terça-feira, 23 de julho de 2013

Regras são regras

Existem muitas lições de vida e de etiqueta que você recebe em casa, ainda infante, adolescente, adolescendo, cujo intuito único é fazer de você alguém que valha a pena ter sido feito e produzido para o mundo. Tudo isso para então, em vida adulta, quase sempre nessa fase, ter de fazer tudo ao contrário. E não é mero desaprender. É aprender o contrário. Porque a etiqueta do bom convívio social, principalmente essa, tem de estar incorporada aí dentro do seu coração, ou em qualquer lugar parecido com esse, caso você consiga mantê-lo por fim. E, enquanto isso, você desenrola o caminho contrário, para se adequar às normas sociais vigentes. Foco.

Um exemplo desse avesso é o trânsito. Você que aprendeu a parar de morder as pessoas quando tinha três anos, parar de empurrar gente de cima do escorregador quando tinha cinco, e a não furar o olho da amiga pegando o paquera da menina aos onze, via de regra, vá agora pelo caminho inverso. Desrespeite. Não tolere. Esqueça que existem outras pessoas. Você é único nessa vida de Deus no Céu e SUVS do outro lado da calçada.

A outra empreitada a cumprir então é a vida no condomínio. Não sei vocês, mas acredito que sei vocês, mas por aqui as coisas são bem assim. Faça ao contrário. Etiqueta aqui é coisa controversa.

Quando eu me mudei para o prédio onde eu moro hoje, eu tinha 11 anos. Aquela idade horrorosa onde você não é criança nem adolescente, ou seja, não é gente. Você logo aprende que não existe. As pessoas passam por dentro de você, por cima, por baixo. Nem sentem. Nem você. E você só inesperadamente retira a capa da invisibilidade quando um de seus genitores te acompanha no elevador.

Depois você aprende que não tem nada a ver com estrato cronológico, mas social mesmo. Dito má vontade. Hoje, onze anos depois, fico boba, fico tonta, com a quantidade de gente que, aqui no condomínio, passa por dentro de mim sem que eu perceba! Veja, esses dias eu saía do elevador, e como regra básica que aprendi na vida e na Física, é melhor que um saia do elevador antes que o outro entre, por motivos óbvios de fazer circular o ar de fora com o ar de dentro, isto é, caber gente dentro da cabine, a vizinha do andar de cima me atravessou e atropelou e deu com os peitos na minha cara, menina, não senti nada. Nem o óculos caiu. A moça entrou e ostentava seu jaleco com o cuidado com que não teve para evitar o acidente que poderia ter acontecido me atropelando, e manteve-se olhando para o horizonte. Eu olhava para ela, para o elevador, para dentro de mim, não via nada. Eu nem existia. E fiquei me procurando! (Boba.)

Tem um negócio diferente aqui que é algo que eu vez por outra observo nos bancos. Se você segura a porta pra pessoa passar, entrar, sair, porque ela é mais velha, mais feia, mais triste, e porque seus pais te ensinaram que isso é algo importante de se fazer, gentileza gera gentileza, essas bobagens, o sujeito ou a sujeita passam e te dedicam a certeza: ainda bem que você é servo de alguém tão importante como eu. E a pessoa que segura a maçaneta, impavidamente, deve se sentir lisonjeada. Regra.

Outra coisa curiosa é quando você, por ventura, usa o elevador de serviço (eu uso o que estiver mais perto do andar, contrariando a regra geral total e absoluta de que você deve sempre, em todas as hipóteses, independente da não gravidade e não urgência de seu compromisso, chamar os dois elevadores, pois, via de regra, você é o único morador do condomínio), e algum empregado doméstico está ali esperando a cabine. Se tu diz um "boa tarde" eles dão um sobressalto danado. Parece ofensa. Ou uma palavra que eles nunca ouviram na vida. De repente, vai ver, nunca ouviram isso, tão me achando estrangeira, e nem esperavam, visto as havaianas sujas e a cara de quem tá chegando agora de Monte Alegre. A regra do condomínio é ignora-los. Anota.

Existem outros ditames implícitos e explícitos que poderiam ser citados. Um deles é a dualidade tamanho do carro versus tamanho da sua garagem. E o que isso significa para a sociedade condominial. Mas talvez depois, com mais tempo, eu falo. O elevador não chega nunca. Vou precisar pegar as escadas agora.


P.S.: Obedecendo meu espírito tradicional e conservador, sigo à risca as regras aprendidas em seio familiar, dando total descrédito à essa revolução na etiqueta social da contemporaneidade. "Reaça!" gritariam meus vizinhos. Mas eles nunca me viram nem me ouvem, então, silêncio.

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