quinta-feira, 27 de junho de 2013

Listas e rugas neles

Antes da gente virar adulto, ou antes da época em que a gente começa a achar que já virou adulto, a ideia de vida e de viver tem seu teor de previsível, até pragmático. A gente, bem jovem, não só sonha, como imagina, planeja e afirma com certezas a consecução de todos os objetivos, e a vida irreversivelmente bela que teremos pela frente. A gente já sabe qual faculdade, emprego, e salário vai ter, a gente já marcou o príncipe com um alfinete, e ele tá vindo, a gente sabe que vai se virar bem entre trabalho, casa, filhos, em salto alto. A gente desvela todos os passos futuros naquelas brincadeiras de lápis-e-papel que dizia até com que idade cada um desses passos ia acontecer. E vai dar tudo certo.

Evidente que imaginação e objetivos assim metodicamente organizados é coisa de virginiano e de passado. Também é o que acontece antes do primeiro chifre, da primeira faculdade, do primeiro não-salário e da fase de desemprego quase obrigatória depois da colação de grau. E antes do primeiro intercâmbio, do primeiro amor platônico alcançado, do primeiro livro incrível que te transformou inteira. Esse metodismo exagerado e de sonhos acontece antes da gente virar adulto e descobrir, pasmando, que a vida e a história da gente são bem grandes, são maiores que os planos, são desmedidas, e não se apertam em caminhos com degraus.

Menina, quanta bobagem. O problema foi que eu abri demais os olhos e os braços, respirei demais as possibilidades que eu comecei a farejar e a enxergar por perto e por longe de mim. Achei que a vida era esse mais, esse tudo. Volta a fita. Nossos jovens estão escrevendo seus futuros em listas extensas e com canetas permanentes. Eu juro.

Me assustei com a ala feminina dos vinte e poucos tensa pelo casamento que não chegava. Pelo pedido de casamento. Pelo príncipe de joelhos e casa própria convidando-as para um deleite de vida a dois. Tá todo mundo espalhando que é um deleite a vida a dois. E que esse é o único caminho para ser feliz. Mas tá. Primeiro fiquei assustada. Segundo fiquei confusa.

Não bastasse o ideal de conta bancária estável e mensalmente previsível para os próximos cinquenta anos, via concursos públicos sem significado, não bastasse o ensino superior voltado para mercado e status e não para sonhos, não bastassem as academias lotadas de pessoas que só pensam em suas bundas - artifício para alcançar metas outras nessa vida de lista enumerada.

Eu pedi que apagassem esses números das listas. Que esquecessem essa ordem absoluta. A ordem pode mudar. E até arrisquei e disse mesmo!: tem uns números aí que podem até não estar, que tu pode até apagar! Ninguém acreditou. Começaram a espernear, e, depois, a achar boba demais essa minha conversa de que uma vida adulta diferente da listada era possível. Bia radicalizava.

Acontece que em minha curta, bem curta, existência por aqui, eu que já ocupei os dois pólos, o da lista cheia de sonhos que a gente chama de metas e que acredita serem irrevogáveis para a felicidade, e o da não-lista, ou seja, o da vida com seus cinco sentidos. E por aí eu devo ter conhecido uma meia dúzia de pessoas realmente incríveis. Realmente incríveis. No sentido radical e da vida diferente que vocês me acusam. (O que não quer denunciar, veja bem, que esses extraterrestres não alcançaram alguns dos itens da lista de felicidades presumida por vocês.)

Então. O que falo é da ausência de lista e de objetivos fechados em grades tão fortes; é o que me autoriza a vir aqui chamar os sujeitos de incríveis. A ideia de viver sem enumerar futuros, dessa forma, sem perseguir metas-padrão, metas não suas, metas que te mandaram vigiar desde que tu começou a brincar de bonecas e bonecos, menina, isso pode transformar um punhado de gente. E, sabe o que mais?, tu que tá na academia pensando nos músculos da bunda, essa ideia tão "radical" parece que faz mais que Renew: não te envelhece, ao mesmo tempo que te deixa cheia de vida, cheia de si.

Aí você fica pronta. Aí você vive sem prisão de planos. Sem prisão de expectativa, essa danada, que tem matado um monte de sorrisos. Esqueça a lista do futuro. Você pode imaginá-la de vez em quando, e várias vezes, porque você pode fazer várias, e apagar logo, e não lembrar depois. Pra ela não te amordaçar. Essa ânsia de passos certeiros tá deixando vocês todos enrugados e insossos. Sem graça nenhuma. Uma juventude, assim, meio sem futuro.

Não se desesperem na busca dos passos previsíveis, dos arremates que os outros têm jurado que promovem a única felicidade possível. Afastem essas rugas da obsessão e abram esses olhos. Peguem a vida de presente. Antes que o futuro venha.

Por enquanto até quando até mais

Bem cuidado. Cuidado ao entrar e sair de casa. Cuidado ao entrar no carro. Cuidado ao soar o alarme, mais cuidado se não tiver alarme. Cuidado ao sair do carro. Olhe bem, olhe mais, olhe antes, dê a volta, jogue luzes, buzine, telefone e se possível esteja pronta para que grite. Cuidado.

