quarta-feira, 3 de julho de 2013

Pra onde vai o texto

E o que te incomoda.
Eu só escrevo sobre romance. Eu só escrevo sobre amor, coisa romântica, casal. É um saco. Não consigo virar o disco.
É o que você sente, escreve.
Eu sei. É o que eu sou. Já pensou, que saco.

Eu comecei a escrever de mim pra mim aos doze, mais aos treze, cada vez mais na adolescência inteira. Comecei a mostrar a dois ou três o que eu escrevia de mim para mim. Lembro que vinha endereçado no cabeçalho - e essa é uma memória falsa que criei, de propósito. É verdade que às vezes se chega alguém dizendo que se leu no que eu escrevi pra mim. Eu acho é graça. Esse povo parecido comigo. Dá dó.

Eu comecei a escrever só pra mim e não parei mais. Eu pude contar um mesmo segredo diversas vezes, de um jeito sempre diferente, como se tivesse enrolando uma nova história. Ninguém percebia. Era eu de frente pro espelho ou de frente pro terapeuta grátis, lamentando a mesma coisa de novo. Uma beleza.

E nesse auto-endereçamento eu realizei um monte de desejo. Do tipo bom e do tipo ruim. E do impossível. Eu matei sonhos e até a mim mesma. Eu ressuscitei pessoas. Eu vivi tudo de novo, vivi tudo diferente também. Tenho dó de quem não escreve pra si mesmo. Dá dó disso também.

E às vezes forço os dedos que são coração escrevendo pros outros, contando uma história ou outra, coisa inventada, coisa de conto. Tá ruim. Tá difícil. Não dá pra escrever pros outros. Eu aprendi foi o contrário, sendo subversiva (essa palavra pode? Me repreendem as palavras esdrúxulas - ó! - demais na hora de escrever pros outros. Eu não me importo, se eu não escrevo pros outros coisa nenhuma).

Escrita pra mim é antes e só introspecção. É reflexão sobre eles, sobre tudo, só pra mim mesma. Não é autorreflexão, só às vezes, mas tenho dificuldade de me olhar nesse tipo de espelho, e evito. Com ele, eu só converso e grito mesmo. É como vivemos. É como a escrita nos sustenta.

Porque nesse olhar pra dentro eu sou mais livre. Pois é. Escrever me liberta porque a única coisa que aprendi a fazer e que faço quase todos os dias é falar comigo mesma. Sem meia palavra, em textos inteiros. Que são duplamente meus.

2 comentários:

robertassuncao disse...

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra ... e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse sempre a novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.", era como Clarice Lispector descrevia através do personagem-narrador-escritor de A Hora da Estrela.

Biazetz disse...

é, é assim mesmo. fui explicar isso pra minha terapeuta e acho que ela só fingiu que entendeu. :(
mas eu entendo :)))