terça-feira, 18 de junho de 2013

Protesto não é diálogo

Por cima e por baixo da onda de protestar, há quem proteste contra quem quer protestar. Em tempos de redes sociais, qualquer tema de interesse público só existe e perdura quando divide opiniões. Mas quando divide mesmo, criando grupos antagônicos que dispendem dias inteiros procurando argumentos e furos no discurso do outro, pra vencer a balbúrdia. Bando de advogados. Do diabo. Para o diabo.

Um argumento de quem é contra protesto é o diálogo. A beleza do diálogo. A essência da resolutividade. O verdadeiro caminho da luz. Porque, diz-se, protestar em rua pública, em praça pública, em Congresso Nacional, em pleno século vinte e um, é demodê em todos os sentidos. É sem sentido. Eu entendo que talvez vocês estejam temendo a homogeneidade do movimento hipster em gostar do que é vintage, do que é brechó, do que é foto em preto e branco, e, convenhamos, as imagens de ontem parecem coisa de outras décadas, ficaram vintage e ficaram boas, mas, veja lá, não alegue falta de validade aos gritos na rua.

Quem argumenta contra protesto argumenta que temos de ir atrás dos políticos e de seus assessores e buscar soluções. Devemos unificar um movimento ordeiro, colher assinaturas, discutir, passar nossos dias em pontos estratégicos da cidade conversando com quem quer que passe, pondo em pauta os bilhões de reais destruídos pelas corrupções e os vinte centavos investidos anualmente em nossa educação pública. E as obras de mobilidade urbana fantasmas que entopem nossa cidade. E então, ir aos políticos, bater em suas portas, fazer espécie de sentinela nas Câmaras de Vereadores e Assembleias Legislativas, para então, aguardar o diálogo-luz.

Isso não é ingênuo, não é mentiroso, e não estou, de modo algum, ridicularizando. Eu sei que isso pode dar em alguma coisa. Que eventualmente dá em alguma coisa (que pode ser nada, que pode ser consecução de direitos). Mas então precisamos, mesmo, fazer isso? Sempre? Por toda e qualquer reivindicação?

Às vezes, ouvimos, no lugar de elogios, um "você não fez mais do que sua obrigação". É um argumento inicialmente pueril, mas quanto a uma família de políticos que não faz nem a própria obrigação? É preciso que nós, no desconforto de nossos lares inseguros, no desconforto de nossos ônibus lotados, no desconforto de empregos massacrantes arredondados em salários mínimos, levantemos-a-bunda-do-sofá e reunamos nossos esforços para ir lá, na sala do vereador, que trabalha pouco (generalização - porque sou uma pessoa ruim!), que ganha muito (fato), que está no conforto do ar-condicionado, do carro importado, dos assessores que dizem que ele é fofo, e diga: ei, cara, será que tu num pode trabalhar um pouco por nós? É que eu paguei todos os meus impostos minha vida inteira, e até hoje, toda vez que levo meu filho no hospital, eu espero seis horas pra ser atendido, e quando me chamam o médico já foi embora. Porque ele só dá seis horas de expediente, mesmo sem ser vereador, sabe como é.

Eu preciso reunir forças, pessoas e esforços, para cobrar de um governo que enfia uma Copa do Mundo em nossa goela abaixo, que ele pelo menos, pelo menos!, melhore ligeiramente o meu país? Vou gastar dias inteiros nisso? Meses, anos? Exigindo o retorno obrigatório? Isso não é carimbo de otário. Já é nossa cicatriz.

E vou te dizer sobre diálogos. A universidade tem grupos de pesquisa que estudam, há muitos anos, crianças e adolescentes em acolhimento institucional. Tem grupos de extensão que atendem e auxiliam psicossocialmente crianças e adolescentes em acolhimento institucional. É um retorno obrigatório que damos à sociedade que paga por nossos estudos, que financia o nosso trabalho. Em agosto de 2012, reunimos um montante considerável do material que tínhamos de pesquisa, extensão, ensino, e de fatos, e fizemos um Seminário. Na verdade, vou parar de falar em primeira pessoa do plural, porque eu só participei, mas quem conduziu o evento foi um grupo de professores que têm, pasmem!, compromisso social.