Cuidado com os muros baixos. Cuidado que muro alto não assusta mais nada. Cuidado que morar em quarto, quinto, décimo primeiro andar não vale de muito. Em verdade, no descuido, é ainda pior morar todos uns por cima dos outros, dentro desses muros altos. Cuidado.

Cuidado quando senta no ônibus. Cuidado se vai em pé e não repara na tua bolsa. Repara na tua bolsa. Cuidado com a bolsa. Não mostra demais. Não se mostra demais, cuidado. Cuidado ao sair portando muita coisa. Cuidado ao sair sem nada, é pior, leve algo, pode ser que seja útil no desespero. Muito cuidado.

Cuidado ao ficar em casa só. Cuidado quando estiver no trabalho com bastante gente. Mais cuidado quando estiver na festa com centenas de gentes. Centenas. Centenas de cuidados (é pouco). E pode ser que nada dê certo. Cuidado.

Suba os vidros, trave as portas, cuidado. Não baixe os vidros. Baixe os vidros e dê o dinheiro. É melhor. Mas cuidado. Podem as coisas ficarem piores. Muito cuidado. Cuidado na esquina. Também na avenida sem esquina próxima. O que pode acontecer?. Tudo. Cuidado. Cuidado no que faz, no que vê, no que diz. Cuidado no barulho. Cuidado ao andar demais. Cuidado se não andar. Cuidado enquanto vive.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Propósito

Eu te dizia que também não confio. Nessa gente de parcos abraços, de tapinhas nas costas, de sorriso sem feição. Eu li em texto Carpinejano, ele também acha. Aliás, ele me disse o que eu achava e não sabia. Mas já tínhamos conversado sobre isso, eu e você. É difícil se deixar levar por quem não te dá os braços, os dois, faz a entrega sem exageros, mas também sem comedir-se. E esse equilíbrio é tão fácil. Mas há quem se negue, e eu não fico por perto. Não confio. Empurro-os como eles que empurram meus abraços. Tenho me separado deles.

E de a gente concordar quão triste é aquele que desaprendeu a pedir desculpas. Que apela para o foi mal. Foi péssimo. Ficou péssimo esse negócio. Pior ainda para quem não ouve mais a desculpa, mas que foi mal. Foi mesmo. A confiança desequilibra por aí. Quem sente que foi mal não sente quase nada.

Foi preciso a gente pedir desculpas sem saber por quê. E isso foi errado e foi certo. O melhor pedido de desculpas é não repetir o erro, você já disse. As palavras dizem quase nada nessa sua vida de silêncio e atos.

Em nessa vida de distâncias medidas em quilômetros e de tempo sem medida nenhuma, repito as rotinas e os hábitos. E de novo na varanda sob casaco e vinhos. Hoje também os cigarros. Reitero os diálogos e transformo-os em monólogos. Parece que dão bons delírios, esse nós em um só, mais esses catalisadores casaco, vinho, Marlboro. Refaço nós dois em um só. Em breve é bem provável que eu me abrace, tolamente. Sinto falta dos abraços. Desculpe a demora em responder a carta manuscrita, mandei. Desculpe as palavras que enviei pelo correio, que são eu, adiadas, exageradas. Comedidas. Me desculpe. Foi mal.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Monterroso já sabia

El Zorro es más sabio

Un día que el Zorro estaba muy aborrido y hasta cierto punto melancólico y sin dinero decidió convertir-se en escritor, cosa a la cual se dedicó inmediatamente, pues odiaba ese tipode personas que dicen voy a hacer esto o lo otro y nunca lo hacen.

Su primer libro resultó muy bueno, un éxito; todo el mundo lo aplaudió, y pronto fue traducido (a veces no muy biem) a los más diversos idiomas.

El segundo fue todavía mejor que el primero, y varios profesores norteamericanos de lo más granado del mundo acaadémico de aquellos remotos días lo comentaron con entusiasmo y aun escribieron libros sobre los libros que hablaban de los libros del Zorro. 

Desde ese momento el Zorro se dio com razón por satisfecho, y pasaron los años y no publicaba otra cosa.

Pero los demás empezaron a murmurar y a repetir "Qué pasa con el Zorro?", y cuando lo encontraban en los cocteles puntualmente se le acercaban a decirle tiene usted que publicar más. 

- Pero si ya he publicado dos libros - respondía él con cansancio.
- Y muy buenos - le contestaban -; por eso mismo tiene usted que publicar otro.

El Zorro no lo decía, pero pensaba: "En realidad lo que éstos quieren es que yo publique un libro malo; pero como soy el Zorro, no lo voy a hacer". 

Y no lo hizo.

