quinta-feira, 30 de maio de 2013

Sobre Barbas

Não é preciso advogar em favor de livro sobre o qual todos advogam a favor. Sobre o qual quem se debruça se destrambelha logo em dizer que você leia, que você não pare, que você vai gostar e vai entendendo o tudo aos poucos e no final haverá mais e melhores coisas ficando claras. No final, o livro, a história, o personagem e você ficam melhores. As verdades expostas vão comunicar outros mundos pra você. Vão falar mais de um mesmo mundo que você pensa que conhece. Você não sabe de nada. Você não sabe de muita coisa.

Poucas semanas antes da Barba Ensopada de Sangue eu tinha lido texto de Ana Elisa sobre poeta não ser eu-lírico, autor não ser narrador. E não é. Nunca é. Mas às vezes a gente aposta em se confundir, porque faz sentido a confusão.

Barba Ensopada de Sangue tem narrador, protagonista e personagens que parecem beber em quem os escreveu. E talvez seja pecado e seja feio o leitor ir assim, misturando as coisas, apontando os segredos nas linhas, como se ter conhecido o autor antes de conhecer a história do romance te desse um poder maior sobre suas barbas. E você se pega escarafunchando, algumas vezes. Como que fazendo fofoca. Mas é acidental e consegue costurar ideias e cenas, sobre a pastora australiana e os olhos meio afundados no crânio. O sujeito calado e disciplinado que só falava quando precisava. A impressão constante de estar chegando sem se aproximar. A descritiva e prontamente concebida sensação de silêncio. E uma ideia simples de um sorriso sério. Vai tudo isso em um caldeirão poderoso. E parece que assim faz mais sentido.

Porque o livro chega denso, com casca (capa) simples sem beleza e com sua beleza, e te puxa pra mergulho profundo. O fundo é silêncio. A água é protetora e retarda o tempo. Mas a superfície é o inferno. Ele não te dá o personagem de presente. Ele coloca você dentro dele. Ele te põe pensando bem igual, porque, em verdade, essa barba que cresce tem pensado e sentido nossos monstros, em superfície, fala de nossos monstros em profundidade. Até e mais quando não diz nada.

Esse sujeito que descreve, observa e escaneia, que por isso sabe de uma beleza fugaz e a reconhece várias vezes de novo, e de novo, incapaz de odiar, necessariamente inimigo do perdão, que não faz sentido. E você prontamente sorri e concorda porque ele pensa igual a você. Você pensa igual a ele, perdão (ops.). Tem um monte de gente afundada nessa figura, se contorcendo de prazer a cada verdade que ele diz. Ele personagem autor narrador. Agora não sei bem de quem que falo.

Os personagens não dados de presente, que te engolem, são reais quase tanto quanto o livro. Que é vivo. É um livro de cenas, cheio delas, e que guardei bem as fotografias coloridas e líricas comigo. Umas verdades bem-humoradas e um lirismo que perdoa a agressividade com que às vezes se conta. É um romance de romances belos, de cenas intensas sem nunca ser tórridas, esse adjetivo da vez que é feio e desnecessário nas boas histórias.

Um livro cujas cenas não se esquecem dispensa defesa. Um livro cujos personagens são reais porque são nós e nossas superfícies de inferno dispensa a persuasão por cima dele. A persuasão, essa coisa obscena.

O último capítulo é o melhor capítulo do livro. Os outros doze são inteiramente maravilhosos. Com a pieguice real que me seja permitida. Tive de chorar em algumas das cenas. Que o autor o narrador o personagem enfiaram seus dez dedos em feridas nossas que não saram. Em feridas nossas que latejam. E é preciso sentir essa dor ao mesmo tempo que se lê. É um ritual que faz parte de um livro real com personagens reais. Tô te falando.

Depois de alguns dias a gente retorna do mergulho. Retoma nós mesmos com doses de humor e honestidade retiradas dessas pessoas reais do livro. A superfície de inferno, que sou eu, parece agora de menos inferno, até.

Há apenas dois lugares possíveis para uma pessoa. A família é um deles. O outro é o mundo inteiro. Às vezes não é fácil saber em qual dos dois estamos. Parece que o livro ajudou a descobrir. Mas para ter certeza é preciso lê-lo de novo.

Uma história para sempre. Um autor um narrador um personagem espichados para a posteridade.

Um comentário:

Vanessa Augusta disse...

Mas falando desse jeito bem se advoga. E ele entra pra lista das próximas aquisições!