segunda-feira, 8 de julho de 2013

Eu não

Eu não confio. Não posso passar por cima das minhas convicções, das experiências traumáticas. Menos ainda por cima dos estudos empíricos que algumas vezes fiz. Tenho fechado os olhos para evitar mais "eu já sabia". Em verdade, há muito tempo parei de confiar em quem gostasse de gastos. Pior, em quem confiasse neles. E em quem advogasse a seu favor (o horror!).

Até hoje acho impróprio que se confie em gatos, por favor. Que se goste deles. Eu não maltrataria-os nem atropelaria um (tem gentes em contos por aí que fazem isso, hein), mas vivo melhor sem eles. Ou tento.

Quer dizer que quando eu era criança, e, como uma criança feliz, amante dos animais, um desses felinos classudos, de raça e tudo mais, com quem eu brincava dias e noites, esperou eu atravessar pela porta, sentado sobre os quartos, e no vislumbre do meu tornozelo infantil, coitada de mim, tentou me matar. O gato que era gata colocou quatro patas cheias de unhas e um boca cheia de dentes que são piores que agulhas e ficou pendurado ali, por trinta minutos que devem ter sido vinte segundos. E o público aplaudia, sorrindo: "ela só quer brincar!". Mas quando um psicopata joga crianças pela janela vocês reprovam. É só o mesmo instinto maligno, pelo amor de Deus.

Dei uma segunda chance a outro bicho desses, que tinha uma vida feliz e era bem educado, até. Eu conversava com minha amiga em cima da cama dela, novamente meus pés pendurados, e, pá!, outra tentativa de assassinato. O público de um achava o máximo: "olha, ela só tá brincando!". Talvez eu tenha chorado pra dentro nesse dia.

E nunca mais olhei para um gato sem que ele olhasse para mim me ameaçando morrer sentindo dores. E eventualmente eu grito diante deles, e encho os olhos de lágrimas porque as pessoas me reprovam quando faço isso; acham gatos uma espécie gente boa. Assim como as respectivas pulsões de morte que eles têm.

Já tá ridículo. Mas piora quando o sujeito vem pra cima de mim com quatro, cinco gatos dentro de casa. Às vezes mais. E serve refeições aos gatos da rua. E fica ofendido: "como assim, você não gosta de gatos?!". Enquanto o animal ouve com satisfação os elogios que ele não merece, mas que forja bem por merecer.

O bicho não faz a menor questão que você exista, respire, ou sorria, contanto que exista alimento para ele - tão ruim quanto um ser humano ele é. Ele não acha o máximo você chegar em casa. Na verdade, ele faz questão de exalar o tédio que você representa para ele. E, porra, eles têm um mau caráter inadmissível: subitamente se aproximam de você e roçam nas suas pernas. Roçam nas suas pernas. Eu não confio em ninguém que de repente venha roçar nas minhas pernas, por favor. Vocês sim, e ainda acham normal. E acham esquisito quem não goste. (Mas o sujeito do ônibus é um tarado asqueroso.)

Eles vivem em posição de dar o bote. Eles te olham nos olhos e não piscam e não tremem e ameaçam. (Vocês já ouviram o que eles dizem quando te olham assim?!) Não te fazem companhia e não gostam da sua companhia. É melhor que você nem exista, inclusive - por isso os ataques a tornozelos forjados sob a alcunha de brincadeira. Eles levam a sério.

A primeira gata que me atacou morava no quarto andar de um edifício, e mantinha o hábito de subir (sem barulho e muito rápido, assim como os ladrões, vândalos e psicopatas praticam seus atos) à janela e ficar sobre a beirada, como que prestes a se jogar, olhando o horizonte, por horas. E sempre ignorou os protestos dos adultos que a amavam e a queriam no chão, temendo por sua vida, ali em risco alto.

E vocês confiando nesses bichos. Não dá! Não dá pra confiar em vocês. Desculpe.

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