(Augusto Monterroso - La Oveja Negra y demás fábulas)


Quem te faz escrever mais é quando anônimo, é quando poucos olhos vêem e expectam. Com olhos demais eu sinto até dor, ardor de olhos abertos, com brilho extinto. Expectativa e intromissão em confusão, em profusão, em adendo de veja lá o que você há de dizer. E eu cheia de segredos que me extrapolam. Quase me engolindo. Depois de texto muito lido, não se lida bem com texto.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Drummond contemporâneo

Brasileiro cem-milhões

Telefonei para a maternidade indagando se havia nascido o bebê nº 100.000.000, e não souberam informar-me:
- De zero hora até esse momento nasceram oito, mas nenhum foi etiquetado com esse número.

É uma falha do nosso registro civil: as crianças não recebem número ao nascer. Dão-lhes apenas um nome, às vezes surrealista, que as acompanhará por toda a vida como pesadelo, quando a numeração pura e simples viria garantir identidade insofismável, poupando ainda o vexame de carregar certos antropônimos. Centenas de milhares nascem João ou José, mas o homem ou a mulher 25.786.439 seria uma única pessoa viva, muito mais fácil de cadastrar no fichário do Imposto de Renda e nos 10 mil outros fichários com que é policiada a nossa existência. 

Passei por baixo do viaduto, onde costumam nascer filhos do vento, e reinava uma paz de latas enferrujadas e grama sem problemas. Ninguém nascera ali depois da meia-noite. O dia 21 de agosto, marcado para o advento do brasileiro cem-milhões, transcorria sem que sinal algum, na terra ou no ar, registrasse o acontecimento.

Costumo acreditar nos bancos, principalmente nos oficiais, e se o Banco Nacional da Habitação, através do Serfhau, garantiu que nessa segunda-feira o Brasil atingiria a cifra redonda de 100 milhões de habitantes, é porque uma parturiente adrede orientada estaria de plantão para perfazer esse número.

Verdade seja que o IBGE, pelo Centro Brasileiro de Estudos Demográficos, julgou prematura a declaração, e só para o trimestre de outubro/dezembro nos promete o brasileiro em questão. Não ponho em dúvida sua autoridade técnica, mas um banco é um banco, ainda mais se agência governamental, e a esta hora deve ter recolhido nosso centésimo milionésimo compatrício em berço especial da casa própria, batendo-lhe à cabeceira um cofre de caderneta de poupança. 

É que me custa admitir o nascimento desse garoto, ou garota, sem o amparo de nossas leis sociais, condenado a ser menos que número - uma dessas crianças mendicantes, que não conhecerão as almofadas da felicidade. Não queria que a televisão lhe desse um carnê e uma viagem a Grécia, nem era preciso que a Manchete lhe dedicasse 10 páginas coloridas, sob o patrocínio do melhor leite em pó. Mas gostaria que viesse ao mundo com um mínimo de garantia contra as compulsões da miséria e da injustiça, e de algum modo representasse situação idêntica de milhões de outras crianças que recebem - estou pedindo muito? - não somente o dom da vida, mas oportunidades de vivê-la.

Seria vaidade irrisória proclamar-se ele o 100.000.000º brasileiro, membro eufórico da geração dos 100 milhões, e saber-se apenas mais um marginalizado, que só por artifício de média ganha sua fatia no bolo do Produto Nacional Bruto.

Não o desejo herói de monumento nem mártir anônimo. Prefiro vê-lo como um ser capaz de fazer alguma coisa de normal numa sociedade razoavelmente suportável, em que a vida não seja obrigação estúpida, sem pausa para fruir a graça das coisas naturais e o que lhes acrescentou a imaginação humana.

Olho para esse brasileiro cem-milhões, nascido ontem ou por nascer daqui a algumas semanas, como se ele fosse meu neto... bisneto, talvez. Pois quando me dei conta de mim, isso aí era um país de 20 milhões de pessoas, diluídas num território quase só mistério, que aos poucos se foi desbravando, mantendo ainda bolsões de sombra. Vi crescer a terra e lutarem os homens, entre desajustes e sofrimentos. Os maiorais que dirigiam o processo lá se foram todos. Vieram outros e outros, e encontro nessa geração o novo rosto da vida, que se interroga. Há muita ingenuidade, também muita coragem, e os problemas se multiplicam com o crescimento desordenado. Somos mais ricos... e também mais pobres.

Meu querido e desconhecido irmão nº 100.000.000, onde quer que estejas nascendo, fica de olho no futuro, presta atenção nas coisas para que não façam de ti subproduto de consumo, e boa viagem pelo século XXI adentro.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Protesto não é diálogo

Por cima e por baixo da onda de protestar, há quem proteste contra quem quer protestar. Em tempos de redes sociais, qualquer tema de interesse público só existe e perdura quando divide opiniões. Mas quando divide mesmo, criando grupos antagônicos que dispendem dias inteiros procurando argumentos e furos no discurso do outro, pra vencer a balbúrdia. Bando de advogados. Do diabo. Para o diabo.

