quinta-feira, 2 de maio de 2013

Eu tô por fora.

A despeito de toda birra que sempre tive, da mania oposicionista desnecessária, do comportamento adolescente de contrariar. Sempre fui difícil de aceitar os planos dos outros para mim. Mas sempre cedi em meio termo, ao final. Dizia 'não' pelo simples prazer de demonstrar que eu era eu, não era eles, nem eles eram eu. Ainda bem pra mim. Péssimo pra eles. Que argumentavam à qualquer custo que "com as notas que eu tinha", "com o gosto de estudar" que era meu, e era verdade, eles, no meu lugar, alcançariam rapidamente os pódios sociais sem significados que significavam demais para eles. Para todos.

Eu disse que não. Depois disse que poderia ir pelo meio do caminho. Hoje me arrependo. Em partes.

Mas também me preocupo e começo a espernear, trazendo à tona meu espírito adolescente agonizante. Cadê um analista nessas horas. Muito caro. Passa.

Hoje eu li numa matéria nacional, jornal de grande circulação, notícia retuitada à exaustão mais pelo turno vespertino. Os adolescentes andam desistindo da faculdade para tentar o emprego público, o concurso, a carreira estável, a possibilidade da casa própria e do carro novo conseguidos via independência de dinheiros. Alguns trancam, outros nem tentam. E muitos dizem: vão fazer um curso superior lá na frente, quando houver a estabilidade, mas para poderem fazer outros concursos para quem tem diploma de facul.

E os sorrisos e os livros não-literários e não-acadêmicos em mãos atestam o futuro brilhante. Na verdade, o futuro estável, raso, morno, cinquenta por cento, mas com todos os sonhos que nossos pais e sociedade nos imbutem hoje. Ou seja, o futuro completo. E está bom assim.

Mais exaustivos que os comentários da notícia foi a quantidade de vezes que fiz o testemunho de adolescente frustrado aqui por esse blog. Eu queria ser jornalista, enlouqueceram. Disseram que tinha que ser Direito ou Medicina, assim como tudo na vida. Eu neguei. Apelei para a Psicologia numa tentativa de agradar a todos. E fiz todos sofrerem no final. ('Todos' inclui eu.)

Nos últimos semestres do curso, eu desisti de pensar em desistir. E simplesmente levei as teorias psicológicas do jeito que elas me caíam: nas coxas, de qualquer jeito. Depois desse "câmbio, desligo", em poucas semanas, eu que vinha sofrendo há oito semestres, então, em duas ou três semanas, tive o estalo ligeiro, que é como acontece com pessoas que têm ideias geniais, para a vida toda: eu deveria fazer Letras. Depois do curso, ou durante, pagando disciplinas, ou lá na frente. Eu iria fazer. Por prazer, por profissão, para nova formação, unir com psicologia ou não unir. Não importava. E ainda não importa. Eu iria fazer aquilo que, visivelmente, iria me deixar feliz em fazer (não em ter, manter, ostentar, me foder).

Eu ainda não sei bem o que fazer com essa bagagem pesada e confusa que estou arrumando. Um diploma não-tão-desejado, um mestrado desejado para esse diploma sem muito tesão, e uma nova graduação que parece fazer meu cérebro e meu coração sorrirem, ao mesmo tempo.

A certeza sobre fazer Letras tornou-se maior quando eu paguei, no sorteio, uma disciplina que era deles. Mas como a universidade federal tem dessas vantagens, eu, dois terços psicóloga, podia experimentar o outro curso, e decidir qual seria a do próximo vestibular. (Uma boa ideia para uma sociedade ideal com adolescentes cheios de ideais: experimentar o curso superior, pensar, fazer o Enem.) Nessas terças-feiras insossas, de quatro horários noturnos, eu assistia a simples alunos querendo fazer a ação mais nobre que se possa fazer em vida: ensinar. E eu assistia a um professor que ensinava nobremente, apaixonadamente, que sem arrogâncias, contaminava qualquer dos seus vinte e poucos espectadores com um prazer absoluto em ensinar, em ensinar a ler. Ele me contaminou com as obras de que falava, sobre as quais se debruçou ou derramou, ou que criticou de um jeito voraz e humano como se daquela aula dependesse a vida dele. E dependia. Por que não dizer.

Eu nem sempre queria que a aula terminasse. Eu sempre queria que a aula terminasse logo, para eu ir embora estudar e ler aquele mundo que não só parecia, mas que é belo de verdade, e a gente vive de esconder-se dele, como Narcisos de espelhos. Basta uma olhada nesse espelho para a gente... enxergar.

Eu me permiti. Eu não desisti do sentido no que eu esteja fazendo; do prazer e da beleza do que quer que eu faça. Eu me desesperei, primeiro. Antes de tudo porque considerei as possibilidades escorregadias do salário e do status. Depois desse tudo porque eu havia feito a escolha pensando somente no salário e no status.

Quando reconheci o relevante como irrelevante, e quando o contrário também aconteceu, vendo o então supérfluo ser o que realmente nos move (mas estão escondendo esse outro segredo de nós, hoje adolescentes conformistas), eu me tornei uma outra. Eu fiquei grande, de verdade. Eu virei adulta.

E ainda aposto em tudo isso. Em uma ideologia barata que me salvou. Lamento a vida rasa que é a linda da vez, e lamento mais ainda a ausência do inconformismo, do idealismo, do romantismo tão típico de quem é dois terços adulto, e de todos os ismos que só conhece e gosta quem aprendeu a senti-los um dia.

Se um dia eu me convencer de que estou errada, não vou esquecer do que disse. Volto aqui para retomar as rédeas, e me desculpar. Desculpar pelo meu ato falho (literalmente), até porque não me responsabilizo, não estou aconselhando que vocês façam nada do que eu disse... Sim?

3 comentários:

Andressa Hazboun disse...

De vez em quando dou uma lida nos teus textos. Nunca os comento, mas adoro. Esse, em particular, me tocou e me confirmou a admiração profunda que tenho por você.

beijos!

Isadora Guedes disse...

Bia, posso postar parte do seu texto no meu blog?
Me identifiquei muito com boa parte dele que fala justamente de uma fase que estou passando agora!
Posso?? Rs..

Bia Madruga disse...

Claro, Isa! Vá lá postá-lo!
:**