quarta-feira, 5 de junho de 2013

Quando se é para ser dois

Eu vou esquecer o celular silenciado e ele vai chamar, chamar até ser descarregado pelas suas ligações. Você vai continuar a deixar esse telefone de casa tocar até extinguir o trim, e eu vou respirar alto e gritar sem ser estridente te reclamando sobre essa mania maldita. Mandarei desligar o telefone da tomada. Tirarei o telefone da tomada assim que der. Assim que lembrar.

Porque vou continuar a esquecer. Não vou lembrar do seu recado, da conta sua que fiquei de pagar, do nosso aniversário, do almoço pro domingo, nem de tirar o celular do silencioso. Eu vou esquecer. E você vai gritar em silêncio pra não me gritar de verdade.

Também vou dirigir com o rádio ligado, vou ouvir você falar e deixar o rádio ligado, e vou continuar (para sempre) não tentando fazer balizas se você não estiver comigo. O lema do esforço eu deixei pra trás. E vou continuar fazendo menos esforço por muito, por pouco, por tudo. E você vai me esbravejar com os olhos e a impaciência dos lábios. Vai sorrir sem disfarçar porque o pouco esforço alheio é algo complicado de se lidar.

Mas você vai gostar. Vai sorrir porque meu menor esforço vai te dar uma manha pra ser sua na manhã de domingo. Na tarde do feriado. No sofá que parece cama que botamos em frente à tv. E de onde eu te vejo cozinhar nossa janta. Pois vou continuar dizendo janta. E você corrige em vão.

Você vai postergar as roupas sujas. Você vai postergar nossas simbólicas roupas sujas também. E vamos arrebentar o varal diversas vezes, porque esperamos demais, suspendemos reações demais, deixamos ressentimento de molho, e, no estouro, vai tudo pelos ares. Tudo. Pra catarmos de volta dos ares e do chão quando o sol baixar. Mais tarde.

Vou dormir feito pedra e esquecer seus carinhos da madrugada. Você vai acordar cedo demais e querer me levar pro dia com você. Vou urrar cerrando os dentes, sacudir uma mão com raiva, porque, também, não falo quando acordo, e disso você não gosta, disso você já sabe, isso que às vezes você me força.

E cada dia é mais um dia para esse sempre. Que somos nós, que somos dois, num futuro de irritações insistentes e consumadas, conhecidas e inimigas, inerentes. Inexoráveis. E assim mesmo que seremos felizes para sempre.

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