Um argumento de quem é contra protesto é o diálogo. A beleza do diálogo. A essência da resolutividade. O verdadeiro caminho da luz. Porque, diz-se, protestar em rua pública, em praça pública, em Congresso Nacional, em pleno século vinte e um, é demodê em todos os sentidos. É sem sentido. Eu entendo que talvez vocês estejam temendo a homogeneidade do movimento hipster em gostar do que é vintage, do que é brechó, do que é foto em preto e branco, e, convenhamos, as imagens de ontem parecem coisa de outras décadas, ficaram vintage e ficaram boas, mas, veja lá, não alegue falta de validade aos gritos na rua.

Quem argumenta contra protesto argumenta que temos de ir atrás dos políticos e de seus assessores e buscar soluções. Devemos unificar um movimento ordeiro, colher assinaturas, discutir, passar nossos dias em pontos estratégicos da cidade conversando com quem quer que passe, pondo em pauta os bilhões de reais destruídos pelas corrupções e os vinte centavos investidos anualmente em nossa educação pública. E as obras de mobilidade urbana fantasmas que entopem nossa cidade. E então, ir aos políticos, bater em suas portas, fazer espécie de sentinela nas Câmaras de Vereadores e Assembleias Legislativas, para então, aguardar o diálogo-luz.

Isso não é ingênuo, não é mentiroso, e não estou, de modo algum, ridicularizando. Eu sei que isso pode dar em alguma coisa. Que eventualmente dá em alguma coisa (que pode ser nada, que pode ser consecução de direitos). Mas então precisamos, mesmo, fazer isso? Sempre? Por toda e qualquer reivindicação?

Às vezes, ouvimos, no lugar de elogios, um "você não fez mais do que sua obrigação". É um argumento inicialmente pueril, mas quanto a uma família de políticos que não faz nem a própria obrigação? É preciso que nós, no desconforto de nossos lares inseguros, no desconforto de nossos ônibus lotados, no desconforto de empregos massacrantes arredondados em salários mínimos, levantemos-a-bunda-do-sofá e reunamos nossos esforços para ir lá, na sala do vereador, que trabalha pouco (generalização - porque sou uma pessoa ruim!), que ganha muito (fato), que está no conforto do ar-condicionado, do carro importado, dos assessores que dizem que ele é fofo, e diga: ei, cara, será que tu num pode trabalhar um pouco por nós? É que eu paguei todos os meus impostos minha vida inteira, e até hoje, toda vez que levo meu filho no hospital, eu espero seis horas pra ser atendido, e quando me chamam o médico já foi embora. Porque ele só dá seis horas de expediente, mesmo sem ser vereador, sabe como é.

Eu preciso reunir forças, pessoas e esforços, para cobrar de um governo que enfia uma Copa do Mundo em nossa goela abaixo, que ele pelo menos, pelo menos!, melhore ligeiramente o meu país? Vou gastar dias inteiros nisso? Meses, anos? Exigindo o retorno obrigatório? Isso não é carimbo de otário. Já é nossa cicatriz.

E vou te dizer sobre diálogos. A universidade tem grupos de pesquisa que estudam, há muitos anos, crianças e adolescentes em acolhimento institucional. Tem grupos de extensão que atendem e auxiliam psicossocialmente crianças e adolescentes em acolhimento institucional. É um retorno obrigatório que damos à sociedade que paga por nossos estudos, que financia o nosso trabalho. Em agosto de 2012, reunimos um montante considerável do material que tínhamos de pesquisa, extensão, ensino, e de fatos, e fizemos um Seminário. Na verdade, vou parar de falar em primeira pessoa do plural, porque eu só participei, mas quem conduziu o evento foi um grupo de professores que têm, pasmem!, compromisso social.

Nesse seminário, foram reunidos estudantes, professores, psicólogos, assistentes sociais, educadores de instituições de acolhimento. Todas as pessoas possíveis dessa esfera estiveram reunidas. Não foi encontro de acadêmicos falando de ilusões. Os profissionais do dia-a-dia, gente de verdade, trabalhador desse tipo, que pega ônibus lotado, mora na periferia, ganha pouco, etcétera, estava lá, e não era por eles, mas pelas crianças e adolescentes que eles conhecem.

Isso tudo foi em agosto. As mesas de trabalhos e discussões tinham a finalidade de elencar soluções plausíveis para as crianças acolhidas. Para a realidade das instituições. E foi feito. A finalidade única, então, do Seminário, foi redigir uma Carta de Intenção, onde foram postos em tópicos, também discutidos, no calor que uma discussão onde a maior parte é de mulheres pode conseguir obter, para então serem votados, concluídos, e assinados por todos. Dois meses depois, em plena campanha para prefeito de Natal, a gente chamou os candidatos para um diálogo no auditório da biblioteca da universidade. Um mandou o vice. Um outro foi só para tirar foto, assinar sem ter lido, sem saber do que se tratava, porque sabe-se lá o que se passa na cabeça de alguém quando lê "acolhimento institucional", ele poderia pensar que era um evento sobre as residências universitárias, que não têm nada a ver com obrigações municipais, mas vá lá. E um outro foi em pessoa. Discutiu quem estava lá. No final, tínhamos as assinaturas dos candidatos.

