sexta-feira, 24 de maio de 2013

Lugar de gênios burros

E o que estão fazendo com a ciência.

É primeiro dia de aula na nova vida da pós-graduação, nos novos tempos de achar que sabe bem o que fazer da vida, quando o professor retoricamente pergunta pra turma. Vocês estão aqui pra que, gente?!. Minha mente pueril responde bem rápido e bem pura: pra fazer pesquisa, professor. Mas antes que minha voz pueril diga o mesmo: "Estão aqui pra ser professor, não é?!".

Não, professor. Eu vim aqui pra fazer uma pesquisa mesmo. Pra fazer ciência. Produzir conhecimento. Essas coisas bonitas que se diz quando se faz uma pesquisa bem boba no universo de um universo (de fato) de pesquisadores mais experientes e mais sabidos do que eu. Que pesquisam coisas mais urgentes. Mas isso não diminui a importância do que estou fazendo, já sei, eu comprei essa ideia e ela faz sentido hoje e... Não. O mestre que é doutor me diz: vocês fazem mestrado e doutorado para ser professores em uma universidade. Eu grito ENCONTRE O ERRO. Mas continuam todos com cara de paisagem e conformismo e concordância absoluta. Como se o professor falasse sobre como é bom o Intermitências da Morte, do Saramago.

No meu último ano da faculdade, a despeito da crise ainda em andamento, e da certeza sobre fazer Letras, independente de que rumo minha vida profissional levasse, meu interesse foi repuxado pelos Transtornos Invasivos de Desenvolvimento, e eu queria fazer pesquisas nessa área a partir de então. Meu plano, na minha mente pueril, novamente, era debruçar-me em cima do autismo, durante um mestrado bem bonito que eu iria fazer, e então aprofundar isso aí em uma tese de quatro anos de duração. Meu mestrado e meu doutorado implicariam uma prática contínua; a consequência do meu mestrado e do meu doutorado, obviamente, era única: colocar minhas descobertas em prática.

Sim. Que quando você faz uma pesquisa, você faz descobertas. Apesar de nem sempre parecer - se tu vir as pesquisas que eu vejo por aí, hun, não parecem nem são. Mas então. Quando você estuda o assunto de seu interesse ao longo de seis anos ou mais, pratica-o, e, felizmente, descobre algo que deve ser feito sobre ele, ou, em hipóteses mais tristes, mas igualmente válidas, o que não deve ser feito sobre ele, você então pega essas centenas de páginas e espreme no quê?, na prática. Você estuda, descobre, divulga, e faz. Estuda, descobre, divulga, e faz. Não é assim, universitários!?

Não. Quando eu relatava meu (então óbvio) planejamento, meus professores arregalavam os olhos e me preveniam: não faça isso, pelo amor de Deus, não faça isso, pelo amor de Deus não, pelo amor do seu Lattes e da burocracia do Comitê de Ética; esqueça! Às vezes eu rebobinava a fita e verificava se eu tinha dito realmente o que eu tinha pensado em dizer. Ou se no lugar tinha saído um "professor, vou virar jornalista", "professor, meu sonho é ir pra Banheira do Gugu". Mas não.

Todos meus professores (bons e ruins), não deixaram dúvida: quer ser psicóloga de autista, então vai trabalhar. Faz aí uma especialização. Não perca seu tempo [sic] com pesquisa, se você não quiser ser professora.

De novo, ENCONTRE O ERRO. Mas ninguém se manifestou.

Meus bons professores disseram claramente para eu reproduzir conhecimentos. Em outras palavras, ou nessas mesmo, foi isso que eles me disseram. E complementaram: se quer produzir conhecimento, fica aqui, faz suas pós-graduações, namora alguém do Comitê de Ética pra facilitar tua vida, e vai dar aula pros alunos. Eu parei de pedir que encontrassem o erro. O erro só quem via era eu. E como minha esquizofrenia em potencial por vezes se manifesta, deixei estar. Eu não consegui provar o contrário.