Nesse seminário, foram reunidos estudantes, professores, psicólogos, assistentes sociais, educadores de instituições de acolhimento. Todas as pessoas possíveis dessa esfera estiveram reunidas. Não foi encontro de acadêmicos falando de ilusões. Os profissionais do dia-a-dia, gente de verdade, trabalhador desse tipo, que pega ônibus lotado, mora na periferia, ganha pouco, etcétera, estava lá, e não era por eles, mas pelas crianças e adolescentes que eles conhecem.

Isso tudo foi em agosto. As mesas de trabalhos e discussões tinham a finalidade de elencar soluções plausíveis para as crianças acolhidas. Para a realidade das instituições. E foi feito. A finalidade única, então, do Seminário, foi redigir uma Carta de Intenção, onde foram postos em tópicos, também discutidos, no calor que uma discussão onde a maior parte é de mulheres pode conseguir obter, para então serem votados, concluídos, e assinados por todos. Dois meses depois, em plena campanha para prefeito de Natal, a gente chamou os candidatos para um diálogo no auditório da biblioteca da universidade. Um mandou o vice. Um outro foi só para tirar foto, assinar sem ter lido, sem saber do que se tratava, porque sabe-se lá o que se passa na cabeça de alguém quando lê "acolhimento institucional", ele poderia pensar que era um evento sobre as residências universitárias, que não têm nada a ver com obrigações municipais, mas vá lá. E um outro foi em pessoa. Discutiu quem estava lá. No final, tínhamos as assinaturas dos candidatos.

Esse ano, a situação das crianças não melhorou. Os termos assinados não estão sequer recebendo a atenção. As crianças há muito são jogadas de uma casa para outra. Por motivos que eu desconheço. Mas, na gestão passada, um deles foi que o vice-prefeito precisou do lugar para fazer as reuniões de seu interesse (Carnatal), e por isso mandou as crianças embora para uma casa em bairro periférico, de acesso difícil, com menos escolas no perímetro ao redor, onde só havia três quartos para cerca de trinta crianças. Hoje, em uma das Casas, só estava se recebendo fraldas tamanho P. Como só recém-nascidos usam fraldas P, os bebês estavam usando duas fraldas P, porque uma só era impossível, nenhuma fralda também. Se as fraldas faltam, imagine o que mais não tem por lá. Foi o fruto do nosso diálogo.

Protesto não é diálogo. E não é pra ser. Ainda bem que não é. Protestar é mais cômodo, é mesmo. Reunir a galera pra num único dia a gente ir lá ocupar as ruas, incomodar, fazer barulho, é bem mais fácil que ficar meses recolhendo assinaturas e batendo em porta de político pedindo que eles cumpram suas obrigações. Que, caso eles ouçam, só vão cumprir por quê?, porque terão votos no futuro, e não porque acham que devem fazer o que sua profissão (se é que se pode chamar assim) exige. E tá certo? A gente tem que ir atrás deles, enquanto eles não fazem suas obrigações, para que eles nos ouçam, simplesmente porque eles vão ter nossos votos com isso? O raciocínio é assim tão raso? Nossa sociedade é toda estúpida se contribui com uma ideia dessas.

Protestar na rua é mais conforto, é mais simples, é vintage, também. E não interessa por qual seja o motivo que se vá, veja, não é por diálogo. Isso aqui não é diálogo. É um grito mesmo. Porque em um governo de monólogos, pedir com licença e ir entrando para um café não é sempre uma solução. Não diga que é. Não aposte que será. Assim como não aposte que protestar não dá em nada. Você não sabe. Nem seu tarô. Nem os professores universitários com compromissos sociais, raça em extinção. Também não peço que você aceite e concorde com esse grito, esse não-diálogo. Mas, preciso te pedir que você seja um pouco psicólogo nessas horas: não precisa aceitar, mas é necessário compreender. Eu juro à você. É legítimo. A gente não tá errado.

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