Esse ano, a situação das crianças não melhorou. Os termos assinados não estão sequer recebendo a atenção. As crianças há muito são jogadas de uma casa para outra. Por motivos que eu desconheço. Mas, na gestão passada, um deles foi que o vice-prefeito precisou do lugar para fazer as reuniões de seu interesse (Carnatal), e por isso mandou as crianças embora para uma casa em bairro periférico, de acesso difícil, com menos escolas no perímetro ao redor, onde só havia três quartos para cerca de trinta crianças. Hoje, em uma das Casas, só estava se recebendo fraldas tamanho P. Como só recém-nascidos usam fraldas P, os bebês estavam usando duas fraldas P, porque uma só era impossível, nenhuma fralda também. Se as fraldas faltam, imagine o que mais não tem por lá. Foi o fruto do nosso diálogo.

Protesto não é diálogo. E não é pra ser. Ainda bem que não é. Protestar é mais cômodo, é mesmo. Reunir a galera pra num único dia a gente ir lá ocupar as ruas, incomodar, fazer barulho, é bem mais fácil que ficar meses recolhendo assinaturas e batendo em porta de político pedindo que eles cumpram suas obrigações. Que, caso eles ouçam, só vão cumprir por quê?, porque terão votos no futuro, e não porque acham que devem fazer o que sua profissão (se é que se pode chamar assim) exige. E tá certo? A gente tem que ir atrás deles, enquanto eles não fazem suas obrigações, para que eles nos ouçam, simplesmente porque eles vão ter nossos votos com isso? O raciocínio é assim tão raso? Nossa sociedade é toda estúpida se contribui com uma ideia dessas.

Protestar na rua é mais conforto, é mais simples, é vintage, também. E não interessa por qual seja o motivo que se vá, veja, não é por diálogo. Isso aqui não é diálogo. É um grito mesmo. Porque em um governo de monólogos, pedir com licença e ir entrando para um café não é sempre uma solução. Não diga que é. Não aposte que será. Assim como não aposte que protestar não dá em nada. Você não sabe. Nem seu tarô. Nem os professores universitários com compromissos sociais, raça em extinção. Também não peço que você aceite e concorde com esse grito, esse não-diálogo. Mas, preciso te pedir que você seja um pouco psicólogo nessas horas: não precisa aceitar, mas é necessário compreender. Eu juro à você. É legítimo. A gente não tá errado.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Pra quê tudo isso

Eu mesma. Esses dias fui sair de casa e achei melhor pegar o ônibus. Deixei o carro na garagem, com a desculpinha de fazer algo pelo meio ambiente, mas, claro, eu queria era meu transporte público. Tava com saudade dele.

Cheguei na parada, tudo lindo, cobertura adequada contra sol, contra chuva, contra raios violetas e furtacor,  contra balas de borracha da polícia caso houvesse manifesto pacífico pelas ruas, e tinha onde eu sentar, esperar, e quem mais estivesse comigo. A galera esperava os ônibus com hora marcada. Todo mundo tinha consultado o aplicativo que mostra as rotas dos ônibus urbanos. Pra não correr risco de atrasar nem de esperar demais. O mapa três dê que instalaram nos pontos de ônibus também ajudavam. Eu fui sem fazer isso, mesmo. Estava ousada.

O ônibus chegou na hora. Parou na parada. Não precisa correr em caso dele decidir parar no quarteirão da frente (por motivos de trânsito, paradas irreconhecíveis, má vontade do motorista). O ônibus tava mais limpo que a rua. E ia direto para a universidade. Eu não precisaria pegar dois ônibus saindo do centro da cidade para a universidade federal dessa mesma cidade. Isso seria um absurdo né, gente? Já pensou? Se de repente tivesse uma rota dessas e depois não tivesse mais. Se nunca tivesse existido. Um caos.

O percurso foi tranquilo. O ônibus estava em bom estado, bem cuidado, até, melhor que meu carro, que tá precisando de um lavagem, risos! Chegou onde eu queria na hora certa, assim como todos os ônibus daqui. Que, é claro, por favor, alcançam todas as rotas da cidade, sem deixar ninguém na mão. Digo, nos pés! Risos!

As coisas por aqui são assim, vão muito bem. Acho que no meu próximo passeio vou tentar o metrô!