Não pode ser permitido, não é sensato, muito menos ético, que fazer pós-graduações acadêmicas tenha como finalidade ser professor de uma universidade. Ser professor é consequência última de uma sequência intricada de estudos extensos, de práticas importantes, de experiência e autoridade no assunto que se ganha. É consequência, às vezes até acaso, mas não é fim. Não pode ser.

Fazer pesquisa não me dá o direito de ensinar. Não me dá o direito de formar ninguém. Fazer pesquisa me dá a obrigação de aplicar a pesquisa. De pegar essa tese rechonchuda e dilui-la na minha clínica particular, na unidade básica de saúde, na ongue, no lugar que seja. Na população que seja. É ela, a população (a de onde é retirada a amostra, lembra?!) quem precisa da minha pesquisa, não sou eu, nem o portal de periódicos.

Essa reprodução esquisita e horrorosa da ideia de que devemos ser doutores para ser professores está arreganhando um tumor lá pelo Departamento de Psicologia, e talvez por muitos outros: temos, cada vez menos, professores psicólogos. Menos professores com experiência em ser psicólogo, em praticar, em estar acostumado e exaurido com tanta empatia que forneceu na vida. Temos professores intelectuais, que pesquisam, produzem, divulgam via jornais de periódicos, o que não significa divulgar, no sentido amplo da palavra, menos ainda pôr em prática, toda sua intelectualidade. E quem eles estão formando? Pesquisadores. Psicólogos é que não estão.

Eu ainda não vejo despropósito no meu projeto inicial. Aplicar a pesquisa à prática. Dizem que os países que mais investem em pesquisa e que têm os maiores índices de desenvolvimento humano fazem por aí. Dizem. Vai que. Eu não vejo despropósito em me matricular em pós-graduação stricto sensu para fazer uma pesquisa. Assim, simplesmente. Minha resposta é essa. Sempre foi, ainda será. Tenho outros interesses e motivos, é óbvio, os quais não envolvem ser professora de psicologia, ainda bem (para os alunos), mas o intuito que mantenho é esse.

Não posso ser professora se não consumir uma experiência. Não posso ser pesquisadora se não desmembrar minha pesquisa em fatos reais - o que não significa voltar à comunidade e apresentar sua dissertação com os dados, distribuindo autógrafos. Não posso. Se for pra ser assim, tá feio, tá errado, tá anti-ético demais. Tá até bem vergonhoso.

Esses egos robustos encobriram o objetivo precípuo do conhecimento: mudança. Da ciência: desenvolver. E se for pra continuar tudo assim, na falácia, é preciso que vocês parem com esse toc horroroso de dizer: não consegui coletar os dados, porque a escola não deixou eu fazer pesquisa lá!, acredita? Nem o hospital. A ongue. A comunidade hippie. Ninguém valoriza a ciência, só nós mesmos, meu Lattes e meu orientador. Assim não dá pra fazer pesquisa nesse país!

A sociedade desvaloriza ciência. Porque desconhece. Desconhece por ignorância, e não a ignorância pejorativa, da estupidez, (a que parece ser a que vocês têm), mas a de nunca ter sido apresentada a ela. E parece que ela continua apenas ouvindo falar, se sujeitando de quando em vez a uns malucos que dizem fazer a tal da ciência, mas que estão ali cumprindo uma tabela besta, caminho pequeno, porque seu fim único não é fazer nada, de fato. Mas dizer que fez. Para então contar pros alunos assim que passar no concurso certeiro.

Fazer pesquisa para o quê? Fazer pesquisa para quem? ENCONTRE A RESPOSTA.

Um comentário:

-sOliNo- disse...

esse é o principal motivo por que eu me recusava há anos a fazer pós. meu prof glenn me convenceu que fazer mestrado não é necessariamente para ensinar e neste ano eu vou tentar. aliás, esse tumor que vc fala já ocupou o curso de jornalismo da UFRN: lá está entupido de doutores e "pós-doutores" que nunca escreveram um artigo jornalístico na vida (só artigos científicos para o portal de periódicos) e são eles que estão formando nossos "jornalistas".