quinta-feira, 27 de junho de 2013

Listas e rugas neles

Antes da gente virar adulto, ou antes da época em que a gente começa a achar que já virou adulto, a ideia de vida e de viver tem seu teor de previsível, até pragmático. A gente, bem jovem, não só sonha, como imagina, planeja e afirma com certezas a consecução de todos os objetivos, e a vida irreversivelmente bela que teremos pela frente. A gente já sabe qual faculdade, emprego, e salário vai ter, a gente já marcou o príncipe com um alfinete, e ele tá vindo, a gente sabe que vai se virar bem entre trabalho, casa, filhos, em salto alto. A gente desvela todos os passos futuros naquelas brincadeiras de lápis-e-papel que dizia até com que idade cada um desses passos ia acontecer. E vai dar tudo certo.

Evidente que imaginação e objetivos assim metodicamente organizados é coisa de virginiano e de passado. Também é o que acontece antes do primeiro chifre, da primeira faculdade, do primeiro não-salário e da fase de desemprego quase obrigatória depois da colação de grau. E antes do primeiro intercâmbio, do primeiro amor platônico alcançado, do primeiro livro incrível que te transformou inteira. Esse metodismo exagerado e de sonhos acontece antes da gente virar adulto e descobrir, pasmando, que a vida e a história da gente são bem grandes, são maiores que os planos, são desmedidas, e não se apertam em caminhos com degraus.

Menina, quanta bobagem. O problema foi que eu abri demais os olhos e os braços, respirei demais as possibilidades que eu comecei a farejar e a enxergar por perto e por longe de mim. Achei que a vida era esse mais, esse tudo. Volta a fita. Nossos jovens estão escrevendo seus futuros em listas extensas e com canetas permanentes. Eu juro.

Me assustei com a ala feminina dos vinte e poucos tensa pelo casamento que não chegava. Pelo pedido de casamento. Pelo príncipe de joelhos e casa própria convidando-as para um deleite de vida a dois. Tá todo mundo espalhando que é um deleite a vida a dois. E que esse é o único caminho para ser feliz. Mas tá. Primeiro fiquei assustada. Segundo fiquei confusa.

Não bastasse o ideal de conta bancária estável e mensalmente previsível para os próximos cinquenta anos, via concursos públicos sem significado, não bastasse o ensino superior voltado para mercado e status e não para sonhos, não bastassem as academias lotadas de pessoas que só pensam em suas bundas - artifício para alcançar metas outras nessa vida de lista enumerada.

Eu pedi que apagassem esses números das listas. Que esquecessem essa ordem absoluta. A ordem pode mudar. E até arrisquei e disse mesmo!: tem uns números aí que podem até não estar, que tu pode até apagar! Ninguém acreditou. Começaram a espernear, e, depois, a achar boba demais essa minha conversa de que uma vida adulta diferente da listada era possível. Bia radicalizava.

Acontece que em minha curta, bem curta, existência por aqui, eu que já ocupei os dois pólos, o da lista cheia de sonhos que a gente chama de metas e que acredita serem irrevogáveis para a felicidade, e o da não-lista, ou seja, o da vida com seus cinco sentidos. E por aí eu devo ter conhecido uma meia dúzia de pessoas realmente incríveis. Realmente incríveis. No sentido radical e da vida diferente que vocês me acusam. (O que não quer denunciar, veja bem, que esses extraterrestres não alcançaram alguns dos itens da lista de felicidades presumida por vocês.)

Então. O que falo é da ausência de lista e de objetivos fechados em grades tão fortes; é o que me autoriza a vir aqui chamar os sujeitos de incríveis. A ideia de viver sem enumerar futuros, dessa forma, sem perseguir metas-padrão, metas não suas, metas que te mandaram vigiar desde que tu começou a brincar de bonecas e bonecos, menina, isso pode transformar um punhado de gente. E, sabe o que mais?, tu que tá na academia pensando nos músculos da bunda, essa ideia tão "radical" parece que faz mais que Renew: não te envelhece, ao mesmo tempo que te deixa cheia de vida, cheia de si.

Aí você fica pronta. Aí você vive sem prisão de planos. Sem prisão de expectativa, essa danada, que tem matado um monte de sorrisos. Esqueça a lista do futuro. Você pode imaginá-la de vez em quando, e várias vezes, porque você pode fazer várias, e apagar logo, e não lembrar depois. Pra ela não te amordaçar. Essa ânsia de passos certeiros tá deixando vocês todos enrugados e insossos. Sem graça nenhuma. Uma juventude, assim, meio sem futuro.

Não se desesperem na busca dos passos previsíveis, dos arremates que os outros têm jurado que promovem a única felicidade possível. Afastem essas rugas da obsessão e abram esses olhos. Peguem a vida de presente. Antes que o futuro venha.

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