segunda-feira, 1 de julho de 2013

Me ensinando a namorar

Eu já havia entrado em febre. Há alguns anos eu já lia regularmente; em mais recentes anos eu lia numa frequência que queria que fosse frenética, mas que nem sempre dava, apesar da potencialidade que tinha em se aproximar disso. E a casa já com muitos livros; meu pai com uma conta em livraria - dentro da própria universidade que estudo; e me comprando livros como as blogueiras quando compram em lojas de departamentos: sem dó. Mas com controle.

Eu vinha sendo apresentada a livros fantásticos. Vinha aprendendo a descobrir livros fantásticos (essa etapa é uma das melhores). Tinha conhecido autores e descoberto que dentro de quem escreve existe mais mistério e prazer do que se pode desconfiar, e pensar sobre autores e livros já era passatempo, quase atravancando para a posição de hobby, até porque tinha começado a escrever sobre eles aqui, no diário.

Eu chegava com livros novos das livrarias, livros antigos novos, livros recém-lançados, e mostrava, encantada. Mais, na matemática óbvia da vida, você, que não vive de ler, e você que vive, sabe que o final é sempre o mesmo: fica o superávit de livros na estante, esperando para serem lidos. Sofrendo na fila. Você sofrendo com a fila.

Eu já tinha as listas prontas. Pai, quando é que o senhor vai na livraria?, tô com uma lista de livros aqui pra te pedir pra comprar... Vá com calma, minha filha. Livro não é pra comprar desse jeito. Não é pra viver comprando livro. Livro a gente tem que ter, ler, com calma, ir devagar. Você tem que ler os livros primeiro, um de cada vez, minha filha. O final da frase perde um pouco o fôlego porque nem todo velho tem paciência com jovem desastroso. E eu, bem desastrada, olhava para minha lista.

Não é o primeiro que me ensina a ler, no sentido pós-moderno da palavra. Um amigo já disse para eu parar de brigar com livros e autores que não consigo ler. Pra guardar, esperar, fazer as pazes, e, depois de meses, marcar um novo encontro. E aí, de novo, na calma, sem a pressa da fila na estante, ler o livro e o autor. Lê-los. (Cinquenta por cento das vezes deu certo; nas restantes, eu briguei e estabeleci a inimizade.)

Mais um outro (esse jovem, sim) me disse que eu tinha de ir com mais calma mesmo. Que esse negócio de ir devorando livros sempre, demais, todas as vezes, não era bom. O livro tava ali pra servir de companhia, de aconchego na cama antes de dormir. A literatura a gente tinha que curtir.

Mas quê. Eles me ensinam a namorar os livros e as letras. Eles que já namoraram e ainda namoram tanto, tão bem. E que conseguem falar das histórias como quem fala de si, ou de sonhos, de filmes preferidos. De amores presentes e antigos. Deleitam-se sempre. E me mostram o caminho sem pedras que faz sentido eu seguir. Um livro de cada vez, menos livraria e mais estante, mais sutileza, menos estupor.

Como boa aluna, ouvi, concordei, me expliquei, guardei as listas. Depois fiz tudo ao contrário. Não dá. Eu não me enamoro tanto assim dos rapazes e das moças. Dos romances, das histórias. Eu não aprecio-os aos poucos, eu não espero o pedido nem o beijo. Eu não conto os encontros. Eu vou no atropelo com todos eles. Mais ou menos como numa suruba, ou numa vida afetiva "agitada". Você sabe.

Eu abraço e agarro os livros. Eu levo personagens dentro de mim, e, às vezes, encontro-os nas ruas, nas fotos dos outros, e quase que grito!, mas seria um ciúme sem direitos, porque eu já vou estar em outra. E meu personagem pode andar por aí, mais livre. Meu autor pode escrever mais. Meu livro já não vai ser mais meu (nem seu, porque não empresto livros). Não poderei reclamar propriedade alguma. Eu ponho todo o pote pra minha sede, não guardo; e minha energia vai em doação única, em dose única, principalmente em livros que leio em um dia único. E que nunca esqueço deles.

Não existe namoro nem relação estável. Nem nada sutil ou sublime. Eu agarro as páginas; só solto quando termino com elas. Eu quem decido. Quase sempre é rápido, é fugaz. Comigo, a fila anda. Tem quem esteja me olhando na espera, tem os que não me vêem mas que eu paquero há meses, há anos. E que vou trazer pra cá. Vão ser mais uns, mais outros. Sem longos relacionamentos. Estou na fase (no auge) das relações breves, intensas, que se escrevem mas não duram. Mas ficam.

Comecei a ler (de verdade) faz pouco tempo, pai. Aceite o destrambelhamento de quem é jovem. Aprender a namorar não tá na hora.

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