quarta-feira, 29 de maio de 2013

TV à mesa

Mas bem antes dos esmartes fones, ái fones, mais fones, ela chegou pra dizer muito bem quem é que manda. E quem é vanguarda na história. Quando no bar e no restaurante a gente divide (compete, esgana, engasga, desiste) as atenções com as telas minúsculas, quando em casa, mais ainda, na casa de quem não é geração Yfones, a hora do almoço tem na mesa junto com feijão, arroz e azeite, a televisão.

Quando todos os dias almoço na casa da família, com mais gente além de mim mesma (quando eu almoçava em minha casa, eu almoçava comigo, somente, e com Hanna, vide relativamente o post anterior), a tv é a primeira a se sentar. Aliás, ela é convidada de honra. É aquele parente que só os mais novos acham desagradável, os menos criteriosos acham-na até valiosa, e os muito velhos simplesmente acostumaram-se à sua presença e conseguem trata-la com uma naturalidade que às vezes se aproxima da indiferença. (Mas que se a convidada não estiver presente, não conseguem ser indiferentes. Piram.)

Não se começa a almoçar antes de encontrar o controle remoto. Primeiro o controle. Depois o ajuste do canal. Uma olhada rápida no taileur da apresentadora do jornal. Procura o lugar, alisa o prato, ouve um pouco a convidada sentada junto conosco, e só então começa a colocar as conchas e colheres de comida. Ninguém fala. Todos estão ali com um propósito de grupo, aliás, é família, que nem sempre é um grupo, menos ainda família, mas faz de conta que é pra ser, e que o horário do almoço coloca mais sentido nisso. Pois então. A tv fala sem parar. A tia do interior, pois é. Assim mesmo. E a gente ouve, todos mudos, seus relatos cotidianos. Antes fossem só relatos. Temos a imagem grotesca brigando por atenção, o anúncio da cerveja com uma mulher que fala da cevada enquanto espreme os peitos para eles parecerem maiores, as fotos do acidente de carro, dos corredores do hospital público, de crianças pedindo esmolas e vivendo no lixão, por exemplo. (Mas esse aqui era a novela que passava. Horário de jantar. Confundi o convidado!)

E a gente come e assiste aos jornalistas comentando sobre uma degradação política e social diárias. A gente come e assiste a essa degradação cotidiana e faz isso como rotina, diga aí, cotidiana. E os mais velhos tratam com indiferença, os menos criteriosos como algo importante de se estar ali. Eu nunca entendi por quê.

Na mesa, com duas, quatro, seis pessoas, conversa-se pouco, ou fala atravessado às notícias ruins. E sempre tem alguém mandando um desavisado calar a boca porque precisa ouvir da moça que atropelou o pedestre, e tem que ser agora, na hora do almoço. Ou do rombo milionário que acontece com o dinheiro que a gente paga todo mês, no imposto. Pegaram esse dinheiro e trocaram em caviar. Esse dinheiro que a gente ganha espremendo nosso horário de almoço e nossa refeição onde nunca falta essa convidada. Mas é preciso ouvir agora, é preciso saber da notícia ruim, da miséria e da pobreza, logo agora, quando eu separei vinte minutos do meu dia para não pensar em nada. Para comer e ouvir comentários indesejados sobre minha roupa e meu cabelo. Era só isso. Ia ser mais simples. Mas finjo a felicidade do apetite enquanto escondo os olhos e os ouvidos dos pacientes em leitos de corredor, dos pacientes sem leitos, do abuso sexual, e do auxílio moradia aos nossos deputados federais.

Eu não gosto dessa convidada no meu almoço. Eu não gosto dela quase nunca, mas nesses vinte minutos acho que ela sair pra uma passeada. Se quisesse voltar depois eu ouviria sobre o último atropelamento. O tornado. A bomba atômica. Não teria grandes problemas.

Mas ninguém deixa. Ou ela senta à mesa ou ninguém come. São as regras de algumas famílias.

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