Bjs.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Ode

Se for pra sentir saudade, que seja a dois. Que sejam os dois. Que não esteja só na saudade, havendo dois em lembrança.
Se for para haver lembrança, que seja leve, que seja breve, que seja alegre.
Se existem fotografias, que elas não sejam olhadas demais. As fotografias param um tempo que não pára, congelam uma lembrança que sempre muda, e estabiliza aquele sorriso. Não há sempre sorrisos.
E é preciso ser dois para aguentar quando não se há sorrisos. Na lembrança, no de agora. Nos futuros distantes, então.
Menos olhos para fotos. Bem mais olhos para os dois.
Mais ouvidos para as palavras. As palavras ouvidas. Que são músicas, que em vozes feias ou graves, agudas, afônicas, são tudo que podemos ter de alguém. A troca rápida, o consolo da presença. Com distância ou não, com lembrança boa, saudade a dois. As palavras ouvidas.
Mais abraços que beijos. Eu, em sincero, fico com os primeiros. Abraços beijam nossos corpos inteiros. Encontram nossas angústias e põem as duas pra conversar. O beijo é o desejo e o carinho. Fica com pouco, mesmo que seja muito, mesmo que seja bom. O abraço fica com tudo.
Não são precisos estranhos para termos nossas imagens. Eu fico com nós dois fotografando um ao outro. Eu fico com nós dois fotografando a nós dois, em imagens únicas, em lembranças que têm sol, têm chuva, cheiro forte, tem nossas vozes. Nós, juntos, sem estranhos, sem mais, fotografamos melhor que qualquer outro. Fotografamos tudo. Guardamos bem.
Parece que há livros sobre nós, músicas para nós, e quadros pintados por encomenda de para nós dois. De para. A gente pintando nossa vida.

Que seja a dois. Que seja para os dois. Assim como a saudade, que exista com ternura, que exista sempre a dois.

Não me venha com mais

Não me venha com mais saudade. Não me venha com mais desculpas. Não me venha com mais demora de avião e aeroporto. Não me venha com mais. Não me venha com mais trabalho. Com mais tempo de menos. Não me venha com uma cama que não tem você. Não me venha com barba bem feita. Eu gosto da barba assim, por fazer, sem fazer. Não me venha com mais modices. Não me venha com mais delonga, com mais conversa, com mais amor comedido. Não me venha com mais com tantos comedimentos.

Não me venha com mais explicações para todas essas. Não me venha com mas.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Um protesto contra o vandalismo

Existem poucas coisas que trago comigo de quando estive sobre as cadeiras da Psicologia. Existem poucas coisas sobre as quais as cadeiras da Psicologia e seus respectivos assentados eternos concordam, anuem, dão o consenso absoluto. Em verdade, só há uma questão para consenso; essa, uma das coisas que carrego comigo e que me faz, a despeito da falta de modos e do conhecimento breve, ser, declaradamente, uma psicóloga.

Porque tem algo que eles ensinam sob entrelinhas e entre-livros que é difícil pra danado de mostrar como é. Mas que, quando você pega o jeito, não larga, não esquece, não despreza, e se transforma junto. Num esquema memória declarativa para memória implícita, os estudantes de psicologia e de ciências humanas e, com sorte, demais seres humanos, aprendem com a vida e com a profissão o valor da atenção exclusiva e um só. A um único. A um mesmo. Que nunca será o mesmo junto de outros, do qual nunca se poderá inferir nada a respeito, a despeito, sem sua autorização. Eu consigo carregar e entender a ideia de que generalizações não existem. Que pesquisas com gente como a gente são, em suma, falaciosas, para não dizer que contam mentiras, porque, de certa forma, contam, mas isso não é tópico para agora. Nos ensinam discreta e intensivamente a ver com olhos e ouvidos que um só não pode ser encarado como mais que isso; que alguns não podem ser encaixotados em multidão alguma. O argumento que descende é chulo. É tolice.

Há jovens que vão às ruas para por acaso nos lembrar do que fazemos questão de esquecer: que somos cheios de direitos, que temos um crédito com o Estado, e que desse crédito é urgente que nos cheguem logo os retornos, que nos sejam pagos de volta, em direitos, esses direitos nos quais temos investido há anos, há décadas, se pensarmos estritamente em democracia. Em democracia.

Porque umas centenas que não contam com vocês, que não contam comigo, que são alvo da generalização estúpida, são alvo direto de uma não-democracia. De uma cegueira completa, de uma patologia preconceituosa e generalizante, o modus operandi das classes baixa, média, alta, três vezes alta, como as que vemos por aí.

Existem cidadãos que, felizmente ou infelizmente, obedecem a ordens. Que não deveriam ser cumpridas. Nunca mais deveriam ser cumpridas. E existem os mandantes da desordem, do caos, da tragédia que justificará toda repressão da nossa polícia covarde, de nosso Estado covarde, de nossas classes sociais covardíssimas. Eu não acho certo, é claro, o fogo, o piche, a gritaria. Mas também não consigo ver sentido em um Estado que não nos respeita, que não nos olha, que incendeia nossos direitos e picha nossa dignidade, todos os dias, quando não temos acesso a serviço público de qualidade alguma, quando não temos acesso a justiça e a igualdade algumas, quando temos nossos direitos de seres humanos ameaçados por outros humanos iguais a nós, ou piores do que nós (que são eles próprios, os membros do Estado). Não consigo, menos ainda, ver esse Estado, assim, ao avesso, dizer que é preciso organização e respeito ao espaço público em tempos como esses, em termos como esses, de pisoteamento de direitos. Ele manda, a gente obedece. Até para o protesto?

