentes vinham, a gente via menos uns aqui, outros ali, enquanto se encontrava mais com uns outros, com a distância como única facilitadora dessa entropia rebuliçosa. Rebuliçosa não é palavra que se diga. Acho que não existe. Eu não ouvia dizer que as pessoas podiam ser outras.

Que lá na minha sala de aula anda todo mundo cada um por si. Não enxerguei um grupo nem uma calmaria. É uma tensão bem grande, parece que têm ali uns corações apertados, ou uma falta de corações apertados, substituídos por uma urgência que eu não conheço. Que eu não entendo. E as pessoas que ficam comigo ali estão fora. É uma sala cheia de gente ausente, cheia de gente dentro de si próprio, com menos abraço simbólico. (Você lembra daquele nosso papo sobre abraço simbólico.)

Também não consigo captar atenções. Aliás, não entendo atenções. Tenho tido que dividir atenções com celulares e câmeras em celulares, cada vez mais. Cada vez mais fones, cada vez menos ouvidos. Menos ouvidos e olhos. Isso me dói. Mas nem posso espalhar uma coisa dessas por aí. Já vês as bocas comprimidas nos cantos, uns olhares de desdém que não são dirigidos a mim, mas são pensados para mim, porque não se mantêm em mim, nem em pessoa nenhuma. Mas que desdenham, sim. Olhares que se detêm nas telas e nas letras a digitar. Na conversa tórrida mantida via sinais telefônicos - conversa sem vozes.

As palavras estão duras. Sinto uns humores engessados por perto. Essa absorção dentro de si mesmos, essa absorção dentro de telas que plainam como isqueiros em shows de roque de outras décadas. Essas luzes que acompanham superfícies de mesas e carteiras, absorvendo os olhos e os povos absortos.

Vem tudo isso ao mesmo tempo. Sem relação nenhuma comigo mesma. A postergação, os fios de cabelo, os cadernos, os absortos. A competição por atenção e por um pouco de olhar. Tá mais difícil aperceber-se de quem se dói, de quem comemora, de que não corta mais os cabelos. Dá pra sentir tudo ao mesmo tempo, transmitindo por aqui uns ditados sobre sentir-se só em meio a gentes ausentes. Há demais.

E parece que acrescem certezas esquisitas. As pessoas podem ser outras pessoas. As pessoas podem virar outras. E você deve estar preparado para perder pessoas. Que continuam aqui. Mas não.

Inclusive você mesmo.

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