quarta-feira, 12 de junho de 2013

Ode

Se for pra sentir saudade, que seja a dois. Que sejam os dois. Que não esteja só na saudade, havendo dois em lembrança.
Se for para haver lembrança, que seja leve, que seja breve, que seja alegre.
Se existem fotografias, que elas não sejam olhadas demais. As fotografias param um tempo que não pára, congelam uma lembrança que sempre muda, e estabiliza aquele sorriso. Não há sempre sorrisos.
E é preciso ser dois para aguentar quando não se há sorrisos. Na lembrança, no de agora. Nos futuros distantes, então.
Menos olhos para fotos. Bem mais olhos para os dois.
Mais ouvidos para as palavras. As palavras ouvidas. Que são músicas, que em vozes feias ou graves, agudas, afônicas, são tudo que podemos ter de alguém. A troca rápida, o consolo da presença. Com distância ou não, com lembrança boa, saudade a dois. As palavras ouvidas.
Mais abraços que beijos. Eu, em sincero, fico com os primeiros. Abraços beijam nossos corpos inteiros. Encontram nossas angústias e põem as duas pra conversar. O beijo é o desejo e o carinho. Fica com pouco, mesmo que seja muito, mesmo que seja bom. O abraço fica com tudo.
Não são precisos estranhos para termos nossas imagens. Eu fico com nós dois fotografando um ao outro. Eu fico com nós dois fotografando a nós dois, em imagens únicas, em lembranças que têm sol, têm chuva, cheiro forte, tem nossas vozes. Nós, juntos, sem estranhos, sem mais, fotografamos melhor que qualquer outro. Fotografamos tudo. Guardamos bem.
Parece que há livros sobre nós, músicas para nós, e quadros pintados por encomenda de para nós dois. De para. A gente pintando nossa vida.

Que seja a dois. Que seja para os dois. Assim como a saudade, que exista com ternura, que exista sempre a dois.

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