O dito vandalismo, a dita baderna, não se justifica, não se aconselha, mas, conforme a memória implícita da psicologia não me faz esquecer, ele é compreensível. A história do inconsciente coletivo, mais o consciente, as pulsões, e todas as camadas que tenhamos, estão ali, realizadas em catarse, nessa destruição em massa, que, quando se está em revolta verdadeira (que não é o caso de nós todos, bem sei) é o que se deseja em íntimo. Não assuma, não há problema nisso. Mas não é nenhuma monstruosidade compreender uma agressividade coletiva pensando a partir de nós mesmos, a partir e em cada um de nós.

Que violência não é panaceia, a gente sabe. Até porque, nós que somos cidadãos de verdade, e não cidadãos ao avesso como nossas autoridades, precisamos ensinar-lhes isso. Já basta a violência e o ultraje que vem de cima para baixo. Como os covardes não amealham nas represálias, a nossa violência só vai nos trazer respostas piores. Resultados piores.

Existem outras formas de amenizar e resolver. Existem outros jornalismos não vândalos, que não serão burros, que não serão tolos, que não farão generalizações tendenciosas de quem está no lugar certo. Haverá  relatores de caso que, ao invés de descrever essas manifestações de direito, dever e bom senso cidadãos como roteiros de trânsito, fazendo acusações de confusão pontual, de balbúrdia em horário de pico, em trânsito no centro da cidade, irão reconhecer, em lugar, a reunião para lembrete da confusão na qual já estamos instalados. A confusão de trânsito de direitos, de ameaças, de injustiças, na qual circulamos há anos, há décadas, e, que, por causa dela, precisamos, por vezes, fazer reuniões nesses horários importantes para lembrar a cada um, para lembrar a todos: é um problema meu, é um problema seu, é um problema nosso. Assim, generalizando, que é pra ver se surte efeito.

Não é saudade

Tenho me queixado de saudade grande, de saudade sua, de coisas nossas. Um tudo que ficou pra trás. Uma vida que parecia ser outra. Nós que agora parecemos ser outros.

Tenho insistido na sua mudança como causa da mudança em você próprio, na sua saída como uma despedida da casca que eu conhecia. E agora tenho eu de me acostumar a um novo invólucro, que, é claro, não vou comprar assim tão fácil.

Mas o tom dos ouvidos que ouvem minha surpresa é de certa conformidade. E porque. É só um outro lado dele que você não conhecia. Não é outro ele.

É outro, é um novo. Eu insisto. É tudo novo, diferente demais, e vem sujeito a reprovações de parâmetros passados. Uma reprovação intensa, que recomenda aprender tudo outra vez, voltando um ano inteiro, ou mais, como recomeço. Já faz um ano inteiro. Eu achei que era menos. Ainda não me despedi da sua casca antiga, e essa nova já começa a ficar velha.

Insistem que eu acredite na não novidade, no suspeito fato do isolamento como um propulsor de faces ocultas que são verdades. Olhe só. Eu não acredito. Eu insisto na saudade, na falta, no estopim daqueles dias tão nossos que não voltam, não ficam iguais, não são mais nem nossos, são só meus. Pois um você agora é um outro.

Pelo meio termo, me convenci da ausência de saudade. Não tenho saudades suas, desse sorriso que está longe (longe em todos os sentidos, para todos os efeitos). Não sinto falta desses tópicos de conversas que por vezes você insiste hoje em dia. Nem de te ver de perto. Não quero te ver de perto. Minha saudade é impossível. Sinto saudade de uma pessoa que não existe mais. Você, quando era outro.

domingo, 9 de junho de 2013

Esse não falar

Um silêncio bruto. Um constante não dizer, não mais querer falar. Um silêncio constante. Cortante.
Essa vontade de dizer com os olhos, de conversar com ouvidos e imagens. Sem barulho, sem som, sem grito. Sem ousadia de ferir o zumbido mudo suspenso.
Pois que o sussurro grita, e o barulho mata, e minhas rezes não cessam.
É preciso o silêncio para ser eu mesma. Que ninguém ouça.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Catálogo fitness

Há poucos meses, de um jeito bem resistente e reacionário, comecei a usar esse aplicativo Instagram. Eu já sabia o que me aguardava. Fotos em frente ao espelho, comidas, espelho, comidas. Lembro de na época ter ouvido falar sobre pesquisa acadêmica da nutrição, nos Estados Unidos, que solicitava aos cobaias da pesquisa que fotografassem suas refeições; e uma análise quantiqualimultimétodo posterior revelaria hábitos e proporções dessas moças e rapazes à mesa. Imaginei um "foi quando tudo começou".

Pois que as fotos das comidas fizeram jus. E mais, tinham seus descritores e sua receita breve explicada embaixo. Tinha bom filtro ou a pessoa comprava tudo orgânico, ou tudo no importado, ou não morava no Brasil ou a pessoa não existe de verdade. Era um cardápio infinito, de gente julgando que mostrar bombom e café é o verdadeiro motivo do instagram. Nada contra. Foi só um comentário inicial.

