quarta-feira, 10 de julho de 2013

Sem ser injusta, ora

Existem dois erros do tipo lugar-comum que a gente comete sempre às vezes, e às vezes nunca apercebe-se. O primeiro é "o livro é melhor que o filme, o filme é muito ruim!" (mas sobre Game of Thrones eu tenho argumentos fortíssimos, não me venha), o segundo é "ele é bom compositor só, mas escreve muito mal, o livro é péssimo, fuja!". Ou as variantes do filme para série, e do compositor para poeta, e livro para crônica.

Um Drummond na sua mão não pode ser ruim, pode? Se sua dor de cotovelo estiver às tantas, quem sabe seja mais doloroso de lê-lo, levando tapas de verdades, ou de saudade. Melhor não experimentar (eu não topo o desafio).

Peguei um Drummond cronista e cometi o pecado de criar expectativas, tomando por base a poesia. Mas se. Que coisa absurda é a pessoa esperar que o hambúrguer da pizzaria seja outra maravilha. E depois ficar julgando o guitarrista que arriscou o bandolim. Isso é feio.

Alguns textos dele em De notícias não notícias faz-se a crônica deixam o fim em suspenso. Você eleva a expectativa, suspende, mais, mais, espera o arremate, e, reticências, ele terminou assim mesmo, do jeito que se terminam muitas coisas na vida: naturalmente. Em outros, parece que ele ficou sedento de poesia, e danou um tico de lirismo onde não cabia lirismo algum, não ali, exatamente ali. E o copo de quem lia ficou foi cheio. O meu. O meu copo que era raso, porque comecei com expectativa errada por demais.

Mas a expectativa errada e o copo raso, e a impaciência cheia, eles, assim, juntinhos!, me puseram a pensar mais e reclamar menos. De Drummond, da notícia, da crônica. Mas veja. Esse senhor escreveu em 1970 coisas que nos servem para hoje, e, principalmente, pra amanhã e depois. E isso é o existir mais bonito de uma crônica. É por quê ela se faz. É o melhor motivo para ela estar ali: atravessar o tempo.

E ele comete essa arte toda olhando pra notícias e pra não notícias; ou seja, pra tudo o mais que acontece e que não se divulga tanto, mas que é fato, que é nosso. Os cronistas têm disso: pegam pela orelha da página, pela orelha da nossa cabeça, pelo suspiro levantado, e arreganham a realidade. Bem na nossa frente. Num assédio nada obscuro. Real.

A crônica é pra virar um quadro em três dê daquela vírgula, uma pintura com tamanho em quilômetros, um alargamento daquilo que a gente não vê - por sermos cegos para o óbvio. Esse texto curto e cotidiano, bem simples, bem direto, não foi assim que o professor ensinou?, ele é tudo menos corriqueiro, e o simples é só a fachada, modo de falar. Nada de modo de ler. Nem modo de ouvir o que foi escrito.

Posto isso, visto isso, tá entendido, tá feito. Drummond em crônica é maravilhoso de outro jeito, é maravilhoso em seu jeito de cronista. Não misturemos as línguas. Vejamos esse atravessador de tempos, o Carlos:

"- Solidão a dois, a três, eu aprecio, quando os colegas sabem viver em comunidade. A gente não está nem sozinho nem com a multidão. Equilibrado. Cada um cuida de si, e reina ordem no viaduto. O que eu não suporto é viaduto desorganizado. Sou muito exigente neste particular." (Viadutos)

"- Em festa de jacaré...
- Não entendi.
- Inhambu não entra, o senhor não sabia? Os caras que têm ensino tiram de letra nas provas. Ou não tiram? Na prática, sim, é outro samba, mas a tal de teoria é de doer. Mesmo assim eu não estava ligando muito, e me preparei com o meu mobralzinho. A questão é que aqui dentro bate uma coisa chamada coração.
- Continuo não entendendo. Que tem coração com pedágio?
- Eu ia lá tirar o pão da boca de uma professora, se foi outra professora que me ensinou a ler? Diga, eu ia? [...]
- [...] E a moça era jóia.
- Bonita?
- Sabe que nem reparei? Era doce, tinha um jeito de fruta macia, meio machucada porque colheram ela de mau jeito, e a casca sofria um pouco. Mas ria pra mim com uns dentes tão certinhos, nem estava chateada porque disputava um lugar daqueles, no meio de gente humilde.
- Resultado?
- O senhor ainda pergunta? Saí de lá com o rabo entre as pernas e nunca mais entro em concurso nenhum neste Rio de Janeiro. Volto logo pra Estrela Dalva, que é minha terra, onde ninguém tira lugar de ninguém!" (O Delicado)

"Tudo indica que o Outro é cumplice de quem diz: Como diz o outro." (O Outro)

"- A gente só se entende, isto é, só prepara o tardio entendimento, pela oposição, pelo contraste, pelo choque.
- Não haverá um caminho menos cruel para isso?
- Você sabe perfeitamente que não. E que não é a diferença de naturezas que produz o choque. É a identidade." (Diálogo Imaginário)

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