quarta-feira, 5 de junho de 2013

Catálogo fitness

Há poucos meses, de um jeito bem resistente e reacionário, comecei a usar esse aplicativo Instagram. Eu já sabia o que me aguardava. Fotos em frente ao espelho, comidas, espelho, comidas. Lembro de na época ter ouvido falar sobre pesquisa acadêmica da nutrição, nos Estados Unidos, que solicitava aos cobaias da pesquisa que fotografassem suas refeições; e uma análise quantiqualimultimétodo posterior revelaria hábitos e proporções dessas moças e rapazes à mesa. Imaginei um "foi quando tudo começou".

Pois que as fotos das comidas fizeram jus. E mais, tinham seus descritores e sua receita breve explicada embaixo. Tinha bom filtro ou a pessoa comprava tudo orgânico, ou tudo no importado, ou não morava no Brasil ou a pessoa não existe de verdade. Era um cardápio infinito, de gente julgando que mostrar bombom e café é o verdadeiro motivo do instagram. Nada contra. Foi só um comentário inicial.

Mas, em poucas semanas, um rearranjo cósmico ou um novo alinhamento dos planetas matou o cardápio infinito. Enforcou as gorduras trans e multi, e parece que o próprio Instagram baniu os hambúrguers gurmê de publicação. Um babado. Foi a mesma época em que minha timeline virou um catálogo fitness.

Não sigo mais ninguém gordo, ninguém sedentário, ninguém dentro dos limites normais e amplamente aceitáveis da preguiça e da não obsessão corpórea. Também não há mais os junkie bem adaptados. Parece que se extinguiram via seleção natural (banidos de se manifestarem no Instagram). Eu não sei pra onde essas pessoas foram, o que aconteceu com elas, se elas têm sofrido algum tipo de ameaça. Mas parte delas se converteu a nova religião fitness. E não pára de pregar na minha timeline.

O catálogo de esportes aponta a popularidade da corrida ao ar livre, munidos de outros aplicativos que contam os quilômetros e mostram pra galera a quantidade e o caminho-desafio do dia. A ginástica funcional parece que tá em segundo lugar. Um esporte tradicional de luta que virou moda (?) na cidade - como tudo na vida de uma província. E a musculação tradicional ainda tá bem na fita. E na timeline.

Ninguém nunca mais comeu macarrão nem brownie. E, quando muito, eu vejo um Oreo saudoso circulando. Meus amigos (pessoas que sigo, corrijo, é mais amplo) deixaram os molhos e as carnes. Só comem salada. Só tomam iogurte. O mesmo iogurte da mesma marca. Na louça de cristal, com granola e geléia, parece, que é pro negócio ser mais gostoso. E todo mundo baba. O pessoal da Edição Fitness Instagram não se contém. Troca receita e elogio o tempo todo. E inventa projetos que são hastags. Tá um loucura. Agora me pego vendo um monte de abdômen e granola o dia todo. Vegetais e shakes de proteínas. As meninas extrapolam os cartões de crédito em tênis coloridos e vão lá mostrar. Pra citar o #running na sequência.

Eu só olho. Ouço boatos de comportamentalistas estudando avidamente a possibilidade de substituir o termo "reforço positivo" pelo "reforço coletivo". Dizendo ser esse o zeitgest de agora. Parece que reforço coletivo substitui o tradicional e outrora eternizado reforço positivo, aliás, parece que o reforço coletivo substitui hábitos de vida para sempre. Ou por enquanto. Em tempos de instragram e redes sociais. Em tempos de compartilhamento de fotos e dietas. Mas ainda são estudos no prelo.

Por enquanto, o Instagram tem me procurado sugerindo silêncio absoluto. É o aviso prévio da demissão.

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