Mas, em poucas semanas, um rearranjo cósmico ou um novo alinhamento dos planetas matou o cardápio infinito. Enforcou as gorduras trans e multi, e parece que o próprio Instagram baniu os hambúrguers gurmê de publicação. Um babado. Foi a mesma época em que minha timeline virou um catálogo fitness.

Não sigo mais ninguém gordo, ninguém sedentário, ninguém dentro dos limites normais e amplamente aceitáveis da preguiça e da não obsessão corpórea. Também não há mais os junkie bem adaptados. Parece que se extinguiram via seleção natural (banidos de se manifestarem no Instagram). Eu não sei pra onde essas pessoas foram, o que aconteceu com elas, se elas têm sofrido algum tipo de ameaça. Mas parte delas se converteu a nova religião fitness. E não pára de pregar na minha timeline.

O catálogo de esportes aponta a popularidade da corrida ao ar livre, munidos de outros aplicativos que contam os quilômetros e mostram pra galera a quantidade e o caminho-desafio do dia. A ginástica funcional parece que tá em segundo lugar. Um esporte tradicional de luta que virou moda (?) na cidade - como tudo na vida de uma província. E a musculação tradicional ainda tá bem na fita. E na timeline.

Ninguém nunca mais comeu macarrão nem brownie. E, quando muito, eu vejo um Oreo saudoso circulando. Meus amigos (pessoas que sigo, corrijo, é mais amplo) deixaram os molhos e as carnes. Só comem salada. Só tomam iogurte. O mesmo iogurte da mesma marca. Na louça de cristal, com granola e geléia, parece, que é pro negócio ser mais gostoso. E todo mundo baba. O pessoal da Edição Fitness Instagram não se contém. Troca receita e elogio o tempo todo. E inventa projetos que são hastags. Tá um loucura. Agora me pego vendo um monte de abdômen e granola o dia todo. Vegetais e shakes de proteínas. As meninas extrapolam os cartões de crédito em tênis coloridos e vão lá mostrar. Pra citar o #running na sequência.

Eu só olho. Ouço boatos de comportamentalistas estudando avidamente a possibilidade de substituir o termo "reforço positivo" pelo "reforço coletivo". Dizendo ser esse o zeitgest de agora. Parece que reforço coletivo substitui o tradicional e outrora eternizado reforço positivo, aliás, parece que o reforço coletivo substitui hábitos de vida para sempre. Ou por enquanto. Em tempos de instragram e redes sociais. Em tempos de compartilhamento de fotos e dietas. Mas ainda são estudos no prelo.

Por enquanto, o Instagram tem me procurado sugerindo silêncio absoluto. É o aviso prévio da demissão.

Quando se é para ser dois

Eu vou esquecer o celular silenciado e ele vai chamar, chamar até ser descarregado pelas suas ligações. Você vai continuar a deixar esse telefone de casa tocar até extinguir o trim, e eu vou respirar alto e gritar sem ser estridente te reclamando sobre essa mania maldita. Mandarei desligar o telefone da tomada. Tirarei o telefone da tomada assim que der. Assim que lembrar.

Porque vou continuar a esquecer. Não vou lembrar do seu recado, da conta sua que fiquei de pagar, do nosso aniversário, do almoço pro domingo, nem de tirar o celular do silencioso. Eu vou esquecer. E você vai gritar em silêncio pra não me gritar de verdade.

Também vou dirigir com o rádio ligado, vou ouvir você falar e deixar o rádio ligado, e vou continuar (para sempre) não tentando fazer balizas se você não estiver comigo. O lema do esforço eu deixei pra trás. E vou continuar fazendo menos esforço por muito, por pouco, por tudo. E você vai me esbravejar com os olhos e a impaciência dos lábios. Vai sorrir sem disfarçar porque o pouco esforço alheio é algo complicado de se lidar.

Mas você vai gostar. Vai sorrir porque meu menor esforço vai te dar uma manha pra ser sua na manhã de domingo. Na tarde do feriado. No sofá que parece cama que botamos em frente à tv. E de onde eu te vejo cozinhar nossa janta. Pois vou continuar dizendo janta. E você corrige em vão.

Você vai postergar as roupas sujas. Você vai postergar nossas simbólicas roupas sujas também. E vamos arrebentar o varal diversas vezes, porque esperamos demais, suspendemos reações demais, deixamos ressentimento de molho, e, no estouro, vai tudo pelos ares. Tudo. Pra catarmos de volta dos ares e do chão quando o sol baixar. Mais tarde.

Vou dormir feito pedra e esquecer seus carinhos da madrugada. Você vai acordar cedo demais e querer me levar pro dia com você. Vou urrar cerrando os dentes, sacudir uma mão com raiva, porque, também, não falo quando acordo, e disso você não gosta, disso você já sabe, isso que às vezes você me força.

E cada dia é mais um dia para esse sempre. Que somos nós, que somos dois, num futuro de irritações insistentes e consumadas, conhecidas e inimigas, inerentes. Inexoráveis. E assim mesmo que seremos felizes para sempre.