segunda-feira, 10 de junho de 2013

Um protesto contra o vandalismo

Existem poucas coisas que trago comigo de quando estive sobre as cadeiras da Psicologia. Existem poucas coisas sobre as quais as cadeiras da Psicologia e seus respectivos assentados eternos concordam, anuem, dão o consenso absoluto. Em verdade, só há uma questão para consenso; essa, uma das coisas que carrego comigo e que me faz, a despeito da falta de modos e do conhecimento breve, ser, declaradamente, uma psicóloga.

Porque tem algo que eles ensinam sob entrelinhas e entre-livros que é difícil pra danado de mostrar como é. Mas que, quando você pega o jeito, não larga, não esquece, não despreza, e se transforma junto. Num esquema memória declarativa para memória implícita, os estudantes de psicologia e de ciências humanas e, com sorte, demais seres humanos, aprendem com a vida e com a profissão o valor da atenção exclusiva e um só. A um único. A um mesmo. Que nunca será o mesmo junto de outros, do qual nunca se poderá inferir nada a respeito, a despeito, sem sua autorização. Eu consigo carregar e entender a ideia de que generalizações não existem. Que pesquisas com gente como a gente são, em suma, falaciosas, para não dizer que contam mentiras, porque, de certa forma, contam, mas isso não é tópico para agora. Nos ensinam discreta e intensivamente a ver com olhos e ouvidos que um só não pode ser encarado como mais que isso; que alguns não podem ser encaixotados em multidão alguma. O argumento que descende é chulo. É tolice.

Há jovens que vão às ruas para por acaso nos lembrar do que fazemos questão de esquecer: que somos cheios de direitos, que temos um crédito com o Estado, e que desse crédito é urgente que nos cheguem logo os retornos, que nos sejam pagos de volta, em direitos, esses direitos nos quais temos investido há anos, há décadas, se pensarmos estritamente em democracia. Em democracia.

Porque umas centenas que não contam com vocês, que não contam comigo, que são alvo da generalização estúpida, são alvo direto de uma não-democracia. De uma cegueira completa, de uma patologia preconceituosa e generalizante, o modus operandi das classes baixa, média, alta, três vezes alta, como as que vemos por aí.

Existem cidadãos que, felizmente ou infelizmente, obedecem a ordens. Que não deveriam ser cumpridas. Nunca mais deveriam ser cumpridas. E existem os mandantes da desordem, do caos, da tragédia que justificará toda repressão da nossa polícia covarde, de nosso Estado covarde, de nossas classes sociais covardíssimas. Eu não acho certo, é claro, o fogo, o piche, a gritaria. Mas também não consigo ver sentido em um Estado que não nos respeita, que não nos olha, que incendeia nossos direitos e picha nossa dignidade, todos os dias, quando não temos acesso a serviço público de qualidade alguma, quando não temos acesso a justiça e a igualdade algumas, quando temos nossos direitos de seres humanos ameaçados por outros humanos iguais a nós, ou piores do que nós (que são eles próprios, os membros do Estado). Não consigo, menos ainda, ver esse Estado, assim, ao avesso, dizer que é preciso organização e respeito ao espaço público em tempos como esses, em termos como esses, de pisoteamento de direitos. Ele manda, a gente obedece. Até para o protesto?

O dito vandalismo, a dita baderna, não se justifica, não se aconselha, mas, conforme a memória implícita da psicologia não me faz esquecer, ele é compreensível. A história do inconsciente coletivo, mais o consciente, as pulsões, e todas as camadas que tenhamos, estão ali, realizadas em catarse, nessa destruição em massa, que, quando se está em revolta verdadeira (que não é o caso de nós todos, bem sei) é o que se deseja em íntimo. Não assuma, não há problema nisso. Mas não é nenhuma monstruosidade compreender uma agressividade coletiva pensando a partir de nós mesmos, a partir e em cada um de nós.

Que violência não é panaceia, a gente sabe. Até porque, nós que somos cidadãos de verdade, e não cidadãos ao avesso como nossas autoridades, precisamos ensinar-lhes isso. Já basta a violência e o ultraje que vem de cima para baixo. Como os covardes não amealham nas represálias, a nossa violência só vai nos trazer respostas piores. Resultados piores.

Existem outras formas de amenizar e resolver. Existem outros jornalismos não vândalos, que não serão burros, que não serão tolos, que não farão generalizações tendenciosas de quem está no lugar certo. Haverá  relatores de caso que, ao invés de descrever essas manifestações de direito, dever e bom senso cidadãos como roteiros de trânsito, fazendo acusações de confusão pontual, de balbúrdia em horário de pico, em trânsito no centro da cidade, irão reconhecer, em lugar, a reunião para lembrete da confusão na qual já estamos instalados. A confusão de trânsito de direitos, de ameaças, de injustiças, na qual circulamos há anos, há décadas, e, que, por causa dela, precisamos, por vezes, fazer reuniões nesses horários importantes para lembrar a cada um, para lembrar a todos: é um problema meu, é um problema seu, é um problema nosso. Assim, generalizando, que é pra ver se surte efeito.

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