segunda-feira, 27 de maio de 2013

Eu, meus livros e nós dois

Eu demorei um pouco pra perceber o valor do livro. Não o valor simbólico, bonito, dito feito, de que ler é importante e é vida e é tudo o mais que se pode ter. Para isso eu também demorei um pouco, até que é verdade. Mas falo do valor afetivo, sentimental, patológico, inclusive, com um teor de propriedade privada (no sentido estrito do termo).

Eu pedia e emprestava livros quando eu comecei a ler um pouco. Era início da minha adolescência, e eu achava que era normal, certa, e corriqueira essa troca de livros. Que hoje eu encaro como uma suruba. Um desrespeito medonho, uma falta de apego coletiva, se a troca é desmesurada e natural demais. Empréstimo de livro não é natural demais. Não pra mim, já há um tempo. E acho que nunca mais há de ser.

Antes, livro era só um livro. Uma história, uma boa história, e que bom que seria e que era compartilhá-la. E então podemos conversar depois sobre os personagens, sorrir falando dos finais felizes, quem sabe. Me empresta um outro aí seu, e eu escarafunchava estantes numa alegoria do que hoje conhecemos como furação de olho. Pra mim é mais ou menos isso.

Quanto mais fui gostando de ler, mais gostei de ter livros. Meus. Mais sublinhei, risquei, pensei sobre aqueles autores dentro de suas cabeças, aqueles personagens dentro de suas páginas, aquelas histórias de ficção que pra mim eram reais e nas quais eu tinha um nariz metido bem no meio delas. Eu estava no meio das histórias e as histórias estavam diluídas aqui por mim. Havia intimidade naquele livro, e houve um prazer, um gozo, uns segredos, cochichos. Umas anotações à margem que eram pro personagem ou pro autor. Ou pra mais ninguém que não fosse eu.

Viraram tesouros resumidos à alguns centímetros e peso em gramas, que ficam bonitos e bem organizados numas prateleiras brancas ou marrons, que pela vida a gente providencia. Eu deixei uns pedaços meus nos livros, e olhava para eles com carinho. Eu passei a sentir necessidades abruptas de abri-los e ler alguns trechos, num repente, pois em que dependendo do dia e circunstâncias afetivas, aquilo me seria importante. Aquilo me salvaria. E era verdade. Acontecia.

Eles me valem demais. Eles são meus, em todos os sentidos amplos que essa frase consiga abraçar. Esses livros, histórias e letras são minhas. E eu sou bem deles.

Emprestá-los é afronta contra minha religião. Mas passivo de perdão em circunstâncias bem específicas e especiais. Em caso de linda história, de livro cheio de verdades, de eu não poder dá-lo de presente no momento, de a pessoa necessitar lê-lo (segundo minha opinião, exclusivamente, por motivos que eu julgue apropriados e urgentes, exclusivamente), de a pessoa não poder adquiri-lo por outras vias sob nenhuma hipótese, de ser alguém meu preferido, que eu saiba onde mora, tenha todos seus telefones, e reconheça na rua parentes de até terceira geração, eu até empresto. E não demoro a procurá-los, de volta. Sinto falta. Eles são meus, eles estavam bem aqui, eu sinto falta.

Um comentário:

robertassuncao disse...

Nossa, eu quase pegava o livro que vc emprestou a Daniel para ler. Ia ser uma fronta não-intencional.